Residencial Casablanca – Apto 46
1 Capítulo 1
Carolina Andrade estava muito feliz.
23 anos, acabando de completar seu curso de enfermagem e realizando um grande sonho, morar sozinha.
Vinda de uma grande família, privacidade era uma coisa rara, sempre dividiu quarto com irmãos, nunca teve um lugar especial para colocar suas coisas, seus perfumes, suas bijuterias, sempre tudo guardado junto em pequenos espaços na sua parte do guarda roupa que dividia em casa.
E não que ela não fosse feliz com: A Grande Família, como ela gostava de brincar, mas, sempre desejou um espaço seu, um cantinho aonde ela poderia arrumar do jeito que quisesse, ter espaço para deixar suas coisas organizadas, e claro, privacidade para encontrar seu namorado, Rodrigo.
Seus pais relutaram um pouco em aceitar a decisão da filha de seguir uma vida mais independente, por eles, seus 5 filhos só sairiam de casa quando casassem, mas como Carolina não pretendesse casar tão cedo, ela apressou um pouco esse plano.
Seus pais, Marília e Alberto, eram pais da velha guarda, queriam os rebentos perto. Seus irmãos estavam confortáveis com os pais ainda, Letícia tinha 19, Carla 17, Anderson 14 e a pequena Clara de 11 anos.
Seus pais eram funcionários públicos, sua mãe trabalhava em uma escola e seu pai na prefeitura da cidade.
Eles moravam em uma pequena cidade chamada Esplendor, no interior de São Paulo. E era próximo ao centro da cidade que Carolina moraria. Ela conseguiu alugar um pequeno apartamento em um prédio histórico chamado Residencial Casablanca. O prédio tinha pelo menos uns 80 anos. Tinha 4 andares, com apartamentos pequenos, mas confortáveis e ela estava explodindo de felicidade.
Ela até cogitou morar com Rodrigo, mas, não achava que estava pronta para um relacionamento tão sério assim. Queria esperar uns anos antes de dar esse passo.
Hoje, seus pais, irmãos, uns primos e Rodrigo estavam ajudando na mudança, organizando os móveis, carregando caixas e mais caixas.
— Filha, tem certeza disso? – Marília pergunta a Carolina — Ainda dá tempo de voltar atrás.
Carolina ri alto.
— Mãe, eu estou bem, vou ficar bem e a senhora vai ficar bem. – ela diz abraçando a mãe.
— Mas, nós nunca nos afastamos mais de uma semana na vida. – Marilia diz chorando — Como vou me acostumar a ficar sem você em casa?
Seu pai se aproxima e ralha com a mulher.
— Mulher, pelo amor de Deus, nos moramos a menos de 10 minutos daqui, — Alberto fala — Nos veremos toda a semana.
— Mãe, é verdade, – Carolina ainda abraçando a mãe — Eu vou lá tomar um café, almoçar no domingo, a senhora nem vai notar a diferença.
— Isso é o que você acha! – Marília fungando — Uma mãe sempre nota tudo relacionado aos filhos.
Alberto revira os olhos e começa a juntar a turma para ir embora.
— Vamos, pessoal. Vou levar todo mundo para comer uma pizza em agradecimento pela ajuda na mudança.
Todo mundo gritou comemorando e eles partiram para a pizzaria que era bem próxima ao prédio.
Depois de encherem a barriga, rir muito e mais algumas lágrimas, Carolina foi para sua nova casa.
Entrando agora sozinha no apartamento, Carolina estranhou o silêncio que a envolvia, afinal, foram 23 anos de barulho incessante na casa dos pais.
Rodrigo não voltou com ela, pois ele iria trabalhar muito cedo na manhã seguinte. Ele era residente de medicina, ele seria um médico clínico geral. Eles se conheceram quando Carolina começou a estagiar como enfermeira no mesmo hospital onde ele começou a residência dele.
Eles estavam juntos a 6 meses e estavam bem. Ela acreditava que o relacionamento deles progrediria para uma coisa mais séria, mas, queria aproveitar bem essa nova fase da vida mais independente.
Ela começou a arrumar os detalhes da casa do jeitinho que sempre sonhou que seria seu cantinho. Empurrou o pequeno sofá mais para o meio, e colocou a poltrona mais próxima a janela, para ter mais luz para a leitura durante o dia.
O quarto não era muito grande, mas coube uma cama de casal, um guarda roupa grande, uma penteadeira com um belo espelho, uma cadeira e uma tv na parede.
Ela estava arrumando suas roupas quando ouviu uma batida na porta.
— Quem será? – ela fala baixinho se dirigindo a porta— Será que meu pai esqueceu alguma coisa, ou Rodrigo?
Mais batidas leves e ela olha pelo olho mágico para conferir quem era.
E na porta, estava uma pequena senhora, ela tinha cabelos bem alvos e usava um vestido preto com um xale vermelho com um corvo preto bordado, por cima. Ela estranhou, mas abriu a porta.
— Olá, posso ajuda-la? – Carolina pergunta a senhora.
— Oi, minha jovem, só vim desejar boas-vindas ao prédio.
Carolina sorriu e agradeceu.
— Ah, muito obrigada, que gentileza. Me chamo Carolina – ela diz estendo a mão.
A senhora olha para mão de Carolina e hesita em estender a dela, mas a cumprimenta.
— Meu nome é Dolores, – a senhora diz — Espero que você seja feliz aqui, jovem.
A mão da senhora era bem fria e Carolina achou o toque dela estranho e desagradável, mas se forçou a sorrir.
— Obrigada, tenho certeza que serei. – Carolina dando um passo para dentro do apartamento, de repente o corredor começou a esfriar rapidamente e arrepios começaram a correr por seu corpo.
— Eu já estou indo agora — Dolores diz e sorri balanço a cabeça. — Adoramos novas pessoas por aqui. – ela diz e pisca um olho.
Ela vira e sai caminhando bem lentamente pelo corredor. Até virar e começar a descer as escadas.
O frio que estava no corredor desapareceu e Carolina começou a achar que foi tudo impressão ou coisa de sua cabeça. Ela bufa para si mesmo e fecha a porta.
Nas escadas, longe dos olhos de Carolina, a mulher se transforma em um homem com um corvo nos ombros e desaparece.
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