Ressoar do Trovão
3 A Tempestade Começa
Notas iniciais
Jodie Mees
Exatamente quando abaixei-me pronta para tirar aquela sujeira do chão, um trovão ecoou no céu, fazendo eu estremecer. Sim, as tempestades aconteciam frequentemente em Wolf Creek, mas eu nunca me acostumava.
Para facilitar o meu trabalho, prendi o meu cabelo em um rabo de cavalo — e mesmo assim não adiantou muito -, peguei a pazinha de lixo e juntei todos os cacos de vidro, depois passei um pano para absorver toda aquela água.
Os chuviscos do fim de tarde transformaram-se em uma chuvarada intensa. Só pelos barulhos que elas causavam no telhado, eu percebi que eram gotículas grandes e bem gordas. Logo preocupei-me com a minha vó, que estava vindo pra casa exatamente a essa hora.
Me levantei e fitei a cadeira que anteriormente Samuel estava sentado, e lá estava a mochila dele. Engraçado, ele tinha se esquecido de levar. Aproximei-me da mochila pronta para joga-la no meio de mato, no entanto as chutei algo desconhecido, encarei o chão confusa e lá estava os óculos do garoto. Definitivamente alguma coisa estranha tinha acontecido para ele deixar os óculos e a mochila para trás. E pelo grau forte daqueles óculos, notei que era impossível Samuel enxergar algo sem ele.
Peguei tudo aquilo e adentrei em meu quarto. Era bem simples, típico quarto de adolescente, estante com alguns livros, e em frente a cama de casal encontrava-se a escrivaninha com um computador em cima, e nos dois lados da cama continham um criado-mudo. Ao lado direito da cama estava uma porta de correr de vidro, virada diretamente para aquele espetáculo de rio que só ao olhar para ele fazia eu pensar na vida. E no outro canto do quarto estava meu closet e alguns passos depois a poltrona. Coloquei os óculos e a mochila em cima da poltrona confortável e saí do quarto.
Voltei para a cozinha, liguei a TV e esperei sentada minha vó, que em menos de minutos estava entrando em casa pelos fundos, como sempre.
— Me esperando? — perguntou abrindo a porta em um estrondo, com um guarda-chuva em suas mãos, e surpreendentemente não estava molhada.
— Sim, não gosto de jantar sozinha.
— Jesus! — Nena — apelido que eu insistia em chamá-la — exclamou olhando o chão que ainda continha resquícios de água e vidro, mesmo que eu tenha tentado ao máximo limpar, convencida que realmente fiz aquilo direito. — Você limpa pior que uma pessoa de cinco anos, JoJo!
Torci o nariz por causa do apelido carinhoso que minha vó insistia em usar, ele era simplesmente horrível, parecendo realmente uma criança de cinco anos.
— Como foi o trabalho? — Fiz a pergunta que eu fazia todos os dias sem falta.
Minha avó era nova, tinha cinquenta e quatro anos e já era aposentada, e ainda por cima era aquele tipo de aposentado que insistia em trabalhar, e por isso que ela estava atuando orgulhosamente como enfermeira no hospital da cidade.
As mulheres da minha família tinham o hábito de engravidar cedo, e por isso minha mãe e minha vó tiveram filhos aos dezoito anos. E eu esperava profundamente que eu não tivesse esse hábito também.
— Ótimo, obrigada por perguntar. — ela deu um sorrisinho simpático, sentando-se na cadeira.
Entendi aquilo como um recado, vovó Amy — apelido para Amélia — também estava com fome. Peguei os restos de comida do almoço e coloquei para esquentar no micro-ondas, ficando pronta rapidamente. Servi os pratos na mesa e prosseguimos com a conversa.
— Como está Patrick?
— Continua o mesmo metido de sempre, um sem vergonha. — eu disse com uma carranca inexplicável, arrancando uma risada de minha avó. — Estou falando sério, dá uma raiva. — grunhi.
— Ele só quer o melhor pra você. — disse ela. E aí estava um fato sobre minha avó: ela protegia Patrick incondicionalmente. Talvez eu até tenha perdido o posto de neta por ele, e quarenta e nove por cento da minha implicância por ele é por causa disso. E claro, eu nunca iria admitir.
Eram oito horas da noite, e eu estava com sono. Conhece aqueles adolescentes que acordam cedo sem precisar e que dormem cedo também, simplesmente por motivo algum? Conhece um agora. E foi exatamente por isso que eu larguei meu prato na pia, dei um beijo de boa noite em minha vó e fui direto para o banho. Um banho fervente, tranquilo e delicioso.
.
Mais um trovão ecoou no céu, e depois foi acompanhado por um raio. Joguei-me entre as cobertas e adormeci tranquilamente, pronta para acordar cedo pra nada.
Seis horas da manhã e ainda estava escuro, efeitos que o inverno causava. Acordei em um solavanco por causa do pesadelo que insistia em se repetir, era só fechar os olhos e pronto: estava sonhando novamente. E era por isso que não consegui dormir essa noite.
Ouvi o barulho de algo batendo em minha porta de vidro e dei um salto, ficando de pé e me aproximando da porta. Como as cortinas atrapalhavam totalmente minha visão, as afastei dali.
— Droga! — gritei quando vi um corpo totalmente nu deitado no chão em frente a porta, e esse corpo pertencia a Samuel, que estava totalmente adormecido no lado de fora enquanto fazia menos de zero graus. Abri a porta rapidamente, estava agoniada só de ver o corpo pálido de Samuel naquele chão frio.
— Acorda, seu idiota! Tá frio pra caramba! — Gritei mais uma vez, porém agora com cuidado para não acordar minha vó. Imagine a cara dela ao deparar-se com um cara pelado e sua neta ao lado.
Samuel abriu os olhos e fechou-os algumas vezes, totalmente grogue, abraçou-se, possivelmente sentindo o frio consumindo toda a sua pele.
— Você é louco?! Dormir na rua com esse frio… e ainda em frente à minha porta! — o repreendi, e logo puxei-o para ficar de pé, o colocando dentro do meu quarto e fechando a porta. — Agradeça por eu não ser uma sem coração e te deixar na rua tremendo de frio, pelado!
Nem esperei Samuel responder, fui até o quarto de hóspedes com todo o cuidado para não acordar minha avó, abri a porta do roupeiro que tinha lá e peguei uma roupa de um primo distante que vinha visitar eu e vó Amy de vez em quando.
Entrei em meu quarto novamente, e vi Samuel de pé, abraçando-se e tentando se livrar do frio. Deu uma pena… Eu também não deixei de reparar no corpo do garoto, ele não era musculoso, mas não era nada mal também; tinha pintinhas distribuídas por todo o seu corpo e era bem branco, e sem vergonha alguma — uma coisa que era costume de Patrick até então — eu estava prestes a encarar logo mais abaixo.
— E-estou com frio. — resmungou Samuel batendo os dentes, me impedindo de dar mais uma olhadinha. Eu joguei as roupas quentes sem nenhuma delicadeza na direção dele e o esperei se vestir.
— Você não vai… sair? — perguntou ele, e como ele estava branco como um papel foi ainda mais fácil ver suas bochechas coradas de vergonha.
Eu definitivamente não era uma ninfomaníaca.
— Não, é o meu quarto. E não sei se você sabe, mas eu já vi tudo quando você estava dormindo na minha sacada. — disse seca.
Ainda envergonhado, Samuel tratou de vestir aquela roupa o mais depressa possível para evitar o meu olhar. Como se eu fosse realmente olhar para aquele corpo magrelo.
Sentei-me na poltrona e procurei um jeito mais confortável para dormir, porque dormir na cama dura do quarto de hóspedes era pior que ali. Samuel me encarou confuso.
— Vai se deitar. — mandei. — Você está tremendo de frio, e só essas roupas não vão adiantar.
Com hesitação, o garoto deitou-se na cama e não conseguiu permanecer quieto nem por um segundo, tudo bem, ele mal me conhecia e estava deitado em minha cama, com certeza estava desconfortável.
Mesmo a poucos metros dele, eu podia ouvir os dentes do garoto batendo um contra o outro, e continuou assim por minutos, até que eu não aguentei mais.
Bufei.
Levantei-me e me deitei na cama, jogando os cobertores sobre o meu corpo. Samuel me fitou ambíguo, tomando o máximo de cuidado para manter-se afastado de mim.
— O que você está fazendo?
— Te esquentando. Vire-se. — mandei.
Samuel virou-se de costas e ficou imóvel, temendo qualquer movimento meu. Abracei-o por trás, imitando a posição de conchinha, achando essa a mais apropriada para esquenta-lo.
Ele ficou inquieto por minutos, deitado sob minhas mãos, com medo de qualquer coisa imprópria que eu fosse fazer. E eu — por mais surpreendente que seja — com um pouquinho de vergonha fiquei paralisada naquela posição, tentando ao máximo ficar ao menos com a cabeça longe da nuca de Samuel.
O tempo foi passando, e como resultado nossa vergonha esvaiu-se, deixando lugar para um sono profundo.
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