Resquício - Com Café
2 2 - Uma noite não tão doce quanto deveria
Depois de um longo dia no Sweet Mornings, eu tive que voltar rápido pra casa. Eu tinha pouco tempo para me arrumar e ir para a faculdade. Eu sou estudante de medicina veterinária, então o tempo que me sobra para estudar é a noite. Eu esquentei água e fiz um miojo de legumes para mim. Logo em seguida tive que sair.
Depois de minutos, que mais parecia uma eternidade, andando no ônibus, finalmente chegamos ao ponto em frente à universidade. Eu simplesmente entrei pela porta da frente e segui para o corredor à direita. Subi uma escada e, finalmente, entrei na sala de aula. Eu havia chegado alguns minutos adiantado, então a sala estava quase vazia. Quase. No fundo da sala estava sentada uma moça de cabelos cacheados e pele de um tom de bronze como a minha. Ela usava óculos com uma armação discreta e camiseta do clássico Sailor Moon, além da jaqueta preta, jeans, um all-star rosa e fones de ouvido, que, por ventura, fizeram com que ela não me notasse quando me aproximei.
—Oi! —Falei sorrindo para ela.
Ela retribuiu o sorriso, retirou os fones de ouvido, colocou o seu celular na mesa e saiu de cima da cadeira num pulo, seguido de um forte abraço em mim.
—OI NENÊ! —Gritou ela.
—Calma Jesse! —Falei, retribuindo o abraço.
Soltamos-nos e ela se sentou novamente. Ela era Jessica, minha melhor amiga na faculdade.
—E aí, como foi o primeiro dia? —Ela perguntou. Ela estava na maior das expectativas. Mexia seus dedos rapidamente sobre sua mesa.
—Ah! —Respondo com timidez. —Não foi nada demais.
—Foi demais sim, Ness. —Ouvi uma voz do outro lado da sala. Era a MINHA voz. Me virei e vi que era o resquício de meus sentimentos reprimidos que me assombrou. —Você sabe que foi.
Jessica pareceu não ter percebido o rapaz idêntico a mim em preto-e-branco com transparência em 50% e com um sorriso cínico do outro lado da sala.
—O que foi? —Perguntou ela.
Voltei meus olhos para Jesse.
—Talvez eu tenha ficado um pouco ansioso com o primeiro dia. Nada demais não. —Falei.
Ela com certeza não viu o espectro translúcido no meio da sala.
—Claro que ela não me vê, Ness. Sou literalmente uma coisa da sua cabeça, e você sabe disso, por isso eu estou falando que é coisa da sua cabeça! —Provocou ele. —Acho que nós começamos com o pé esquerdo. Dá pra recomeçar, senhor?
Ignorei a figura bizarra que vinha em minha direção.
—Ou talvez, eu tenha ficado BEM ansioso. Sabe, é meu primeiro emprego. Eu quero me dar bem lá. Eu meio que preciso me dar bem. —Falei.
Jesse pegou a minha mão e segurou.
—Tá tudo bem. Todo mundo se sente assim às vezes. Eu te conheço bastante, sei que você é dedicado, migo. —Ela tentou me animar.
A entidade insaturada de cor deu uma risadinha cínica, como quem pede por atenção.
—Ela sabe pouco sobre o menino Nestor. Não é mesmo, senhor menino Nestor? —Ironizou ele.
Percebi que o espectro não sairia do meu pé tão cedo, então decidi que seria melhor sair para um lugar onde eu pudesse conversar com ele a sós. Ou seria comigo mesmo? Não importa.
—Então, Jesse, eu tô indo no banheiro e já volto, tá? —Falei pra Jessica, esperando resolver o problema.
—Tá bem, Ness. Volta rápido que a aula logo começa. —Alertou ela.
Assenti com a cabeça e saí. Durante o caminho ao banheiro, a minha cópia distorcida não parou de tagarelar sobre mentir pra minha melhor amiga, me culpando por não ter contado a verdade. Sinceramente, eu me sentia assim mesmo: culpando-me por mentir. Quando chegamos no banheiro eu me certifiquei de que não havia ninguém lá para escutar um desabafo para o nada.
—É o seguinte: —Comecei. —Eu sei que você é uma aparição da minha cabeça que tem como único objetivo perturbar minha mente.
Ele assentiu sorrindo.
—Você é o que sobrou de uma depressão profunda na qual eu estive por muito tempo, até eu melhorar, superar e parar de tomar meus remédios. —Continuei.
—Não apenas depressão, mas também a ansiedade, o medo, a fobia social contra quem você tenta lutar diariamente sendo garçom, e talvez um pouco da sua tristeza e da sua melancolia. E com certeza, o seu sarcasmo dormente. —Disse ele.
Suspirei.
—Obrigado por esclarecer. Mas ainda sim, quero você longe da minha vida. —Falei.
Ele fechou o sorriso cínico, fez uma cara de "sinto muito" e deu de ombros.
—Desculpa, mas isso é impossível. Você sabe disso. É você que me criou. Eu sou a sua mente. —Ele respondeu. —Não existe maneira alguma de eu sumir assim do nada. Você vai ter que aprender a conviver comigo.
Eu perdi um pouco da paciência com ele.
—Mas eu vivi TODA a minha vida sem sequer SABER que você poderia existir. Como que não pode sumir da maneira que apareceu? —Reclamei.
—Ah, Ness, você sabe que algumas pessoas criam amigos imaginários. Tenta me ver como um. Tem gente que costuma dar forma aos seus problemas. Você é apenas mais um que fez isso. E então, me imaginou assim, com a sua forma sexy e completamente cinza. —Ele inclinou-se em minha direção, como um adulto faz quando quer dar lição de moral para uma criança. —Aceita que dói menos, queridinho.
Suspirei de novo, dessa vez, seguido de um facepalm. Olhei para o espelho, onde deveria estar o reflexo daquele resquício dos meus sentimentos, mas só tinha alguns mictórios sujos.
—Posso, pelo menos, saber como te chamar?. —Perguntei.
—Algo me diz que você sabe a resposta. É você que me dá um nome. Eu sou um ser que você criou. —Ironizou ele.
—Dark Ness. Que tal? —Sugeri.
—"O Ness Sombrio". Trocadilho infame com a palavra Darkness, né? Tá me fazendo parecer um ser das trevas maligno, enquanto tenta ser engraçado. Mas enfim, tanto faz, é você quem decide. Eu não tenho opinião, é você que tem. —Ele respondeu.
Depois disso, olhei para meu celular. Faltava um minuto para o professor entrar na sala. Suspirei e voltei.
Assim que botei os pés naquele lugar, o professor apareceu. O professor Jackson era um dos meus professores preferidos. Ele dava aula de Bioquímica. Era um cara ainda jovem. Ao contrário dos outros professores do semestre, ele ainda tinha todo o cabelo, além de ter barba e o sotaque pernambucano. Logo que ele começou a passar alguma coisa no quadro, tive que colocar meus óculos. Sim, eu tenho miopia. Dois graus no olho esquerdo e dois e meio no direito.
—Vai ficar cego se continuar abusando do celular. E você não vai arrumar ninguém usando óculos. Não tenta usar lentes porque tem medo, né? —Falou o Dark Ness, tentando, como sempre, me irritar.
Eu encarei o resquício com um ar de ameaça, imaginando ele batendo na própria cara. Ele sorriu cinicamente e deu um soco no seu rosto ironizando.
—Isso não dói, Ness. Eu literalmente não existo.
Suspirei. Então voltei a prestar atenção na matéria. Amanhã seria um longo dia. E eu quero estar preparado... se o Dark Ness deixar.
—Preocupado com o trabalho amanhã? Haha! Patético. —Ele tentou me irritar.
Depois disso, Dark Ness desapareceu como areia sendo carregada pelo vento. A aula continuou e terminou. Saí para o intervalo, onde comi uma coxinha da cantina e fui atormentado pelo Dark Ness, que insistia que eu estava gordo e pouquíssimo saudável. Ele disse que era para eu parar de comer besteiras e começar uma dieta. Tivemos em seguida uma aula irrelevante de Anatomia de Animais Domésticos, onde o professor Leonardo ficou apenas contando a história de como a sogra dele fez ele ser expulso do apartamento. Enfim, a aula terminou e saímos para esperar os ônibus.
No lado de fora da universidade, Jesse veio falar comigo. Estávamos esperando em pé no acostamento, observando a rua movimentada.
—Então... —Ela começou. —Detalhes, por favor.
Eu me surpreendi com a pergunta e não falei nada.
—Você sabe. Como foi na cafeteria? —Ela insistiu.
—B-bem... —Gaguejei. —E-Eu conheci o pessoal que trabalha comigo. Tem a Dani, que é a gerente, e o casal que faz a comida e as bebidas são, bem, um casal. Eu só sou o garçom. Eu anoto os pedidos e os levo para as mesas.
Jesse sorriu, então se animou.
—Eu passo lá qualquer dia! É melhor você anotar o meu pedido certinho!
Eu ri.
—Então, é melhor que você peça direito, mulher! —Respondi.
Ela também riu. Rimos juntos. Contei cada detalhe do meu dia pra Jesse, com exceção, é claro, do que envolvia o Dark Ness. Isso provavelmente magoou ele, porque ele ficou ouvindo a conversa toda com um olhar de julgamento. Por fim, o ônibus dela chegou antes que o meu e ela teve que sair.
—Nem uma palavra me citando. —Reclamou ele.
—Às vezes, a gente tem que omitir certas... —Encarei ele dos pés à cabeça. —...informações? Acho que é isso.
Ele ficou em silêncio e desapareceu com o vento.
Logo que ele se dissipou na atmosfera, o meu celular vibrou. Era raro o wi-fi pegar no lado de fora. "Você tem uma mensagem de Vinícius", aparecia na tela, junto com a foto de contato, que era um meme de 2012 sendo usado ironicamente. Era meu melhor amigo na época do Ensino Médio. Conversávamos muito eu e ele. Eu abri a mensagem. "Como foi o dia?". Eu sorri com uma cara boba. "Preciso te ver. Quero conversar pessoalmente com você", eu respondi. Havia chegado a hora de começar a mudar.
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