Notas iniciais
Boa Leitura:)

Harry Laurent

Acordei antes mesmo do despertador tocar. O céu ainda estava escuro, e a cidade parecia mais silenciosa do que o normal. Meu coração, por outro lado, estava uma bagunça. Parte de mim estava ansiosa por causa da Ofélia; a outra… bom, a outra só conseguia pensar em Lian.

Tomei banho, me vesti com cuidado demais para alguém que “não achou o policial bonito” e saí de casa depois de me despedir da minha mãe. No caminho até a delegacia, tentei ensaiar mentalmente o que diria. Falaria só sobre a Ofélia. Apenas isso. Nada de olhares demorados. Nada de sorrisos bobos.

Quando cheguei, o prédio parecia ainda mais imponente do que da última vez. O cheiro de café forte e papel velho me atingiu assim que entrei. Uma recepcionista pediu meu nome e, poucos minutos depois, vi Lian surgindo no corredor.

Ele estava de uniforme novamente, e isso deveria ser proibido. Sério.

— Harry — ele disse, sorrindo de um jeito calmo, quase íntimo. — Obrigado por ter vindo.

— Eu que agradeço — respondi, tentando parecer normal. — Qualquer coisa para ajudar a encontrar a Ofélia.

Ele assentiu, e por um instante seu olhar suavizou.

— Vem comigo.

Seguimos até uma sala menor, com uma mesa, duas cadeiras e uma janela que dava para a rua. Ele se sentou à minha frente, ligou o gravador e começou a fazer perguntas. Repeti tudo mais uma vez: a padaria, a coxinha, os cinco minutos de ausência, o banco vazio quando voltei.

— Você notou alguém estranho por perto? — ele perguntou.

Fechei os olhos, forçando a memória.

— Tinha um carro parado do outro lado da rua… escuro. Mas em Nova York isso não quer dizer muita coisa.

Ele anotou algo rapidamente.

— Já ajuda — disse. — Qualquer detalhe pode fazer diferença.

O silêncio se instalou por alguns segundos depois que ele desligou o gravador. Não era um silêncio desconfortável, mas intenso. Nossos olhares se encontraram, e senti meu rosto esquentar.

— Harry… — ele começou, hesitando. — Sei que isso foge um pouco do protocolo, mas… se você lembrar de qualquer coisa, mesmo fora da delegacia, pode me ligar direto. — Ele me entregou um cartão com o número dele.

Peguei o cartão com cuidado, como se fosse algo frágil.

— Eu ligo — respondi. — Prometo.

Ele sorriu de novo. Aquele sorriso.

— Posso te acompanhar até a saída?

Assenti, e caminhamos lado a lado pelo corredor. Antes de eu sair, ele falou:

— E, Harry… tenta descansar um pouco. Você parece carregar o mundo nas costas.

Sorri, sem saber exatamente por quê.

— Você também.

Saí da delegacia com o coração acelerado e o cartão bem guardado no bolso. Talvez aquele dia não fosse apenas sobre medo e incerteza. Talvez fosse o começo de algo que eu nunca tinha planejado sentir.

Lian Blackwood

Observei Harry sair pela porta de vidro e só então percebi que estava sorrindo feito um idiota. Balancei a cabeça, tentando recuperar a postura profissional, mas era inútil. Algo nele me puxava, como um ímã silencioso.

Voltei para minha mesa e encarei o quadro do caso de Ofélia. Fotos, horários, mapas. Eu precisava focar. Precisava encontrá-la. Mas, pela primeira vez em muito tempo, havia algo além do trabalho ocupando meus pensamentos.

Eu não sabia onde aquilo ia dar. Só sabia de uma coisa: queria proteger Harry. Como testemunha… e talvez como algo mais.

E, no fundo, torcia para que ele me ligasse. Mesmo que fosse só para dizer que lembrou de um detalhe bobo. Mesmo que fosse só para ouvir a voz dele outra vez.

Notas finais
Obrigado por ler;)