Respiração, foco nos sentidos!
8 Capítulo 8 - Yasha
Katsuki estaria mentindo se dissesse que não estava ansioso. A comemoração não durou muito, já que todos ali teriam aula no dia seguinte, e precisavam descansar. Lida garantiu que todos foram pro quarto antes das dez da noite, e Bakugou resolveu não se implicar com isso. Na realidade, isso é algo ótimo, e ele não vai perder essa chance que o acaso lhe concedeu.
Agora, Bakugou estava no quarto contando os segundos até que seu corvo idiota chegasse com a missão. A sacada estava completamente aberta, sem nenhum pano, e Katsuki se mantinha sentado na cama, olhando quase que diretamente para a área de fora. Sua roupa continuava sendo a social de sempre, aquilo que normalmente usaria para dormir. Além disso, tinha uma mochila em suas costas, na qual deixou tudo aquilo necessário para a missão.
Seu cabelo também estava amarrado, o máximo possível que ele conseguia. No passado, Katsuki já ouviu muito sua mãe dizer que o cabelo deles era extremamente rebelde, e por isso não valia a pena o esforço para amarrá-lo. Bakugou nunca chegou a ligar pra isso, mas desde que começou a acompanhar Sakeme nas missões, ele começou a entender bem mais essa questão.
Para a maioria dos caçadores, uma máscara já serve. E como muitos só tem a vida como caçador, e nenhuma vida mais “pública”, eles não veem a necessidade do uso de um disfarce mais complexo do que isso. No caso de Katsuki, ele tem sim uma vida pública como herói. Porra, ele participou do festival esportivo e ganhou, isso por si só já o fazia ser conhecido por muitas pessoas, e, onis, ele imagina.
Tudo isso levava a um fato: Katsuki precisa de um disfarce melhor.
Jamais imaginei que diria isso, mas…
—O quê?
Eu agradeço pelo estágio com o Best Jeanist.
—...
—O QUÊ?!
Katsuki odiou cada segundo do estágio que fez com aquele herói, foi completamente inútil. A todo momento, Best Jeanist tentava consertar a personalidade “quebrada” de Bakugou, e, nunca chegou a funcionar. Pelo contrário, ele diria que ficar naquele estágio só fez sua personalidade piorar ainda mais no final de tudo, afinal, tudo que sentiu ali é que estava ficando para trás enquanto os outros estavam evoluindo.
Contudo. Best Jeanist parecia ter tomado como missão pessoal deixar o cabelo de Katsuki arrumado, o que ele mesmo pensava ser impossível. Surpreendentemente, o herói conseguiu arrumar o cabelo rebelde de Bakugou. Claro, o formato foi uma merda, mas, as técnicas que ele usou para conseguir esse feito poderiam ser úteis, e Katsuki garantiu que fixaria cada uma delas na sua mente.
Tudo isso leva ao formato atual do seu cabelo, que estava completamente amarrado em um rabo de cavalo. Isso lhe custou uma quantidade de produtos capilares inaceitavelmente alta, e mais de meia-hora na frente do espelho no banheiro.
Porra… eu não tenho dinheiro pra todos esses produtos não!
—Pelo bem do seu disfarce, você vai ter que arranjar.
Tsk… que merda.
Bakugou começou a bater os pés com isso, odiava conversar sobre este assunto em específico. Dinheiro é uma questão que ele decidiu deixar para o Katsuki do futuro resolver. Agora, ele tinha outro foco, sua primeira missão… solo. Sem Sakeme, Aurora, ou qualquer ajuda. Será somente ele com a missão de matar algum oni que está causando problemas.
Mesmo já tendo matado onis sozinho antes, dessa vez é diferente. É uma missão propriamente dita, não um demónio que ele ouviu sem querer e matou sem muitas dificuldades. Esse pode e provavelmente terá um Kekkijutsu, as artes de sangue demoníaco. Os poderes que onis mais fortes têm e podem usar. Katsuki já lutou com alguns assim ao lado de Sakeme, mas nunca sozinho. Essa será a primeira vez.
Cansado de ficar sentado, se levantou ajeitando a bainha da katana no seu cinto, e andando até a sacada.
Katsuki focou seu olhar no vasto espaço fora dos dormitórios, tinha tanto verde ali. Grama, árvores, até mesmo flores. Nem parecia que todo mundo ali estava em uma das maiores cidades do Japão.
Após isso, Bakugou focou seu olhar no céu, assim como sua audição. Prestando atenção em cada som, não querendo perder seu corvo quando ele aparecer.
Quando fez isso, ele quase conseguiu sentir Kizu se remexendo dentro da mente dele. Mas, isso é impossível, então não passa de uma sensação passageira. Ainda assim, continua sendo irritante. Kizu estava muito estranha desde antes da comemoração que ele fez com os amigos e colegas, e Bakugou não fazia a menor ideia do motivo.
Ei, Kizu.
—Hum?
Por que você tá tão estranha hoje?
—...
—Como assim estranha? Eu to normal, porra!
Katsuki revira os olhos com isso.
Não, não está!
Assim que eu olhei pro céu, eu praticamente consegui sentir seu incômodo!
—...Não sei do que você está falando.
Não se faça de ingênua!
—...
Kizu não diz mais nada depois disso, o que faz Katsuki soltar um longo suspiro, apertando os olhos com um pouco mais de força que o comum.
Se lhe perguntasse qual é a coisa mais irritante em Kizu, Bakugou com certeza falaria desse comportamento. É parecido com conversar com uma criança. Ela nunca diz quando algo está a incomodando, e parece que não sabe ter uma conversa normal sem parecer toda misteriosa. Katsuki pensa que isso é culpa dele também. Se Kizu nada mais é do que as partes escondidas dele mesmo, isso significa que ele também já foi assim, e ainda é às vezes.
Porém, quando já tinha desistido dessa conversa…
—A Lua.
Isso faz Katsuki parar de focar no céu por um momento, olhando por cima dos ombros como se pudesse ver Kizu ao seu lado, mesmo com ela estando somente em sua mente.
Como assim?
—Olhe para a lua.
Bakugou não entende o porquê disso, mas, considerando tudo ele obedece sua voz interior. O que poderia dar errado em observar a lua? Não é como se isso fosse algo incomum também. Uma hora ou outra ele vai ter que se acostumar com o astro, afinal, todo seu trabalho como caçador ocorre as noites e madrugadas.
Sem pensar muito mais, ele foca seu olhar na lua. E, depois de um minuto inteiro olhando, acontece… nada.
E então? É pra acontecer o que em Kizu?
—Você não sente nada de diferente…?
Hein?!
Por que eu sentiria algo olhando pra porra da lua, Kizu?!
—Ah?!
Kizu quase conseguiu sentir-se tropeçando em si mesma dentro da mente de Katsuki.
—Mas… você mesmo sentiu algo mais cedo quando fez a mesma coisa!
Isso faz Katsuki levantar suas sobrancelhas em dúvida.
Tá maluca Kizu?
Eu não faço ideia do que caralhos você está falando!
—...
—Você… não se lembra?
Me lembrar do quê?!
—Da… lua? De antes de você descer pra comemoração que seu grupo fez?
Kizu, para de inventar coisas.
Depois que o merdinha do Deku saiu, a gente desceu menos de cinco minutos depois!
Não aconteceu nada mais.
Kizu ficou em silêncio por um momento, pouco mais de quinze segundos.
O que foi agora?
—Nada!
—Eu acho que só alucinei um pouco aqui… ignora o que eu disse.
…
Você é estranha, sabia?
—...Vai se ferrar.
Katsuki fez um sorriso de canto de boca com isso. Ao menos a Kizu normal estava de volta. Ele até pensou em continuar aquela conversa estranha sobre a lua, mas antes que o pensamento se completasse em sua mente…
Um corvejar é ouvido ao fundo vindo até ele, e Bakugou sente os olhos brilhando com isso. “Finalmente, porra!” Sem esperar, Katsuki ajeita a katana no seu cinto, e usa a concentração total para dar um pulo alto o suficiente, da sua varanda, para chegar alguns metros à frente no chão, aproveitando que a resistência extra o deixava poder sobreviver a quedas muito maiores.
Bakugou pousou no chão pouco mais a frente, cerca de dez metros. Pulando da sua varanda do quarto andar sem muitas dificuldades.
Mesmo com todos dormindo, Katsuki preferia conversar com seu corvo a uma distância segura dos dormitórios. Principalmente porque os corvos tem uma fama de gritar com alguma frequência, e se Kirishima, que tinha o quarto ao lado do seu, ouvisse algo e acordasse, Bakugou não faz ideia de como faria para explicar o corvo no seu quarto, ou, na varanda. Mesmo que seu amigo não fosse entender nada do que o corvo falasse, já que ele não é um caçador, ainda assim seria preocupante.
Finalmente no chão, o corvo pousa ao lado de Katsuki e começa a falar, ou seja, gritar.
“Aqui estão suas ordens!” O corvo grita, e Bakugou quase se encolhe com isso. “Vá até a área pobre da cidade, no extremo norte de Musutafu!”
Isso faz um alerta piscar na cabeça de Katsuki.
Extremo norte… isso é perto de onde eu moro!
—Você mora nos dormitórios agora, quem tá lá é sua mãe no caso…
Exatamente!
“Pessoas vêm desaparecendo naquela área, incluindo todos os heróis ou vigilantes de baixo poder que vão investigar! A chance de ser um oni é alta. Mate o demônio!” Antes que Bakugou tivesse a chance de falar algo, o corvo começa a bater as asas novamente. “Não seja visto por heróis!” O animal começa a voar para longe novamente, e, antes de sair do alcance, ele afirma. “Essa é sua primeira missão solo como um caçador! Lembre-se, seu dever é esse antes de ser um herói!” Com isso, o corvo sai de seu campo de visão.
Katsuki se sente preso no chão por alguns segundos passageiros, mas logo se recompõe, deixando as costas retas, e afiando seu olhar.
Tá na hora…
—Vamos nessa, porra!
Agora, ele levanta a cabeça, olhando diretamente para frente. Concordando mentalmente com Kizu. “Vamos!” Diz não muito alto, para não correr risco de ninguém ouvir, afinal, Bakugou ainda estava a poucos metros dos dormitórios, mesmo estando no chão.
Sem esperar por mais nada, Katsuki começa a correr até o muro mais próximo da U.A, atento a todas as câmeras, desviando conscientemente de todas que conseguia identificar. O som da eletricidade é pessoalmente fácil de notar com sua nova audição, então percebê-las é relativamente fácil.
Não foi difícil achar um ponto cego entre os muros, e pular eles foi mais fácil ainda, o fazendo pousar em um beco próximo. Antes de continuar, ele foca sua audição em todo o ambiente ao redor, apenas para garantir que não havia ninguém o vendo ali. O único coração que bateu no ambiente foi o dele próprio, o que é um ótimo sinal, ele está sozinho ali.
Katsuki tira a mochila das costas por um momento, e abre, começando a trocar sua roupa social pelo traje dos caçadores de onis.
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Já completamente vestido com as vestes dos caçadores, o haori, e uma máscara que sempre usava quando acompanhava Sakeme em outras missões. A máscara em questão estava ao lado de sua cabeça, e tinha um formato característico de lobo, além de ser bem estilizada. A katana estava na bainha em seu cinto, assim como os leques de apoio, tudo em seu devido lugar.
Bakugou estava terminando de por toda a roupa social que tirou na mochila, tinha que lembrar de voltar para buscá-la e trocar de roupa antes de chegar de novo nos dormitórios.
—Ei, onde você vai deixar essa mochila?
…
Katsuki… não planejou isso com tanto preparo quanto gostaria. Mas, é um fato, ele não poderia levar a mochila consigo. Além de ser algo que vai o impedir de lutar no seu máximo, também é um jeito de reconhecê-lo, e se uma câmera acabar vendo a mochila, será problemático. Claro, isso seria problemático de qualquer forma, mas Bakugou tem consciência de que não é invencível, e de que isso pode acontecer em algum momento, então melhor prevenir do que remediar.
Vou deixar em algum canto por aqui.
—...
—Isso é sério?
Algum problema?
—Claro! Alguém pode roubar a mochila assim!
…Eu vou deixar ela bem escondida.
—...Quando alguém roubá-la de você, vou fazer questão de dizer que avisei.
Bakugou se olha por um momento, não é o suprassumo do disfarce, mas deve servir mais que o suficiente por agora. Seu cabelo estava tão bem arrumado em um rabo de cabo que quase não era visível, então, até onde ele sabe, tudo estava dando certo.
A mochila no final acabou sendo guardada no menor vão que ele pode empurrá-la. E, para não perder a localização, resolveu tirar uma foto com o celular de todo o local. Além disso, Katsuki também marcou o local em seu mapa pessoal como “Mochila”. Parece claro o suficiente para o mesmo, é algo que ele não esquecerá facilmente.
Após todos os preparativos, Bakugou respirou fundo por um momento, e… começou.
Quando começou a acompanhar Sakeme nas missões, ele sempre se perguntou porque eles não iam pulando de prédio em prédio até os locais. Parecia muito mais rápido chegar aos locais fazendo isso. Mas, logo ele entendeu o porquê. Em um mundo onde heróis e vigilantes existem, ir pelos telhados não era algo realmente inteligente se você queria se esconder efetivamente dos mesmos.
Então, com isso, Katsuki aprendeu qual a melhor forma de se locomover como um caçador, que ele estava usando nesse mesmo momento. Correndo pelas partes superiores dos becos, e, quando tiver certeza de que não tem nenhum herói ou vigilante ao redor, ir pelos telhados para acelerar as coisas.
Bakugou estava pulando, se apoiando nas janelas e paredes para se impulsionar e continuar no ritmo da corrida. A concentração total aumentava todas as suas características básicas a tal ponto, que, sua velocidade fazendo isso conseguia se manter com uma constância quase sobrenatural. E, a todo momento, Katsuki mantinha sua audição elevada ativada ao máximo possível, ficando de olho em qualquer coisa estranha e que pareça viva ou esteja o seguindo.
Se encontrasse um oni, ele faria uma pausa para matá-lo. O maior problema é principalmente se ele notar algum herói ou vigilante ao redor, porque isso acabaria exigindo um desvio do seu caminho para evitar o indivíduo infeliz que estivesse ali perto.
Katsuki ficou fazendo isso por cerca de meia-hora, e, já estava chegando em uma parte mais pobre da cidade. Embora, ainda estivesse um pouco longe do extremo norte.
É impressão minha, ou tem menos heróis nessa área?
Ele diz enquanto pula de um telhado pro outro, olhando ao redor por um pequeno momento. E, onde a vista alcançava, não tinha ninguém em nenhum telhado.
—O que você esperava? Estamos na parte pobre da cidade, idiota!
Eu sei disso!
Mas… porra, nem mesmo um herói qualquer?
—Até mesmo os vigilantes ficam fora dessa área… o que é surpreendente.
Hm… sim, é…
Quanto mais Katsuki corria entre os telhados, mais ele se irritava. A diferença entre o centro da cidade e aquela área era assustadora, inaceitável. Essa é a parte com mais crimes da cidade inteira, então, por que não tinha ninguém ali? Nada estava fazendo sentido.
Porra…
—...
—Vai fazer algo?
Agora, Katsuki estava olhando de cima do telhado para uma situação que o deixava dividido. Com sua audição no máximo, ele ouviu alguém clamando por ajuda. Um garoto. Pensando ser um oni, ele foi correndo, mas quando chegou perto, só conseguiu ver abaixo no beco um garoto sendo roubado.
Eu devo interferir?
Bakugou poderia fazer um desvio para lidar com essa situação sem muitas dificuldades, mas isso poderia gerar repercussões que não estava pronto para lidar. Primeiro, se qualquer um dos dois, a vítima ou o criminoso, vissem ele usando sua katana ou leque, e isso caísse nos ouvidos de alguém da U.A, não seria difícil ligar tudo isso a ele. Se isso acontecesse, possivelmente Katsuki seria expulso pela segunda vez, afinal vigilantismo é crime.
Merda! Eu não posso deixar que me identifiquem…
—É só usar os punhos ué…
Isso faz os olhos de Katsuki brilharem em reconhecimento por um momento.
Porra! Eu tinha esquecido disso!
Boa Kizu!
—Huh… não tem de que…
Fazer isso não iria lhe garantir muita coisa, mas, já tiraria muito as suspeitas deles. Pelo que qualquer um na U.A saiba, ele só luta com katanas e leques agora, e nunca que teria força nos punhos o suficiente para lidar com essa situação.
Resolvendo isso, ele tirou a katana e os leques do cinto por alguns segundos, deixando-os no telhado. Não podia ser visto com eles.
De mãos nuas e máscara, ele começa a se movimentar. Usando a concentração total para cair atrás do criminoso, que estava prendendo o garoto na parede nesse momento, fazendo algum tipo de revista para ver se tinha mais algo de valor, ou coisa assim.
Assim que ele pousa no chão, fazendo um barulho considerável, o criminoso fica em alerta e se vira por completo, tinha uma arma em uma de suas mãos, e a outra tinham garras consideráveis, possivelmente sendo sua individualidade. “Ei! Quem é você mascarada?!”
Isso faz Katsuki levantar as sobrancelhas por um segundo atrás da máscara.
Mascarad…a?
—Ahhahahahha! O merdinha acha que você é uma mulher!
Bakugou quase se vê dando um sorriso de meia-boca com o riso de Kizu. É o século vinte e dois, e pessoalmente falando, Katsuki realmente não se importa em ser chamado assim. Para todos os efeitos, isso é até melhor, e tiraria muitas suspeitas dele se de alguma forma ele ficasse famoso por ser vigilante.
Tsk… “A mascarada”...
É um bom nome na verdade.
—Para uma vigilante? Huh, é, até que dá, eu acho.
“Já vou avisando que eu achei primeiro o moleque! Ele é me-”
Antes que o bandido pudesse continuar falando, Bakugou se apressou e ativou a concentração total enquanto girava levemente o torso, e dando um impulso leve com o quadril. Obviamente, Katsuki não queria matar esse merda, mas, ainda queria machucar, então, resolveu só apagar ele. Com o punho direito bem fechado, Bakugou dá um soco na mandíbula do bandido, usando a concentração total apenas o suficiente apenas para apagar ele por completo… e talvez quebrar uma ou duas coisas. Nada que um médico não consiga resolver.
O soco foi mais forte do que o esperado, e assim que Katsuki o atingiu, por um momento, era como se desse para ver a alma do bandido saindo do corpo de tão forte.
Não durou muito, mas por dois ou três segundos, uma memória invadiu a mente de Katsuki. Memória essa que não era dele.
— — — — — — — — — — — — — — — —
“Aquele pirralho… andando despreocupado assim na rua… vai ser o roubo mais fácil da minha vida!” O bandido checa a munição de sua arma por um momento, além de também dar uma olhada em suas garras na outra mão, todas bem afiadas.
“Ah! Tá na hora!”
— — — — — — — — — — — — — — — —
Bakugou voltou para a realidade logo após a última fala do bandido, meio confuso.
Mas… que porra?
—Você também viu?
Sim, e que merda foi essa?!
—Eu… eu não faço ideia.
Katsuki volta seu olhar para o bandido agora, que estava caído no chão, desacordado, e com a mandíbula visivelmente quebrada. Não tinha como isso ser uma individualidade do criminoso, afinal ele nem sequer teria tempo pra isso, e, ele já tinha aquelas garras estranhas na mão secundária.
…Eu preciso falar disso com Aurora depois.
—Tirou as palavras da minha boca.
Então, Bakugou lembrou. O garoto, a vítima do roubo, ainda estava ali. Se virando completamente na direção dele, Katsuki foca seu olhar nele, querendo ver se estava machucado de alguma forma.
O moleque estava visivelmente com medo, os olhos arregalados e com o corpo todo tremendo. Deve ter pouco mais do que dez anos, então, o medo faz sentido. Provavelmente à primeira vez que é assaltado também, essa reação no olhar dele… Katsuki se lembra disso, ele já viu esse mesmo olhar várias vezes em sua curta vida até agora.
“Você está bem, criança?” Katsuki sabe que isso é uma pergunta burra, só que precisa saber se fisicamente ele estava machucado ou não. E chamá-lo de criança também faz parte do plano. Se, por algum motivo, esse garoto falar dele pra polícia ou algum jornalista, vão achar que além da vigilante ser mulher, também vão pensar que é uma adulta já formada. Isso vai tornar qualquer suspeita sobre Bakugou quase impossível de fazer sentido, então, ele já consegue se salvar sem problemas.
A criança mal consegue balbuciar palavras direito, mas, Katsuki consegue identificar que fisicamente ele parece estar sem ferimentos visíveis, o que faz Bakugou soltar um suspiro tranquilo que estava preso em sua garganta.
“Ótimo…” Olha ao redor por um momento, parando os olhos no bandido recém-derrotado. “Escute… você consegue ir pra casa daqui?”
Rapidamente, o garoto balançou a cabeça em um sim rápido.
“Vá então, eu o acompanharei dos telhados, apenas para garantir que você chegue bem. Se sentiria mais seguro assim?”
Os olhos do moleque brilham por um momento, quase em lágrimas, e, dessa vez, ele consegue soltar umas palavras. “S..sim! Por f..favor!” A voz saiu um pouco mais tremida do que ele esperava, mas dava para entender perfeitamente.
Katsuki dá um meio-sorriso por baixo da máscara, e, em seguida, tira a máscara um pouco. Apenas o suficiente para o moleque ver seu rosto, os olhos e seu meio-sorriso. “Qual seu nome, garoto?” Diz enquanto se abaixa para ficar na mesma altura do moleque.
O garoto ainda fala com a voz um pouco tremida, mas com um pouco mais de confiança por poder ver o rosto do seu salvador. “Y-yasha…”
Bakugou faz o máximo que consegue para falar com um tom mais calmo e paciente, e se certifica de não encostar no garoto. “Yasha, não… precisa se preocupar, ok?” Ele alonga um pouco um sorriso, fechando os olhos. “Eu vou… proteger essa área agora, então, se depender de mim, nunca mais você ou qualquer um vai passar por isso de novo.” Katsuki abre os olhos novamente, com um pouco mais de seriedade agora. “Mas, eu não vou estar aqui a todo momento. Evite sair à noite, e… tente aprender a se proteger.”
Por um momento, Yasha arregalou ainda mais o olhar, como se fosse a primeira vez que ouvira isso na vida.
O garoto até parecia querer dizer mais algo, mas Bakugou queria acelerar um pouco as coisas, não podia demorar tanto quanto estava nas ruas. “Agora, eu vou subir pros telhados, e ficar te vigiando até chegar em casa, então… se sinta protegido!” Após isso, Katsuki usa a respiração em concentração total para pular de parede em parede, até chegar no teto.
Yasha olha pra isso com profunda admiração, os olhos brilhando achando tudo aquilo impressionante. Na perspectiva da criança, a lua estava quase perfeitamente atrás do seu salvador, que ele acha ser salvadora, deixando tudo ainda mais incrível e divino para ele.
Agora, na ponta do telhado, Katsuki dá mais um olhar para baixo, diretamente pro olhos de Yasha agora. Ele lança um último sorriso para o moleque, antes de encaixar a máscara novamente no rosto, escondendo a própria face mais uma vez.
O garoto aparenta reagir a isso bem, ao menos é isso que parece quando Katsuki o vê. Bakugou rapidamente pega sua katana novamente, assim como os leques, encaixando nos respectivos lugares no seu cinto. Seguindo o moleque pelos prédios enquanto ele anda, ficando mais ou menos visível para ele, apenas o suficiente para Yasha conseguir o ver sempre que levanta a cabeça.
—Isso é meio estranho, não acha?
Eu preciso garantir que o garoto chegue em casa seguro de algum jeito!
E, não tem ninguém nós seguindo pra ver isso…
Katsuki confirma isso olhando para trás e pros lados rapidamente, a audição no seu máximo, podendo ouvir tudo ao redor que estivesse a cento e cinquenta metros dele. Ele volta a visão pra Yasha logo em seguida, enquanto pula para outro prédio a sua frente.
—Não é disso que eu falo! Eu digo que é estranho você ser… bom… com crianças.
Bakugou não sente indignação ou nada negativo na voz de Kizu, mas, dito daquele jeito parecia um insulto.
E por quê isso seria estranho?!
Pode-se dizer que esse é o maior “segredo” de Katsuki. E, a pior parte é que ele nunca fez questão de esconder esse seu lado, apenas… acabou acontecendo.
Desde que se lembra, Bakugou sempre foi bom cuidando de crianças. Isso veio de seu passado, já que por muito tempo teve que trabalhar em um orfanato para conseguir ganhar algum dinheiro, e desde antes da separação dos seus pais. Mesmo que as condições fossem melhores antigamente, ele gostava de ter o próprio dinheiro para gastar. Pedir dinheiro para seus pais era… humilhante, no melhor dos cenários.
De forma impressionante, ele se deu muito bem trabalhando nos orfanatos. Não pagava tanto, e em geral ele cuidava de muito mais coisas do que o seu papel de cozinheiro assistente, mas… as crianças gostavam dele, e quando precisava, Katsuki podia cuidar delas sem muitas dificuldades. Nunca que vai admitir esse fato para alguém, só que no início ele fez isso muito mais para tentar ter alguma espécie de redenção do que qualquer outra coisa. No caminho pra isso, Bakugou se viu… apegado às crianças. O suficiente pra ele cogitar ficar naquele lugar, mesmo pagando menos que outros. Pouco tempo antes de entrar na U.A, ele se viu obrigado a sair para focar no treinamento.
—É só… é você, sabe?
—Você tem a fama de ser alguém violento e animalesco, e quando você tava falando com o moleque, parecia muito mais calmo e… compassivo.
…
Isso é… um problema?
Katsuki lançou outro olhar para Yasha após isso. Mesmo de cima dos telhados, ele pode ver um pequeno sorriso no rosto do garoto, parecia… animado, quase saltitando. Provavelmente isso vem de toda a segurança que Bakugou tentou garantir para o moleque. Pensando nisso, Katsuki sente um meio-sorriso aparecendo novamente no seu rosto, não dá pra se segurar direito vendo isso.
—...S..
Bakugou pensou ter conseguido ouvir Kizu falando algo, mas ela pareceu segurar o que quer que estivesse pensando em falar, e, nos segundos seguintes ao silêncio, ele quase pensou ter conseguido ouvir Kizu suspirando agora.
—Não… não é um problema.
…
Tsk… ainda bem.
—Uhum…
Até uma lesma perceberia que Kizu estava escondendo algo, e, isso não passou despercebido por Katsuki. Mas, estava cansado de discutir com sua… voz interior, então resolveu só ignorar por agora. Era melhor assim. Ele ainda tinha uma missão para concluir, e não estava muito longe da área designada a si pelo corvo idiota que recebeu.
Não demorou muito mais, e Katsuki viu Yasha parando em uma casa pequena algumas poucas ruas à frente. O garoto ficou parado na porta por alguns segundos, o que deu tempo para Bakugou observar bem a moradia. Era pequena, ainda mais do que a sua, e ele dúvida muito que dê para mais do que uma pessoa viver bem naquele lugar. Na verdade, até mesmo uma pessoa sozinha teria dificuldade ali.
Logo, o garoto parece tomar coragem para bater na porta, mas, antes disso, Yasha se vira um pouco, e balança um pouco as mãos em uma despedida desajeitada na direção de Katsuki. Vendo isso, Bakugou levanta um pouco a mão, também se despedindo do moleque que conheceu e salvou hoje.
Após essa despedida, a porta da casa dele se abre abruptamente, e uma mulher que Katsuki acha ser a mãe ou irmã do garoto o abraça, e dá pra perceber algumas lágrimas em seu olhar. E, assim, Katsuki vê uma deixa para sair. O garoto estava seguro agora, e ele pode dizer que salvou ao menos uma pessoa hoje. Mesmo que não seja necessariamente de um oni, ainda foi um salvamento.
Quando Yasha entra em casa de forma visível, portas fechadas e tudo, Katsuki finalmente começa a voltar a correr na direção em que estava antes.
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Não demorou até que finalmente Katsuki chegasse na parte pobre da cidade, no extremo norte. É uma das maiores partes da cidade, e também a mais insegura de todos. Claro, não tinha tantos vilões poderosos ali, mas, tem vilões de pequeno porte em grande quantidade, e pouquíssimos heróis patrulhando essa área também. All Might era um dos poucos grandes heróis que ainda se preocupava em proteger essas pessoas sempre que podia, mas agora, sem ele… a criminalidade nessa área em específico aumentou bastante.
Bakugou rapidamente balança a cabeça com isso, ele não pode focar nisso agora. Ele tem um oni pra matar.
Sem mais demora, ele pula do telhado de uma casa até um beco próximo, focando sua audição em qualquer coisa minimamente estranha. Faltava pouco pra meia-noite, então muitos já estavam dormindo.
Mesmo com sua audição ativa o máximo possível, Bakugou não conseguia ouvir nada de muito estranho. Focando em todas as quatro direções, nada parecia chamar muito sua atenção, e tudo isso enquanto ele corria entre dezenas de becos diferentes. Focando pra cima, também não tinha nada de muito estranho nas casas e sobrados um pouco maior que as outras que ali estavam.
Merda… não parece ter nada de estranho aqui…
—Tem certeza?
Eu to correndo pra todos os lados com minha audição no máximo!
Esquerda, direita, frente, atrás, cima… não tem nada que indique a existência de um oni aqui.
—Baixo, talvez?
Katsuki arqueia uma das sobrancelhas com isso.
Baixo..?
—Sim, ué! Esse lugar tem um sistema de esgotos, não é?
Eu acho que sim… mas onde minha mãe e eu moramos essa merda para de funcionar sempre!
Aqui eu tenho quase certeza de que esse sistema de esgotos só não funciona.
Lembrar disso faz Bakugou sentir uma tremedeira leve por um momento. A quantidade de vezes que essas coisas pararam de funcionar na rua dele era impressionante, embora… ainda fosse melhor do que o lugar em que ele está agora.
—Exatamente! Se os esgotos não funcionam aqui, é o lugar perfeito para se esconder.
Bakugou para de andar por um momento, isso pode fazer sentido até. O oni pode se esconder lá durante o dia, pegar presas a noite, e guardar os restos que conseguir nos esgotos, já que ninguém se preocuparia em olhar lá. É um plano… não é muito inteligente a longo prazo, mas a curto prazo até funcionaria.
Tsk… talvez.
Não custa nada olhar, eu acho.
—Só temos que tomar cuidado com tartarugas… nunca se sabe.
…
Vou fingir que não ouvi o que você acabou de dizer.
—...Ehehhe!
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