Res(pirando)
2 NOR(MAL)
Notas iniciais
Estava escuro, e eu estava só no meu quarto. Da janela, eu podia ver os fogos do começo do ano, e na minha cabeça havia apenas um pensamento. Eu olhava para o celular insistentemente. Minha maior vontade era pegá-lo, ligar para Mike e desejar-lhe um feliz ano novo, mas não podia. Eu sabia que, junto à ele, estavam vários colegas de trabalho, e... Bem, eu também me perguntava, porque nenhum professor tinha esposa, e nem mesmo namorada.
No primeiro dia do ano, foi a minha primeira aula. Na verdade, eu apenas estava lá para conhecer a turma, os professores, e tudo aquilo parecia muito ensino médio, mas a verdade é que ninguém tinha saco pra estar lá no primeiro dia do ano, onde a maioria das pessoas deveriam acordar de ressaca. Mas bem, ninguém lá estava de ressaca, a não ser por acordar cedo demais, depois de ter madrugado — se é que dormiram, claro.
Dentre as coisas nas quais me perguntaram na entrevista para ser aceita, depois do vestibular, foi se eu bebia, fumava ou usava drogas. Era claro pra mim que não se podia ter no campus pessoas bêbadas ou drogadas, mas não se passou pela minha cabeça de que se eu dissesse que fumava ou bebia, eles não me aceitariam. Isso era apenas... Contra a minha natureza. Contra os meus princípios. Eu tinha minhas próprias razões para odiar aquilo, para desprezar, principalmente o alcool e o cigarro, mas... Enfim, isso não importa. Eu nunca gostei de revelar nada disso para ninguém, e não revelei as minhas razões para o rapaz da minha entrevista, entretanto, eu ainda não podia entender. Porque o cigarro?
Tivemos uma pausa para descanso, mas eu permaneci na classe. Felipe apagava o quadro, e eu me aproximei.
- Oi — Eu disse, calma.
- Quer ver minhas fotos?
- Ahn... Quero. — Franzi o cenho. Afinal de contas, como assim, ver fotos?
- Ah, mas não tem. — Ele riu rápido. Eu pensei no quão idiota ele deveria ser.
- Tô brincando. — Ele balançou a cabeça pro lado, pegou uma mochila no chão, e retirou um álbum de fotos.
Eu peguei as fotos e olhei com cuidado. A primeira foto pertencia à uma mulher bonita e morena, de olhos azuis muito claros.
- Quem é ela?
- Minha namorada.
- Ahh. Ainda bem. Eu estava pensando que professor da FLS não podia namorar. — Dei um sorriso nervoso, senti minha pele do rosto esquentar.
- Não pode. — Ele ficou calado por alguns segundos — Olha, todos os períodos, são selecionados os melhores alunos, e esses tem um período de dois anos pra ensinar. Isso vale no lugar do TCC e 98% dos alunos que lecionam já saem com um emprego garantido. Aliás, eu, por exemplo, já tenho o meu.
- Já? Mas quanto tempo você tem?
- Um período de trabalho. Mas eu me esforço, sou obediente às regras e... Bem. Continuando. Enquanto não estamos aqui, não podemos namorar. Até porque nós nos ocupamos muito, além de trabalhar, nós estudamos ainda, então a instituição não permite que namoremos. Porque nós só temos um dia de descanso, que é o domingo, e ainda sim temos algumas obrigações. Mas, a Ellen... Ela é de lá, do Paraná. Nós namorávamos antes de eu vir pra cá, e ela está esperando eu voltar.
- Ah... Então esperar pode? — Eu ri discretamente, ele me olhou, sério.
- Pode sim.
Havia uma coisa, na qual ainda me incomodava. Na maioria das vezes, Mike me levava para casa. Quando isso acontecia, raramente Bianca estava com seu namorado, e... Bem, era como se ela nem tivesse namorado. Ela ainda queria machucar Mike, ainda queria iludir como fazia antes, mas, neste dia em especial, voltamos com Felipe. A minha mãe também já o conhecia, e eu me sentia traída por isso, mas enfim. Eu me divertia, porque Bianca parecia extremamente desconfortável diante dos dois. Me pergunto se em algum momento, ela não flertava ele como flertava Mike, mas por Felipe ser quem era, não acreditei que ele considerasse isso, então eu resolvi mostrar o meu lado semelhante à Bianca. A soltar um pouco do meu veneno.
Aquele foi o meu maior erro, e, ainda sim, meu maior acerto.
Todos estavam perfeitamente normais, conversando, se divertindo, quando eu chamei a atenção de Felipe.
- Lipe, porque você não manda um email pra sua namorada dizendo pra ela não te esperar mais, e namora a minha irmã?
- Tá bem. — Ele falou, normalmente.
- Mesmo? — Minha mãe olhou pra ele, incrédula.
- Mesmo. — Ele continuou com aquela expressão natural de sempre. Nem eu mesma acreditei na reação dele.
Minha primeira aula não foi com um professor qualquer, mas um homem muito... Especial. Ele era moreno, pouco mais alto que eu. Meio forte, cabelos meio que castanho-escuro bagunçado, olhos um pouco mais claros que o cabelo. Um sorriso largo e aberto, muito bonito. O nome dele era Felipe, e vinha do paraná. Era um dos muitos professores brasileiros — e, felizmente, essa era a maioria — mas apesar disso, ainda era difícil de compreender a sua aula, porque falava muito rápido. Ele era gentil, educado, e engraçado. Algo peculiar nele, é que gostava de pokémon, assim como Mike. Mas, o que me surpreendeu, não foi exatamente por ele ser um aparente príncipe encantado. Eu o conhecia, de algum lugar. Quer dizer, eu já o havia visto, com a minha irmã. Eles eram amigos, e haviamos nos visto algumas vezes.
Fale com o autor