Resgatando Os Laços
8 Capítulo 08
Na sexta-feira à noite, diante do espelho do quarto, Sarah terminava de se arrumar para o jantar com Nick. Ajustou os brincos pequenos de ouro e alisou o tecido do vestido casual, mas elegante, que havia escolhido. O namorado chegaria em instantes, segundo a última mensagem de texto recebida. Os meninos passariam a noite sob a supervisão de Clarice, já que Nick tinha planos de que eles dormissem fora.
Deveria ser a noite perfeita para relaxar, mas, ao encarar o próprio reflexo, Sara não pôde deixar de notar o vinco de preocupação que insistia em marcar sua testa. Sua mente, por mais que tentasse lutar contra, estava fixada na manhã seguinte. Sábado. Dez da manhã. O jogo de futebol do Dudu.
Ela passou a mão pelo rosto, tentando afastar os pensamentos. Nick vinha sendo seu porto seguro há um ano; era a calmaria, a maturidade, a certeza de um abraço compreensivo ao final de um dia exaustivo na faculdade. Era injusto com ele estar ali, vestindo uma roupa bonita, enquanto metade de sua atenção ainda repousava no olhar azul e determinado que Grissom lhe direcionara na varanda do apartamento.
O som suave da buzina do carro de Nick ecoou lá fora, interrompendo suas elucubrações. Sara respirou fundo, buscou a bolsa em cima da cama e desceu as escadas. Na sala, encontrou os filhos e Clarice já cumprimentando Nick, que, como sempre, estava impecável, trazendo no rosto um sorriso leve que transmitia uma paz quase instantânea.
- Oi, meu amor — Nick disse, aproximando-se para um selinho carinhoso enquanto envolvia a cintura de Sara. — Você está linda. Pronta para esquecer as aulas e tudo mais por algumas horas?
Sara forçou o seu sorriso mais acolhedor, entrelaçando seus dedos aos dele.
- Mais do que pronta, Nick.
- Ótimo!
- Meninos... — Sara se virou para os filhos no sofá. — Comportem-se com a Clarice.
- Tá, mãe — os dois responderam em uníssono.
- E nada de dormir tarde, Dudu. Tem o jogo amanhã.
- Pode deixar, mamãe.
- Tchau, garotos — Nick acenou para os enteados com carinho.
- Tchau, Nick! — os dois responderam com sorrisos sinceros.
O casal cruzou a porta de saída e, enquanto caminhavam rumo ao carro, Sara não aguentou a curiosidade:
- Onde vamos?
- Surpresa — Nick piscou, abrindo a porta do passageiro para ela. — Um lugar calmo, com uma comida maravilhosa e sem nenhuma pressa. Tudo o que você está precisando depois dessa semana turbulenta.
Enquanto o carro se afastava da guia, integrando-se ao ritmo noturno de Las Vegas, Sara olhou para o perfil de Nick. Sentia uma onda de gratidão misturada com um aperto incômodo no peito. O jantar seria perfeito. Mas o relógio continuava correndo, e a manhã de sábado parecia inevitável.
O restaurante escolhido por Nick possuía um ambiente intimista, com luzes quentes e baixas, mesas bem espaçadas e um jazz suave tocando ao fundo — o oposto exato do caos estressante que costumava ditar a rotina antiga de Sara.
Após fazerem os pedidos, Nick serviu o vinho tinto nas duas taças e estendeu a mão sobre a mesa de madeira escura, cobrindo os dedos de Sara com o seu toque morno.
- Um brinde a nós. E ao fato de que você finalmente conseguiu desligar o celular — Nick brincou, os olhos brilhando com afeição.
Sara sorriu, erguendo a taça e tocando-a suavemente na de Nick.
- A nós — repetiu, dando um gole. O sabor encorpado ajudou a relaxar os músculos tensos de seus ombros, mas a calmaria do lugar parecia, ironicamente, abrir espaço para que seus pensamentos ecoassem mais alto.
Nick a observou por alguns instantes sobre a borda da taça, com aquela percepção aguçada de quem se importava de verdade com cada mudança de humor.
- Você ainda está lá, não está? — Nick perguntou com suavidade, sem cobrança, mas com uma franqueza que fez o estômago de Sara dar um nó.
- Lá onde? — Sara tentou desconversar, ajeitando a postura.
- No hospital. No apartamento do Grissom. — Nick deu um sorriso contido, recolhendo a mão para segurar a própria taça. — Sara, eu te conheço. Desde o dia em que você voltou daquele hospital, depois de assinar a alta dele, você tem estado distante. Fisicamente você está aqui, mas sua mente está tentando decifrar o que aconteceu naquele quarto.
Sara engoliu em seco. A honestidade de Nick a desarmava. Ela não queria mentir, mas também não queria machucar o homem que a acolhera quando seu mundo estava em pedaços.
- Foi só... muita coisa para processar, Nick — explicou, escolhendo as palavras com cuidado. — Ver o Grissom daquele jeito, vulnerável, e depois vê-lo de pé, agindo como se tudo o que importasse no mundo agora fosse a família que ele mesmo se encarregou de perder, está sendo confuso. Ele me pediu uma chance para consertar as coisas. Uma chance de ser pai dos meninos de verdade de novo.
Nick ouviu em silêncio, assentindo devagar enquanto o garçom servia os pratos. Quando voltaram a ficar sozinhos, ele olhou profundamente para Sara.
- E o que você sente sobre isso? — a voz de Nick era calma, mas trazia uma vulnerabilidade escondida. — Você tem medo de que ele volte a ser quem era, ou tem medo de que ele realmente tenha mudado?
A pergunta atingiu Sara como um golpe certeiro. Ela fixou os olhos no prato à sua frente, sentindo o peso daquela dúvida.
- Eu tenho medo por eles, Nick. Pelo Dudu e pela Liz. A Liz está com tanta raiva, tão magoada... Se o Grissom falhar de novo, se isso for só um impulso de culpa pós-trauma, vai destruir o pouco que sobrou da confiança deles.
- E por você? — Nick insistiu, dando o xeque-mate que Sara vinha evitando dar em si mesma. — Você tem medo por você?
Sara parou o garfo no meio do caminho. O cheiro de baunilha do seu carro, as mãos de Grissom tremendo ao segurar a xícara de porcelana, a urgência quase mística naqueles olhos azuis... tudo voltou em uma avalanche.
- Eu passei os últimos anos construindo uma barreira, Nick — confessou, a voz um pouco mais baixa, quase um sussurro. — Uma barreira para me proteger da ausência dele, do fantasma do que nós fomos. Ver aquela barreira tremer com um simples olhar me assusta. Eu mudei minha vida. Eu encontrei a paz com você. Eu não quero voltar para a tempestade.
Nick estendeu a mão novamente, apertando os dedos de Sara. Havia segurança naquele toque.
- Então não volte, meu amor — Nick disse, com firmeza e doçura. — Você não precisa carregar o processo de redenção do Grissom nas suas costas. Deixe que ele prove para os filhos. Se ele realmente mudou, o tempo vai mostrar. Mas não deixe que o passado dele roube o nosso presente.
Sara olhou para Nick e sentiu uma onda de gratidão. Ele está certo, pensou. Nick é o meu porto seguro.
- Você tem razão — Sara sorriu, sentindo um alívio temporário inundar seu peito. — O Dudu quer ele no jogo de futebol amanhã de manhã. Eu disse a ele para ir. Vai ser o primeiro teste.
- Você acha que ele realmente vai aparecer? — Nick indagou com uma pontada de ceticismo, conhecendo bem o histórico do advogado em prometer presença e, no fim das contas, dar bolo por causa de alguma urgência jurídica.
- Ele prometeu que sim. Sem atrasos. E eu espero, do fundo do coração, que ele cumpra, Nick, porque se não, o Dudu vai se decepcionar muito.
Nick assentiu, embora uma sombra sutil de dúvida passasse por seus olhos. O restante do jantar correu de forma mais leve; conversaram sobre as aulas na universidade e os planos para as próximas férias, permitindo que Nick trouxesse o foco de Sara de volta para a realidade.
Ao saírem do restaurante, eles seguiram para o apartamento de Nick, localizado no bairro vizinho.
O imóvel era o reflexo exato de seu dono: acolhedor, decorado em tons pastéis, com plantas bem cuidadas na sala e uma organização que transmitia paz. Ao cruzarem a porta, o aroma suave de lavanda envolveu Sara, funcionando como um bálsamo temporário para a sua mente barulhenta.
Nick deixou as chaves no aparador e acendeu uma luminária de luz quente no canto da sala. Tirou os sapatos e aproximou-se de Sara com passos macios.
- Você quer uma taça de vinho? Ganhei um da minha irmã que é uma safra antiga, que ela trouxe de Portugal — Nick sugeriu, deslizando as mãos suavemente pelos braços de Sara. Era um carinho terno, um convite silencioso para que ela finalmente se desarmasse.
- Aceito sim, Nick. Quero muito experimentar — Sara respondeu, oferecendo-lhe um sorriso genuinamente grato.
Nick retribuiu o sorriso e afastou-se até o pequeno bar de madeira no canto da sala. Com movimentos calmos, escolheu duas taças de cristal e abriu a garrafa. O som sutil da rolha se soltando preencheu o ambiente, logo seguido pelo aroma encorpado e amadeirado que começou a se espalhar pelo ar.
Ao retornar, entregou uma das taças a Sara e acomodou-se ao lado dela no sofá, cruzando as pernas.
- A minha irmã garantiu que esse é especial — comentou.
Sara girou levemente o líquido rubi, observando como ele aderia às paredes do cristal sob a luz quente do abajur, antes de levar a taça pós-lábios. O vinho era denso, aveludado e preenchia o paladar de imediato.
- É realmente incrível, Nick. Sua irmã tem um excelente gosto.
- Ela tem mesmo — Nick sorriu, inclinando-se para a frente e apoiando a cabeça no ombro de Sara. — Eu só quero que você relaxe um pouco, meu amor. Sei o quanto esses últimos dias exigiram de você.
Sara fixou os olhos na própria taça, sentindo o toque acolhedor de Nick. Relaxar, pensou. Era exatamente o que o namorado proporcionava desde que entrou em sua vida: relaxamento, calmaria e paz. O oxigênio após o sufocamento.
Eles terminaram o vinho sem pressa, trocando carinhos mansos até que as coisas começaram a esquentar no sofá. O toque suave nos braços de Sara transformou-se em um aperto mais firme, e o espaço entre os dois simplesmente desapareceu. Nick deixou sua taça vazia na mesa de centro e inclinou-se, deslizando os dedos pela nuca de Sara, trazendo-a para um beijo mais profundo, ditado pelo ritmo lento e quente do vinho.
Sara fechou os olhos, deixando-se levar. Suas mãos subiram pela cintura de Nick, puxando-o para mais perto, buscando de forma quase urgente aquela conexão palpável, aquela certeza física de que pertencia ao presente. O perfume de lavanda misturado ao aroma do vinho preenchia o ar à medida que os beijos se tornavam mais urgentes, cheios de uma entrega que Sara usava tanto como afeto quanto como escudo.
Quando o espaço do sofá se tornou pequeno demais para o calor que os envolvia, Nick interrompeu o beijo por um segundo. Os olhos brilhavam no escuro da sala e a respiração estava curta.
- Vamos para o quarto... — Nick sussurrou contra os lábios de Sara, segurando seu rosto com as duas mãos.
Sara apenas assentiu, erguendo-se e deixando-se guiar pela mão até o cômodo ao lado.
Mais tarde, deitados sob o edredom macio, o silêncio do quarto retornou, envolto pelo cansaço bom de quem havia se entregado. Nick adormeceu rapidamente, com a cabeça aninhada no peito de Sara e o braço estendido sobre a sua cintura, exausto e em paz.
Sara manteve o carinho lento nos cabelos escuros do namorado, os olhos fixos nas sombras do teto. Seu corpo estava relaxado, saciado... mas não por inteiro. Não como acontecia nos tempos bons de seu casamento com Grissom.
Nick lhe satisfazia na cama, cuidava dela, mas não era a plenitude avassaladora a qual Grissom lhe levava quando o casamento deles estava no auge. Com Nick, no fundo de sua intimidade, Sara sentia que sempre faltava algo — uma faísca invisível, uma perda de controle absoluta que com Grissom nunca faltou.
Por essas e outras razões, Sara quase sempre se sentia em débito com o atual namorado. Enquanto Nick se entregava por inteiro no sexo, derramando sua verdade em cada toque, Sara não conseguia alcançar essa mesma entrega total. Sua mente permanecia parcialmente vigilante, guardada. Sua dívida silenciosa com o namorado só aumentava. O lado bom, se é que havia algum, era o fato de Nick nunca perceber essa sutil ausência; talvez pelo fato de Sara ser uma excelente "atriz" em momentos assim, performando a entrega que não conseguia sentir completamente.
Sara respirou fundo, apertando Nick contra si, tentando usar aquele corpo seguro para se ancorar. Não deveria estar comparando, mas, inevitavelmente, sua mente e seu coração faziam isso no escuro da madrugada.
Talvez o grande problema fosse o fato de que esse novo Grissom, que acordara de um coma de cinco dias despido de orgulho e cheio de fome de viver, não se parecia em nada com o Grissom frio que fizera o casamento deles chegar ao fim. E isso era o que mais a aterrorizava.
"Eu tenho tudo o que preciso bem aqui", Sara repetiu para si mesma no silêncio da mente, encarando o teto enquanto a respiração de Nick seguia pesada e compassada pelo sono.
Mas, ali no escuro, protegida pelo abraço do homem que a amava, Sara percebeu que o vinho e o carinho haviam acalmado seu corpo, mas sua alma continuava em alerta.
A imagem de Grissom — com aquele olhar urgente e desarmado — insistia em cruzar todas as barreiras que ela lutava para manter de pé.
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