Resident Evil - A Leon & Ada Side Story
27 Capítulo 27 - EPÍLOGO
EPÍLOGO
Julho de 2055
Foi um longo vôo de Montreal até Nova Iorque. Não apenas pela situação infeliz em que fazia a viagem dessa vez, mas porquê carregava uma criança pequena consigo que também estava destruída. Já era difícil o suficiente para um adulto, para uma criança então...
“ — Passaporte, por favor.”
“ — Aqui estão” — Morava há muitos anos no Canadá, mas ainda era cidadão americano, era a nacionalidade de seu passaporte, e também de sua filha embora ela, fosse nascida em Montreal.
“ — Seja bem vindo a América, Senhor Kennedy.”
Ao entrar no táxi, o homem buscou puxar algum assunto com a criança, que estava visivelmente triste e abatida. “ — O que foi, docinho?”
A menina, então com seis anos de idade, que pouco se parecia com ele, exceto pelo cabelo, e uma vaga menção a ele no formato dos olhos, começou a chorar. “ — Eu queria ter vindo mais aqui... queria ter passado mais tempo com ele... agora eu nunca mais...”
Ele não sabia o que dizer, ela era só uma criança, querendo entender o que ele demorou anos para aceitar, as vezes... as pessoas que se amam ficam longe. Sim, a essa altura, poderia ter feito o que ela queria... mas foram tantos desencontros, vidas opostas, responsabilidades de uma vida adulta... as coisas foram tão... complicadas.
“ — Venha aqui querida.” — Ela a puxou para sí, colocando a menina no colo e a abraçou.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Sim, foi muito cansativo, uma viagem de taxi até Sharril quando ainda estava escuro, com uma menininha que chorou até dormir nos braços, mas conseguiu chegar a tempo do funeral. Tinham tantas pessoas importantes alí, muitas delas fardadas, foram horas e horas de discursos, solenidades, por ultimo tiros e a bandeira dos Estados Unidos que estava estendida sobre o caixão, solenemente dobrada por soldados e entregue com todas a honras em suas mãos.
Disseram que ele já estava muito consumido pelo câncer e com uma aparência muito sofrida. Sendo assim, a família optou por um velório de caixão fechado. Sua última lembrança dele era de um velho tão saudável e teimoso... era como se não acreditasse que tenha morrido. A ficha caiu somente quando ele viu assentarem a ultima pá de terra e o nome escrito na lápide.
Leon Scott Kennedy
*1977 — † 2055
Amado pai e avô,
Amigo querido,
Soldado valente.
Saudades Eternas
Deu graças a Deus por sua menininha não estar alí, deixou-a em casa, com outras crianças para se distrair. Ele percebeu uma mulher, já com alguma idade porém bem saudável e ativa vir em sua direção. Ela usava um par de calças sociais, uma blusa de botões e um colete por cima e claro, andava armada.
“ — Finalmente rapaz. Achei que nunca fosse te conhecer.”
Ela estendeu a mão e ele a cumprimentou.
“ — Helena Harper. E você deve ser o famoso Junior.”
“ — Leon.” — Ele a corrigiu. A verdade é que nunca gostou de ser chamado de Júnior.
“ — Certo... Leon.” — Helena o observava fixamente. Ele tinha muito do pai, a boca, o queixo, o nariz longo porém não tão fino. Mas a primeira vista, o que mais chamava a atenção, era o que ele puxou da mãe. Os olhos dele eram apenas um pouco maiores, mas era bem nítida a ascendência oriental, os cabelos bem lisos e de um negro absoluto. A única diferença naqueles olhos, eram o tom de verde, os da mãe eram um pouco indefinidos, os dele não, era um verde mais claro quase cinza, límpido, com certeza pela contribuição do azul do pai. “ — Seu pai tinha razão, você se parece muito com ela...”
“ — Então você a conheceu?”
“ — Sim... digamos que, nos petemos em encrenca juntas algumas vezes.”
“ — Eu posso contar nos dedos, quantas vezes vi a minha mãe, e ainda me sobrariam dedos.”
Helena notou uma pontada de mágoa na voz do homem que tinha pouco mais de trinta anos de idade. Para ela que soube de tudo o que aconteceu naquela pequena família... era de cortar o coração. “ — Leon... hoje você está enterrando o seu pai, eu sei que não é facil, mas talvez não tenhamos outra oportunidade de conversar, e eu sou uma das ultimas pessoas vivas que testemunhou o quanto os seus pais te amaram, e tudo o que fizeram foi para o seu bem.”
Ele não sabia se queria isso agora. Revirar esse assunto justo hoje. Mas ela tinha razão, se não fosse hoje, seria quando?
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Sua pequena filha brincava com algumas crianças no quintal da casa do avô. A casa ainda estava relativamente cheia, todos comiam e conversavam sobre o seu pai, sempre com tantos elogios. Na mesa da cozinha, estavam ele e Helena.
“ — Todas as lembranças da minha infância, são com o meu pai... ele diz que ela me viu uma vez durante esse tempo, as vezes me vem a imagem dela brincando comigo, mas eu não sei se é uma lembrança ou um sonho. Ele disse que me chamar de Junior também foi coisa dela, que ele mesmo detestou a ideia, mas que ela insistiu e se divertiu bastante com isso. Na minha certidão consta Leon Scott Kennedy Junior, nascido em circunstâncias desconhecidas, mãe, um nome de uma morta qualquer, pai Leon Scott Kennedy. Com sete anos ele me mandou para um colégio interno na Inglaterra...” — ele fez uma pausa, e suspirou longamente. — “ — Eu não queria ir, eu não queria ficar longe do meu pai, quando eu perguntava sobre a minha mãe, ele dizia que ela morreu no parto, uma moça de uma noite só da qual ele não se lembrava nem o nome quando recebeu a noticia que eu nasci, paternidade confirmada com um teste de DNA. Quando eu tinha doze anos, ele passou a me visitar com maior frequência, e me ensinar a lutar a atirar, eu não gostava, mas ele dizia que era importante e me obrigava. Com dezesseis ele me contou que ela estava viva, o porquê ela não podia ficar conosco, porque ela precisava se esconder, porque ninguém deveria saber que ela era a minha mãe, e me deu a minha primeira arma, você tem noção do que é isso? Eu tinha dezesseis anos, e tinha uma arma!”
Helena escutava tudo atentamente, a maior parte de toda essa estória, ela já sabia, mas era interessante escutar pela primeira vez, sob o ângulo dele, e não dos pais.
“ — Eu insisti tanto para conhecê-la, eu queria tanto conversar com ela... Ele a via, eles se encontravam, ele a teve esse tempo todo, mas eu nunca tive a minha mãe. Ele sempre me dizia, que eu não sabia nada sobre ela, mas que ela sempre sabia tudo sobre mim, que eu não a via, mas que ela sabia de todos os meus passos. “E se bem conheço a sua mãe, ela pode estar nos espiando agora mesmo sem que saibamos.”. Com dezoito anos, nos encontramos pela primeira vez, e foi tão estressante... ela parecia estar tão aflita, era como se ela tivesse certeza que se encostasse num só fio de cabelo meu, ou se apenas sorrisse para mim, alguém perceberia que ela era a minha mãe, sacaria uma arma e me mataria alí mesmo. Com dezenove eu estava decidido a voltar para os Estados Unidos, eu era maior de idade e ninguém iria me fazer mudar de ideia, eu não queria escutar o que o meu pai tinha a dizer... então ela foi me ver, foi quando ela me deu o primeiro abraço, o primeiro beijo, disse que me entendia, me pediu perdão, disse que todos os dias da vida dela, era trabalhando para que um dia a nossa situação mudasse, que ela estava quase conseguindo, que eu aguentasse só mais um pouco... e então, alguns meses depois, ela morreu em missão. Então eu voltei para a América, e o meu pai largou tudo para se dedicar só a mim, nós tivemos uma vida boa juntos, só nós dois, eu nunca o via com ninguém, mulher nenhuma, ele era velho mas... você sabe, ainda dava um caldo.”
Ambos gargalharam.
“ — As vezes ele passava horas... horas falando dela, entravamos a noite com ele contando tantas estorias, e todas aquelas aventuras, o quanto ela era forte, esperta, simplesmente a mulher mais incrível que ele já conheceu, eu ficava triste por não ter conhecido quase nada dessa mulher, mas ao mesmo tempo satisfeito, porque apesar dos pesares... o meu pai foi feliz. Então eu comecei a lecionar numa universidade no Canadá, conheci a minha esposa e... o tempo foi ficando tão escasso... eu vinha sempre que podia, mas agora, eu vejo o quanto eu não vim o suficiente.”
Eram nessas horas que Helena se arrependia de ser tão emocional. Ela enxugava as lagrimas , não só por tristeza e porque sentia saudade do amigo, mas também porquê nunca tinha escutado um conto de fadas tão torto como aquele. “ — O seu pai tinha razão, eu sou mesmo uma mulherzinha.” — Resmungou dobrando o lenço e colocando-o sobre a mesa. “ — Leon... eu não sei se você sobe, mas eu e Hunnigan, participamos de um esquema, bem longo, bem arquitetado, estudado por mais de um ano, minuciosamente preparado, para forjar a morte dos seus pais, para que eles pudessem fugir, é algo extremamente difícil, mas eles estavam dispostos a arriscar, eles estavam determinados a finalmente viver juntos... foi quando a sua mãe descobriu que estava gravida. E eu só te digo uma coisa, aquela mulher não pensou duas vezes antes de abortar o plano todo. Ela sabia que por mais perfeito que fosse, sempre há um risco, e para ela qualquer hipótese que pudesse vir a te machucar, não deveria existir. Tudo, absolutamente tudo o que eles fizeram, foi pensando na sua segurança, porque te amaram muito, principalmente a sua mãe, que te amou tanto, desde o exato momento em que soube de você. Eu ví com os meus próprios olhos, o pânico que ela sentia, só de imaginar que alguma coisa pudesse te acontecer. Por muito menos, numa situação bem menos complicada, eu perdi uma irmã de uma maneira horrível, e não há um só dia que eu não me pergunte, o que mais eu poderia ter feito para evitar aquilo...”
“ — Eu sei... é que... Bom, de qualquer maneira, é bom pela primeira vez conversar com mais alguém que conheceu a minha mãe, além do meu pai...”
“ — Se quiser fazer perguntas, aproveite agora rapaz, quase todas todas as testemunhas já morreram, e estamos todos morrendo um a um!” — Ela disse em um tom divertido. Sabia que nem estava tão velha assim e apesar da idade, ativa, trabalhando e saudável. “ — E quem não morreu, já está com lapsos de memória.”
“ — Oh... venha conhecer a minha filha.”
Caminharam juntos até o quintal, Helena imediatamente identificou a menina por entre as outras crianças, a com o cabelinho mais negro, cortado na altura das orelhas, ela tinha um jeitinho bem independente, falava, falava e as outras crianças escutavam, quase hipnotizadas.
“ — E então, a minha vó disse: Eu só estava descansando os meus olhos...” — Jogando o bracinho branco teatralmente contra a testa e jogando a cabecinha para trás “ — Ai o meu vô pegou uma armona bem grande pra matar o bicho feio e aí...”
“ — Filha vem aqui, tem uma pessoa que quer te conhecer.”
“ — Espera! Aí o bichão bateu no meu vô, e ele quase caiu, sabe... aí...”
“ — Nós não temos o dia todo!”
“ — Espera! Aí a vó pegou uma flecha sabe? Daquelas de índio... e matou o bicho!”
“ — Ada! Não me faça ir aí!”
A menina olhou para o pai e Helena ainda um pouco distantes, ela não queria conhecer ninguém, ela queria brincar. “ — A gente continua outra hora, tá, agora eu tenho que ir.” — Levantou a barrinha do vestido e saiu correndo para o outro canto do quintal, sumindo na lateral, fugindo para o jardim.
“ — Merda, merda, merda! Eu tenho que ir, quando ela corre ninguém alcança! Ada, Espera!” — Disse Leon
Helena ficou boquiaberta vendo a cena, chegando a por as mãos na cintura, incrédula, Leon Junior, correndo em volta da casa atrás da menina, soltando berros....
“ — Ada, Espera!”
“ — É Ada, você tinha toda razão, quanto mais as coisas mudam, mais continuam as mesmas.” — Helena revirou os olhos e voltou para dentro da casa.
Fim.
Fale com o autor