Ressentimento

3 Capítulo 3 - Gravidez


Dois anos depois

A pesada névoa da noite começava a se dissipar com o nascer do Sol. Kyle levantou como sempre, mais cedo do que todos – se acordasse muito tarde teria problemas com Jack.

Ficou um tempo sentado na sua cama, pensando na vida. Já fazia dois anos que vira aquela sombra e até agora ela não aparecera. Já estava começando a achar que tinha sérios problemas.

Levantou-se e desceu. Lavou a habitual louça – resultado de um lanche noturno de sua mãe –, e foi se arrumar para a escola. Estava com dezenove anos e ainda estava no ginásio.

Demorou cerca de quinze minutos se arrumando e quando desceu sua mãe já estava acordada.

— Bom dia, filho – cumprimentou.

Kyle respondeu com um aceno de cabeça. Estava preparando seu café da manhã quando ela falou:

— Filho, tenho algo para lhe contar – disse abrindo um sorriso. – Estou grávida!

O rapaz ficou quieto. Olhou sério para sua mãe e disse:

— Está de brincadeira, né?

— O quê?! Eu não brinco com isso! – falou ela sentindo-se insultada. – Você vai ter um irmão! Ou irmã, ainda não sabemos.

— Está de sacanagem comigo? Eu não quero ter um irmão!

— Cala a boca seu ingrato – interrompeu Jack, que descia as escadas. – Poderia mostrar um pouco de respeito por sua mãe e ficar feliz por ela.

— Sim, senhor – falou Kyle, segurando-se para não desencadear uma briga.

— Desculpe-se, agora! – ordenou.

— Desculpa mãe – disse, abraçando sua mãe.

— Tudo bem, querido – falou baixinho. – Não se preocupe com isso.

Desgrudou-se de sua mãe e foi para a escola. No caminho habitual para o ponto de ônibus, Kyle bravejou pragas e maldições contra aquela nova criança.

Noite do mesmo dia

A cama dura já não incomodava Kyle como antes, já havia se acostumado a ela. Toda noite ele ficava olhando para o teto por horas – ignorando os gemidos de sua mãe do quarto ao lado –, pensando em sua vida inútil.

Já tinha dezenove anos e nunca tinha se apaixonado, muito menos arranjado um amigo verdadeiro. Já estava começando a achar que estava fadado à miséria.

Cansou e virou de lado para dormir.

— Kyle – disse uma voz que não lhe era estranha. – Chegou a hora.

Num susto, Kyle vira-se e vê sua antiga amiga.

— Está preparado para o primeiro passo de sua vingança? – falou com sua voz ecoante.

— Sim – falou. – Estou pronto há dois anos.

— Muito bem. Sua mãe está grávida e feliz. Agora você terá que tirar isto dela, como ela deixou Jack fazer com você.

— Mas... – hesitou um pouco.

— O que foi? Tem medo?

— Não. É que ela é minha mãe...

— Sim. E ela deixou aquele homem, que não é seu pai, fazer coisas horríveis com você – disse mostrando certo ódio em sua voz.

— É. Você está certo. O que eu faço? – perguntou Kyle, rendendo-se à maldade.

— Na clareira em que você enterrou Thor há uma erva branca. Ela era usada pelos antigos para tirar suas crias indesejadas. Pegue uma boa quantia dela e misture com a comida de sua mãe por três dias – falou. – Isso irá matar a criança e secretamente danificará seu útero. Assim, a próxima criança, que com certeza virá, nascerá deficiente.

— Só isso?

— Por agora, sim – concluiu. – Até logo.

E sumiu como da outra vez. Kyle voltou a fitar o teto. Havia algo de diferente em seus olhos, um brilho estranho. O ódio florescera novamente e, finalmente, ele iria começar sua vingança.