Resident Evil: Dark Heart
5 Capítulo 5 – Gatos pardos
Algum lugar da Rússia, dias atuais
Yerik Guggenheimer encontrou os outros pouco depois das vinte e duas horas, em um aeroporto deserto, um pouco distante de Moscou. Era um grupo pequeno, formado por quatro homens e duas mulheres, parados perto de um velho hangar. Yerik já havia ouvido falar (falar muito bem, aliás) de dois deles – a mulher e o soldado com um M4A1 pendurado nas costas. Ela era Rebecca Chambers, ex-STARS e atual soldado da B.S.A.A. O sujeito com o rifle era Carlos Olivera, ex-mercenário da UBCS, ex-soldado da Legião Estrangeira e atual combatente da B.S.A.A. Os outros três Yerik teve de consultar a lista em seu tablet, enquanto se aproximava. O rapaz de altura mediana, cabelos vermelhos e fones de ouvido era Rufo Andersen, perito em tecnologia e condenado na França por ser pego hackeando computadores do governo. O sujeito grandalhão e musculoso era Seth Marshall, em combatente da Guerra do Vietnã e, presumivelmente, um aficionado por academia. A loira com expressão cansada e cara de nerd era Cassandra Milles, infectologista recém-doutora pela Universidade Estatal de Moscou. O jovem com cara de bebê era Jim Phoenix, soldado da B.S.A.A. há apenas um ano e meio. Aquela missão seria seu batismo.
Uma bela e feliz família.
Yerik aproximou-se a passos largos, e encarou o pequeno grupo. Estava frio, mas não o bastante para que ele colocasse seu casaco mais espesso, de pele de urso, dos tempos em que costumava caçar com o pai nas montanhas. Bons tempos para eles, maus tempos para os ursos. Mas, para os outros, talvez, o frio fosse quase insuportável. A Velha Rússia colocando suas manguinhas para fora novamente.
— Boa noite senhores – e, voltando-se especificamente para Rebecca e Cassandra –, e senhoras. – Meu nome é Yerik Guggenheimer, e eu serei o anfitrião de vocês esta noite. Aproveitem o passeio.
Rebecca riu discretamente, e Yerik gostou daquilo. Os outros dois apenas olharam para ele com aparente desconfiança. Cassandra manteve-se neutra.
— Vejo que possui bom-humor, Yerik – disse Carlos, se aproximando.
— Acredite, bom-humor é essencial para sobreviver por aqui.
Apertaram as mãos, e Carlos gostou imediatamente de Yerik. O jovem russo parecia ter boa índole, e isso era uma coisa que Carlos conseguia sentir emanando das pessoas.
— Achei que um casaco e uma arma fossem os itens essenciais para sobreviver aqui.
— Também são – disse Yerik, sorrindo. – Mas, acredite, sem bom-humor você pode acabar sem um casaco e com a arma apontada para sua cabeça.
Carlos sabia que, apesar do tom descontraído da resposta, Yerik não estava brincando. Apesar de seu sorriso simpático, o jovem russo também emanava uma aura misteriosa.
— Sr. Andersen, espero que tenha feito uma boa viagem – continuou Yerik.
Rufo Andersen mostrou os dentes tortos em um meio sorriso.
— Já tive viagens piores.
— Acredito no senhor. E não posso prometer que as coisas vão melhorar de agora em diante.
Rufo assentiu com os olhos.
— Eu sei... Elas nunca melhoram mesmo. Mas desta vez, pelo menos, prometeram o dobro do que geralmente pagam.
— Deve ser porque será duas vezes mais perigoso – disse Seth Marshall, encarando Yerik.
– Só espero encontrar algumas coisas grandes para derrubar.
O russo devolveu o olhar intimidador do pugilista e esboçou um sorriso.
— Senhor Marshall, coisas para derrubar não faltam aqui na Rússia. Neste momento, por exemplo, estão tentando derrubar o atual governo.
Marshall riu.
— Gostei de você, Guggenheimer! Acho que seremos uma dupla e tanto.
Yerik apenas sorriu. Marshall era o tipo de sujeito que costumava incomodá-lo na época da escola – não que isso ainda acontecesse, mas, de certa forma, ele jamais conseguira esquecer completamente.
— Phoenix, espero que tenha feito boa viagem.
— Sim, fiz, obrigado – balbuciou Jim.
— Você parece tenso.
— Não é nada – Jim sorriu. É tudo.
Yerik tocou o ombro do companheiro de leve e sussurrou:
— Não se preocupe, logo voltará para eles.
Jim Phoenix não escondeu sua expressão de surpresa. Como ele sabe?
De todo o grupo, Cassandra era a que parecia mais nervosa. Yerik aproximou-se dela com um discreto sorriso, mas ela manteve-se séria.
— Dra. Milles, parece pouco confortável, há alguma coisa que eu possa fazer?
— Estou bem, obrigada.
— Tem certeza?
Cassandra fechou os olhos.
— Por favor, se aproxime.
Yerik levou a orelha até bem próximo da boca de Cassandra, que balbuciou:
— Só porque sou mulher não quer dizer que precise de cuidado constante.
Ele se afastou impressionado.
– Sinto muito, não quis ofendê-la.
– Aceito suas desculpas.
O jovem russo olhou o tablet mais uma vez. Estava faltando um membro, Zion, que cuidaria do transporte deles até os Montes Urais, e então para as Cavernas Ordinskaya. Sem ele jamais conseguiriam cumprir os objetivos.
— Quando partimos? – perguntou Seth Marshall, encostando-se em uma parede de concreto.
— Assim que nosso guia chegar – Yerik olhou para o relógio, e lamentou baixinho. – Mas parece que ele esta atrasado. O helicóptero pousará em questão de minutos, e Zion Carter ainda não deu as caras.
Rebecca olhou para Yerik com curiosidade. Aquele nome, Zion Carter, não lhe era estranho. Lembrava-se de tê-lo ouvido ou lido, mas não se lembrava exatamente onde ou quando. Porém, esse pensamento desapareceu quando o som do Sikorsky UH-60 Black Hawk preencheu todo o vazio do aeroporto abandonado.
***
Yerik estendeu a mão para Cassandra Milles, que recusou.
— Eu estive em Gaza, e em acampamentos africanos infectados por Ebola – disse ela, entrando no helicóptero.
Yerik recolheu a mão.
— Não foi minha intenção ofendê-la novamente.
— Não estou ofendida.
Ele sorriu. Se o contexto fosse outro talvez flertasse com Cassandra Milles. Ela estava na altura de seus trinta anos e era extremamente atraente. E também era igualmente arredia, e isso atraía Yerik. Mas esse flerte não aconteceria – não ali.
O piloto olhou diretamente para Yerik:
— Aguardando seu sinal – disse.
— Estamos esperando por Zion.
Todos se encararam dentro do helicóptero. Yerik olhou novamente para o relógio. Zion estava atrasado, muito atrasado. Se não saíssem logo toda a missão poderia ser prejudicada.
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