Ressentimento
4 Capítulo 4 - Aborto Forçado
Um feixe de luz cortou a escuridão em que a floresta se encontrava. O som dos passos apressados de Kyle ecoava por entre as árvores. Depois de tantos anos visitando aquela clareira era impossível ele errar o caminho, mesmo com a espessa névoa que envolvia o ar.
Atravessou algumas moitas e chegou ao local desejado. Apesar do nevoeiro, aquele vão da floresta estava totalmente visível – graças ao luar. Aproximou-se do túmulo de Thor e disse:
— Logo nossa vingança terá início – disse Kyle baixinho, cerrando os punhos. – Minha mãe irá sentir na pele o que é perder algo importante.
Não tardou para voltar à realidade. Pegou sua lanterna e procurou ao redor a bendita erva. Achou-a numa das extremidades da clareira. Foi em sua direção e ficou pensando quantas seriam necessárias para poder completar aquele ato cruel. Logo a resposta lhe veio à cabeça.
“Pegue nove destas ervas. Misture três delas no almoço de sua mãe. Não se esqueça de cortar as raízes fora. Elas são venenosas e não queremos que ela morra tão cedo.”
Pegou as plantas e, demostrando certa felicidade, voltou correndo para casa.
Primeiro dia
“Foi muito fácil”, pensava Kyle enquanto observava sua mãe comer seu almoço.
— Está ótimo, filho. Muito obrigada – falou Mary suavemente.
— De nada, mãe.
A erva só fez efeito depois do anoitecer. Uma leve dor de barriga atacou sua mãe, que foi se deitar mais cedo do que de costume.
Segundo dia
Sorte. Foi o que Kyle pensou quando ouviu a sua mãe reclamando das enxaquecas que sentia.
— Deixa que eu faço o almoço hoje – falou o rapaz num tom inocente. – Vou lhe fazer um belo ensopado.
— Você é um anjo – Mary agradeceu, fazendo um carinho no rosto de seu filho.
Enquanto ele cortava as raízes fora, pensou:
“E se eu deixasse só um pouquinho desta raiz na sopa? Acho que não faria tanto mal. Bem, pelo menos não vai matá-la”, pensou Kyle perversamente.
Deu o ensopado para sua mãe e ficou imaginando, enquanto ela sugava aquele líquido maldito, se aquela criança já estaria morta.
Terceiro dia
Mary acordou com febre e não aguentava ficar de pé, devido a forte dor de barriga que sentia. Kyle chegou a ficar preocupado, ficou pensando se tinha feito besteira ao adicionar um pouco daquela raiz na sopa.
“Tanto faz. Ela merece”, pensou Kyle indiferentemente.
Aproveitou para fazer o almoço novamente. Adicionou as últimas ervas e deu para sua mãe.
Dois dias depois, de noite
— MEU DEUS! – gritou Mary, cortando o silêncio da noite.
O berro de sua mãe tirou Kyle do belo sonho que estava tendo. Sentou-se na beirada de sua cama, já alerta.
— PUTA MERDA! – xingou Jack. – KYLE!!!
Não iria deixar aquele ogro esperando. Levantou-se rápido e correu até o quarto deles. Abriu a porta e se deparou com uma cena que não esqueceria tão cedo.
Jack estava de pé, na frente da cama, aterrorizado. Sua mãe, Mary, estava encolhida em um dos cantos do quarto, sussurrando para si mesmo palavras indefinidas. No centro da cama, que estava toda ensanguentada, havia um pequeno bebê, mais parecido com um alienígena, do tamanho de um tênis.
— Que merda é essa? – sibilou Jack.
Kyle ficou hipnotizado enquanto observava o indefeso feto.
— Pegue a minha arma, Kyle.
O rapaz obedeceu roboticamente. Jack mirou para aquele bebê e falou entre os dentes:
— Volta pro inferno, capeta.
E toda a munição do revólver foi gastada.
Alguns minutos mais tarde
Kyle estava parado, na frente de casa, observando sua mãe se dirigindo ao hospital com Jack, na caminhonete da família. Entrou, feito um sonâmbulo, dentro de casa e foi direto para o seu quarto. Deitou em sua cama e ficou fitando o teto por algum tempo.
— Satisfeito? – perguntou a sombra, aparecendo ao lado do rapaz.
— Não sei... – sussurrou Kyle. – O que foi que aconteceu?
— Um aborto.
— EU PERCEBI! – vociferou o garoto, descontrolando-se. – Mas por que aquela coisa saiu viva de dentro dela? Isso não é possível! Você não me avisou que isso aconteceria.
— Calma, garoto, é assim que a erva funciona – falou a sombra calmamente. – Ela acelera o metabolismo do feto e em seguida ataca o útero. Assim, o próprio corpo expulsa a criança, que continua viva por instantes. Entendeu?
— Entendi – disse Kyle, acalmando-se.
— Aliás, não precisa se preocupar com nada, a erva não é detectada nem com exames sanguíneos – falou a sombra. — Bem, quer continuar com sua vingança?
Kyle pensou um pouco. Já tinha dado o primeiro passo, não podia mais voltar atrás. Se parasse agora iria ser um covarde, ia dar razão ao seu padrasto.
— Sim. Vou continuar até o fim – falou o rapaz de modo determinado.
— Que bom. Não tardarei a aparecer – disse ela enquanto sumia.
Kyle virou pro lado para dormir. Apesar do modo de como o aborto aconteceu o incomodar, no fundo de seu coração, ele estava feliz e satisfeito.
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