Resonantie
8 Intiem - Íntimo
Ainda cavalgando Licht olhou para trás, fitando meus olhos, e disse:
- Te levarei para sua casa.
Ela sorriu, e voltou-se para frente, conduzindo o cavalo que corria muito, e eu mal conseguia me segurar em sua cintura fina.
Quase entardecendo, estávamos cansados e com medo de que nos encontrassem. Descemos do cavalo próximos a uma pousada. Eu fui tirando a armadura, ficando apenas com o forro acolchoado que se vestia por baixo. Deixei-a em algum canto, e me senti aliviado por não estar mais carregando tanto peso.
Queríamos passar a noite na pousada, e sair antes mesmo do amanhecer, para que não desse tempo de nos reconhecerem pelos cartazes que logo seriam espalhados por todos os lugares.
Antes disso, nos sentamos no topo de um morro gramado que descia certa distância até a beira de um pequeno lago, onde havia muitas flores e borboletas voando em volta. Eu olhei para Licht, ela estava contemplando o horizonte e parecia estar muito longe em seu pensamento. Eu perguntei:
- No que está pensando?
Ele me respondeu, mantendo o olhar fixo ao horizonte.
- Em quanto tempo eu não via um pôr do sol tão lindo como esse. Desde que minha mãe morreu e eu fui morar na casa de meu pai, eu não saí de casa, e nem sorri.
Nesse momento me lembrei de que a primeira vez que a vi, ela havia sorrido pra mim.
- Eu sinto muito, mesmo. Mas poupar as pessoas de um sorriso tão lindo como o seu, é crueldade.
Um leve rubor havia tomado conta de suas bochechas. Ela sorriu sutilmente fechando os olhos.
- Eu não tinha mais ninguém. Meu pai era casado antes de conhecer minha mãe, e tinha um filho com sua esposa. Mas quando conheceu minha mãe, se apaixonou perdidamente... E teve uma filha com ela, traindo seu casamento. Ele fez de tudo para manter eu e minha mãe, e tudo o que queria era que sua esposa não soubesse da nossa existência. Quando completei 12 anos, Sandor veio até a nossa casa nos contar que sua esposa havia falecido por estar muito doente. Minha mãe não quis ir morar com ele, pois Nícola estava muito abalado e saber que seu pai tinha outra mulher além de sua mãe, o faria ainda mais triste. Três anos depois, minha mãe faleceu por doença, e apenas dois dias depois Sandor me encontrou chorando, dentro de casa ao lado do corpo gélido de minha mãe. Aquilo foi um choque para nós dois, e Sandor não podia demonstrar. Ele me levou pra sua casa, dizendo para Nícola que havia me encontrado sozinha e que me trouxe para morar com eles. Nícola não conversava muito, e trabalhava bastante. Em tão pouco tempo, não consegui criar relações afetivas com ele, foi por isso que não senti tanto sua morte, mal nos víamos. E meu pai... Eu o via poucas vezes durante o ano antes do ocorrido. Foi uma mudança enorme vir morar com eles.
Tocado pela história, mal conseguia encarar Licht.
- Poxa, que história triste. Eu não sei o que dizer.
Eu me aproximei de Licht, e a abracei. Ela se virou para o lado, e me abraçou de volta. Percebi que estava chorando, e a segurei mais forte. Ficamos assim por um tempo, até que eu disse:
- Irei buscar algo para você. Feche os olhos!
Ela apenas enxugou as lágrimas, e tapou os olhos com as mãos. Eu desci morro abaixo cuidadosamente, e busquei a flor mais bonita que vi. Era da cor de seus cabelos, o pôr do sol deixava seu tom mais vivo, parecia pegar fogo. Eu voltei silenciosamente, e pedi para que abrisse os olhos. Coloquei a flor por trás de sua orelha, e deslizei minha mão pelo seu rosto. Ela corou levemente, e me deu um sorriso.
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