Respeito
7 Boas Ações Merecem Uma Recompensa ou Não?
—...Se Light Hope não tivesse trazido Hordak pra cá, não teríamos tido a Horda, é verdade, mas ficaríamos presos em Despondos para sempre, enquanto Horde Prime continuaria a exterminar planetas até não restar vida no universo.
— O famoso bem maior — Mermista zombou — Não me sinto consolada.
— Querida, sei que não é fácil pra você — Sea Hawk apaziguou, ainda enxugando os olhos —Mas, apesar de tudo, Hordak também é um herói.
Em toda a sua vida de aventuras, o valoroso pirata nunca estivera tão perto da morte. Felizmente para ele, Netossa pôs em palavras o que Mermista estava pensando, só que de modo bem mais elegante:
— Decência básica não faz dele um herói.
Os olhos de Entrapta iam de Mermista para Netossa. Elas odiavam Hordak por causa das coisas ruins que ele fizera, e isso ela podia entender; mas, quando ele fazia alguma coisa boa, também ficavam irritadas. O que queriam que ele fizesse, afinal?
— Se salvar a minha vida e a de Adora foi decência básica, então tudo o que vocês fizeram pra salvar o mundo também é?
—É claro que não! São coisas diferentes! — Mermista e Glimmer protestaram ao mesmo tempo.
Catra deu uma risada, embora por dentro fervesse de raiva:
— Admitam, ela pegou vocês. Qual é o problema? Dói tanto assim ver caras maus como nós nos importando com alguém? Ou será que só princesas podem fazer boas ações? Porque, se fosse a mulher da Netossa...
— Spinnerella — Scorpia informou gentilmente.
Embora já estivesse se acostumando com as princesas e suas manias, Catra arrepiou-se. Tung Lashor não era um nome tão estúpido, afinal.
— Que seja. Se fosse Spinnerella que tivesse encontrado Adora, duvido que Netossa achasse que ela foi só “decente”. Conseguem imaginar? — fez uma vozinha dramática — “Meu bem, salvei este bebê de morrer de fome e frio no meio do mato”! — revirou os olhos e passou para uma voz grossa — “Não fez mais que a obrigação. Me dá mais café.”
—Eu não falo desse jeito — Netossa lançou um olhar constrangido para a esposa, que lhe deu uma cotovelada brincalhona:
— Mas no café ela acertou direitinho.
As princesas mais jovens se entreolharam, sem saber como responder.
— Catra tem razão— Perfuma admitiu, um pouco hesitante — Estamos tão cegos pelos nossos sentimentos negativos que esquecemos que existe bondade em todos os seres vivos… menos Horde Prime, mas Hordak não é uma exceção. Eu mesma esqueci disso — baixou os olhos, envergonhada por ter sido “negativa” a ponto de quase causar uma tragédia; porém, subitamente lembrou-se de algo agradável e seu olhar se iluminou — Por outro lado, teria sido tão bom se Adora tivesse sido encontrada por um dos nossos! Poderia ter sido criada em Plumeria, por exemplo. Aprendendo a amar a natureza e a paz... — suspirou fundo, como se Adora fosse fã de guerra e poluição.
— Hã… talvez, mas… — Scorpia começou, notando que Catra não havia gostado dessa hipótese, porém Castaspella já se juntara a Perfuma no suspiro e na imaginação:
— Ou em Bright Moon. Se um de meus alunos a tivesse achado, poderíamos ter adotado você — explicava para Adora, pois uma senhora educada não falava dos outros na frente deles — Teria sido criada como irmã de Glimmer e seria tão amada quanto ela… — bateu os olhos em Hordak, fez cara de nojo e se virou para outro lado — Em vez de crescer atormentada por Shadow Weaver.
Para surpresa de Adora, Hordak arregalou os olhos, como se nunca tivesse lhe ocorrido que Shadow Weaver não trataria bem suas filhas adotivas. Fez força para não mostrar que o comentário o perturbara, mas não podia impedir que suas orelhas baixassem. Por sua vez, Entrapta acompanhava tudo com ar confuso, mas tampouco parecia à vontade e segurava o braço de Hordak, consolando-o, talvez também procurando consolo nele. E Catra? Adora procurou-a com os olhos. A gata estava parada a alguns metros dela. Mesmo sabendo de antemão que Catra não devia estar gostando daquelas especulações bem-intencionadas mas egoístas, Adora ficou chocada ao vê-la tão infeliz, as orelhas ainda mais caídas que as de Hordak, os olhos fitando o nada. Ao perceber o olhar da namorada, Catra virou o rosto, porém não saiu do lugar. Adora conteve a vontade que sentia de abraçá-la: “Não deixa de ser um progresso. Nos velhos tempos, ela teria berrado um monte de acusações na minha cara e fugido pra chorar escondida.”
Bem que gostaria de chamar a atenção dos outros, pois mais gente entrara no joguinho. Obviamente, era uma alternativa muito mais agradável do que a realidade:
“Eu teria gostado de ter uma irmã mais velha, embora preferisse alguém como Glimmer…”
“Eu não me importaria, tipo, de ter Adora como irmã. Teria sido mais fácil aturar o meu pai se tivesse alguém comigo pra segurar a barra…”
“Nunca quisemos ter filhos, mas se uma de nós realmente tivesse achado aquela bebezinha, poderiamos ter tentado… ah, não me olhe assim, Spinny, sei que está pensando a mesma coisa…”
Até Netossa e Spinnerella? Adora botou a mão sobre os olhos, mas tirou-a antes que alguém notasse. Não queria parecer ingrata. E apesar de frustrante, o carinho deles era sincero. Era comovente quando lembrava de como se angustiara acreditando que ninguém fora da Horda gostaria dela se não fosse She-Ra. Agora descobria que a teriam aceito e amado quando ainda era um bebê comum e sem poderes. Isso deixava seu coração quentinho, a ponto de quase poder ignorar a bola de frustração que crescia em seu estômago...
Não. Tinha que parar de negar seus verdadeiros sentimentos. Não era lisonjeiro, nem comovente, nem aquecia seu coração… bom, aquecia mas também era revoltante. Seus amigos não apenas se recusavam a admitir que seu ex-inimigo fizera alguma coisa boa mas também insistiam que teriam feito melhor. Catra tinha razão: se outra pessoa a tivesse encontrado, teria sido bem recebida; como fora Hordak, tinham pena dela. Mas, como chamar a atenção deles sem magoá-los? Tocou de novo a testa, tentando refrescá-la com a própria mão. Sua cabeça vinha latejando já fazia algum tempo, mas havia piorado depois que ela fizera os hologramas. Sentia um gosto ruim na boca, também.
— Adora, você está bem? — a voz de Bow a assustou. Pestanejou, como se acordasse de um pesadelo. Ele, Glimmer e Catra (que deixou a autopiedade de lado ao saber que sua garota podia estar passando mal) haviam se juntado em volta dela, com cara de preocupados. Ter sua família – sua verdadeira família, não a da fantasia dos outros – em volta dela fez sentir-se um pouquinho melhor, mesmo que isso não eliminasse o mal-estar.
— Estou… — chutou-se mentalmente e corrigiu — Na verdade, não. Estou enjoada e a minha cabeça está me matando. Acho que aqueles cupcakes não me caíram bem.
Castaspella aproximou-se também:
— Você deveria entrar e deitar um pouquinho, querida. Scorpia pode fazer um chá de ervas para assentar o estômago. Já vamos mesmo nos recolher, assim que eu descobrir para onde o Micah foi… e decidirmos o que fazer com ele — pelos lábios repuxados para baixo, era óbvio que se referia a um certo clone. Se tivesse dito “aquilo” combinaria muito mais com seu tom de voz.
Glimmer se conteve para não revirar os olhos:
— Tia, eu já disse que vamos fazer o julgamento só depois que voltarmos pra Bright Moon. Dias depois, não assim que a gente chegar lá — frisou — Primeiro que não foi só Hordak que cometeu crimes contra Etéria. Segundo, não podemos ignorar o que Adora nos mostrou, mesmo que seja o que muita gente aqui está querendo (Adora teve vontade de abraçá-la). Terceiro, como a senhora já observou, todos nós precisamos descansar. E ele também.
— Entrapta concorda com você — Bow observou, com ar divertido.
A inventora estava discutindo com Hordak, enquanto apontava para uma cadeira que formara com seus cabelos. Ele insistia em ficar de pé, com os braços cruzados. Seria engraçado, se o cansaço dele não fosse evidente e Entrapta não estivesse de máscara. Com a convivência, Adora acabara percebendo que a inventora escondia o rosto quando estava ansiosa ou infeliz; e, claro, Hordak também sabia disso. Ele se inclinou, aproximando seu rosto da máscara, com uma expressão suave que parecia estranha nas linhas duras de seu rosto ; em qualquer outra pessoa, aquilo seria chamado de ternura. Aos poucos, a Aliança foi parando de conversar para acompanhar a cena. Será que ele ia tirar a máscara dela? Será que ia ter coragem de beijá-la, ali, na frente de todo mundo? Ugh! Eca! Perfuma cobriu os olhos de Frosta, ignorando os protestos da menina. Scorpia e Sea Hawk, por outro lado, pareciam encantados e cutucavam-se mutuamente, com os olhos brilhando de expectativa.
Hordak sequer a tocou. Ele sussurrou alguma coisa, depois endireitou-se e recuou alguns passos. Entrapta, ainda de máscara, desmanchou a cadeira e afastou-se dele também. Depois, para surpresa geral, expandiu os cabelos. Pufou-os seria uma palavra mais apropriada, pois o volume foi tão impressionante que muitos recuaram. Meses depois, os ex-rebeldes ainda teriam dificuldade em achar uma palavra para descrever. A descrição mais próxima seria “pompom gigante” (embora Catra insistisse na “juba do Grizzlor se ele nunca cortasse o cabelo”), mas não chegava nem perto daquele esplendor roxo. Até Hordak deu um passo para trás, embora tentasse não parecer espantado. Mesmo assim, a reação dele foi a gota d’água para a já nervosa Entrapta, que começou a brincar com os dedos.
Só então ele percebeu que todo mundo estava olhando. Por um momento, sentiu pânico, misturado à vergonha de ter exposto Entrapta ao ridículo, porém rapidamente se recompôs e postou-se na frente dela de braços abertos, protegendo-a dos olhares:
— Ignore-os. Olhe para mim!
Não foi nada delicado, mas sua mudança de atitude a fez recuperar a confiança. Ela cerrou os punhos, aprumou os ombros e ergueu-se sobre os cabelos, sentando neles como normalmente fazia. Uma nova cadeira se formou embaixo dela, só que mais larga, graças ao volume extra, de modo que Hordak conseguiu sentar ao lado dela. Assim mesmo, a cadeira ainda era apertada para um clone e uma humana (ainda que uma humana pequena), e como Hordak cuidava para não encostar nela, acabou sentando na beirada, com quase meia bunda para fora. Ninguém, contudo, tinha vontade de rir deles.
Scorpia recuperou-se rápido da decepção:
— Ah, entendi. Ele não queria descansar enquanto ela ficasse de pé. Que coisa mais fofa!
— É… — Perfuma murmurou, libertando Frosta.
— Igualzinho a “O Coração Que Não Era de Pedra”! — Sea Hawk levou a mão ao peito, emocionado — “Lorde Vorpanak não podia mostrar abertamente seus sentimentos porque isso o tornaria vulnerável aos olhos de seus inimigos e subordinados…”
Scorpia continuou:
—…”Mas não importava porque Elísia podia ler o afeto dele em seus pequenos gestos…”
— “E atenções”! — os dois terminaram em coro, segurando as mãos um do outro e dando gritinhos daquele êxtase que só fãs que partilham uma idêntica paixão conseguem sentir.
Mermista arregalou os olhos para eles, depois cobriu o rosto com a mão:
— Isso é um pesadelo. Alguém por favor me dá um tiro?
As reações dos outros não foram tão dramáticas. Uns sentiam-se comovidos e ao mesmo culpados por sentirem alguma coisa boa pelo terrível Hordak. Uns desconfiavam que era encenação. Uns dois ou três sentiam vergonha por não terem percebido que Entrapta não estava se sentindo bem, o que não era de admirar depois de tudo o que ela passara! Bow pertencia ao último grupo. Adora não se sentia tão mal porque já tinha seus próprios problemas e estava contente porque sua amiga cientista finalmente encontrara alguém para cuidar dela. Catra, surpreendentemente, deu um meio-sorriso, murmurando “continua um idiota”. Já a cara de Glimmer ganharia qualquer rodada de poquer.
Quanto a Frosta...
— Por quanto tempo será que o cabelo dela aguenta o peso dos dois?
A curiosidade dela “acordou” Glimmer, lembrando-a de suas obrigações:
— Não precisamos saber disso agora. Entrapta, leve Hordak para a enfermaria. Vão ficar mais confortáveis lá — e desapareceu.
Entrapta concordou com a cabeça mas não levantou a máscara, não comemorou com gritinhos nem começou a explicar sobre as propriedades de seu cabelo. Em silêncio, fez a cadeira caminhar em direção ao depósito e de passagem cutucou Erradinho, que ressonava debruçado em Emily. Ele não se mexeu, porém a robô deu uma chacoalhada que o fez acordar, assustado. Ela soltou uns bips impacientes e com uma perna (boa) apontou o casal.
— Quer dizer que podemos entrar? Já não era sem tempo! — Swift Wind levantou-se, estendeu as asas e deu um longo bocejo — Até as minhas penas estão ensonadas! Viajar ao redor do mundo me deixou com jet lag.
Adora cortou o barato dele:
— Ainda não. Preciso dizer mais uma coisa... — e sorriu amarelo para o coro de reclamações — Nada de hologramas! Vai ser rapidinho.
Entrapta parou na entrada do depósito, virou a cadeira na direção deles e ergueu a máscara com curiosidade. Aquilo deu a Adora o restinho de coragem de que precisava. Respirou fundo, sentindo o peso de todos os olhares presentes:
— Estou comovida em saber que vocês gostariam de ter me adotado quando eu era bebê. Sério. Estaria mentindo se não admitisse que já pensei também como seria ter crescido entre vocês — viu Catra se encolher — Mas não trocaria minha infância na Zona do Medo por nada.
Catra levantou a cabeça, atônita; foi quando viu que Adora se aproximava dela a passos largos. Antes que a gata reagisse, Adora passou o braço em torno dos ombros dela e puxou-a para si. Catra ficou rígida, mas era mais porque estava contendo um soluço; depois relaxou, passou o próprio braço em torno da namorada e colocou a cabeça no ombro dela, ronronando. Adora suspirou, feliz, depois se virou para os dois cientistas afastados da multidão:
— E serei sempre grata a Hordak por ter salvo a vida de uma de minhas amigas e a minha. Apesar de tudo. Era só o que eu tinha a dizer.
Por dentro, estava se mordendo porque não conseguira pensar em nada mais grandioso para dizer. Depois de tudo que fizera por Hordak naquele dia, não dissera nada mais do que o óbvio. Contudo, ele pareceu sinceramente surpreso. A reação de Entrapta foi mais tocante: seu rosto se abriu para Adora num sorriso, os olhos rosados cheios d’água. Já os membros da Aliança começaram a entrar em silêncio no abrigo, mas pareciam pouco à vontade. Não dava para saber se se sentiam rejeitados ou envergonhados de seu comportamento. Adora esperava não ter magoado ninguém, mas não se arrependia. Nem um pouco, pensou, acariciando o cabelo curto de Catra.
Glimmer apareceu de repente e olhou em torno, aflita:
— Algum de vocês viu meu pai? Não consigo encontrá-lo em lugar nenhum! — teleportou-se e reapareceu em seguida — Ele não está lá dentro! Já olhei em vários lugares! — transportou-se para perto das árvores, deu uma espiada, depois voltou para perto dos amigos, com evidente aflição.
Foi o suficiente pra começar uma nova confusão. Os que já haviam entrado voltaram para fora, mesmo sem saber no que poderiam ajudar. O barulho foi tanto que até Entrapta acabou vindo (a pé) dar uma espiada.
Catra não perdeu tempo. Enquanto todos tentavam chegar a um consenso sobre a última vez em que tinham visto Micah, ela correu até as árvores mais próximas. Levou alguns minutos, mas conseguiu captar o cheiro dele, que a levou até um rastro fresco de pegadas. Para não deixar dúvidas, havia também algumas passas e cascas de nozes no chão.
— Ele passou por lá! — voltou correndo para os amigos, que acenaram e gritaram alto, exigindo silêncio da multidão.
— Seu pai passou por aquelas duas árvores entrelaçadas — Catra explicou, assim que todos se acalmaram — Os rastros que ele deixou são tão visíveis que até você encontraria, Adora — provocou, recebendo um sorriso em troca — Podemos organizar uma busca ou ficar enrolando até amanhã.
— Você não tem uma boa impressão da gente, não é? — Swift Wind observou.
— Não preciso de impressões, eu estou vendo! O tempo que vocês perdem com picuinh…
— JÁ CHEGA!! — Glimmer explodiu — Vocês todos podem ir descansar. Eu vou procurar meu pai sozinha! — depois lembrou-se de algo importante e olhou séria para Adora.
— Já sei, já sei — a loura mostrou as palmas das mãos —Chega de She Ra até amanhã.Você já derrotou seu pai uma vez; acho que dá conta dele de novo e de qualquer coisa que tiver na floresta.
Entrapta fez menção de oferecer seu tablet a Glimmer para localizar Micah, porém Catra se adiantou, junto com Melog:
— Nós vamos também. Nunca se sabe o que se pode encontrar nesses matos.
Entrapta guardou o aparelho, satisfeita. Mesmo ela podia perceber o orgulho de Adora por Catra ter se voluntariado. Momentos assim confirmavam que fizera a coisa certa ao “perdoar” aquela gata mal-agradecida.
As coisas haviam saído melhor do que esperara, concluiu, enquanto voltava para dentro. Enquanto as princesas se divertiam com aquela brincadeira chata de especulação, ela morrera de medo de que a separassem de Hordak. Achara que seria obrigada a pedir desculpas pra Mermista e pra Perfuma (nunca!) porque elas só queriam o seu bem. Glimmer e a tia com nome difícil prenderiam Hordak num campo mágico ou o trancariam num quarto e não a deixariam falar com ele, embora tivessem deixado aquela bruxa mascarada andar solta, fazendo pouco de todo mundo. Vai entender!
Em vez disso, Glimmer deixara ela ficar com Hordak, e no melhor lugar do depósito! E Adora ainda havia confirmado que se importava com ele, sim. Para Entrapta, era um alívio não ser a única pessoa com quem Hordak podia contar. O pobrezinho precisava de amparo, não de caras feias e recriminações. Devia estar sentado na beira de uma cama agora, se enchendo de culpa porque “tudo” dera errado. Entrapta saltou os dois lances de escada que separavam a enfermaria do resto do depósito e espiou por entre as portas.
— Hordak?
Seu coração quase parou. Hordak estava agachado de costas para ela, na outra ponta do quarto e sem o manto, que fora atirado num canto. Emily havia se encostado numa parede entre as camas para se desligar, e ele estava examinando a robô, com ferramentas e peças a seus pés. Entrapta quase podia vê-lo em seu santuário, vestindo a túnica azul-marinho particalmente coberta pela armadura, o cabelo azul empurrado de lado para não cair nos olhos. Imaginou que quando ele se virasse, estariam vermelhos, emoldurados pelo rímel preto que lhe caía tão bem.
Ele retesou-se e se virou, os olhos verdes e nus, o cabelo branco e despenteado acentuando seu desânimo.
— Você não deveria estar trabalhando — ela repreendeu, mas sua voz era terna.
— Meu ir… Erradinho me trouxe ferramentas e algumas partes de robôs. Conseguiu até uma perna nova. Pensei em lhe fazer uma surpresa, mas minhas mãos estão tremendo…
— Mas você me surpreendeu! — num pulo, Entrapta atravessou o quarto e postou-se junto dele, segurando seus ombros — Você está exausto. Emily consegue esperar até amanhã. Na verdade, acho que ela vai preferir acompanhar seus consertos acordada — riu, mas ele parecia arrasado:
— Eu queria compensar pela humilhação que você sofreu há pouco, por minha causa.
Ah, ele estava achando que o fuzuê por causa de seu cabelo fora culpa dele! Os olhos dela ficaram vermelhos de raiva:
— Não fui humilhada! O pessoal sempre faz onda com qualquer coisinha que eles não achem normal! Francamente, não sei o que há de tão maravilhoso em ser normal! Não existe criatividade do normal, nem descobertas — depois desse desabafo, ela murchou um pouco — Mas nenhum deles vai rir de mim. Não como o pessoal da guilda de artesãos ou como outros… que conheci. Eles são gente boa, apesar de complicados.
— Essa “gente boa” queria afastar você de mim — ele fez cara feia.
— Mas não afastaram! Na verdade, desconfio que foi a sua sugestão de eu fazer uma cadeira maior que convenceu Glimmer a me deixar ficar com você – enrolou o cabelo em volta dos braços e cintura dele, enquanto pegava sua mão – Venha, vamos descansar.
Hordak não resistiu. Entrapta praticamente jogou-se ao lado dele na cama, porém respeitou seu espaço. Ficaram olhando o teto, curtindo a presença um do outro.
— O que foi aquele barulho lá fora? — ele quis saber.
— Descobriram finalmente que Micah saiu.
— É mesmo? — ele deu uma risadinha nasalada — Pensei que só notariam a ausência dele amanhã.
— A família dele notou. Glimmer decidiu procurá-lo sozinha, mas Catra insistiu em ir junto, pra farejar ele — Entrapta olhou o teto por alguns segundos, muito séria — Me sinto meio culpada de não ter avisado a Glimmer logo que ele saiu. Mas pensei que ele voltaria logo.
Hordak lembrou-se do olhar cheio de ódio do rei, com Frosta no colo, praticamente acusando-o de ter cansado a menina. Se os outros amigos de Adora não haviam recebido bem os hologramas, para seu soberano devia ter sido muito mais difícil ver seu velho inimigo fazendo o que Catra chamara com exagero de “boas ações”. Devia ter ido passear na floresta para esfriar a cabeça.
— Ele é um dos seus amigos?
— Não chega a tanto. Nunca chegamos a conversar muito… — ela bocejou — Mas ele foi gentil comigo quando os outros me evitavam -com exceção de Scorpia e do Bow — depois que fui trazida da Ilha da Fera. É porque ele passou muito tempo lá. E ele te ajudou a me salvar da planta da Perfuma, não esqueça.
Hordak quase perguntou se ela sabia quem mandara Micah para a Ilha da Fera. Mas é claro que sabia. A arrogante irmã do rei devia ter esfregado na cara dela várias vezes. Mulher impertinente, que tentara diminuir Entrapta chamando-a de criança.
Enquanto Micah reconhecera Entrapta como heroína e respeitara a vontade dela. E pusera seu rancor por Hordak de lado para salvá-la.
— Seu aviso não faria diferença — argumentou — A rainha e as outras princesas pensariam o mesmo que você e voltariam às suas conversas vazias. Se o rei Micah sobreviveu por anos naquela ilha, conseguirá ficar sozinho na floresta até que a filha o encontre.
Com a ajuda de Catra. Será que o rei sabia do papel dela no desaparecimento da esposa? Era incompreensível que a rainha Glimmer fosse amiga da mulher que a deixara sem mãe. Não… Catra a havia salvo de Horde Prime. Fora punida por causa disso.
“Não se preocupe. Será o nosso segredo.”
Viu uma tesoura se mexendo. Cachos de cabelo castanho caíam no chão imaculado.
A piscina…
Um peso quente no lado do corpo acordou-o de suas terríveis reminiscências. Entrapta havia caído no sono e apoiava-se nele. Estava até babando. Hordak ergueu o canto da boca. Mesmo inconsciente, ela ainda o ajudava a escapar das trevas. Com muito cuidado para não acordá-la, estendeu-a sobre a cama. Ela dormia tão profundamente que Hordak conseguiu até remover seus sapatos e máscara. Depois, puxou o cobertor por cima dela.
Hordak apalpou o colchão e olhou as camas. Eram macias demais. Não conseguiria dormir numa delas, depois de meses repousando em pé dentro de uma cápsula. Estendeu um cobertor extra no chão e esticou-se sobre ele. Entrapta ficaria danada no dia seguinte, mas acabaria entendendo.
A situação lembrava um pouco de quando chegara em Etéria. Novamente, estava em um ambiente estranho, cercado de pessoas que o odiavam. Só que, naquela época, ele ainda tinha os restos de sua nave e um ideal que o sustentava. Agora não tinha nada. Só lhe restava Entrapta, mas até quando? A rainha os deixara ficar juntos porque tivera pena dela ou para agradar Adora, mas não ia durar. Micah não permitiria.
E poderia culpá-lo?
Sua mão tateou o cinto atrás do cristal. Felizmente, já estava sonolento demais para lembrar que o perdera também.
* * *
— Não quiseram brigar com vocês?! Fala sério!! — Frosta não conseguiu controlar o espanto.
Bow e Scorpia fizeram “chhh”, preocupados com Adora e Swift Wind, que ressonavam muito perto deles. Os três eram os (aparentemente) os únicos que ainda não haviam pego no sono, e aproveitavam para se colocar ao par das aventuras do dia. Scorpia estava contando como fora sua visita à antena para recuperar o tablet de Entrapta.
— Não é que eu esteja reclamando — ela explicava — Mas foi muito estranho. No caminho, vimos uma porção de clones andando sem rumo. Pareciam perdidos, nem sequer olhavam pra gente. Erradinho tentava falar com eles, mas todos fugiam. Quando entramos na antena, havia um bando escondido lá dentro. Estavam todos agachados num montinho, com medo da gente. Alguns estavam até chorando!
— Erradinho chorou quando o desconectei da Mente Coletiva — Bow informou.
— Eu sei. Ele me contou como você e Entrapta o salvaram — Scorpia sorriu para ele.
Bow desviou os olhos, balbuciando que não fora nada. As duas pensaram que ele estava sem graça, mas a vérdade era que o rapaz sentia uma culpa enorme porque teria abandonado Erradinho, se não fosse pela insistência de Entrapta. Nem queria imaginar o que Prime teria feito com o pobre clone.
— Mas e o bando dentro da antena? — Frosta já estava impaciente — Não tentaram atacar vocês dois? Você acabou com eles?
— Eles já estavam acabados. Os que estavam na frente rosnaram pra nós, mas o resto implorou pra que a gente os poupasse. Eu não sabia o que fazer até que Erradinho conseguiu acalmá-los. Fez um discurso sobre não querer “perturbar os irmãos” e por fim pediu o tablet, que estava largado num canto. Nem haviam tocado nele! Entregaram o aparelho pra gente e viemos embora. Fim. — Scorpia suspirou, depois de alguns segundos — Sei que mataram muita gente, mas fiquei com pena deles. Não pude evitar.
— Que sem graça — Frosta fitou para o chão, fazendo beicinho. Quem diria que clones fossem tão fracotes sem a Mente Coletiva? Depois pensou um pouco e se virou de novo para a amiga — Você acha que eles vão estar lá amanhã? Poderíamos levar comida pra eles.
— Mesmo com os suprimentos do castelo, a comida que temos mal chega pra nós — Bow lembrou, recostando-se sobre seu saco de dormir — Mas, agora que não precisamos nos esconder, talvez Perfuma possa criar uma horta com seus novos poderes. Ou até um pomar! Eu adoraria umas frutas fresquinhas… — só de pensar em maçãs, peras e uvas suculentas no lugar da refeição habitual de caça, pesca e ervas, sua boca encheu-se de água.
Scorpia não disse nada, mas olhou na direção de Perfuma, que vinha triste dos lados da enfermaria. Desde que Mermista começara aquela confusão com Hordak, sua florzinha andava muito jururu.
Sea Hawk lançava olhares compridos para Mermista, que ressonava com as costas viradas para ele. Estava zangada porque ele havia “romantizado” a relação entre Hordak e Entrapta. Ele entendia, mas desta vez sentia-se injustiçado. Era romântico! E só porque simpatizara com eles não queria dizer que havia “mudado de lado”. Como ela podia achar isso, depois que ele a ajudara a lutar contra a Mente Coletiva?
Paciência. Ela ia perceber que fora injusta. Sempre percebia, embora nunca admitisse. E, como prova de seu amor, ele lhe daria aquela linda pedra rosa que encontrara nos restos de uma planta. Pelas descrições dos amigos, devia ser a mesma planta gigante que sua corajosa Mermista havia enfrentado hoje. Ela ia gostar da lembrancinha. Mas primeiro, perguntaria a Adora o que estava escrito na pedra. Não repetiria o mesmo erro do vigésimo aniversário dela, quando lhe dera um lindo bracelete comprado de uma criatura-lesma. Mermista adorara o bracelete até o dia que foram a um restaurante e uns tipos mal-encarados começaram a assediá-la. Ao que parecia, o bracelete era usado por algumas espécies para indicar que o usuário estava “disponível”. Ela quase o matara na ocasião (depois de dar uma surra em cada um dos meliantes), e Sea Hawk prometera nunca mais lhe dar presentes de origem desconhecida. Embora não acreditasse que tivesse algo a temer com aquele ali.
Ninguém desperdiçaria uma pedra tão bonita e perfeita escrevendo alguma coisa vulgar nela.
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