Ressaca
1 Ressaca
Ah a dor latente em minha cabeça, Luísa vai me encher o saco.
A manhã até que está silenciosa. O nosso quarto fede, por minha culpa. Um misto de vômito com o bourbon barato de ontem.O que foi que aconteceu ontem ?Não me lembro.Ah a dor. É como se houvesse um martelo dentro de minha cabeça, ele bate, bate. Ele faz minha mente latejar e vibrar, fazendo com que meu cérebro vire uma geléia e eu uma ameba inútil.Levo minha mão a cabeça, esperando sentir meus velhos e ásperos dedos tocando minhas têmporas. Mas sinto algo diferente, algo poroso e viscoso.Meu Deus, minha mão. Minha mão !O que houve com ela ? Toda enfaixada com uma atadura suja com o sangue coagulado. Que merda aconteceu ontem ?! Conto os dedos, dois faltando, ainda tenho meu polegar e o dedo indicador, os outros foram decepados! Finalmente sinto a dor dos meus membros recém decepados. A dor de cabeça parece uma bênção perto disso.Luísa, Luísa deve saber. Ela deve estar na cozinha, fazendo meu café. Ela vai me mandar a merda por ter bebido além da conta, mas ela me perdoa. Ela é doce como um flor, tem sido um anjo desde que minha mulher me largou. Vamos lá, vamos até a porta.Caminhar até a porta do quarto foi fácil. Pé direito, pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo. Me olho no espelho, um olho roxo, e a camisa, ainda com a gravata do dia de trabalho, está ensanguentada. O sangue não é meu. Que merda eu fiz Luísa ? Abro a porta do quarto e vejo a sala. A velha televisão de tubo está estilhaçada no chão, os cacos se misturam com a mesa de vidro, que está virada de cabeça para baixo. Todos os porta retratos com fotos de meu filho, fotos minhas e deu Luísa, tudo no chão. Caminho mais um pouco, até afundar meu pé em um líquido grosso. Vejo, o que um dia foi Luísa. Ela está usando a sua camisola favorita, de seda com uma estampa do Mickey Mouse. O seio esquerdo está a mostra, os dedos finos e belos todos retorcidos, e na mão esquerda, um cutelo. O lindo rosto de Luísa está deformado. O maxilar deslocado para a direita, devo ter dado um soco na coitada. A garrafa de bourbon barato está fincada na parte superior do crânio, o olho esquerdo está pendurado e algo gelatinoso escorre do orifício ocular . Luísa, me perdoe.Dizem que o Diabo se manifesta naquilo que mais amamos, vejo os lábios de Luísa se moverem. Com uma voz rouca e estridente ela diz.-Vá ver seu filho, vá ver seu filho, vá ver seu filho !Eu grito, e a coisa vai embora. Fruto de minha imaginação ? Talvez, não sei. Tenho que ver o Jonas, ele estava dormindo no quarto dele. O que aconteceu com Jonas ?!Cada passo, uma vertigem. O quarto dele tem o super homem na porta. A porta está entre aberta, como se me chamasse para entrar. Por favor Meu Deus, ele só tem três anos.O quarto está inteiro revirado, a cama está de pé, como se formasse uma barricada de proteção.-Jonas ? J.J. cadê você rapaz?- pergunto.O que eu ouço me fez gelar a espinha, ele repete, quase como uma oração.- Papai mata e achata, papai é bicho papão. Quando papai bebe da garrafa ele só traz destruição. Papai mata e achata, papai é bicho papão. Quando papai bebê da garrafa só traz destruição.Viro a cama e vejo ele, com o pé direito ao contrário, inchado e roxo. Minha criancinha está chorando, em posição fetal no chão. Ele coloca o dedo na boca e chora, revirando os olhos para não me olhar, se encolhendo de medo.Eu sinto nojo de mim mesmo, o que foi que eu fiz ? As memórias vem de uma vez só, em turbilhão. Eu chego em casa bêbado com duas garrafas de bourbon. Jonas vem correndo me abraçar, ele derruba uma das garrafas. Irado, eu dou-lhe um tapa no rosto que o faz cuspir sangue, ele tenta fugir engatinhando, o agarro pelo pé e o giro no ar, o osso faz "crec", ele grita. Luísa sai do banheiro e me vê espancado a criança, ele merecia uma lição. Ela tenta me agarrar pelas costas, solto Jonas, dou um cruzado de direita no rosto de Luísa, o maxilar dela se desloca, ela agarra o cutelo e cai no chão. Com a mão esquerda fechada, pronta para socar a cara dela mais. Ergo a mão, com o cutelo ela acerta meus dedos, e eles rolam pelo chão. Pego a garrafa de bourbon que Jonas me fez derrubar, três estocadas no rosto de Luísa . Ela para de se contorcer. Lavo minha mão, faço um curativo, bebo o que resta, então durmo.Agora, ouço o som das sirenes fora de casa, os vizinhos ouviram, é claro.Eu tô fodido, como nunca esteve antes .
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