Resiliência

2 Bem-vindo ao que você não conhece


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Capítulo 2

Bem-vindo ao que você não conhece

O lugar onde estávamos, de começo, estava muito assustador. O vento ali morria, então eu pelo menos não sentia mais frio. Mas a grama era estranha, quando eu pisava nela, eu ouvia um barulho como se eu pisasse eu grãos.

Segui pelo túnel até chegar em um lugar espaçoso, lá em cima eu podia ver o cano onde estávamos, era tão grande que tomava grande espaço.

“Acorde, Pete” – Li isso na parede de terra que havia ali. Na frente da frase tinha uma lâmpada branca balançando.

- Quem é Pete? – Eu estava me esquecendo que era eu mesmo. O pássaro nada respondeu.

Ele pegou aquela luz para nos ajudar a enxergar melhor.

- Agora é um pouco difícil para você. Consegue subir nessa árvore?

Difícil não era. Eu conseguia muito bem chegar lá em cima sem quase nenhum esforço. O problema é que estava escuro ainda, qualquer erro e era esborrachar na grama estranha.

- Sem problemas. – Suspirei.

Enquanto eu me agarrava nos galhos, o pássaro – que eu havia esquecido quem era — voava para cima tentando iluminar meu caminho. Cortei minhas mãos, braços e meu rosto por causa dos galhos finos que me atrapalhavam, mas quando eu cheguei até onde parecia ser o limite, o pássaro entrou em outro túnel. Sem pensar duas vezes, pulei lá também.

Esse túnel tinha uma certa iluminação branca, além da luz que o pássaro segurava. Provinha lá de cima, onde uma abertura da terra ficava sobre uma planta verde brilhosa. A mesma que o garoto se balançava antes de gritar comigo.

- Venha, Pete... Temos que salvar sua irmã logo... – Quem?

O pássaro voou rápido e eu só tinha que correr para alcançar aquela luz, mas o medo de esbarrar em algo não me permitia ir mais rápido.

Isso foi bom, porque quando viramos, uma lagarta gigante e rosa estava na nossa frente. Ela estava quieta e parecia inofensiva. Mas um medo familiar tomou conta de mim.

O pássaro continuou voando até aquela lagarta abrir a boca revelando seus dentes rosa, também. Dentro dela fazia um barulho irritante, dava gastura.

- Aonde você vai?! – Perguntei.

- Shh... – O pássaro dentro da boca da lagarta me silenciou. – Não confia em mim...? Pete? – Sua voz era tão calma, que quase deixei passar o estranho fato dele me chamar de Pete. Quem era? Eu?

A luz que ele segurava estava sumindo além da garganta do animal. Me apressei e pisei na língua grossa dele, prendi minha respiração e desci pela garganta, onde a luz do pássaro já estava próxima de mim novamente.

Passamos por uma gosma verde, aquilo era bem nojento. Mais estranho que a grama vermelha e a outra que lembrava grão. No interior da lagarta, algo estava escrito também. Mesmo que eu tenha já lido isso antes, não me lembrei, então foi uma novidade.

“Toque o sino”

O pássaro não parecia ligar para os sinais, apenas eu parecia aterrorizado com aquelas coisas que aconteciam com a gente.

Então nós encontramos um limão gigante, também com um buraco no meio. Ele parou ali com a luz e achei que aquele momento eu tinha que seguir sozinho.

- Você não vai?

- Claro que vou. Você só tem que ir na frente.

Olhei para aquele buraco onde não parecia ter nada, nem a espessura do limão. Apenas fechei os olhos e entrei. Um vento forte passou por mim levantando minha blusa e bagunçando meus cabelos, de repente tudo pareceu estar rodando e imaginei que a lagarta estivesse rodando pelo túnel. Quando senti meu rosto batendo em uma grama fofinha e um vento frio me acolhendo, resolvi abrir os olhos.

Eu estava novamente no Campo Vermelho, ao lado da laranja gigante e a bandeira roxa. Passei a mão pelo braço e pela blusa para tirar a terra de mim. E então minha memória fora voltando, me lembrei do meu nome, do Dave, da minha irmã presa... Só que ainda não entendia a sensação de já conhecer aquele lugar, mas mesmo assim me surpreender com as coisas nele.

- Agora que já temos essa luz, — Dave falou e percebi que aquela luz não era branca, era uma bola laranja iluminada. – Podemos continuar nosso caminho.

Corri acompanhando o pássaro. Passamos por Jon, que estava sentada limpando seu vestido e não nos viu passar. Passamos pelo menino bipolar que ainda se balançava na planta que também se iluminava. Curioso era que aquela planta estava sendo atraída pela outra que Dave segurava, mas ao invés de se arrebentar e continuar nos seguindo, ela parava. Como um efeito de imã.

Passamos pelo cano de novo, mas ao invés de descermos para aquele lugar estranho, Dave subiu para a claridade que eu queria ir antes. Me apoiei em uma madeira. Percebi que o cano ficava a baixo de uma ladeira, que na verdade, era o segundo morro que eu tinha mencionado.

A madeira que me sustentava não parecia muito forte. Se eu caísse, iria cair no cano, mas não seria uma coisa boa de se passar.

Como aquela planta estava sendo atraída pela nossa luz antes, uma lâmpada pendurada por um fio estava sendo atraída também. Então entendi porque deveríamos descer naquela hora, aquela luz iria nos ajudar a atravessar.

- Sabe o que fazer agora, né, Pete? Se agarre àquela luz e pule do outro lado para não cair lá embaixo de novo!

Um... Dois... Três! Pulei e me agarrei à luz que girou e me levou ao outro lado do barranco, me segurei em umas frutas vermelhas com medo de cair lá embaixo, mas nada ruim aconteceu. Foi aí que percebi que eram morangos gigantes também.

Andamos até vermos que o caminho que dava era pra uma outra floresta. Mas esta tinha o vento saindo dela. Eu podia sentir um cheiro agradável de chuva.

- Tem certeza que quer continuar? – Estranhei a pergunta de Dave. É claro que sim! Chegamos até aqui para nada?!

- Sim, estou curioso...

- Nós vamos morrer. – Ele falou enquanto repousava em um galho que sustentava mais duas lâmpadas verdes para iluminarem nosso caminho.

- Yep... – Continuei andando para frente. Eu ainda estava com medo, Dave estava sendo de ótima ajuda, mas me dava mais medo do que qualquer coisa ali, tirando meu pai.

Comecei a ouvir alguns trovões, e o vento ia contra nós.

- Você não percebeu?

- O que? – Indaguei.

- Jon estava certa. Aqui direita é esquerda e esquerda é direita.

Percebi então que se eu pensasse em andar para um lado, eu involuntariamente ia para outro, e vice-versa.

Estávamos no Vale Profundo.

- Dave, você não me disse que vínhamos aqui.

- Você não me perguntou – Ele riu. – Agora preste atenção, se não conseguirmos controlar nosso cérebro, iremos demorar muito para chegar ao final. Fique atento, Pete, se algo acontecer, não poderei fazer nada.

Dei um suspiro pesado.

- Vamos. – Pensei em andar para a esquerda, então fui para a direita, que era onde nosso caminho continuava. Dave continuava voando atrás de mim e parecia muito bem lidar com esse problema de direção.

Calma, é claro que pensei em andar para frente. Mas eu simplesmente não saia do lugar. Pois é, a solução era andar de lado.

Passamos por um poço e mais vaga-lumes, só que esses eram cor-de-rosa e não morriam, ao contrário daquela floresta subterrânea. Apesar de Dave me transmitir medo para essa floresta, não sinto nada.

Por descuido, comecei a andar para o lado oposto. Se o pássaro não tivesse me chamado, eu iria voltar ao começo, e cair novamente naquele lugar ruim.

- Pete, aqui você terá que ser cuidadoso.

Quando chegamos na ponta de outro morro, me assustei. Mais abaixo, eu vi o que parecia ser uma gangorra humana. No meio de uma árvore, tinha uma madeira que em cada ponta havia um humano com uma corda no pescoço. Assim como na outra árvore, até chegarmos em outro barranco.

- Que horrível. – Meus olhos se encheram de lágrimas.

- Temos que ir logo, Pete. Se chover, vamos ficar perdidos.

Pensei em ir para um lado e, pulando, cheguei à madeira que balançava. Era difícil me equilibrar já que tem que se concentrar na direção dos pés. Então é só pensar ao contrário, não é? É mais difícil do que parece, acredite. Seu cérebro involuntariamente pensa no movimento que você tem que fazer, e assim seu corpo faz. Eu tinha que ir contra a vontade do meu cérebro para chegar à outra gangorra e pular.

Assim que consegui equilíbrio, pulei, sem sucesso. Caí de queixo no chão. Ralei meu joelho e bufei de raiva.

- Você consegue! – Dave me encorajou.

Assim como eu caí da gangorra, eu tinha que voltar para o barranco que estávamos. Pensei em ir para um lado, e fui para o outro, até chegar nesse barranco. Subi sem dificuldades, mas minhas unhas ficaram cheias de terra e minhas mãos mais raladas do que já estavam.

Mais uma vez pulei na primeira gangorra até obter equilíbrio. Assim que pulei na outra, não caí, mas a felicidade de conseguir ficar em pé alertou meu cérebro de manter esse equilíbrio e então meus pés quase vacilaram para o lado errado. Ainda bem que eu estava me acostumando a ideia de pensar ao contrário e manti meu equilíbrio, até chegar ao outro barranco do outro lado.

Quando cheguei ao segundo barranco, as coisas voltaram ao normal – se é que eu posso chamar assim – e esquerda era esquerda e direita era direita.

Na hora, uma música invadiu meus ouvidos.

- Pete! Conhecemos essa música!

- Conhecemos?

- Sim! Sua irmã costuma tocar essa música toda hora!

Me lembrei da sala do piano, onde tudo começou. Essa música estava em minha cabeça. Uau... Era realmente muito relaxante, eu poderia ficar parado o dia todo para apreciá-la e...

- Vamos! – Dave me alertou.

Nesse caminho, era só subida. Uma parte parecia ser somente de madeira, me deu medo de desabar enquanto eu passava. A música parecia sair dali, mas eu não me atrevia a espiar.

Chegamos a uma clareira, onde os trovões pareciam ser mais altos do que lá embaixo. O vento parecia “nascer” dali e ia contra nós ainda (e morria na floresta subterrânea). No meio da clareira, havia uma cama elástica.

- Para falar com Gomgossa, você precisa pular nessa cama até chegar ao céu. E aí? Ainda topa ir?

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Notas finais
Depois desse cap, vocês já devem saber o que está acontecendo com ele. Gostaria de ler a opinião de vocês. *u*