Katsuki não dormiu muito bem nesta noite. O teste vai acontecer nessa manhã, às dez. Aurora deu algumas katanas de madeira para ele no dia anterior, para treinamento e o teste. Não podia usar armas de verdade pelo que estava escrito na carta, então, teria que se virar com o que estava ao seu alcance.

Inicialmente, ele pensou em usar somente a roupa de treino dos caçadores que ele usava no castelo infinito. Não tinha nenhum nome, era preta, funcional, e bem resistente comparada a outros uniformes. No final, ele decidiu pelo haori que Aurora deu de presente ontem. O idêntico ao de Sakeme. Por baixo, ele vestia a mesma roupa que sua mestra o presenteou. A nova katana na bainha, encaixada de forma quase teatral no cinto. Também usava pulseiras grossas no pulso direito para esconder a marca.

Se olhando no espelho, ele até que gostou do resultado. A maioria das pessoas diria que ele estava sendo antiquado. Contudo, Katsuki nunca se importou com a opinião das pessoas. Ao menos, era isso que parecia quando olhavam para o mesmo. Era isso que ele queria que os "extras" vissem. E isso que todos iriam ver.

Agora, ele estava caminhando até a U.A, decidindo por ir andando todo o caminho, sem metrô. A maioria das pessoas passava o olhar sobre quando o viam. Toda essa combinação de roupas, a katana de verdade na cintura, e a de madeira em uma das mãos. Isso tudo o fazia parecer um samurai, só que mais atual.

—...

Kizu também estava em silêncio hoje. Parecia ter notado o quão importante isso é para Katsuki. Então, ela decidiu dar uma pausa hoje... por agora pelo menos.

Não muito tempo depois, Katsuki já havia chegado na U.A, estando frente a frente aos portões. A sensação era... confusa. Ele apertou o cabo da katana por puro reflexo enquanto olhava. O sentimento poderia ser comparado ao seu primeiro dia de aula, é como se Bakugou estivesse de novo entrando naquele lugar pela primeira vez. Tecnicamente, faz mais de um ano que ele não bota o pé ali. Tudo parecia novo e velho ao mesmo tempo. Quase... nostálgico.

Dando um suspiro tenso, ele adentra pelos portões, suas botas tocando o chão firmemente. A maioria dos caçadores usava um tipo de sandália antiga que Katsuki sinceramente achava loucura. A explicação é que parecia ser um método para conseguir focar nos pés e notar cada pequeno movimento. Bakugou não aguentou dois dias, e só voltou a usar botar depois que uma Aurora relutante permitiu. Normalmente, isso era considerado uma "obrigação" entre os caçadores. Mas como uma Hashira, Aurora podia fechar os olhos para algumas coisas de Katsuki. Vantagens de se ter uma mestra do alto escalão.

Quanto mais Katsuki adentra na U.A, duas coisas são notáveis à primeira vista. Os dormitórios ao longe, e Aizawa o esperando na entrada do prédio principal. Ele tinha alguma noção de como era dentro dos dormitórios por conta das fotos que recebeu, mas nunca focou muito nisso. O que o surpreendeu foi o tamanho, era um edifício realmente grande.

Ao ficar frente a frente com Aizawa, Katsuki quase consegue sentir o professor passando o olho por ele de cima a baixo. Não parecia ter surpresa no seu olhar, mas Bakugou tinha a sensação de que a katana gerou no mínimo um levantar de sobrancelhas dele. "Humph... cheguei." Ele diz, olhando ao redor, tentando demonstrar desinteresse.

Aizawa não responde de início, apenas observando seu aluno com atenção. Após alguns segundos de um silêncio desconfortável, ele finalmente diz algo. "Me siga." E começa a andar até a praça central da U.A. Katsuki vai andando ao lado dele, tentando não ficar para trás.

A caminhada é tão confortável quanto se imaginaria deles dois. Cheia de um quietude quase irritante. De certa forma, Bakugou tinha se acostumado com esse tipo de coisa depois de tanto tempo fazendo missões com Sakeme. Mas, com Aizawa esse silêncio era diferente, parecia... pesado.

Depois de alguns minutos andando até a praça central, Bakugou já não aguentava mais. Ele precisava falar algo, e torcer para Aizawa não o ignorar. "Vai ter alguém vendo o combate?" Katsuki pergunta, sem desviar os olhos do caminho a sua frente.

Bakugou quase consegue sentir os olhos do professor passando por ele momentaneamente, mas tenta não focar nisso. "Sim. Seus amigos pediram para ver."

"Tsk..." Katsuki murmura assim que ouve isso. Isso não o irritava, mas adicionava uma camada de pressão nessa luta que ele não tinha se preparado para lidar. Mas isso não iria interferir de forma negativa, provavelmente.

Idiotas...

—...

O que é? Sei que você quer falar algo, Kizu, diz logo!

—É só... você se importa com eles não é?

Hein?! Por que essa pergunta tão do nada?

—Não é nada, esquece.

Katsuki quase tropeçou ouvindo isso vindo de Kizu. Aizawa parece ter notado isso e parado de andar por um momento, mas decide não externalizar nada, e volta a andar em seguida. Um Bakugou um pouco menos atento o seguindo.

Como assim nada?

—...

Você está em dúvida, eu consigo sentir isso!

—...

Nós somos literalmente a mesma pessoa, porra!

—...

Kizu continua sem responder, o que faz Katsuki dar um suspiro alto enquanto segue seu professor. Isso estava o deixando maluco. Essa voz era uma incógnita que ele não tinha a resposta. Tecnicamente falando, era para Kizu ser tudo aquilo que Bakugou esconde de si, tudo aquilo que o corrói por dentro. Mas pelo que sua mestra disse, também é algo super subjetivo e que muda muito de caçador para caçador. Como se lida com algo assim? Não tem nenhuma regra para se seguir, e muito menos alguma fórmula de sucesso.

Tentava conversar, mas não funcionava. Suprimir também não era uma possibilidade, e ignorar muito menos. Mesmo com sua audição sob controle, a voz de Kizu estava em sua mente. Não era impossível de ignorar, mas não parecia valer a pena. E, embora Katsuki nunca admita, ele criou alguma... conexão com essa voz.

Em relação a isso, ele é bem parecido com Sakeme. Bakugou não conseguia realmente odiar Kizu, mesmo que tentasse. Aquilo é parte de si, não é algo que se pode fugir ou ignorar. Kizu também é Katsuki. A parte que ele nunca mostra pra ninguém, nem mesmo para sua mãe, e muito menos para seu grupo.

"Chegamos." Aizawa diz, quebrando a linha de pensamento que Katsuki estava seguindo. Internamente, ele agradece por isso.

Bakugou olha ao redor, eles estavam na praça central, o mesmo local em que fizeram o exame prático, a luta contra os professores. Ao menos ele já conhecia bem as regras, e como tudo isso funcionava.

"E agora?"

"Vamos até a sala de monitoramento, você precisa ter noção de quem estará assistindo a luta." Katsuki concorda com seu professor, silenciosamente.

Assim que Aizawa entra, Bakugou o segue sem demora. Chegando até a sala de monitoramento, Katsuki engasga um pouco vendo quantas pessoas tinha ali. Nezu, Recovery Girl, Present Mic, Cementoss, Midnight e Vlad King estavam ali de professores. Seus amigos mais próximos também estavam ali, Mina, Kirishima, Kaminari, Jirou e Sero. Quando eles viram Katsuki, acenaram para ele, e Bakugou fez o mesmo para reconhecê-los ali.

"Jovem Bakugou!" Katsuki vira para o lado com urgência ouvindo isso. All Might estava ali. Ele até esperava algo assim, mas dentro da sua mente, ainda tinha esperança do antigo herói número um não ter vindo. Isso eleva o nível de pressão a um consideravelmente maior. Até agora, Katsuki não tinha entrado em contato com All Might. A última vez que eles se viram foi no dia do seu resgate.

Bakugou ficou em silêncio vendo o corpo agora fraco de seu herói de infância. All Might também não disse nada inicialmente, mas seu olhar ficou visivelmente um pouco arregalado vendo as duas katanas, tanto a verdadeira em sua cintura, quanto a de madeira.

"São belas armas, jovem!" Ele disse, uma mão atrás de sua cabeça mexendo levemente no cabelo. Um de seus braços ainda estava enfaixado, preso em seu pescoço como forma de apoio.

"Hum... é, acho que sim." Katsuki nem consegue olhar nos olhos do seu ídolo agora. Apenas foca seus olhos em qualquer ponto no chão, tentando focar em outras coisas. A maioria dos presentes parece perceber isso, e começam a cochichar um pouco. Usando sua audição, Bakugou foca na fala deles por um momento, querendo saber o que estavam prestes a falar.

Katsuki dá um sorriso de canto de boca quase imperceptível com isso, esse era o lado bom dessa audição nova dele. Nada mais ficava em segredo com ele por perto. Isso era antiético? Possivelmente. Katsuki se importava? Nem um pouco.

Ele decidiu começar pelos professores. Como estava frente a All Might e olhando pro chão, não pode ver nenhum dos grupos conversando, mas ouvir já bastava por enquanto.

"É impressão minha, ou o garoto tá mais calmo?" Essa era a voz da Midnight, Katsuki conseguia reconhecer esse tom.

Eu realmente não entendo como ela ainda dá aula em um colégio.

—Diga isso por você. Ela pra mim é uma rainha!

—Aquelas algem-

Não diga mais nenhuma palavra!

"Considerando o teste que ele terá que passar, dá para entender o porquê." Cementoss disse isso, Bakugou reconhece aquela voz séria em qualquer lugar.

"Aquilo é uma katana de verdade?" Katsuki quase consegue sentir Vlad cruzando os braços enquanto fala isso.

Não, é a merda de um controle remoto!

—Ahahah! Boa!

"Hum... o que será que o Sr. Bakugou está planejando?" Nezu, isso é quase óbvio.

Aquele rato desgraçado...

—Imagina se na verdade ele fosse um oni?

Não viaja, sua maluca. Ele já esteve no sol.

—...

—Nunca se sabe.

"HEH?! Ele sabe usar uma ESPADA?!" A gritaria já denunciava a voz do Present Mic. Inconscientemente, Katsuki quase botou as mãos nos ouvidos com isso.

Porra... as aulas de inglês vão ser um inferno.

—A gente pode só pular todas ué...

Você é uma péssima influência, sabia?

—Eu sou você.

"Eu já to vendo que hoje terei trabalho..." Bakugou quase sente pena da Recovery Girl.

A gente não vai dar trabalho pra garota de cura.

—Garota de cura?

Eu... esqueci o nome dela.

—...Chama ela de velha que já serve.

Decidindo que já era o suficiente, ele focou sua audição em seus amigos ali perto, que também estavam conversando.

"Nossa, essa roupa que o Blasty tá usando é muito bonita!" Katsuki tem certeza absoluta que os olhos de Mina estão passando por todo seu haori agora.

"Isso parece uma roupa de época." Kaminari comentou.

Ah, jura Pikachu?

"Como vocês acham que vai ser essa luta?" Sero disse.

"Eu não sei... mas o Kats pareceu ter bastante habilidade com aquela katana no dia que fomos visitá-lo!" Katsuki consegue ouvir Kirishima dando uma cotovelada no Sero com isso.

Jirou ficou em silêncio. Ao menos Bakugou não conseguiu ouvir nada dela, mas, por algum motivo, ele tinha a sensação de que seus olhos estavam fixos em sua arma.

A cabeça de fone tá estranha...

—Hum?

Ela tá quieta... quieta demais.

—Ela não é sempre assim?

Normalmente, mas dessa vez é diferente. Quase que consigo sentir os olhos dela na minha katana.

—Bem, ela também tava assim quando eles foram visitar você, não é?

Acho que sim...

Katsuki balançou a cabeça, não podia se perder nesses assuntos aleatórios. E, agora que percebeu, ele estava a mais de dois minutos parado sem dizer nada na frente de All Might... isso com certeza não vai fazer bem pra sua imagem. Bakugou sabe que não vai conseguir encarar seu ídolo agora, sua mente não está pronta para isso. Então, sem demora, ele se virou novamente para Aizawa, querendo começar logo isso. "Eu tenho que usar a da madeira, não é?" Ele gesticula para a katana em sua bainha.

Aizawa assente. "Sim, armas letais não são permitidas no teste."

Bakugou dá um suspiro pesado com isso, ele ainda acha isso uma idiotice de nível maior. "EI!" Katsuki grita em direção aos seus amigos, gesticulando especificamente para Mina e Kirishima virem até ele. Eles dois vêm até ele sem muita demora. "Aqui." Ele tira a Katana de verdade de seu cinto, junto com a bainha e tudo. "Não percam!" Katsuki joga para eles, e Kirishima pega uma das pontas desajeitadamente, com Mina pegando a outra ponta.

Eles dois quase caem juntos tentando não se desequilibrar, o que quase gera uma veia saltando na testa de Katsuki, mas, no final, eles conseguem pegar a katana. Com Kirishima decidindo tomar conta sozinho da arma, já que Mina com uma katana parecia uma receita perfeita para o desastre. "Deixa que eu fico com isso!" Kirishima diz, carregando a katana com as duas mãos firmes.

"Ei! Não é justo!" Mina faz um biquinho com isso, tentando pegar uma das pontas da katana.

"Você é desastrada! Vai acabar quebrando a katana de algum jeito!" Kirishima tenta segurar a katana no peito, sem dar muito espaço para Mina pega-la.

Katsuki revira os olhos com isso.

Adolescentes... huh, que idiotas.

—...

—Você sabe que também é adolescente né?

Por muito pouco!

—Você tem dezesseis anos.

Eu fiquei um ano no castelo infinito, então tecnicamente tenho dezessete!

Sempre fui o mais velho da sala, agora ainda mais.

—...Tá né.

—Se o vovô tá falando...

Você me chamou de quê?!

—...

Sua merdinha!

Já não aguentando mais brigas bobas, ele percebe que Aizawa já estava saindo da sala de monitoramento, e Katsuki o segue. Ambos andam até a área do exame prático. De longe, parecia ser uma cidade pequena com várias casas pequenas, algo bem diferente de onde ele e Deku fizeram o teste contra All Might antes do acampamento.

Então, Aizawa abruptamente para de andar, deixando Katsuki tomar as rédeas. "Você vai na frente agora."

"Hein?!" A cabeça de Bakugou vira levemente com isso, em um sinal de dúvida.

"Você vai ter um pequeno tempo para se preparar. Eu vou entrar daqui a cinco minutos, e o teste começará oficialmente."

Katsuki absorveu isso com uma certa relutância. Ele odiava sentir que estava tendo alguma vantagem, queria fazer esse teste de forma justa. "Isso não é uma vantagem, não é?" Bakugou perguntou com os olhos meio fechados em desconfiança, a voz saindo levemente mais rápida que seu novo comum.

"Essa é a norma que também fizemos nos testes para o acampamento. Não pense que vou facilitar pra você, Bakugou." Aizawa dá um de seus sorrisos assustadores com essa última frase, sabendo que isso tem o efeito oposto no garoto à sua frente.

"Tsk!" Dito e feito, um dos sorrisos arrogantes clássicos de Katsuki surge com isso. O seu professor não estava o subestimando, e isso já era um ótimo sinal na sua mente. "Se prepare pra perder, velhote!" Bakugou apoia a katana no ombro com isso, como se estivesse exibindo a arma.

Aizawa percebe isso, e embora seu sorriso não fosse arrogante como o de seu aluno, ele fica feliz em saber que de algum jeito o encorajou. Ele cruza os braços, encostando na parede levemente. "Vamos ver, lembre-se que não precisa ganhar, apenas me impressionar e os outros professores." Aizawa foca o olhar nos olhos de seu aluno, querendo enfatizar as próximas palavras. "E eu falei sério, eu não vou me segurar. Ainda estarei usando os braceletes ultra comprimidos, afinal essa luta precisa ser justa."

Katsuki segurou um suspiro com isso. Nunca que ele admitiria, mas se essa luta fosse sem esses braceletes ultra comprimidos, a derrota já estava garantida. Porém, antes que ele pudesse agradecer mentalmente por isso, Aizawa continua. "Mas não se engane, lembre-se que a Yaoyorozu e o Todoroki quase perderam pra mim. E isso porque eles tinham seus poderes, já você agora depende dessa katana." Ele aponta sutilmente para a katana de madeira em seu ombro. "Então, não se esqueça de ir com tudo também, Bakugou."

O sorriso do Bakugou foi diminuindo a medida do discurso, com seu rosto agora em um tom também sério. Ele apenas acenou para seu professor, decidindo que já estava bom de conversa por agora. Aizawa respirou pesado com isso. "Boa sorte." Ele disse, começando a pôr os braceletes nos pulsos.

Bakugou segue em frente até a área do exame após essa conversa. E à medida que ele anda entre as pequenas casas, Kizu chama a atenção para algo que ele nunca nem sequer chegou a pensar.

—Aquilo que o depressivo falou sobre não se segurar...

—Será que foi sobre a respiração?

Hein?! Enlouquece mais uma vez Kizu?

Pela contagem de Katsuki, ainda tinha uns dois minutos livre antes de anunciarem oficialmente o começo do teste. Ele decidiu ir até o meio da pequena cidade simulada, subindo até o telhado de uma das casas.

—Eu não sou louca!

—Olha minha lógica. Aurora disse que às vezes caçadores e heróis inevitavelmente se encontram, não é?

Sim, mas isso é principalmente com os heróis underground.

—O depressivo é um não é?!

Ele está agindo principalmente como professor na U.A. Deve fazer no mínimo meses que ele não age como herói a noite.

Principalmente com a quantidade de problemas que essas turma arranja...

No telhado de uma casa um pouco maior que as outras, Katsuki olha ao redor o máximo que consegue, tentando ver por quantos metros tudo aquilo se estendia. Bakugou chutaria trezentos ou quatrocentos metros, e isso era ótimo. Depois do tempo em que treinou, ele conseguiu quantificar bem o perímetro que sua audição agora conseguia ouvir. São cerca de cento e cinquenta metros que sua audição podia ouvir, para todas as direções. Ou seja, ele podia ouvir basicamente a cidade simulada inteira.

—Mas é realmente tão inacreditável acreditar que ele já ao menos entrou em contato com algum caçador ou oni?

Agora, Katsuki saiu do telhado, decidindo que ficar no chão poderia ser vantajoso para seu plano. Olhando ao redor com um olhar afiado, ele toca nas paredes, tentando sentir o material usado. Obviamente, era madeira, mas queria saber a resistência específica.

Hum... talvez não, mas duvido que ele saiba sobre a marca ou as respirações.

São coisas que estão muito dentro do mundo dos caçadores para ele ter qualquer noção.

—Talvez... mas ainda acho que vale a pena ficar de olho.

Antes que essa conversa interna pudesse continuar, uma voz cobre toda a cidade.

"O teste terá início a partir de agora! O tempo limite é trinta minutos."

Isso era exatamente o que Katsuki estava esperando. Com essa informação, ele liberou toda a extensão de sua audição aprimorada, fazendo sua marca brilhar em branco levemente com o esforço. A pulseira felizmente cobria toda a luz, sem riscos de alguém desconfiar de qualquer coisa.

Com sua audição no máximo e sob controle, era como ter uma ecolocalização melhorada por um vasto perímetro. Dava pra ouvir cada pequena coisa naquela cidade simulada. Se uma barata andasse, ele saberia. Se um grão de arroz caísse ele ouviria. Obviamente, com controle, Katsuki podia filtrar essas coisas e prestar atenção apenas no que importava, que, nesse momento, eram os passos de seu sensei.

Não demorou muito para Aizawa entrar no raio de sua audição, e logo, ele podia ouvir exatamente onde seu professor estava, assim como a direção.

Então ele está correndo sobre os fios elétricos em? Huh... inteligente e rápido.

—É o depressivo do seu professor, espera mais o quê?

Katsuki aproveitou que Aizawa ainda não tinha identificado onde ele estava, e decidiu começar a correr a passos leves na direção oposta a que ele sempre estava vindo.

—O que caralhos você tá fazendo?!

Me afastando?

—Você tá fugindo! Pensei que era pra ser uma batalha isso...

—Onde que tá seu orgulho em?!

Bakugou não é burro, ele sabe que está em muita desvantagem em toda essa situação. Ele tinha que se limitar a não usar suas técnicas de respirações, o vento, ou qualquer coisa que fizesse parecer que ele tem um "poder" novo. Afinal, conhecendo a U.A, é capaz deles o acusarem de agora ser um vilão e ter feito algum trato com All For One para conseguir um novo poder.

Mas, Katsuki tinha uma vantagem grande nessa luta. O conhecimento.

Eu estou sendo inteligente, idiota!

—Fugindo ao invés de lutar?!

Agora, Bakugou podia ouvir Aizawa virando em outra direção, o que é um ótimo sinal. Significa que ele ainda não conseguiu identificar onde ele estava. O que também permite que Katsuki possa parar de correr, e focar mais em seu plano.

Você vai ver!

—Como assim?!

—Fala logo o que você está planejando!

Ignorando todo o resto do que sua voz interior iria falar, Katsuki foca em tentar achar um bom beco.

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Dez minutos inteiros haviam se passado desde o início dos testes, e Aizawa oficialmente estava surpreso. Não importa onde procurasse, não conseguia encontrar a localização de seu aluno. Ele realmente se escondeu bem. Aizawa sente uma mistura de orgulho e preocupação com isso. Orgulho pela evolução. Afinal, o antigo Bakugou nunca suportaria a ideia de ter que se esconder ou andar nas sombras. Mas preocupação pelo motivo dessa estratégia, o tempo do teste era limitado, eles iriam ter que lutar de um jeito ou de outro. Então, especialmente nesse teste, essa estratégia não tinha muita lógica.

Menos de alguns segundos depois, Aizawa consegue ouvir algo em um beco próximo de onde ele estava. Era um passo, curto e baixo, mas definitivamente um passo humano. Te achei. Sem demora, Aizawa segue em cima dos fios até perto do beco, ao redor mais especificamente, por precaução. Toda a estratégia do Katsuki até agora indicava uma armadilha, então ele iria se precaver.

Assim que Aizawa teve uma visão clara de parte do beco, e garantiu que não tinha nenhuma armadilha ali, ele pula para o chão, querendo checar de perto. Ele sabia que era uma armadilha, e ele daria pontos ao garoto por isso, já que ele o deixou sem muitas opções. E não tinha nenhum lugar para se esconder ali perto.

No primeiro passo do Aizawa no beco, ele percebeu, realmente era uma armadilha. Atrás de si, ele ouviu um pulo, e imediatamente se virou. Katsuki estava ali, olhos totalmente focados em Aizawa, as duas mãos firmes na katana de madeira acima de sua cabeça. Ele estava atacando de cima pra baixo, do alto. Me fez descer para me atacar do alto? Inteligente, mas não vai lhe garantir uma vitória!

Sem muito tempo para reagir, Aizawa levanta os dois braços em uma posição defensiva, usando os braceletes em seu pulso como defesa principal, sabendo que nessa situação, Katsuki sentiria o recuo da katana com muita força, o que acabaria deixando a situação muito ruim para ele.

Vendo isso, um sorriso domina o rosto de Bakugou.

Ele caiu no truque!

Enquanto caia, Katsuki muda a direção de seu ataque no último segundo, querendo acertar o lado do corpo de seu sensei. Com sua nova precisão, ele acerta a katana de madeira bem no ombro de Aizawa, com o máximo de força que consegue. Infelizmente, ele foi mais devagar que o planejado, e o ataque foi menos efetivo do que seria, já que a mudança de direção foi mais lenta do que o desejado.

Bakugou consegue ver os olhos de Aizawa arregalando levemente com isso, mas no instante seguinte eles voltam ao normal, está claro que isso não o afetou muito. Fingir um golpe de cima pra me forçar a entrar em uma posição defensiva, e trocar a direção no último instante? Aizawa quase estava desconfiado de que esse era mesmo o Bakugou. O que aconteceu com esse garoto? Só passaram quatorze dias. Ninguém muda tanto em tão pouco tempo...

Assim que os pés de Katsuki tocam no chão, ele não espera, e começa a partir pra cima do seu professor. Tentando golpeá-lo o máximo possível. Aizawa responde isso se defendendo com os braços, principalmente os pulsos.

Aizawa fica a todo momento tentando defender os golpes de espada com os pulsos, para fazer Bakugou sentir ao menos um pouco mais do recuo da katana. Ele até sente o recuo, mas por serem golpes consecutivos, mais lentos e mais fracos do que um golpe vindo do alto, isso não o atinge muito. E, usando só um pouco da respiração em concentração total, Katsuki consegue deixar seu corpo resistente o suficiente para nem sentir o recuo direito. A respiração acaba deixando as veias de rosto levemente saltadas, mas no meio da luta Aizawa parece não dar atenção a isso.

Então, os golpes continuam mais e mais, cada vez mais rápidos e mais intensos, com Aizawa conseguindo se defender de todos quase perfeitamente, mas sem espaço de tempo para fazer nada mais.

Depois de mais de um minuto nisso, Aizawa entendeu o plano do seu aluno. Bem aos poucos, Katsuki estava aumentando e aproximando os ataques o suficiente para ele mesmo ter que ir chegando pra trás para não ser atingido em cheio. O que fez ele perceber, esse beco em questão é sem saída. Ele quer me fazer ficar na parede?

Tudo isso sempre foi plano de Katsuki, e ele precisava achar o lugar perfeito para que tivesse qualquer chance de funcionar. Um beco sem saída, perto dos fios elétricos, mas longe o suficiente para ele não conseguir ver que era sem saída assim de cara.

Bakugou sabe que essa luta acabou se, primeiro, ele ficar sem a katana de madeira. E, segundo, se isso virar algo a distância. Normalmente, o leque de ferro serviria como arma a distância se ele usasse as respirações e a marca em totalidade. Mas, sem isso, ele tinha que improvisar, e garantir que essa luta fosse resolvida corpo a corpo, sem dar chances de Aizawa sequer tocar naquelas fitas de captura dele.

—Então esse era seu plano em?

AH! E você tava me xingando antes falando que não ia funcionar!

—Huh... admito, foi bom.

Katsuki estava com sua audição totalmente focada em Aizawa agora, seja o que for, ele não estava prestando atenção em mais nada ao seu redor além disso. Os golpes aumentavam em frequência cada vez mais. A velocidade, a força, tudo ficava mais e mais a cada ataque.

Já Aizawa estava começando a ficar um pouco preocupado. Eles estavam se aproximando muito rápido do fundo do beco, o que o deixaria em extrema desvantagem. Por outro lado, ele estava conseguindo se defender de todos os ataques, fazendo Katsuki acertar seus braceletes ultra comprimidos, o que já deveria ter, no mínimo, feito os braços de seu aluno tremer, perder estabilidade, ou cansá-lo. Mas nada disso estava acontecendo. Mesmo com essa velocidade absurda. É como se as leis da física estivessem sendo quebradas.

Um sorriso arrogante cresce no rosto de Katsuki após perceber o fundo do beco se aproximando devagar em sua visão periférica. Ele não perde o foco nem por um segundo, pelo contrário, Bakugou começa a aumentar ainda mais a frequência e força dos ataques. "E então, sensei, o que vai fazer agora?!"

Então, talvez por uma piada do destino, no exato momento em que ele diz isso...

CRACK!

A katana de madeira se quebra no meio assim que Katsuki acerta mais um golpe nos braceletes ultra comprimidos.

...

—...

Porra.

—Eu avisei.

Avisou nada!

Katsuki só percebeu agora, mas ele cometeu um erro básico que não deveria ter cometido. Esqueceu da física. A energia nunca é destruída, apenas transformada. E a energia cinética dos golpes da katana precisam ir para algum lugar, e como o bracelete de Aizawa não absorve, essa energia acaba voltando para a katana. E a madeira não aguentou a repetição constante de golpes. Toda vez que a arma batia no bracelete, pequenas microfissuras internas surgiam. Até que tudo se acumulou, e a madeira não aguentou mais. Então, mesmo parecendo inteira por fora, por dentro estava se destruindo.

Ação e reação.

Bakugou tentou ficar em uma posição de ataque. Mas ele demorou para absorver o que aconteceu, o que deu tempo para Aizawa pegar suas fitas e amarrar Katsuki completamente, prendendo suas pernas e braços.

Quando ele estava preso por completo, e com a katana de madeira quebrada em algum canto no chão. "Isso. Eu vou fazer isso, Bakugou."

Ele quase pode sentir uma veia saltando com isso, mas preferia se conter perante a isso. "Humph... exibido." Então, a mesma voz que iniciou o teste mais uma vez se faz presente, dando o veredito.

"O teste acabou. Voltem para a sala de monitoramento!"

Ouvindo isso, Aizawa tira suas fitas de Bakugou, que estava bufando alto nesse momento. Embora, o rosto estivesse mais calmo do que ele esperava. "Você não me parece irritado."

"Por que eu estaria?" Bakugou responde, pegando os resto da katana de madeira e dando uma olhada. "Huh... tralha idiota." Ele jogou o resto no fundo do beco, já que estavam completamente quebradas no meio. "Vamos voltar agora?"

Aizawa assente, sem dizer mais nada e tirando seus braceletes.

A caminhada de volta é... estranhamente calma. Katsuki não parecia preocupado, ao menos, ele não estava externalizando isso se estivesse.

"Onde?"

"Hum?" Bakugou resmunga de volta para seu professor, virando o olhar brevemente.

"Onde você aprendeu... isso?"

Porra...

Katsuki já sabia que essa pergunta viria em algum momento, e tinha se preparado para isso, decidindo continuar a mentira que sua mãe iniciou quando os seus amigos idiotas foram pra casa dele. Mesmo assim, mentir era uma das coisas que ele mais odiava, e, se deu conta que agora vai ser uma das coisas que mais vai ter que fazer.

"Quatorze dias é muito pouco tempo pra aprender tudo isso do zero."

—Nossa, eu nem imagino o que o depressivo iria achar se a gente falasse que na verdade foi um ano!

Ele nem iria acreditar, pra começo de conversa.

—...

—Ainda seria engraçado...

Ah... é claro que seria Kizu, claro...

"Foi... minha mãe." Katsuki respira fundo quando diz isso, ele não podia falhar em explicar isso, não para seu professor. "Ela me botou em aulas de katana. A velha bruxa acha que isso iria me ajudar a ter mais paciência e menos raiva, e, isso veio a ser útil agora." Quando ele fala isso, Aizawa parece não reagir, como ele fez com quase tudo.

Katsuki está tentando focar seu olhar na frente, então ele não conseguiria ver mesmo se ele reagisse, mas o silêncio ainda é amedrontador.


"Posso conhecer seu mestre?" Aizawa diz depois de alguns segundos de um silêncio tenso.

Bakugou não sabe o porque ele iria querer isso, mas não parece ser algo ruim. Aurora o alertou muito sobre manter toda essa questão dos caçadores e onis em segredo, então Katsuki imagina que ela vai aceitar isso de bom grado. Até porque ela realmente é sua mestra, então não vai ser nenhuma mentira. Eles vão estar apenas escondendo parte da história verdadeira, mas a base vai estar ali, totalmente verdadeira.

"É mestra, na verdade." Katsuki o corrigi. "E sim, posso chamar ela depois, se vocês marcarem um dia."

"Sim, isso seria... bom."

Depois disso, eles seguem em silêncio até a sala de monitoramento. Chegando em passos pesados e meio lentos.

A primeira coisa que Katsuki nota são seus amigos. Kirishima e Mina estavam por perto, cada um segurando uma ponta de sua katana, os rostos exibindo uma preocupação quase tocável. Kaminari parecia mais nervoso do que Katsuki. Jirou parecia calma, mas ela estava mexendo muito as mãos. Sero parecia o mais verdadeiramente calmo ali, tentando ser a voz da razão.

Os professores pareciam... normais? Ele não viu muita diferença neles. Isso o deixou mais preocupado do que gostava de admitir. Embora, o sorriso visível no rosto do All Might o confunde um pouco.

Porque o All Might tá sorrindo daquele jeito estranho?

—...

"Sr. Bakugou!" Nezu é o primeiro a falar a palavra. "Posso dizer que estou impressionado com o que vi!"

Isso deixa os olhos de Katsuki saltando, sem perceber. "O-o que?!" Ele não pode evitar gaguejar. Bakugou esperava muitas coisas, mas isso? Não, com certeza não.

"É exatamente isso que você ouviu, jovem Bakugou!" All Might diz, um sorriso no rosto.

"Você impressionou a gente, moleque." Midnight completou.

Katsuki estava... sem saber como reagir. Claro, ele sabe que criou uma estratégia que teoricamente poderia funcionar se ele tivesse prestado mais atenção e feito tudo mais rápido. Mas nunca achou que fosse algo de impressionar. Parecia comum comparada a outras estratégias.

"Mas eu perdi essa merda de teste!" Bakugou grita com os olhos ainda visivelmente saltados.

"Sim, isso é verdade. Mas o que você fez neste teste indica o que mais queríamos ver. Evolução, adaptação, e determinação." Cementoss comenta, levantando um de seus dedos, como se estivesse explicando algo em aula.

Agora, uma voz alta e animada toma a sala. "EXACTLY! Nós vimos você analisar os becos até achar o perfeito!" Katsuki quase sente vergonha com um adulto usando palavras em inglês no meio de frases assim. Mas levando em conta que é o Present Mic, ele decide relevar.

"A mudança de ataque no meio do ar foi inteligente. Se fosse mais rápido, poderia ter te feito ganhar a luta." Vlad diz com os braços cruzados, mas um pouco mais solto que o normal.

"Todos nós concordamos que você merece sim continuar na U.A, Sr Bakugou! Só resta um de nós dar sua opinião sobre isso..." A cabeça de Nezu vira para Aizawa, ao lado de Katsuki. "Qual é seu verídico, Aizawa?"

Todos os olhos se fixam em Aizawa agora. Os professores, diretor, amigos de Katsuki. E até mesmo Bakugou vira a cabeça para o lado, todos querendo ver o resultado final.

Aizawa apenas fechou os olhos com isso, ficando em silêncio por alguns segundos que pareceram minutos.

Katsuki estava tenso, mas seus amigos pareciam ainda mais. Mina e Kaminari pareciam estar prestes a ter um infarto. Kirishima segurava sua ponta da katana de Katsuki com uma força desnecessariamente alta. Jirou e Sero pareciam mais contidos ainda agora, fazendo movimentos rápido demais com as mãos ou pernas, indicando o nervosismo silencioso deles. Os professores estavam cochichando um pouco também, uma Recovery Girl cansada murmurando um "Ele ama fazer esse drama." para os outros.

Depois de um minuto que mais pareceu uma hora, Aizawa finalmente diz algo.

"Sim. Ele merece continuar."

Notas finais
Agora, sobre o capítulo. Eu considero essa minha primeira cena um pouco mais longa de preparação de luta e luta em si(Já que a cena no cap 4 foi curtíssima). Eu sei que não tá às mil maravilhas, mas foi o máximo que consegui fazer. Nunca fui boa em cenas de luta, e essa é a primeira que fiz de verdade. E meu plano é melhorar a partir daqui. MUITO! E yeyyyyyyy- U.A finalmente ekskskskskks. Personagens de Bnha vão começar a aparecer bem mais agora. E também, vamos ter bastante convivência nos dormitórios. Além de Katsuki tendo que de ALGUM jeito equilibrar essas duas vidas dele, esses... dois mundo. Inclusive, gostaria de perguntar. O que vocês estão achando da história até aqui? E da minha escrita? Como deu pra perceber, a cada capítulo tô tentando melhorar mais e arriscar ainda MAIS. Eu tinha muito medo de cenas com muitos personagens, e acho que fiz um bom trabalho no capítulo 4, por exemplo. Diminui o tamanho dos parágrafos de modo geral, como deu pra ver. Às vezes vão ter alguns caps com uns mais curtos, e outros com uns mais longos. Depende de quanta coisa vai acontecer no capítulo em questão. E ahhhh, quero muito saber. O que vocês estão achando da Aurora e da Sakeme? Minhas duas personagens originais que eu mesma criei. E que vão ser importantes aqui. O que acharam delas? E do meu Katsuki? Tão curtindo ele aqui? Além da MARAVILHOSA Kizu. Sério, eu amo escrever a Kizu skskksks. É muito divertido. Enfim, é isso. Tenham um bom dia e uma boa semana! :D