Resistência
1 Capítulo 1
Tessa fitou o corpo caído no chão, com um filete de sangue escorrendo pela parte de trás da cabeça. Estremeceu, abafando um grito com as mãos.
Precisava fugir. No entanto, como faria isso?
Ela permaneceu escondida na recepção o tempo todo, mas tinha certeza que haveria outros corpos espalhados pelo corredor da pensão.
Onde estaria o assassino? Talvez no andar de cima, atirando nos outros. E se não houvesse outros? E se só restasse ela e ele estivesse a sua procura? Tessa preferia não imaginar essa possibilidade.
Esgueirou-se, saindo de trás do balcão de madeira enquanto esticava o pescoço na tentativa de enxergar o corredor.
Vazio. Ufa!
Tessa quase suspirou aliviada, mas lembrou em cima da hora que não podia fazer nenhum barulho.
Continuou a se movimentar como antes: se arrastando no chão, fixando a mente na porta de saída a sua frente.
A saia justa atrapalhava o processo, assim como o salto ameaçava a todo instante fazer algum barulho, porém, sua mente gritava desesperada para que continuasse.
Estava quase lá… Quase lá. Faltava tão pouco.
A mulher desviou do corpo no chão. Seu João, o marido da dona da pensão, tinha uma parte do crânio faltando, com partes espalhadas no carpete, o líquido vermelho escorrendo…
Tessa parou e controlou a respiração. Era um homem morto e ponto. Se tivesse uma crise de pânico seria descoberta.
Mas o corpo não obedeceu quando ela o obrigou a voltar a se mexer. Pelo contrário, continuou parado, a respiração acelerada e entrecortada, a visão turva e então… E então Tessa ouviu.
Um grito vindo do alto da escada, o barulho ensurdecedor do tiro e o corpo da empregada parou aos seus pés.
Não adiantaria correr. Na verdade, ela nem tinha certeza se conseguiria essa proeza.
— A última — A voz alta e firme ribombou nos ouvidos da mulher — Gosto quando elas se escondem no armário, e você?
O assassino ajoelhou-se ao seu lado, esboçando um largo e satisfeito sorriso. Ele tinha os cabelos grisalhos, embora não aparentasse ter mais de quarenta anos e marcas de expressões nos cantos dos olhos.
— Ah, vamos, não chore — O sujeito tocou-lhe o rosto, secando suas lágrimas com o polegar — Você não tinha se apegado a eles, não é? — Ele fitou-a por um segundo e seu sorriso deu lugar a um semblante sério, assustador. Tessa estremeceu — Você tinha, não tinha? Já lhe disse, querida, pode fugir quantas vezes quiser, eu sempre vou encontrá-la. Agora vamos — estendeu-lhe a mão — Não dificulte as coisas. Da última vez tive que machucá-la e você sabe que odeio fazer isso.
Tessa ignorou a mão estendida e se levantou sozinha, cambaleando para fora da pensão.
Não tinha como fugir, nunca. Ele sempre a encontraria.
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