Resiliência
2 Vida
Notas iniciais
Depois de cinco anos, Luíza finalmente estava pronta. Não havia mais medo, desespero ou raiva. Ela conseguia respirar fundo e sentir o ar preenchendo seus pulmões sem o peso que antes comprimia seu peito.
Sob aquele tímido sol de primavera que acariciava sua pele, ela fechou os olhos, e sobre a grama macia, ajoelhou-se. À sua frente, erguia-se a lápide que ela evitara visitar por tanto tempo. Com carinho, correu os dedos sobre o nome gravado nela e sorriu.
Leonardo. Seu — e apenas seu — Leonardo.
Deixou que as lembranças lhe inundassem; como ele sempre acordava dez minutos mais cedo para lhe fazer café, como ele zombava de suas meias coloridas, como ele a levava para observar as estrelas nas noites sem nuvens. Sobretudo, lembrou-se de como o amava.
Pela primeira vez, tal pensamento não a entristeceu.
Passou as mãos por trás de seu pescoço e tirou o cordão que ganhara dele em seu primeiro aniversário de casamento. Olhou para o pingente de coração e o girou entre os dedos. Não precisava abri-lo, pois cada detalhe da foto guardada nele estava gravado em sua mente.
Ela sempre carregaria o coração dele consigo, dentro do seu — que, de certa forma, também sempre pertenceria a ele.
Uma lágrima solitária escorreu por sua bochecha, mas Luíza não se preocupou o suficiente para limpá-la. Fechando os olhos, quase conseguia sentir as cócegas que os sussurros dele ao pé de seu ouvido proporcionavam. A melódica risada que ele deixava escapar quando estava certo nas brigas bobas do cotidiano parecia ecoar ao redor.
— Você sempre gostou de calor — recitou ela. Sempre se lembraria dos votos de casamento. — Ao longo dos dias, tornou-se meu sol. Nos dias mais chuvosos, aquecia-me em seu abraço. Nas noites mais escuras, seus olhos eram minhas estrelas. Te esperarei por toda a vida e, se necessário, por mil anos de morte, até que o acaso nos una outra vez para que passemos juntos o resto da eternidade.
Daquele momento em diante, não temia o que a vida pudesse lhe fazer. Ele sempre seria seu destino.
Suas noites juntos e cada uma das lágrimas que ele ajudou a secar vieram à tona. Quantas vezes dormiram com raiva um do outro e acordaram com as pernas entrelaçadas? Quantos medos ele a ajudara a superar? Quantos vazios no peito dela foram preenchidos no instante em que se encontraram?
Não queria nenhum mundo; ele sempre seria seu universo e sua verdade.
Ela riu ao recordar os poemas que ele lhe escrevia. Leo era um péssimo poeta, mas um excelente escritor. Sua deficiência com as rimas era compensada por seu jeito com as palavras. Uma simples frase dele podia clarear o dia mais sombrio.
Ele era tudo aquilo que a lua sempre significou. Mais que isso; era um vício do qual ela não queria se libertar.
O sentimento que a tomava era gratidão. Devia a ele uma vida de felicidades que nenhum outro poderia ter lhe oferecido.
— Obrigada — murmurou.
Desejava ter uma última chance de sentir seus lábios de veludo, seu perfume de canela, seu esplendor mudo, seus cachos prendendo-se aos dedos dela, mas, bem lá no fundo, sabia que não precisava. Nunca se esqueceria de como era. Cada milímetro de seu corpo ardia de paixão com a simples menção daquele nome.
De súbito, ela entendeu que ainda estava viva. Nunca o perderia enquanto seu próprio coração batesse. Levantou-se, recolocou o cordão e, mais uma vez, fechou os olhos. A brisa bagunçou seus cabelos da mesma forma que ele costumava fazer.
Não era o fim, apenas uma despedida temporária, porque ela carregava o coração dele dentro do seu.
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