Resident Evil: Dark Heart
4 Capítulo 4 – Noites vazias
Apartamento próximo a Moscou, Rússia, dias atuais
Quando recebeu o telefonema de alguém da B.S.A.A., pouco depois das três da madrugada, Zion Carter estava acordado, polindo sua arma mais especial.
Um dia, serei eu, pensou, olhando para o quarto de hotel onde ficaria por apenas mais algumas horas. Já fazia algum tempo que não ficava em um mesmo lugar por tempo suficiente para sentir saudades, e isso é uma coisa com a qual um homem acaba por se acostumar. Mas medo, sempre há tempo para se sentir medo. E tinha ela. Estava lá, recolhida em um canto escuro, espreitando. Ela sempre estava lá, mesmo depois de tanto tempo, de tantas coisas, ela continuava a ocupar os cantos escuros de sua vida, observando-o e, imaginava ele, julgando-o também. Não a culpava, humanos são especialistas em julgar os outros.
Zion poliu a arma mais um pouco, e então a encarou. Agora ela brincava com uma caixa de munição. Foi como a primeira brincadeira, aquela que o deixara assim. Você não estava lá, não tem como saber. Não, não estava. Mas Estela estava e, pensando bem, talvez ela permitisse isso, desejasse isso. Depois até mesmo disse que o tinha avisado por diversas vezes e ele, teimoso como era, ignorara. Foi o fim. Cada um para seu lado – como costumam ser os fins. Assim se faz mágica, sem cartolas ou coelhos.
Então o telefone tocou, e ele atendeu ao primeiro toque. Era uma missão muito bem recompensada. Talvez comprasse sua aposentadoria, e fosse morar em uma bela casa próxima a um lago. Era o sonho do pai – aposentar-se e pescar pelo resto dos dias que ainda tinha. Pensara nisso, embora soubesse que homens como ele não terminavam seus dias à beira de lagos, tranquilamente. O próprio pai não terminara assim, e Zion não conseguia pensar em um futuro melhor para si mesmo. A prova disso era aquela arma que ele polia, e todas as outras que colocara em sua mochila, juntamente com granadas e todo tipo de arsenal bélico. Há mais guerras do que somos capazes de vencer.
Desligou com o endereço que teria de visitar na mente. Esse era um de seus trunfos – sua memória. Era capaz de decorar cem números de telefone, e ainda sobrava espaço para mapas e direções. Quando via alguma construção era capaz de se lembrar até mesmo dos mínimos detalhes da arquitetura.
Olhou mais uma vez para ela. Tão frágil, tão solitária. Zion sabia que seria assim por muito tempo – a culpa corroendo-o lentamente, sufocando seus pensamentos. Era difícil, mas tinha de ser assim, pelo menos por enquanto. Todo mundo tem uma parte escura em seu coração. Uma sombra, onde guardamos nossos segredos mais obscuros. O problema é quando essa sombra cresce demais e cria raízes.
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