Notas iniciais
Salve, salve. Domingão bora de atualização. Boa leitura.

O advogado chegou a cambalear, o chão parecendo sumir sob seus pés descalços por um segundo vertiginoso. A tontura passou rápido, dando lugar imediato à sua habitual postura defensiva, a armadura cética que usava para blindar as próprias vulnerabilidades. Aquele tal de Greg só podia estar de brincadeira. Como era possível estar morto? Sentia o sangue pulsar nas veias, o ar preencher os pulmões de forma límpida. Estava vivo. Perfeitamente vivo.

- Que espécie de brincadeira de mau gosto é essa? — rebateu, cruzando os braços com firmeza e estreitando os olhos.

- Não é brincadeira. Você está morto — Greg repetiu. Sua voz mantinha uma calma linear, quase clínica, despida de qualquer tom de ameaça ou zombaria. — Sofreu um ataque fulminante do coração há poucos minutos.

- Isso é ridículo! Uma sandice!

Grissom forçou a mente, tateando a escuridão em busca de memórias recentes. A última lembrança nítida que possuía era a de estar cruzando a calçada em direção ao Fórum na companhia de seus amigos. Nada mais. Aquela criatura diante de si só podia estar inventando uma mentira absurda para desestabilizá-lo.

- E para quê, exatamente, eu inventaria algo assim? — questionou o ser, arqueando uma sobrancelha.

- Não sei, mas eu quero ir embora agora daqui! — Grissom bateu o pé descalço na grama, uma reação infantil que há muito tempo não tinha, mas que o desespero crescente ali justificava.

Greg esboçou um pequeno sorriso de canto, achando a cena quase cômica.

- Sinto muito, mas já avisei que não pode. Você morreu, Grissom. Aceite.

- Okay! — Grissom soltou uma risada sarcástica, tentando usar o deboche como escudo contra o pânico. — Vamos fingir, por um mísero segundo, que eu compre essa sua história de além-túmulo. Então você é o quê? Um anjo?

- Exatamente! — confirmou Greg. — Agora me siga, por favor. Temos trâmites a tratar.

Grissom fincou os calcanhares na grama, recusando-se a dar um único passo. Greg caminhou cerca de quatro metros antes de notar a imobilidade do advogado. Parou e girou o corpo.

- Vamos, Grissom. Você tem contas a acertar com o Todo-Poderoso. Anda. — Sem esperar resposta, o anjo deu as costas novamente e seguiu em frente.

Grissom abriu a boca em total descrença. Balançando a cabeça, começou a rir sozinho, um riso nervoso. Aquilo beirava o delírio.

- Isso só pode ser um pesadelo daqueles bem malucos. Com certeza eu cochilei em cima dos prazos na mesa do escritório e, a qualquer momento, a Catherine ou o Warrick vão me sacudir para eu acordar. Eles vão... — murmurou para si mesmo, tentando se agarrar àquela lógica reconfortante.

- Ande logo, Grissom! — a voz de Greg ecoou mais à frente, límpida.

- Eu vou acordar logo dessa maluquice... É só um pesadelo... — resmungava o advogado, arrastando os pés e seguindo o anjo, totalmente contrariado.

Eles caminharam até uma área mais afastada de onde a multidão em trajes claros se concentrava. Era um cenário ermo, emoldurado por uma calmaria tão profunda que, de certa forma, conseguia desacelerar a agitação interna — e os batimentos inexistentes, ironicamente — de Grissom.

- Que lugar é esse?

- Onde as almas vêm para o acerto de contas.

- Você realmente vai insistir nessa história?

- E você vai insistir em negar o óbvio?

- Eu não es...

- Silêncio — interrompeu Greg, apontando com o indicador para a margem do lago. — Apenas observe a água.

Grissom se aproximou, hesitante. Nas águas antes cristalinas, a superfície começou a ondular e tremeluzir como uma tela de cinema líquida. De repente, a imagem de si mesmo materializou-se: ele estava caído no chão cinzento do estacionamento, os olhos fixos no vazio, a boca semiaberta, enquanto Catherine chorava desesperada sobre seu peito imobilizado.

"Por favor, Gil, não faz isso! Acorda, meu amigo! Você não pode morrer!"

"Cath, sai! Deixa os paramédicos trabalharem!", a voz grave de Warrick surgiu ao fundo, puxando a sócia pelos ombros com força.

"Sem sinais vitais!", uma mulher de uniforme gritou. "Tragam o desfibrilador agora! Rápido!"

- Eu estou... morrendo... — Grissom sussurrou. A voz sumiu na garganta, o ar pareceu faltar de verdade e o choque finalmente estraçalhou sua armadura de ceticismo.

- Tecnicamente, você já morreu — Greg pontuou ao seu lado, o olhar fixo na cena. — Eles estão tentando uma reanimação cardiorrespiratória, mas não vai funcionar. Sua linha do tempo lá embaixo acabou.

- Não! Não, eu não posso ter morrido agora!

- Por que não? Todos morrem.

- Mas por que comigo? Por que agora? — a voz dela falhou.

- Porque era a sua hora, Grissom.

- Não! Não, não pode ser! Eu não aceito estar morto! — O desespero finalmente transbordou a represa, e as primeiras lágrimas quentes começaram a queimar seus olhos, embaçando a visão.

- Não é uma questão de aceitação ou escolha — Greg disse, o tom agora ligeiramente mais brando. — Olhe de novo. Vamos rever algumas coisas.

As imagens na água mudaram drasticamente, acelerando. Um turbilhão de memórias começou a passar em cortes rápidos e viscerais, reconstruindo a espinha dorsal de sua vida. Viu-se como o filho único de uma mulher cega e viúva, que o criou com dificuldades imensas na Califórnia após a morte precoce de seu pai. Mesmo sendo apenas um menino, Grissom engoliu o choro para ser o arrimo da mãe. Lembrou-se de como sua postura introspectiva o tornou alvo de piadas cruéis dos primos na adolescência — especialmente de Ecklie.

O filme avançou, ganhando cores vivas. O sucesso profissional estrondoso chegou; tornou-se o advogado das causas impossíveis, respeitado e temido nos tribunais de Las Vegas. Casou-se com Sara, a única mulher que amou com cada fibra do seu ser, e juntos construíram uma família linda, colorida pelo nascimento dos dois filhos.

Mas a tela d'água começou a escurecer, assumindo tons frios. O sucesso cobrou seu preço em moedas de ausência. A exigência do trabalho o transformou em uma figura fantasmagórica dentro de casa, negligente com as pessoas que mais precisavam dele. O pai e marido carinhoso deu lugar a um homem gélido, obcecado por metas, que mal parava em casa. Grissom perdeu aniversários, apresentações escolares, jantares importantes... tudo sacrificado no altar de reuniões e prazos. O desfecho inevitável foi o fim doloroso de um casamento de dezesseis anos.

Assistindo à própria história de fora, Grissom sentiu o peito arder de um arrependimento corrosivo. Ele havia sido estúpido. A obsessão pela carreira destruiu o homem por quem Sara se apaixonara e apagou o pai presente que os filhos tanto adoravam.

Seus filhos, agora com quinze e doze anos, mal olhavam em sua cara nas raras visitas. Mas sete anos atrás... sete anos atrás eles viviam grudados em seu pescoço, rindo de suas piadas bobas. Ele mesmo havia erguido, tijolo por tijolo, aquele muro de distância.

E Sara... Sara já tinha outra pessoa. Nick Stokes, um professor universitário de matemática que Sara conheceu no ano anterior em um seminário. Catherine havia lhe contado sobre o sujeito. Seus filhos adoravam o novo namorado da mãe, um fato que roía as entranhas de Grissom dia e noite.

Na semana passada, ao passar de carro perto da sorveteria do antigo bairro, ele os viu juntos. Sara, os meninos e o tal Nick. Eles riam, dividiam histórias, pareciam uma engrenagem perfeita. Aquela imagem havia se fixado na mente de Grissom como uma ferida aberta e purulenta. Se ele não tivesse sido tão cego, tão absurdamente negligente, ainda seria ELE quem estaria ali compartilhando aquele sorvete.

- Você falhou onde mais importava, Grissom — pontuou Greg, que assistia a tudo em silêncio ao seu lado. — Priorizou o que era efêmero e abandonou o que era eterno. Esse foi o seu grande erro na Terra.

- Eu estraguei tudo... — Grissom desabou, as lágrimas correndo livres e molhando o moletom claro. — Eu perdi a minha família. Eu só queria poder voltar... só queria consertar...

- Infelizmente, a morte não tem botão de retorno.

- Greg, por favor... me deixa voltar — Grissom implorou, virando-se para o anjo, as mãos trêmulas.

- O quê? Você enlouqueceu? Não ouviu o que eu acabei de dizer?

- Ouvi! Mas me ajuda, por favor. Me deixa reparar o meu erro. Deixa eu tentar recuperar meus filhos, minha esposa... Eu os amo tanto que sinto que vou quebrar por dentro, mesmo já estando morto. Eu não posso viver na eternidade sabendo que os deixei com essa ferida!

- Sinto muito, mas isso foge completamente do meu escopo funcional. E mesmo se... preste bem atenção, SE fosse possível uma exceção dessas, apenas o Todo-Poderoso teria autoridade para conceder. Eu sou apenas um guia de passagem.

- Então eu quero falar com Ele! Como eu faço? Eu me ajoelho, eu rezo, o que for preciso! Só preciso pedir uma chance de consertar as coisas.

- Você está fora de si, Grissom.

- Não, eu estaria fora de mim se desistisse agora! — Num ato de puro desespero, o orgulhoso advogado caiu de joelhos sobre a grama úmida, segurando a barra do tecido claro da veste de Greg. — Por favor, Greg. Eu te suplico. Me ajuda. Eu preciso da minha família.

Greg olhou para baixo, o peito contraindo-se diante daquela cena. Em séculos de serviço, o anjo já vira incontáveis almas implorando para retornar, a maioria movida pelo medo do inferno ou pelo apego mesquinho a bens materiais e status. Mas nos olhos de Grissom não havia apego a ouro ou vaidade. Havia apenas uma dor crua, um arrependimento genuíno e um amor desesperado por uma mulher e dois filhos que ele mesmo havia afastado.

Algo naquela dor legítima tocou o anjo de uma forma inédita. Greg suspirou longo, sentindo uma súbita e perigosa necessidade de estender a mão para aquela alma humana.

- Olha... eu não posso prometer absolutamente nada.

- Você... você vai me ajudar? — Grissom o encarava com olhos marejados, uma ponta de esperança surgindo em meio ao caos.

- Vou interceder por você. Mas escute bem: não crie expectativas. As leis do universo são rígidas e imutáveis.

- Tudo bem, tudo bem! — O advogado levantou-se num salto, limpando o rosto com as costas das mãos, o peito ainda arfando. — Muito obrigada, Greg. De verdade.

- Não me agradeça ainda, não consegui nada. Agora, faça o seguinte: volte para onde estão as outras almas perto do lago principal. Preciso ficar sozinho aqui para tentar essa intercessão.

Grissom apenas assentiu, incapaz de formular mais palavras. Deu as costas e começou a caminhar de volta, agarrando-se com todas as suas forças àquela última, frágil e impossível promessa de milagre.


Notas finais
Xero e até o próximo capítulo.