O clique suave da porta ao se fechar deixou no quarto um silêncio quase palpável. Grissom soltou o ar que nem percebera que retinha, recostando a cabeça no travesseiro áspero do hospital. O monitor cardíaco, que havia disparado durante a conversa, começou a recuperar um ritmo mais brando, mas a mente do advogado continuava a mil por hora.

Ela não negara. Sara não conseguira dizer as palavras que sepultariam as esperanças do advogado de vez.

Vinte e quatro horas, Grissom pensou, fitando o teto branco e impessoal. O primeiro dia de seu prazo de um mês seria gasto ali dentro, trocando a liberdade por soro na veia e monitoramento eletrocardiográfico. Mas amanhã, às dez da manhã, o jogo começaria de verdade.

A porta abriu-se novamente, quebrando suas elucubrações. Catherine entrou no quarto trazendo um copo de plástico com café e um sanduíche natural. Ela olhou para Grissom, depois para a poltrona vazia e, por fim, para as linhas oscilantes do monitor.

- Pelo ritmo desse bipe aí, a conversa foi de tirar o fôlego — Catherine comentou, acomodando-se e dando uma mordida no sanduíche. — Cruzei com a Sara no corredor. Ela parecia ter visto um fantasma. Mal falou comigo, só pegou os meninos e voou para o elevador. A Liz quase derrubou a porta da recepção de tanto ódio. O que você aprontou, Grissom?

O advogado esboçou um sorriso fraco, mas carregado de uma determinação que Catherine não via nele há anos.

- Eu só joguei limpo, Cath. Pela primeira vez em muito tempo. Pedi para Sara me olhar nos olhos e dizer que não me ama mais.

Catherine parou de mastigar no mesmo instante. Arqueou as sobrancelhas, impressionada com a audácia do sócio.

- E ela disse?

- Não. Não conseguiu. Ela fugiu, mas disse que vem me buscar amanhã às dez, depois que eu receber alta, já que você não vai poder por conta do compromisso no fórum.

Catherine engoliu o alimento e deixou o copo de café de lado, adotando uma postura mais séria.

- Que bom que ela vem. Mas, Gil... toma cuidado. Eu quero mais do que tudo ver você bem e, se for para ser, ver você e a Sara juntos de novo. Mas não se esqueça de que tem outra pessoa na jogada. O Nick não é um qualquer, ele está na vida da Sara há um ano. Os meninos gostam dele. A Sara construiu uma rotina segura com ele. Você vai ter que remar muito para desmanchar esse nó, e a Liz não vai facilitar em nada para você.

- Eu sei — Grissom suspirou, o semblante obscurecendo ao lembrar das palavras cortantes da filha mais velha. — A Liz está sangrando por dentro, Cath. E eu fui o responsável por cada gota daquela mágoa. Mas eu não vou desistir. Eu tenho um... — ele quase falou a palavra prazo, mas se corrigiu a tempo -, eu tenho uma nova chance de viver. Não vou desperdiçar um segundo sequer.

- Assim que se fala — Catherine sorriu, tocando a perna do amigo por cima do lençol. — Agora, trate de descansar. Se você quer estar de pé amanhã às dez, precisa cooperar com o Dr. Albert.

Enquanto isso, o trajeto de carro de volta para casa foi mergulhado em um silêncio sepulcral. Sara mantinha as mãos firmes no volante, os olhos fixos na avenida congestionada, mas sua mente estava presa naquele quarto de hospital, revivendo o toque da mão de Grissom e a intensidade daquele olhar azul.

No banco de trás, Liz mantinha os fones de ouvido no volume máximo, isolando-se do mundo, enquanto Dudu olhava pela janela, pensativo.

- Mãe? — Dudu chamou baixinho, inclinando-se para a frente, entre os bancos dianteiros.

- Oi, meu amor? — Sara respondeu, tentando forçar um tom de voz leve.

- O papai parecia... diferente hoje. Ele parecia triste, mas não parecia bravo ou com pressa. Você achou também?

Sara engoliu em seco, sentindo um nó apertar sua garganta.

- Ele passou por algo muito grave, Dudu. Uma experiência assim muda as pessoas.

- Eu gostei que ele lembrou do meu futebol — o menino sorriu de canto, encostando as costas no banco novamente.

Pelo espelho retrovisor, Sara viu Liz tirar um dos lados do fone, os olhos castanhos cheios de desdém.

- Ele só lembrou porque quase morreu e ficou com peso na consciência — Liz disparou, a voz transbordando acidez. — Mudou nada, Dudu. Aposto que assim que ele estiver recuperado já vai estar enfiado naquele escritório de novo até as dez da noite, esquecendo que a gente existe. Ele sempre fez isso.

- Elizabeth, já chega — Sara repreendeu com doçura, mas com firmeza. — O que seu pai fez no passado foi errado, mas ele é humano. E quase se foi para sempre naquela mesa de cirurgia. Guardar esse veneno só vai fazer mal a você mesma.

Liz não respondeu. Apenas recolocou o fone com força e voltou a encarar o vidro da janela, embora uma lágrima teimosa tivesse escapado e escorrido por sua bochecha, sendo limpa rapidamente para que ninguém visse.

Ao estacionarem na garagem, a silhueta de Nick apareceu na porta da varanda com um sorriso acolhedor. Ao ver Sara saltar do carro com o semblante visivelmente abatido, o sorriso de Nick diminuiu milímetros, substituído por uma sutil ponta de insegurança.

Sara olhou para o atual namorado e sentiu o peso da culpa esmagar seu peito. Nick era perfeito. Não merecia o que estava prestes a acontecer. Mas, ao mesmo tempo, Sara sabia que o retorno de Grissom da linha da morte havia reaberto uma caixa de Pandora em seu próprio coração.

Nick desceu os pequenos degraus da varanda e foi ao encontro deles. Sentindo a eletricidade estática no ar, ele abraçou Dudu de lado e passou a mão no ombro de Liz, que aceitou o carinho como um refúgio.

- Oi, pessoal. Como foi lá? — Nick perguntou, mantendo o tom suave, mas seus olhos buscavam os de Sara, tentando decifrar o turbilhão que via neles.

- Ele acordou bem, Nick — Dudu respondeu, tentando aliviar o clima. — Conversou bastante comigo.

- Que bom, cara. Fico muito feliz. — Nick sorriu genuinamente para o menino, antes de focar a atenção na namorada. Ele deu um passo à frente e segurou as mãos de Sara, que estavam frias. — E você, meu amor? Está bem? Parece que viu um fantasma.

Sara tentou esboçar o seu melhor sorriso, aquele que costumava usar para tranquilizar os alunos na faculdade, mas a máscara vacilou. A sensação dos dedos de Grissom contra os seus ainda queimava em sua pele como uma marca viva.

- Só estou cansada, Nick. Foi... muita informação para um dia só. O hospital drena a energia da gente — mentiu, odiando-se por isso. — A Clarice preparou o lanche da tarde?

- Ela fez aquele bolo que o Dudu adora. Vamos entrar? — Nick sugeriu, entrelaçando seus dedos aos de Sara.

Sara assentiu, deixando-se guiar para dentro de casa. Mas, enquanto caminhava de mãos dadas com o namorado, seu pensamento teimava em correr na direção oposta. "Eu venho te buscar amanhã", ela havia prometido ao ex. E agora, olhando para a vida estável, doce e segura que Nick lhe oferecia, Sara sentia-se dividida entre a calmaria do porto onde estava e a tempestade do oceano que jurou nunca mais navegar.

No hospital, a noite caiu trazendo o silêncio pesado das alas médicas. Catherine já havia ido embora após insistir muito para que Grissom descansasse, prometendo que estaria no escritório logo cedo para cuidar dos casos mais urgentes.

Sozinho no quarto, iluminado apenas pela luz azulada dos monitores e pelos reflexos da cidade que filtravam através da janela, Grissom encarava o teto. Seu peito subia e descia ritmicamente. Ele levou a mão até a cicatriz recente abaixo da clavícula, onde o pequeno dispositivo pulsava, ditando o ritmo de sua vida física.

Trinta dias.

A voz que ouvira no limiar entre a vida e a morte ainda ecoava em sua mente como um aviso solene. Ele não tinha tempo a perder com orgulho, com protocolos ou com medo. Amanhã começaria a sua verdadeira jornada. Ele precisava mapear cada passo: reconquistar o perdão de Liz, restabelecer o vínculo com Dudu e, a parte mais complexa e dolorosa de todas, provar a Sara que o homem que a negligenciou havia morrido naquela mesa de cirurgia.

Ele sabia que o tempo era seu pior inimigo e, ironicamente, o único recurso que lhe restava.

Grissom fechou os olhos, sintonizando o bipe do monitor cardíaco. Cada batida era um segundo a menos no cronômetro do universo. Mas, pela primeira vez em dois anos, ele não sentia medo do futuro. Sentia fome de viver.

No dia seguinte, às nove e meia da manhã, o movimento na recepção do hospital era calmo. Sara estacionou o carro na vaga de visitantes, desligou o motor e segurou o volante com força, respirando fundo. Ela havia passado a noite em claro, rolando de um lado para o outro na cama, esquivando-se dos abraços sonolentos de Nick enquanto sua mente repassava cada detalhe do olhar de Grissom.

"Irei apenas levá-lo para o apartamento dele e voltar para a minha vida", repetiu para si mesma como um mantra.

Ela desceu do carro, ajeitou a bolsa no ombro e caminhou em direção aos elevadores. Quando as portas de metal se abriram no andar do quarto de Grissom, Sara esperava encontrar o ex-marido ainda deitado, vulnerável, com os trajes azuis do hospital.

Em vez disso, ao empurrar a porta do quarto 405, Sara estancou.

Grissom já estava de pé. Vestia uma calça jeans escura, uma camisa social branca com as mangas dobradas até os antebraços e os cabelos estavam alinhados e elegantes como sempre. Ele terminava de fechar o zíper de uma pequena mala de mão com a ajuda de uma enfermeira.

Ao ouvir o barulho da porta, Grissom virou-se. Um sorriso aberto, caloroso e inteiramente focado surgiu em seus lábios ao fixar os olhos em Sara.

- Pontual como sempre, professora — Grissom disse, a voz firme, embora seus olhos azuis brilhassem com uma intensidade que fez as pernas de Sara vacilarem por um breve segundo. — Estou pronto. Vamos para casa?

- Sua casa! — Sara corrigiu imediatamente, o tom mais rígido do que pretendia, numa tentativa deliberada de traçar um limite invisível no espaço entre eles. Ela pigarreou, desviando o olhar dos olhos azuis de Grissom e focando na outra mulher presente no quarto. — Oi! Ele já está liberado? — Sara quis saber da enfermeira.

- Oi, senhora. Sim, ele já está — a moça respondeu com um sorriso contido, alternando os olhos entre os dois. O ambiente parecia ter ficado subitamente mais quente.

Grissom não se abalou com a correção. Pelo contrário, manteve o sorriso calmo e cruzou os dedos, sentindo o pulsar constante em seu peito. Cada resistência de Sara era apenas o ponto de partida.

- Minha casa, claro — Grissom cedeu com suavidade, dando um passo à frente com a mala de mão. — Força do hábito.

A enfermeira, percebendo que a tensão ali precisava de espaço para se dissipar, resolveu se retirar.

- Bom, a papelada da alta já está toda assinada e o Dr. Albert liberou as receitas dos remédios — ela disse, entregando uma pasta com documentos para Sara. — Eu vou indo. Qualquer coisa, é só entrar em contato com o seu médico, senhor. Se cuide.

Com um aceno rápido, a enfermeira saiu do quarto, deixando o silêncio para trás.

Sara segurou a pasta contra o peito, quase como um escudo protetor. Olhou para Grissom, que parecia muito mais vívido do que no dia anterior, apesar da leve palidez que ainda teimava em contornar suas maçãs do rosto.

- Eu trouxe o carro — Sara quebrou o silêncio, apontando com a cabeça para o corredor. — Vamos? O trânsito não deve estar dos melhores.

- Vamos — Grissom respondeu, pegando a mala e dando um passo à frente, diminuindo a distância entre os dois até que Sara pudesse sentir o perfume suave que o advogado costumava usar em ocasiões especiais. — Obrigado por vir, Sara. Eu sei que não era sua obrigação.

- Não precisa agradecer — Sara disse antes de dar um passo atrás, evitando a proximidade física. — Fiz isso porque Catherine não pôde e pelos meninos. E também porque... ninguém merece sair de um hospital sozinho de táxi depois de um coma.

Grissom observou o movimento defensivo da ex-mulher e sentiu uma pontada de ternura misturada com a urgência do tempo. O cronômetro estava correndo. Ele não pretendia desperdiçar o trajeto até o seu apartamento.

O caminho até o estacionamento foi feito em um silêncio cortês, mas carregado de uma eletricidade muda. Grissom caminhava com passos um pouco mais lentos do que o habitual, adaptando-se ao ritmo do próprio corpo ainda em recuperação, enquanto Sara seguia um passo à frente, liderando o caminho como se estivesse com pressa de encerrar o dia.

Ao chegarem ao carro, Grissom esperou que Sara destravasse as portas. Entrou no banco do passageiro e, por um instante, fechou os olhos, respirando o aroma do veículo. Era o mesmo cheiro de baunilha de dois anos atrás. Sara mantinha os mesmos hábitos, a mesma essência.

Sara deu a partida, e o veículo deslizou para fora do hospital, integrando-se ao fluxo do trânsito de Las Vegas.

- Como estão as coisas na universidade, Sara? — Grissom quebrou o gelo, virando o rosto na direção dela.

Sara manteve os olhos fixos no retrovisor antes de mudar de faixa.

- Estão ótimas. Peguei a coordenação de uma nova linha de pesquisa, que está dando bastante trabalho, mas os alunos são ótimos — respondeu de forma sucinta, evitando prolongar o assunto. — E você deveria estar pensando em repouso, não em trabalho ou faculdade. O Dr. Albert foi bem claro sobre evitar qualquer tipo de estresse.

- Eu não estou pensando em trabalho — Grissom retrucou com suavidade, o tom de voz calmo e desarmado. — Estou pensando em você. Em como você consegue dar conta de tudo sozinha. Da casa, das aulas, dos meninos...

Sara apertou o volante com um pouco mais de força, os nós dos dedos ficando brancos.

- Eu não estou sozinha, Grissom. Eu tenho o Nick. — pontuou, ajeitando a postura no banco. — Ele é um parceiro e tanto. Me ajuda muito. Com tudo.

Mencionar o nome do namorado era o lembrete que Sara precisava dar a si mesma — e ao ex. Uma linha na areia que não deveria ser cruzada.

Grissom sentiu a sutil alfinetada, mas não recuou. Ele olhou pela janela, vendo os prédios passarem, antes de responder com uma maturidade que surpreendeu a ex-esposa:

- Fico genuinamente feliz por isso, Sara. Se tem uma coisa que esse susto me ensinou, é que ninguém deveria carregar o mundo nas costas. Fico aliviado de saber que havia alguém lá por você quando eu escolhi sumir.

Sara piscou, surpresa. Esperava uma reação de ciúmes, um comentário sarcástico ou a velha altivez jurídica de Grissom tentando desmerecer a concorrência. Mas aquela honestidade nua a deixou sem chão por alguns segundos. Ela diminuiu a velocidade ao se aproximar de um semáforo vermelho e finalmente olhou para Grissom.

- Você está diferente, Grissom — Sara murmurou, os olhos castanhos esquadrinhando o perfil do advogado. — E não é só pela palidez.

Grissom voltou a encará-la, sustentando o olhar com uma intensidade mansa.

- Eu morri por alguns instantes, Sara. E quando você passa pelo que eu passei... os prazos do escritório perdem o sentido. O status perde o sentido. A única coisa que resta é o que a gente deixou de viver. Eu tenho trinta dias de licença médica obrigatória — mentiu sutilmente, adaptando a verdade do seu prazo celestial -, e eu pretendo usar cada um desses dias para consertar o que eu quebrei. Começando pelos meus filhos. E, se você me permitir, pela nossa... amizade.

O semáforo abriu, e o som de uma buzina atrás delas forçou Sara a acelerar. O coração da professora universitária batia num ritmo descompassado. Amizade. Era uma palavra segura, mas vinda de Grissom, parecia o começo de um xeque-mate.

Dez minutos depois, o carro estacionou em frente ao condomínio de luxo onde Grissom morava desde a separação. Um prédio imponente, mas frio, que Sara sempre achara impessoal demais.

- Entregue em segurança — Sara disse, puxando o freio de mão, mas mantendo o motor ligado.

Grissom olhou para a mala no banco de trás e depois para Sara.

- Você não quer subir para tomar um café? Eu posso preparar algo leve.

Sara segurou a maçaneta da porta, o peito subindo e descendo. O convite era simples, mas o perigo ali dentro era real. Se subisse aquele elevador, ela sabia que estaria dando o primeiro passo em direção ao passado que tanto lutara para enterrar.

- Acho melhor não — Sara respondeu, mantendo a voz o mais firme possível, embora seus dedos estivessem apertando a maçaneta com força. — Eu preciso passar no mercado antes de ir para a universidade, e os meninos estão me esperando para o jantar mais tarde com o Nick.

- Por favor, Sara. É minha forma de agradecer pela gentileza de me trazer até aqui. — Grissom manteve o tom suave, mas seus olhos azuis tinham uma urgência silenciosa que tornava o pedido quase impossível de ser ignorado. — Prometo que não vai demorar. É só um café, ou um copo d'água. Só não quero entrar naquele apartamento vazio logo no meu primeiro dia fora do hospital.

Sara olhou para Grissom e, por um segundo, desarmou-se. A imagem do advogado poderoso e inabalável que ela conhecia não combinava com aquele homem vulnerável que pedia apenas um instante de companhia. Pensou em Nick, pensou na sua rotina segura, mas o peso dos cinco dias de coma de Grissom e o alívio de vê-lo vivo falaram mais alto.

- Tudo bem — Sara cedeu, soltando um longo suspiro e desligando o motor do carro. — Só um café rápido.

Grissom esboçou um sorriso contido, mas genuíno, muito parecido ao do filho Eduardo. A primeira barreira do dia havia sido vencida. Eles desceram do carro e, enquanto Grissom pegava a mala no banco traseiro, Sara caminhou ao seu lado em direção ao hall do edifício.

O saguão do condomínio era imponente, com mármore polido e uma iluminação impessoal, exatamente como Sara se lembrava. Eles entraram no elevador em silêncio. À medida que os números dos andares subiam no painel luminoso, a tensão dentro do cubículo de metal parecia aumentar. Sara olhava para o espelho, ajeitando o cabelo, enquanto Grissom mantinha os olhos fixos na ex, gravando cada detalhe da proximidade que havia perdido há dois anos.

Quando as portas se abriram no vigésimo andar, Grissom liderou o caminho até a entrada de seu apartamento. Ele colocou a chave cartão na trava eletrônica e empurrou a folha de madeira, revelando um ambiente amplo, decorado com móveis de design assinados, mas que exalava uma frieza quase palpável. Não havia fotos de família nas paredes, não havia brinquedos espalhados, tampouco o caos acolhedor que Sara mantinha na casa deles. Era o reflexo exato da vida que Grissom escolhera: o sucesso profissional cercado por um vazio absoluto.

- Vou deixar a mala aqui perto do aparador — Grissom disse após fechar a porta atrás de si. — Fique à vontade. Vou até a cozinha preparar o café.

Sara caminhou lentamente até a varanda gourmet, que oferecia uma vista panorâmica de Las Vegas. O dia estava claro, mas o vento que batia lá fora parecia espelhar a tempestade silenciosa que começava a se formar dentro dela. Ela cruzou os braços, tentando se concentrar no presente, mas cada centímetro daquele lugar a lembrava do divórcio.

Na cozinha, Grissom abriu os armários com um pouco de dificuldade, sentindo um incômodo leve no peito pelo esforço. Ele pegou duas xícaras de porcelana e ligou a cafeteira expressa. Suas mãos ainda tremiam de leve, um lembrete físico de que seu tempo na Terra agora tinha um preço e uma contagem regressiva. Ele não podia falhar.

Minutos depois, Grissom caminhou até a varanda carregando uma bandeja pequena com as duas xícaras fumegantes.

- Aqui está — Grissom disse, oferecendo uma das xícaras a Sara.

Sara pegou o objeto, sentindo o calor da porcelana contrastar com suas mãos frias.

- Obrigada — murmurou Sara, dando um gole curto. — O apartamento continua igual, da única vez que vim. Limpo, organizado... e silencioso demais.

- Silencioso até demais mesmo — Grissom concordou, apoiando-se no parapeito da varanda e olhando para a imensidão da cidade antes de voltar os olhos para a ex-mulher. — Sabe, Sara... quando eu estava naquele hospital, antes de acordar, eu tive a nítida sensação de estar em um lugar completamente isolado. Uma espécie de paraíso. Ar puro, calmaria. E a única coisa que me fazia querer quebrar aquele silêncio era a lembrança da sua voz. Da sua risada. Do barulho que as crianças faziam correndo pela nossa casa.

Sara travou com a xícara na altura dos lábios. O olhar de Grissom era direto, desprovido de qualquer uma das defesas jurídicas ou do orgulho que costumavam ditar suas conversas após a separação. Ele estava jogando com o coração aberto, e isso assustava Sara mais do que qualquer briga.

- Grissom, não faz isso... — Sara pediu, deixando a xícara sobre a mesinha de centro da varanda. Ela deu um passo para trás, balançando a cabeça. — Não é justo você me dizer essas coisas agora. Você passou anos agindo como se nós fôssemos apenas um compromisso burocrático na sua agenda. Eu tive que juntar os meus pedaços e os dos meninos sozinha, depois da separação.

- Eu sei — Grissom deu um passo à frente, sem pressa, respeitando o espaço de Sara, mas sem desviar o olhar. — E eu vou carregar essa culpa pelo resto dos meus dias. Eu fui egoísta, Sara. Achei que o sucesso profissional compensaria a minha falta como marido e como pai. Mas a morte não quer saber do meu extrato bancário. Quando meu coração parou, a única coisa que importou foi o tamanho do vazio que eu deixei em vocês.

Sara engoliu em seco. O vento da varanda balançava os fios escuros de seu cabelo, e os olhos castanhos começaram a marejar. Ela lutava com todas as suas forças para manter a muralha que levara vinte e quatro meses para erguer.

- Eu mudei a minha vida, Grissom. Eu precisei mudar — Sara disse, a voz trêmula de uma mágoa que parecia querer voltar à superfície. — Eu estou com o Nick agora. Ele me dá a paz que eu nunca tive em nossos últimos anos juntos. Ele planeja jantares e cumpre, ele quer estar comigo, ele ama os nossos filhos...

- Eu sei. E ele parece ser um sujeito incrível — Grissom assentiu com generosidade, embora cada palavra sobre o rival pesasse em seu peito. — Mas ontem, quando eu te pedi para me olhar nos olhos e dizer que não me amava mais... você não conseguiu. Você fugiu, Sara.

Sara desviou o olhar para o horizonte de prédios, recusando-se a encarar a verdade nua que Grissom jogava em sua direção.

- O que você quer de mim, Grissom? — Sara perguntou, quase num sussurro desesperado. — Que eu jogue tudo para o alto? Que eu arrisque a estabilidade da nossa família por uma promessa feita na cama de um hospital? Como eu posso saber que, daqui a um mês, quando essa licença médica acabar, você não vai voltar a ser o mesmo advogado viciado em trabalho de antes?

Grissom olhou para as próprias mãos e depois para o peito, onde o marca-passo ditava o ritmo dos seus trinta dias na Terra. "Daqui a um mês...", pensou, sentindo a ironia dolorosa da pergunta de Sara. Daqui a um mês, ele poderá não estar mais aqui de forma definitiva. Ele não tinha o luxo do tempo para provar nada no longo prazo; precisava agir no agora.

- Você tem toda a razão de duvidar — Grissom respondeu, aproximando-se o suficiente para que Sara pudesse ouvir a sinceridade em sua respiração. — Eu não te peço para jogar nada para o alto hoje. Eu só te peço uma chance. Uma chance para eu provar, através das minhas atitudes com o Dudu e com a Liz, que eu sou um homem diferente. Me deixa ser pai deles de verdade de novo. E me deixa... reconquistar a sua confiança. Como amigo, para começar.

Sara olhou para Grissom. O orgulho e a altivez do ex-marido haviam sido completamente substituídos por uma humildade cortante, quase mística. Havia uma urgência nos olhos de Grissom que Sara não conseguia compreender, mas que a tocava no fundo da alma.

- Eu preciso ir — Sara desconversou, pegando sua bolsa sobre a poltrona, a voz ainda instável. Ela caminhou até a porta do apartamento e parou com a mão na maçaneta, virando-se para Grissom uma última vez. — O Dudu quer você no jogo de futebol dele no sábado. Começa às dez da manhã, no clube. Vá. Vá por ele. Vamos ver se você cumpre a sua primeira promessa.

Grissom sorriu, um sorriso leve e grato.

- Eu vou estar lá, Sara. Sem atrasos.

Sara assentiu com a cabeça, abriu a porta e saiu, deixando o apartamento.

Grissom fechou a porta e encostou as costas na madeira, soltando o ar lentamente. Ele olhou para o relógio de parede na cozinha. O primeiro dia já estava na metade. Caminhou até o aparador, pegou o celular que Catherine havia deixado ali e abriu a agenda. Não para olhar os processos do escritório, mas para marcar, com letras garrafais, o compromisso de sábado.

Sua primeira batalha pelos seus filhos — e pelo amor de sua vida — tinha data e hora para acontecer.

Notas finais
Será que ele vai aparecer ou vai acontecer algo ué o impedirá de ir? No próximo capítulo descobrimos. Xero.