Resistência
3 Capítulo 3
Notas iniciais
O beijo com Tina no porão não havia sido o primeiro de minha vida. Na verdade, não foi o primeiro de nenhuma de nós duas.
Com doze anos, no aniversário de Samantha, uma amiga nossa de colégio, Daniel, um menino que estava duas séries à nossa frente, pediu para que eu “ficasse” com ele. Era bonito, alto, tinha pele bronzeada, cabelo castanho escuro e sorriso que derretia várias garotas, mas não a mim. Ainda assim, depois de alguma insistência, aceitei – em grande parte pela curiosidade de experimentar aquela sensação, que, na idade que eu tinha, praticamente todos os meus amigos e amigas estavam descobrindo. De início, tudo o que eu pude pensar era que aquilo era nojento demais, que nunca mais faria algo daquele tipo na vida. Porém, nos beijamos mais três vezes, e, quando eu voltei para perto de meus amigos mais próximos, com a cara mais inocente do mundo, convenci a mim mesma de que não era tão ruim assim.
No dia seguinte, quando contei à Tina sobre o que eu havia feito, percebi a expressão de mágoa em seu rosto, que, rapidamente, foi mascarada com um sorriso e seguidas perguntas sobre como havia sido. Disse a mim mesma que a tristeza que vira no rosto dela de início não passara de uma impressão errada que eu havia tido.
Quando tinha treze anos, beijei o segundo garoto de minha vida, Enzo, um vizinho que desde bem pequeno já demonstrava sua adoração por mim. Após eu ter cantado em um evento de rua, recebi dele um buquê de flores com chocolate. Ele me pedia – praticamente implorava – um beijo na bochecha em troca, o qual, segundo suas palavras, seria “para que pudesse dormir feliz”. Achei tão fofo que o beijei na boca, beijão mesmo, pegando o garoto de surpresa. Enquanto nos beijávamos, abri um pouco os olhos e, a alguma distância, percebi que Tina assistia à cena. Senti que ela estava vindo falar comigo antes de se deparar com aquilo. Ela virou as costas e saiu correndo. Pouco tempo depois desse episódio, começou a namorar.
Jean era o nome dele. Tinha dezesseis anos e era capitão do time de hóquei masculino, conhecido por toda a escola. Tina e ele não combinavam muito, mas eu não contestei a decisão de minha amiga. Porém, notei que ela não estava mais tão alegre, como sempre fora, e, como tínhamos muita intimidade, percebi que seus sorrisos, ao lado do namorado, eram fingidos, e que sempre parecia estar indo contra sua vontade quando o beijava. Em menos de cinco meses, o namoro terminou.
Em sua festa de quatorze anos, haviam se passado quase três semanas desde que o relacionamento tinha acabado. Parecia estar voltando a ser a menina que sempre fora, alegre, extrovertida. Depois de cantarmos os parabéns, enquanto estávamos sentados, com vários amigos, em uma mesa, comendo doces e rindo, a expressão facial de Tina mudou subitamente. Ela se levantou e saiu correndo para o banheiro. Corri atrás dela.
— O que houve? – quis saber, chegando à porta. A torneira estava aberta, e minha amiga atirava a água que dela jorrava no rosto, como se quisesse esconder alguma coisa. Ao me ouvir, fechou a bica e olhou para mim.
Estava vermelha.
— Vany, ele está aí – murmurou, com a voz sobrecarregada de tristeza – Jean está aí. Eu o vi entrando e corri para cá. Não quero falar com ele. Eu não...
— Tina! – era a voz um amigo nosso, gritando do lado de fora. – Jean está aqui, e quer falar com você!
Inesperadamente, ela me puxou para as escadas que levavam ao porão de sua casa. Descemos, correndo, e ela se sentou no chão empoeirado do ambiente escuro. Cambaleei até meus olhos adaptarem-se à escuridão. Quando vi onde ela estava sentada, agachei-me ao lado dela.
— Está com medo dele? – perguntei – Ele fez alguma coisa com você? – a raiva já começava a tomar conta de mim. Se a resposta fosse positiva, eu seria capaz de subir e arrebentar a cara daquele moleque. O fato de ele ser mais velho não me colocava medo algum.
— Não – ela sussurrou, olhando para mim – Ele não me fez nada, mas eu não quero falar com ele. Eu o magoei. Terminei o namoro sem mais nem menos, e ele não entendeu, porque realmente gostava de mim, mas... – ela chorava.
Sentei-me ao seu lado e enxuguei suas lágrimas.
— Mas você não gostava dele – concluí o que ela dizia. Ela apenas olhou para o chão. Eu havia acertado.
— Nunca gostei, Vany. Nunca, nunca – Tina soluçava. As ondas vermelhas de seu cabelo grudavam-se pelo rosto nos locais por onde as lágrimas escorriam.
— Então por que você aceitou namorá-lo? – finalmente, fiz a pergunta que estava entalada na minha garganta há meses.
Tina pareceu mudar. Afastou os cabelos do rosto, secou as malditas lágrimas e tomou fôlego. Olhou para mim. Mesmo no escuro, seus olhos verdes pareciam brilhar. Ela, então, passou a mão por minha face, delicadamente, acariciando cada centímetro da minha pele. Fechei os olhos e senti seus dedos descendo por meu pescoço, meu tórax e minha barriga. Aquilo foi estranhamente bom. Em tantos anos de amizade, nunca um toque havia sido tão significativo quanto aquele. Sua mão chegou à minha coxa e a apertou um pouco, fazendo com que eu abrisse meus olhos e a encontrasse contemplando-me, olhando-me de uma maneira que nunca havia feito antes.
— Eu aceitei namorá-lo – ela começou a responder, cravando os olhos nos meus e tornando a tocar meu rosto – Para colocar ciúmes em você – ela suspirou – Mas não deu muito certo. Eu apenas fiquei infeliz ao lado dele. E sei que você percebeu isso. Desculpe-me por tê-la deixado preocupada...
Eu ainda estava um pouco atônita com a revelação.
— Então... – comecei, sem poder terminar porque Tina beijava meu pescoço.
— Sim – ela sussurrou, com os lábios em minha pele – É isso mesmo.
E antes que eu dissesse qualquer coisa, sua boca estava na minha, nossas línguas estavam juntas, nossas salivas se misturavam. Aquele beijo foi diferente de todos os outros que eu já tinha experimentado até então. Meu coração batia tão forte que eu poderia vomitá-lo a qualquer momento. Todo o meu corpo ficou arrepiado e minha cabeça parecia girar. O som da festa ainda tocava, alto, lá em cima, e nossos amigos nos procuravam, mas não sairíamos dali tão cedo.
O tempo parecia não passar enquanto estávamos ali. Beijávamos e beijávamos mais, rindo entre os beijos como se fôssemos duas malucas. Por fim, decidimos nos levantar e voltar para a festa, antes que chamassem a polícia por termos desaparecido. Havíamos “sumido” por um pouco mais de meia-hora, e demos a desculpa de que tínhamos ido ao porão procurar um livro que eu queria emprestado, mas não o encontramos.
Para o alívio de Tina, Jean já havia ido embora.
— Talvez ele só quisesse mesmo me dar os parabéns – concluiu ela, mais tarde, enquanto arrumávamos as coisas.
Depois do beijo com Tina, beijei apenas mais um garoto – do qual, aliás, eu não gostava – e me senti extremamente culpada por isso. Senti que a estava traindo, mesmo que, oficialmente, continuássemos apenas sendo melhores amigas. Nossa sociedade era extremamente tolerante com qualquer tipo de relacionamento, hétero ou homossexual, esse não era o problema. A nossa maior dificuldade, em si, era esclarecer o que sentíamos uma para a outra.
Depois de jantar, dirigi-me para o meu quarto. Não queria mais pensar em Tina, não queria mais pensar em nada. Apossei-me de meu violão, preto e um pouco descamado em alguns pontos. Marcas do tempo. Eu o tinha desde meus três anos de idade, quando descobri o amor que sentia pela música. Toquei algumas que faziam sucesso na época, cantando junto. Quando era pequena, uma de minhas primeiras professoras no colégio percebera meu talento vocal e me indicara ao coral, onde cantei por dez anos – sendo, inclusive, voz principal nos quatro últimos anos em que nele estive. Fizemos apresentações não apenas no colégio, mas também em diversos eventos importantes, em competições esportivas, em aberturas de shows. Vencemos seis vezes o campeonato nacional de corais escolares. Éramos imbatíveis. Quando cheguei ao ensino médio, no entanto, precisei sair; minha grade de horários estava muito apertada e eu não teria mais tempo para ensaiar. Encerrava-se aí um dos períodos mais felizes de minha vida escolar. O coral havia se tornado parte de mim, e eu, sem dúvidas, um dos grandes nomes de sua história. Consegui fazer apenas mais duas aparições, e toquei violino duas vezes na orquestra do colégio. Nada demais: apenas o hino de Evlade e alguns sons de fundo. Foram duas peças. Mesmo assim, havia sido incrível para mim. Agora, só o que me restava eram fotos, lembranças e saudades. Muitas saudades.
Lembrei-me do que Tina havia comentado comigo mais cedo: talvez todos esses anos de dedicação intensa ao coral e os poucos meses em que estive na orquestra fossem levados em consideração por aqueles que escolhiam nossas faculdades. Talvez a universidade de música realmente me aguardasse num futuro muito próximo. E, pensando bem, eu ficaria muito feliz se isso realmente acontecesse.
Em algum momento durante alguma música, abri os olhos e fui surpreendida ao ver minha mãe apoiada na porta do meu quarto, observando-me enquanto eu cantava e tocava. Parei o que estava fazendo. Em sua boca, havia um sorriso. Ela caminhou até minha cama e sentou-se ao meu lado.
— Filha, seu talento é de fato impressionante – foi a primeira coisa que ela disse – Por favor, continue. Desculpe-me se te assustei. Eu só estava ali observando o quanto você é maravilhosa tocando e o quanto a sua voz é linda.
Enrubesci completamente. Embora minha mãe fosse, sem sombra de dúvidas, uma das melhores pessoas do mundo, e carinhosa até demais quando queria, seu jeito era, normalmente, mais fechado. Não era frequentemente que de sua pessoa vinham elogios assim. Eu sabia que, no fundo, ela amava o que eu fazia, mas uma demonstração desse tipo foi, indiscutivelmente, uma surpresa.
— Ah, mãe... – as palavras me fugiram.
— Eu sei que talvez eu nunca tenha realmente dito isso a você, e peço desculpas. Sabe, por mais que eu tenha sempre tentado ser uma mãe próxima dos meus filhos, acho que nunca demonstrei exatamente como eu me sinto em relação às conquistas de vocês – ela suspirou – E talvez você sinta isso mais forte, não é mesmo, minha filha? Você tem um irmão mais velho que vai se formar neurocirurgião, isso deve ser uma pressão e tanto – para minha surpresa, ela pegou o violão de meus braços e continuou – Eu sei bem como é... Também vivi isso. Sou a filha mais nova, e minha irmã se formou com louvor em Direito quando eu tinha apenas sete anos. Acho que nunca cheguei a contar, mas, assim como você, eu tinha uma paixão enorme pela música.
Tive, então, uma visão que jamais imaginara ter em minha vida: minha mãe dedilhando alguns acordes em meu violão. Ela olhou para mim e deparou-se com minha expressão espantada, enquanto a observava. Riu.
— Nunca esperou por isso, não é mesmo? – balancei negativamente a cabeça, boquiaberta – Não comento muito a respeito disto com ninguém... Nem mesmo com o seu pai eu cheguei a tocar nesse assunto. Gosto muito de música. Sempre gostei. Quando criança, aprendi a tocar violão e um pouco de flauta no colégio, mas, por conta própria, parei. Convivia cotidianamente com meus pais comentando o quanto minha irmã era incrível, inteligente, o quanto ela se destacava na escola, depois na faculdade, e no emprego. O quão ótima ela era, e ainda é, desempenhando sua carreira, e a rapidez com a qual conseguiu ascender de advogada a juíza do Supremo Tribunal de Evlade. Eles sempre me falavam que queriam que eu fosse tão boa quanto ela, que desempenhasse uma profissão de tanto prestígio quanto – seu olhar ficou estagnado em algum ponto do chão. Seus dedos ainda faziam as cordas de aço do instrumento vibrarem levemente – E, com toda a certeza, musicista não estava entre as opções deles. Parei de tocar, deixei de ir às aulas de música, e tentei direcionar o meu foco à única matéria que realmente me interessava no colégio: a Biologia. E hoje em dia sou médica, pediatra. Realizei o sonho dos meus pais, com toda a certeza.
Ela parou por um segundo. Olhou para mim.
— E, embora eu goste da minha profissão, minha filha, embora adore crianças e goste do prestígio que essa carreira me proporciona, eu não posso dizer que realizei meu sonho – ela me devolveu o violão.
— Nossa, mãe... Eu nunca iria imaginar que tudo isso aconteceu com você – foi o que consegui dizer, com a voz quase inaudível.
Ela sorriu.
— Apesar de tudo, tenho de reconhecer que, se tivesse seguido esse sonho, muito provavelmente não iria conhecer seu pai, nem ter os dois filhos lindos que tenho hoje – ela mexeu em meu cabelo, enquanto eu ria do elogio – Porém, o que eu quero mesmo dizer, Vany, é que tenho muito orgulho de você, por nunca ter desistido do coral, ou da orquestra do colégio, ou das aulas de música, apenas por ver seu irmão sendo um dos melhores alunos da escola e sonhando em ser médico. Tenho muito orgulho de que não tenha feito como eu, e mudado o foco da sua vida por outros fatores que não fossem a sua própria vontade. E o que eu tenho para dizer a você, minha filha, é: se for enviada para a faculdade de música, chegue lá e dê o seu melhor. Dedique-se muito, porque, com o seu talento, ser a melhor no que você fizer será apenas questão de tempo, e eu, seu pai e seu irmão sempre nos orgulharemos imensamente de você, entendeu? Nunca duvide disso.
Não aguentei e deixei que as lágrimas caíssem de meus olhos, enquanto abraçava fortemente minha mãe. Naquele momento, os dezoito anos de minha vida em que passei me sentindo quase que uma inútil na família tomaram, em minha cabeça, outra forma. Comecei a ver os mesmos anos de maneira diferente, lembrando-me de momentos em que as pessoas que eu mais amava no mundo realmente demonstraram ter orgulho de mim. Meu aniversário de apenas três anos, quando meu pai me deu de presente aquele violão que agora eu tinha nos braços; o dia em que, com nove anos de idade, Vicente me levou para conhecer o museu da história da música de Evlade, e ficou me observando admirado enquanto eu explicava para ele praticamente todos os detalhes do que lá víamos, uma vez que já havia lido tudo a respeito; e o dia em minha mãe chorou de emoção, quando cantei para ela em seu aniversário de quarenta e dois anos, fazendo ela questão de me apresentar para seus amigos e de enaltecer meu talento diante de todos, o que me deixou extremamente tímida. De uma hora para outra, todos esses acontecimentos inundaram minha mente. Sim, eles reconheciam minha aptidão com a música e se orgulhavam muito disso. Apoiavam-me no que eu era boa, assim como apoiávamos cegamente o meu irmão. Como eu nunca percebera tudo isso antes?
Depois de me soltar do abraço, minha mãe levantou-se da cama e puxou-me.
— Venha – foi o que disse – Há algo que eu nunca mostrei a ninguém, mas que gostaria muito que você visse. Tem a ver com tudo o que conversamos.
Meu pai já dormia profundamente. Sem fazer barulho, minha mãe entrou no quarto. Preferi ficar do lado de fora, e observei-a enquanto delicadamente ela abria a porta de sua parte no armário, introduzia a mão em uma gaveta e bem do fundo retirava um grosso livro. Quando saiu do cômodo, colocou-o em minhas mãos. Parecia ser bem antigo, tinha a capa de um violeta desbotado. Seu título estava praticamente apagado devido ao tempo. Só o que ainda restava eram as duas letras E e A, soltas. Minha mãe fechou a porta do quarto e levou-me até a cozinha, sentando-se em uma das cadeiras de nossa pequena mesa de jantar e convidando-me com o olhar a sentar ao seu lado. Assim que o fiz, ela tomou o livro de minhas mãos e o pôs sobre a superfície de vidro da mesa. Olhava para ele, com um olhar quase que encantado.
— Foi meu bisavô quem me deu este livro. – ela começou – Ele tem fotos, dados biográficos e feitos de milhares de pessoas que marcaram a história da humanidade. Mais de quatro mil páginas, Vany... – suspirou.
Aquilo soou interessante para mim. Mesmo assim, minha expressão facial estava confusa, visto que ainda não conseguia entender como aquele livro gigantesco tinha relação com o que eu e minha mãe estávamos conversando alguns minutos atrás. E ela percebeu isso. Riu.
— Você, provavelmente, não está entendendo nada, não é mesmo? – enquanto sorria e dizia isso, abriu o livro, folheando as primeiras páginas – Quando eu digo “pessoas que marcaram a história da humanidade”, minha filha, não quero dizer apenas política ou socialmente, mas refiro-me a todas as maneiras possíveis de se marcar essa história. E uma dessas formas inclui...
— A música – subitamente, compreendi sua intenção, e meus olhos brilharam – Mãe... – as palavras me fugiam.
Ela abriu um enorme sorriso, eu não estava acreditando naquilo. Continuou folheando aquele enorme exemplar, avançando seções como “esporte”, “culinária”, “educação”, “tecnologia”, “guerras”, e por todas elas eu via ao menos dois ou três nomes e imagens de pessoas conhecidas, das quais eu já tinha ouvido falar ou mesmo estudado a respeito. Ela continuou passando. As páginas amareladas começaram mostrar “teatro” e, finalmente, “música”. Eu mal podia acreditar no que estava vendo. Com todas as guerras que havíamos vivido até nossos dias atuais, por conta da ascensão dos grupos terroristas, muito da cultura do antigo mundo havia se perdido, já que milhares de povos sofreram a dizimação praticamente total e apenas uma possibilidade de manifestação cultural havia sido imposta. De todos os campos da cultura, o que, sem dúvidas, mais sofreu com todo o processo foi o da música. Milhões de letras e cifras de canções desapareceram de todas as fontes que se conheciam. Aqueles que se recusassem a aceitar a imposição e fossem pegos mesmo cantarolando versos de qualquer música eram impiedosamente massacrados. No mundo dominado pelos terroristas, nem mesmo os instrumentos musicais existiam mais. Pelo menos, não para a população escrava dos Oito – ou seja, praticamente todos.
A justificativa para tudo isso era a de que a música é uma das poucas formas de manifestação cultural acessível à quase totalidade dos seres humanos. Ninguém precisa saber ler para cantar ou tocar um instrumento, por exemplo. Mesmo os bebês, que ainda nem sabem falar, cantam, ou pelo menos emitem sons que se parecem com canções. É inegável que a música tem um poder absurdo de nos despertar emoções, de nos preencher de uma forma quase que sobrenatural, e de nos fazer suportar mesmo as situações mais extremas, dependendo da mensagem que passam. E isso, claramente, não escapou ao olhar dos Oito. Ainda que coibissem de forma total o acesso a livros, a meios de comunicação, e ainda que cegassem muitos de seus escravos, a música ainda poderia atingi-los e, possivelmente, carregar consigo mensagens subversivas, as quais teriam o poder de penetrar em suas mentes e inflamá-los em uma rebelião contra o sistema. Era um risco. Um risco que não poderia ser corrido. Além disso, músicas seriam uma forma de entretenimento, e em qual planeta escravos podem se divertir, ao menos se distrair um pouco? Com todos esses fatores associados, a música tornou-se terminantemente proibida naquilo que existia fora de Evlade.
No entanto, mesmo que aqui ela fosse uma forma de manifestação completamente legítima, todo o massacre provocado pelos terroristas influenciou naquilo que sabíamos e tínhamos acesso a respeito da música. Centenas de nomes históricos da música haviam se perdido para sempre, acreditava-se. Parei de acreditar naquilo quando peguei aquele livro das mãos de minha mãe e folheei, com calma e uma admiração pulsante, as páginas da seção de música. Pessoas das quais eu nunca sequer havia ouvido falar nem um nome ao menos parecido estavam ali, e conforme eu lia sobre seus feitos e suas conquistas, ficava mais impressionada e notava que, de fato, eu não sabia absolutamente nada sobre o que eu considerava ser uma das pouquíssimas coisas boas – ou melhor, maravilhosas – do universo que eu habitava.
— Mozart, Beethoven, Debussy? – enumerava, sem saber se pronunciava os nomes de forma correta. Esses eram personagens da música clássica, pelo que o livro indicava, e suas obras aparentavam ser maravilhosas. Desejei ter um piano próximo de mim para poder tocá-las. Passei por mais e mais pessoas, até chegar aos mais recentes, mais próximos dos anos que antecederam o início do domínio dos Oito – Michael Jackson, Beyoncè, Tim Maia, Vanessa Hudgens... – ri, por haver um nome que eu soubesse pronunciar sem falhas. Olhei para minha mãe, que me observava sorrindo, satisfeita por sua previsão de que eu iria gostar do conteúdo daquele livro estar certa – Mãe, você nunca mostrou isso pra ninguém antes? Ninguém?
Ela balançou negativamente a cabeça.
— Você tem noção que isso valeria uma fortuna? Ou que, pelo menos, você seria eternamente reconhecida por resgatar grande parte dessa cultura musical que ficou tanto tempo perdida? – eu não conseguia acreditar – Mãe, isso é um tesouro! Provavelmente o único exemplar na face da Terra que sobreviveu à destruição dos Oito! Você tem dimensão do que isso significa, mãe? Precisamos levar isso para...
— Vany – ela me interrompeu, calmamente, e fechou o livro – Não precisamos levar isso a lugar nenhum. Não precisamos nem podemos.
Fiquei estarrecida.
— Mas por que não? – questionei. Não me conformava.
— Querida, quem me deu este livro, como eu bem disse, foi meu bisavô. Ele lutava contra a dominação dos terroristas e mesmo chegou a ser preso por eles. Nunca mais o vi depois disso. Antes de isso acontecer, todavia, ele me entregou este livro. Eu devia ter uns oito anos. Ele me pediu de todo o coração que cuidasse deste exemplar como se fosse minha própria vida, e que nunca o mostrasse a mais ninguém, a não ser que confiasse em alguém tanto quanto ele confiava em mim. E eu mostrei-o a você porque confio em você dessa forma, minha filha, e espero que você também cumpra com isso.
Mesmo depois de todo o discurso, eu ainda não compreendia bem:
— Mas por que meu tataravô pediu a você todo esse sigilo sobre este livro, mãe? – soltei a pergunta – Há algo nele de tão secreto assim?
Ela certificou-se de que não havia mais ninguém no ambiente. Suas próximas palavras foram sussurros:
— Ele, na época, disse-me que este livro contém informações que, hoje em dia, se tudo o que ele estava imaginando que aconteceria realmente se concretizasse, poderiam mesmo provocar uma nova guerra mundial.
Precisei segurar-me na mesa ao ouvir estas palavras de minha mãe.
— E, Vany, meu bisavô era um homem incrivelmente inteligente e engajado politicamente. Entendia tudo de diplomacia, de conflitos, de guerras. Ele sabia do que estava falando, e por isso acredito plenamente no que ele disse e cumpro solenemente minha promessa – suspirou – Não quero uma nova guerra. Este mundo já passou por guerras demais.
Não consegui me conter de curiosidade e, enquanto ela estava se levantando da cadeira, deixei a pergunta que estava presa em minha garganta escapar:
— Mas, mãe, você sabe qual é essa informação que pode desencadear uma guerra, ou pelo menos sabe a que ela se refere?
— Não – ela virou-se para mim, já de pé – Não faço a mínima ideia. Vanessa Rouz, por favor, prometa-me que não vai tentar descobrir o que é. Conheço-a muito bem e sei o que essa sua expressão significa – ela segurou meus braços antes que eu pudesse tomá-los com o livro – Ande, prometa. Jure. Caso contrário queimarei esta coisa.
Suspirei.
— Eu juro, mãe – para minha sorte, sabia mentir muito bem – Juro que não vou tentar descobrir. Também não quero mais uma guerra. Não mesmo.
Ela me analisou com uma expressão séria por um segundo e libertou meus braços. Deu-me um beijo na bochecha.
— Olhe lá, hein. Não minta para mim. Agora vá dormir, que amanhã você ainda terá aula. Durma bem, querida. Eu te amo.
— Também te amo – foi o que falei, enquanto observava sua silhueta caminhar até a porta de seu quarto, da onde os altos roncos do meu pai saíam, e finalmente sumir.
Encarei aquela capa violeta desbotada por alguns longos minutos. Abracei o livro e dirigi-me com ele nos braços para o meu quarto. Abri meu armário de instrumentos musicais e, bem lá no fundo, eu o guardei, para que ninguém o encontrasse.
Por ora, eu estava cansada demais para folheá-lo e caçar a informação que poderia mudar tudo. Entretanto, jurei para mim mesma que eu ainda faria aquilo. Faria o mais breve possível, e descobriria aquilo que agora se remexia entre meus neurônios como uma assombração. Poderia levar a vida toda, mas eu descobriria. Estava determinada a descobrir.
Deitei em minha cama e apaguei.
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