Respirar
1 Capítulo Único
O ar parecia deixar o seus pulmões, a única sensação que tinha era de ter um nó na garganta, enquanto queria gritar qualquer coisa e chorar. A dona de uma mente em caos nublou e a fez seus olhos transbordarem toda a dor em lagrimas. Sentindo-se tão perdida como nunca antes, ela quis buscar refugio em um único lugar, como se pudera.
Seu pensamento desajustado lembrou-a daquela pessoa. Então ela quis busca-lo, quis vê-lo. Ele não era nada parecido com um grande amigo e era ainda mais complicado. Mas sua mente frágil concluiu que ele seria capaz de impedi-la de se afogar. Talvez tenha pensado dessa forma após terem dividido alguns vários bons momentos juntos nos últimos meses. Ou talvez tenha sido uma mensagem incerta que seu coração enviara e ela fragilmente acreditara. Se despiu de seu quarto empoeirado e trocou-se para uma saída rápida, até aquele prédio familiar bem no meio da cidade. Estava atônita demais para entender os recados de seu coração apaixonado, se quer podia enxergar esse fato. E se deixou levar. Se deixou levar para a armadilha que lutara por tentar evitar. Se apaixonar por ele seria uma armadilha cruel. Ele possuía cicatrizes tão profundas e tão sensíveis que qualquer passo em falso as abriria e causaria uma dor que ele não estava pronto para enfrentar. Então a única forma de enfrentar a dor era a proteção. Ele fecharia seu coração para qualquer relação. E não havia nada tão ruim quanto se apaixonar por alguém que se esconde da paixão rejeitando-a a todo custo. A armadilha seria cruel para os dois. Sentindo o peso do futuro desabar em suas costas, ela se arrastou a força seguindo pela avenida. Com os olhos distantes e a dispneia psicológica, atravessou a avenida e parou na frente do prédio. Se deu conta do que estava fazendo e o coração disparou de pavor despertando-a. Era loucura estar ali sem mais nem menos, se quer sabia se ele estaria ali. E se estivesse, o que faria? Remexeu os cabelos e então reconheceu aquela moto por trás do portão. Algo que não sabia explicar se animou dentro de si e ela buscou-o com os olhos. Ainda assim parecia estupido chegar ali sem mais nem menos. E se ele perguntasse, o que responderia? Não podia simplesmente dizer qualquer coisa, sabia como ele era cauteloso com as garotas. “Não faço ideia do que acontece comigo! Não estou bem! Posso ficar aqui com você? Queria te ver!” E claro que não podia simplesmente dizer isso. Puxou o celular do bolso, pensando em desistir. Viu a mensagem no grupo. Ele estava fazendo algumas mudanças na reforma numa das salas no segundo andar. Sentiu a necessidade de vê-lo novamente. Não poderia voltar depois que chegara ali. Ainda sentia aquela forte vontade de chorar e sentia-se desolada. Digitou uma mensagem rápida para ele. “Oi, você está no prédio? Tem problema se eu for até ai?” Esperou ansiosamente pela resposta. “Oi, estou sim. Claro que não. Você está por perto? Está tudo bem?” Um sorriso se repuxou com dificuldade em seus lábios e ela criou coragem para abrir o portão. Dentro do prédio subiu as escadas vagarosamente. A musica vinda da sala no ultimo andar alcançou seus ouvidos no final da escada. Ouviu-o cantarolar, como apreciava a sua voz, então quis chorar novamente. Piscou os olhos afastando a vontade incomoda e se esgueirou silenciosamente para dentro da sala. Na mesa haviam tintas recém misturadas e pinceis, ao redor haviam bancos que tinham sido concertados e ele dedicava-se a pintura delicada em cada um. Foi então que ergueu os olhos de sua tarefa e sorriu ao vê-la. —Você foi rápida, Lianne. —Estava passando aqui na frente. _Ela repuxou os lábios num sorriso se aproximando. _E ai? O que esta fazendo? —Estamos na pintura dos bancos agora... _Ele ergueu o banco que estava em seu colo, mostrando-o. Então observou-a com mais atenção. _Está tudo bem? É claro. Ela não sabia esconder que não estava bem. Seus olhos perdidos a entregavam, não tinham o brilho que ele era acostumado a enxergar. O sorriso dela não era tão natural como no dia-a-dia juntos. E sem sombra de duvidas ela havia chorado. Ele não era nem um pouco bom com esse tipo de coisas. Não sabia o que fazer quando o assunto era com garotas. Mas algo em si não pode impedi-lo de perguntar. Estava preocupado com ela. Ele queria não ter percebido. Era uma pessoa desligada pra uma porção de coisas, detalhes nunca foram seu forte. Então porque logo agora notara diferenças tão sutis. Talvez fosse por conta do tempo que haviam passado juntos. Torceu por isso. Olhando-a, esperou sua resposta. Ela parecia surpresa e confusa. E estava. Não sabia o que deveria dizer para ele. E então ela simplesmente sorriu. —Não... Mas vai ficar... Aquele sorriso foi como uma lamina em sua pele. Ela parecia tão perdida e vulnerável. Parecia a ponto de quebrar. Mas preferia fingir que nada estava acontecendo. Ele queria entender porque ela estava ali consigo. Sentiu-se inquieto encarando-a. Não queria se importar tanto, nem sentir tanto. No final ele era alguém sensível e amável, que queria ver os outros bem. E ela pouco a pouco cativava seu lugar dentro dele, se tornava importante lentamente.
—Posso ajudar em algo? _Lianne o despertou de seus pensamentos. Ele pareceu desesperado por fazer algo por ela e ela não gostava daquela sensação. Mas o que ela queria indo até lá. O que ela esperava que ele fizesse. Ele colocou o banco de lado junto com a tinta e os pinceis. Pegou um pano e enxugou as mãos. Ela concluiu que a resposta dele fosse um “Não precisa” então caminhou até uma das paredes e sentou recostada ali. —Não precisa... Você não quer conversar? _Ele encarou-a. —... Não... Eu vou ficar bem... _Os olhos de Lianne marejaram quando ela se forçou a repetir novamente. _Você não vai me fazer falar, não é Peter? —Se você não quiser... _Ele se aproximou, parando de frente a ela. _É só que me pareceu que tinha algo a dizer... Ele encarou a garota entreabrir a boca varias vezes sem emitir som algum, então desistir abraçando os joelhos. Notou que talvez o problema dela fosse mais complicado, então simplesmente sentou ao seu lado. Aquilo lhe incomodava e preocupava. Ela manteve o silencio, recostando o rosto nos joelhos. —... Não tenho ideia do que é... _Explicou baixinho. _Só estou sentindo... —... E o que está sentindo? _Ele murmurou observando-a. —Eu... Não sei... É difícil respirar, parece que tem um nó na garganta e... _As lagrimas vieram mais uma vez. _Eu só... Tocar era algo que ele evitava enquanto conseguisse, mas naquele instante nem percebeu quando sua mão se moveu afagando a cabeça da jovem ao seu lado e então suas costas. Sentiu um nervoso ao considerar que ela poderia entender errado. Lianne apenas sentiu mais vontade de chorar. Foi então que ele entendeu que ela queria companhia quando o buscou. —Por que quis vir para cá? _Questionou curioso. —Eu não sei... Só senti a necessidade de estar... _Ela soluçou. O pensamento de que não deveria dizer cruzou a sua mente, mas tudo era tão incerto que ela não se deu ao trabalho de ouvi-lo. _Queria te encontrar... Não entendo o porquê... Mas... Peter ignorou qualquer suposição que seu cérebro fizesse que não fosse o simples fato de que lhe passava segurança e ela precisava de uma companhia em que confiasse. Sua conclusão de que ela confiava nele era certa, mas ele estava enganado ao ignorar outras hipóteses. Talvez não quisesse que seu coração se fechasse para aquela garota. Talvez algo lá no fundo quisesse esconder que ela era importante de alguma maneira. Ela importava. E aquelas lagrimas pareciam quebra-lo por dentro. Era incomodo se sentir daquela maneira. Queria acolhe-la em seus braços, mas aquela parte forte que o impedia de se mover na direção dela o travou. Mas Peter aproximou seu corpo do dela, recostados na parede, a garota inclinou a cabeça em seu ombro, desolada. Lianne soluçava repetidas vezes, sentindo as lagrimas mais lentas e menores caírem no ombro do rapaz ao seu lado. Pode sentir o cheiro dele acalmando-a lentamente. O tímido toque de seus braços e dedos mindinhos a confortava. O silencio dele permitia que pudessem se concentrar em suas respirações pesadas se acalmarem em sincronia. —... Acho que estou perdida... Já se sentiu assim? _Lianne murmurou ainda chorosa. _Minha mente está uma confusão e... Não sei qual o próximo passo... —Está com medo? _Peter sentiu a garota balançar a cabeça. Ele sentiu a mão dela ao lado da sua, então delicadamente tocou-a envolvendo-a com a sua. _Já me disseram que eu precisava parar. As vezes estamos tão perdidos nos nossos problemas que não vemos a solução. Talvez você deva parar um pouco. Talvez olhar de fora pra dentro seja a solução. —Parar? _Ela repetiu pressionando a mão dele. Peter não olhou para a garota para que pudesse compreender que ela voltara a chorar. As lagrimas dela caiam em seu ombro. Em silencio brincou carinhosamente com sua mão. Era tão delicada. Pensou na garota e em como ela parecia uma menina. Pensou em como ela havia se disposto a ajudar as pessoas nos últimos dias. Por isso haviam passado tanto tempo juntos. Talvez devessem tirar um tempo para parar. —Lianne... _Chamou-a. Lianne despertou de seus pensamentos quando ouviu-o chamar. Havia passado de todos os limites, chorara em seu ombro e segurava sua mão, se apossara do tempo e da boa vontade dele. Ao seu ver parecia um pouco egoísta, porque ela queria que ele lhe desse aquele momento. Sentiu-se uma garotinha por chorar daquela forma e por faze-lo se preocupar. E com um movimento rápido, Lianne largara sua mão e levantara-se de seu ombro enxugando o rosto. —Desculpe Peter... Por... Isso... _Murmurou esboçando um sorriso. _Não sei o que eu... —Por que está se desculpando? _Ele franziu o rosto. _Não estou entendendo por que está se forçando a sorrir! —Eu não... _Lianne sentiu o rosto se colorir de vermelho quando ele tocou-o. _Eu... A mão dele repousando na lateral de seu rosto com uma caricia delicada pelo rastro de lagrimas fez o coração dela disparar. Sua face queimava enrubescida e seus olhos roubaram-lhe o folego. Ele paralisou vendo-a corada. Faria com que ela entendesse tudo errado. Seu coração acelerou e sua mão continuou movendo-se pelo rosto delicado. Os lábios rosados prenderam sua atenção, ele tomou folego profundamente. —Não faça isso... Está tudo bem em chorar... _Murmurou afastando a mão dela, antes que tocasse seus lábios. Levantou-se apressado juntando todos os potes de tinta sobre a mesa. _Vou me trocar e já volto! Me espere... _Ele saiu apressado. Lianne sentiu o rosto ferver e seu coração batucar disparado. Cobriu-o com as mãos. Então se perguntou o que ele tinha em mente agora. Deveria espera-lo quietinha. Sua mente vagou até o rapaz. Só então se deu conta que se lançara de cabeça na armadilha. Estava apaixonada. Estava apaixonada há um bom tempo. —Oh, não... _Murmurou num suspiro. Sentindo as gotas da agua caírem geladas do chuveiro, Peter pensou na garota e no que ela significava. Lembrou da expressão que ela fizera quando lhe tocara o rosto e de como seu coração reagira. Aquilo não estava certo. Estava fazendo com que ela criasse ideias equivocadas. Era um caminho sem volta que cortaria o coração da menina. E ele era o culpado. Ele estava guiando-a para aquilo. Desligou o chuveiro e se enxugou. Pensou no porque ela lhe procurara. —Somos só amigos! _Repetiu para si com duvida. _Só amigos... Não eram bem amigos, também não eram menos que isso e ela era alguém com quem se importava. Mas não eram amigos. O que eram então? O que ele era para ela? E ela? O que era para ele? Sacudiu a toalha nos cabelos e pôs a roupa limpa. Arrumou o cabelo. Não eram amigos. Mas não eram menos que amigos. —Pare de pensar... Ela é só... _Fechou os olhos buscando concentração. A angustia dela lhe deixava angustiado. Talvez devesse parar ali e não ir com sua ideia em frente. Então pegou a camisa que estivera vestido, notou as marcas das lagrimas dela. Enfiou o tecido na mochila, mudando de ideia novamente. Realmente precisavam parar. Talvez sua companhia a fizesse melhor. Não queria que ela chorasse e muito menos que pedisse desculpas por isso. Seu coração se partiria. —O que estou pensando... _Se encarou no espelho. _Pare com as ideias erradas... Ela é só... Uma amiga... Aquelas palavras saíram estranhas e seu coração se agitou uma vez mais. Fechou a mochila depressa e correu até a sala em que ela o aguardava. Não deveria prosseguir, pensou no meio da escada. Talvez não pudesse controlar o que se seguiria. Esse sentimento cruzou sua mente como um raio e ele empurrou-o escondido bem fundo no coração. Não deveria ir. Parou abrindo a porta. Ela se virou para encara-lo, havia arrumado a bagunça que ele deixara. —Você voltou... _Seu coração palpitou ao ouvi-la. _Tomou banho? —Sim... Sua voz saiu num sussurro. Quem garantiria que ele não conseguiria controlar. Claro que ele poderia. Então decidiu continuar o que planejara. A levaria num passeio. Peter não poderia estar se enganando mais do que estava ao pensar que podia controlar tudo. Ela se aproximou mais serena, parecia mais tranquila, então viu seu sorriso de novo. Lianne apontou para o seu braço com um ar zombeteiro. —Você esqueceu de limpar aqui... _Peter encarou para o local que ela apontara, manchado de tinta. Surpreso, sorriu. —Acho que sim. _Peter tinha um olhar carinhoso até ela. Ele segurou seu punho com delicadeza e puxou-a pelas escadas. _Vamos? —Para onde? _A garota questionou. —Dar uma volta! _Ele abriu um sorriso, ignorando qualquer pensamento que lhe dissesse para desistir da ideia.
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