Resquícios
1 Capítulo Único
Notas iniciais

“Aqui estou eu a lhe escrever meus sinceros pedidos de desculpas enquanto as folhas lá fora caem gradativamente conforme o outono se aproxima, assim como o sol se nasce radiante inundado esse cômodo mórbido compartilhando um pouco de sua solene ventura.
Peço ainda sentindo o pesar de nossos desafetos para que não se deixe abater. Arrisco-me a considerar que somos como água e óleo, juntos não nos dissolvemos, faltando assim um mais para complementar, seria algo de meu alcance? Numa alternativa muito distante recebemos a benção do afeto que é a amizade. Porém, por meio de meus atos imponderáveis, cometi lapsos que aos seus olhos agora não mais tão incrédulos, tornaram-se dignos de traição da mais baixa possível. Por um amor até então puro e ingênuo, corrompi até mesmo sua essência e aquilo que aparentava ser uma proteção, para o seu bem, tornou-se amargo com o toque nada sutil da ira, transbordando mágoas.
Se nossas almas estão entrelaçadas pelo destino, nossa sina seria ao menos longínqua. Talvez não esteja ao nosso alcance intervir, estamos nos esvaindo aos poucos, todavia acredito que ainda há chances para que essa desventura torne-se menos fatal para um de nós. Então deixarei posta aqui todo o meu alento para pedir uma última vez, por favor, dessa vez apenas deixe-me ir.”
Com a respiração falhando, soltou um suspiro exasperado ao dobrar o pedaço de papel rasurado. Nunca havia se exposto com tamanha objetividade e sabia claramente que não seria um pedido capaz de ressarcir tamanha desordem causada por si, mas possuía a expectativa de que um provavelmente viesse a ter alguma valência.
Após muito relutar, levou a mão perto da cintura tocando com receio a bainha levemente desgastada antes de retirá-la. Pousou sobre a mesa seu objeto de ataque o qual uma vez fora mergulhado na acidez do mar de caos e causara tamanho pandemônio, juntamente com a missiva deixou ali posta sua espada numa tentativa der dar ênfase em sua decisão, remoendo cada passo, suplicando ao seu eu desvaído.
Mesmo com o sol nascente, a brisa gélida ultrapassava o limite da janela acomodando-se no quarto. Aproximou-se da saída, encostando a porta atrás de si e soltando um último murmúrio. Teria de ser cautelosa ao sair do casarão sem deixar vestígios.
Depois, já distante, retornou a olhar para trás por cima dos ombros. Saíra com o restante de esperança que havia sobrado, mas em contrapartida, deixara não somente sua arma de defesa e perspectivas, como também banhou-se na ilusão de subtrair o que ainda considera como amor. Restara somente os resquícios de algo que outrora constituíra seu coração.
Fale com o autor