Rodrigo chega e a vê feliz e pergunta o porquê da felicidade.

— Amor, o corvo sumiu!! – diz Carolina pulando — Eu pedi a Deus para ele tirar e ele tirou, foi como um milagre.

— Deus? – pergunta Rodrigo levantando as sobrancelhas.

— Sim, eu rezei antes de entrar no prédio e quando cheguei aqui, estava tudo perfeito. – Carolina diz animada — Foi um milagre!

Rodrigo ainda incrédulo observa o apartamento e vai para o quarto para ver a parede e se surpreende que o corvo sumiu mesmo.

— Será que acabou mesmo? Assim fácil? – ele pergunta ressabiado.

— De verdade? Não sei, mas estou aceitando numa boa o sumiço do corvo do demônio.

Rodrigo a abraça apertado e suspira.

— Mesmo assim, eu quero que Luana venha aqui e nos diga o que pensa disso tudo.

— Por mim tudo bem, – diz Carolina — Mas acho que nos livramos da maldição do corvo.

— É... espero que sim. – Rodrigo ainda meio ressabiado.

— Espero que sua amiga goste de bolo de chocolate de saquinho, é o único que sei fazer. – Caroline diz tirando o bolo do forno e colocando em cima da pia para esfriar.

— Ela ama bolo de chocolate. – diz Rodrigo.

— Como vocês se conheceram? E a quanto tempo são amigos? – Carolina pergunta a Rodrigo.

— Nos conhecemos desde criança, sua mãe e a minha são amigas. Quando minha mãe e a dela iam ao centro kardecista, eu ia junto e ela com a mãe dela. Nós ficávamos na salinha para as crianças e brincávamos juntos. Ela cresceu e continuou a ir com a mãe e a participar na doutrina e eu não.

— Vocês namoraram? – ela pergunta com uma pontinha de ciúmes.

— Não, sempre fomos melhores amigos, como irmãos, nada romântico. Então nem precisa ter ciúmes, pessoa ciumenta. – Rodrigo faz cócegas nela e ela se afasta rindo.

— Ciúmes, eu? Que isso! – Carolina sai da cozinha rindo e vai se aprontar para receber Luana.

Luana chega e ao entrar na sala, ela paralisa e olha para a poltrona que mais uma vez, está virada para a esquerda, e Carolina nem havia reparado.

— A energia ali é terrível. – diz Luana. — Você sentiu algum desconforto ali?

— Na verdade, essa poltrona sempre está se mexendo, eu a coloco para a direita e quando volto para sala, ela está a esquerda.

— É... não é bom. – Luana diz — Ah, me perdoe, eu entrei aqui e nem me apresentei: Eu sou Luana Vieira, você é Carolina, é claro.

— Isso, – diz Carolina rindo — Rodrigo está terminando o banho e já vem. Sente-se. – Carolina a conduz para o sofá.

— Quer um café, água, bolo? – Carolina se mexe nervosa, era sua primeira vez como anfitriã e ela tinha para oferecer bolo e fantasmas, super primeira impressão.

— Nada por enquanto, obrigada. – Luana sorri e fala — Sente, mulher, relaxa. Vamos conversar, me conta como tudo começou e como estão as coisas agora.

Carolina explica da visita da velha, das batidas, do frio e do corvo. E as matérias que eles leram em jornais antigos.

Rodrigo entra e vai cumprimentar a amiga.

— Luana, como está? – ele a abraça — Faz tempo que não nos vemos, e sua mãe, está bem?

— Está sim, teimosa como sempre. – ela sorri e mostra o dedo — E eu vou me casar!

Carolina nem tinha reparado na aliança da moça e pulou para dar os parabéns.

— Quem é o doido? – pergunta Rodrigo e leva um tapa das duas e sai de perto rindo.

— Haha, – diz Luana — É o Rafael, você sabe, lá do centro?

— Ah, lembro dele sim, que bacana, estou muito feliz por você. – Rodrigo puxa Carolina para sentar com ele no sofá e pergunta — E aí, o que você sentiu aqui no apartamento?

Luana fica séria e observa a sala toda.

— A energia aqui é opressora, carregada de ódio, rancor, tristeza. – ela estremece e respira fundo — O mal está presente aqui, ainda não foi embora.

— Mas, – Carolina fala nervosa — O corvo sumiu! E não senti mais o frio.

— Ah, ele está se escondendo, se preparando para uma brecha e atacar. Não relaxe ou baixe a guarda Carolina, não se engane, ele é ardiloso.

Naquele momento, a luz do abajur do canto da sala explode.

Carolina grita e Luana se levanta.

— Espíritos de luz, amigos e protetores, nos ampare e nos proteja neste momento.

As luzes do apartamento inteiro começam a piscar loucamente, um frio terrível toma conta de tudo. Um cheiro de carne em decomposição toma conta do ambiente.

E no canto, perto da poltrona, uma forma começa a crescer mais e mais, tomando a forma de um homem com um corvo no ombro.

— Amigos consoladores, derramem sua luz sobre esses irmãos aqui presente, encha-os com a proteção do espírito santo.

Coisas começam a quebrar na sala, na cozinha, no quarto. E uma risada meio rugido começa a crescer mais e mais em torno deles.

— Irmãos de luz, estendam sua mão ao irmão perdido que se encontra aqui conosco.

— Perdido? – a voz cavernosa e rouca ecoa pelo apartamento e parece rastejar pela sua pele.

— Eu não estou perdido, esse chão é meu, meu domínio é meu, eu aceitei. – a voz diz — Seu lugar que não é aqui. Essa moça invadiu, então ela vai pagar.

Carolina sentia seu coração bater tão forte que parecia que ele ia pular fora do seu peito.

— Não, ela não invadiu – Luana diz calma e suavemente — Esse lugar não é seu irmão, você não pertence a esse plano mais.

— ESSE CHÃO É MEU!! – a voz grita forte e estreme as janelas.

Carolina começa a rezar e pega a mão do Rodrigo e diz a ele: — Reze comigo, vamos ajudar como pudermos.

Ele assente e pega suas mãos e começam a rezar juntos.

— Como esse chão é seu? – Luana pergunta a voz — Quem te ofereceu?

E de repente, foi como se os três entrassem em transe e vissem o passado rolar diante dos seus olhos.