— Amorzinho!

Nick se ergueu do sofá com um sorriso radiante, segurando um ramalhete impecável de tulipas coloridas cujas pétalas pareciam vibrar na iluminação da sala.

- Nick! — Sara esboçou um sorriso, pego de surpresa.

- Para você, meu amor. — O professor estendeu as flores, aproximando-se para selar os lábios de Sara em um beijo carinhoso e demorado.

- Obrigada... Elas são absolutamente lindas, de verdade.

- Não mais do que você — Nick piscou, acomodando-se ao lado dela no estofado e subindo os dedos em um carinho suave pelos cabelos escuros de Sara.

Nick Stokes é completamente apaixonado por Sara. No íntimo, agradecia diariamente ao destino por aquela união. Para sua mente exata e lógica, era uma equação incompreensível como o ex-marido de Sara havia deixado uma mulher tão extraordinária, inteligente e fascinante escapar por entre os dedos. Se estivesse no lugar de Gilbert Grissom, jamais teria cometido a tolice de negligenciar aquele lar.

- E os meninos, ainda não voltaram da escola? — perguntou Nick, correndo o olhar pela casa silenciosa.

- Ainda não. Hoje o horário deles é um pouco mais estendido devido às atividades extracurriculares.

- Poxa, que pena. Achei que já encontraria os dois por aqui para almoçarmos juntos naquele restaurante do shopping.

Nick adorava os enteados. Sempre teve inclinação para a paternidade e acalentava o sonho de ser pai, mas sua antiga parceira cortara o plano na raiz. Acabou aceitando a imposição na época, mas agora se realizava exercendo o papel de um segundo pai para Liz e Dudu. Sabia o quanto o pai biológico deles havia sido uma figura fantasmagórica nos últimos anos e sentia orgulho de suprir aquele vácuo.

- Com certeza fica para outro dia, Nick — Sara sorriu, embora a linha de seus lábios não tenha alcançado totalmente o brilho de seus olhos.

- É verdade. Ah, aproveitando que estamos a sós... queria te fazer um convite. Na sexta-feira, o que acha de sairmos para jantar? Só nós dois, em um lugar especial.

Sara detectou uma leve nota de ansiedade no tom de Nick. Naquele instante, seu peito contraiu-se em uma culpa silenciosa; sentia-se em eterna dívida com o namorado. Nick a amava de forma límpida e entregue, mas Sara tinha plena consciência de que não habitava a mesma sintonia. Não conseguia amá-lo com a mesma voltagem. Gostava de sua companhia, de seu intelecto e do carinho genuíno que ele dispensava aos meninos. Poderia listar mil qualidades racionais que tornavam Nick Stokes o parceiro ideal, mas o coração humano rejeita cartilhas lógicas. Por mais que tentasse fincar os pés no presente, sua alma teimava em orbitar Grissom. O fantasma do ex-marido ainda assombrava os cantos daquela casa, mesmo após dois anos de divórcio.

- Podemos sim, Nick — Sara respondeu, forçando-se a ancorar os pensamentos na realidade. — Vou combinar com a Clarice para ela dar o suporte com os meninos nessa noite.

- Se você conseguir fechar com ela, bem que podíamos esticar o roteiro e passar a noite fora... — Nick propôs, desferindo um sorriso cúmplice, carregado de segundas intenções.

Eles já haviam dividido a mesma cama algumas vezes, mas Sara sempre experimentava um bloqueio invisível, uma sensação incômoda de auto vigilância. Nunca conseguia se entregar por inteiro ao toque do namorado. Sabia, no fundo, que era porque seu corpo e sua mente ainda guardavam o registro eletrizante do passado.

- Se a Clarice puder ficar, por mim tudo bem — Sara anuiu, polida.

- Vou torcer para dar certo! — Nick brincou, cruzando os dedos em sinal de figa.

Nesse momento, Clarice adentrou a sala carregando uma bandeja de prata com dois copos suados de suco natural.

- Trouxe uma limonada bem gelada para refrescar vocês. Está fazendo um calor absurdo em Las Vegas hoje — comentou a governanta, depositando a bandeja sobre a mesa de centro de vidro.

- Obrigada, Clarice — Sara agradeceu, estendendo um dos copos ao namorado.

Clarice ajeitou o avental de linho e olhou para Sara com uma cumplicidade afiada, os olhos brilhando.

- Já contou a novidade para o senhor Stokes, dona Sara?

- Que novidade? — o professor universitário questionou, interrompendo o gole do suco.

- O Grissom acordou do coma — Sara relatou. Dessa vez, um sorriso puro, genuíno e indisfarçável alívio iluminou suas feições.

Nick travou o copo no ar por um milésimo de segundo. Forçou um sorriso simpático, assentindo com a cabeça. Ele não nutria nenhuma animosidade gratuita contra Grissom. Havia cruzado com o renomado advogado criminalista duas ou três vezes no máximo ao longo do último ano, em transições rápidas de final de semana, e mal haviam trocado saudações formais. No entanto, o instinto de Nick sempre entrava em alerta na presença do outro homem. Nas poucas vezes em que se encararam, pôde jurar que os olhos azuis de Grissom sobre Sara transbordavam um sentimento dolorosamente vivo, quase possessivo. Sentia ciúmes, claro, mas tentava sufocá-lo na racionalidade. Sabia que teria que conviver com a sombra do ex-marido por conta dos filhos, embora Grissom não parecesse fazer o menor esforço prático para ser presente na rotina dos adolescentes.

- Que excelente notícia, Sara! Fico genuinamente feliz por ele e, principalmente, pelas crianças. E quando foi que ele despertou?

- Há pouquíssimo tempo. A Catherine me ligou diretamente do hospital para dar o boletim médico. O Grissom pediu para ver os meninos assim que abriu os olhos, então vou levá-los lá logo após o almoço.

Nick apenas assentiu, sorvendo mais um gole de sua limonada enquanto um silêncio sutil, denso e desconfortável se instalava na sala de estar.

****

- Mas por que eu sou obrigada a ir?! — a voz de Liz ecoou pela sala, cortante e carregada de indignação.

- Porque ele é seu pai, sofreu uma intercorrência grave e quer ver você e seu irmão, Liz.

- Agora ele lembrou que tem filhos e exige nos ver? — a jovem de quinze anos cruzou os braços com violência, os olhos escuros faiscando. — Pois eu não quero e não vou fazer papel de visita de hospital para quem sumiu da minha vida.

Liz deu as costas com crueza, pisando firme em direção à escada de madeira que levava ao andar superior, mas a voz de Sara soou em um tom metálico, uma autoridade que congelou os movimentos da adolescente imediatamente.

- Se você der mais um único passo em direção a essa escada, Elizabeth, eu confisco o seu celular, suspendo a sua mesada por dois meses e cancelo a sua ida ao show com as suas amigas no fim do mês. E você me conhece muito bem para saber que eu não faço ameaças vazias. Então, abaixe o tom e não me contrarie.

Sara detestava ter que recorrer a ultimatos rígidos, mas a rebeldia defensiva de Liz estava cruzando a fronteira do tolerável. O comportamento da filha em relação ao pai vinha se tornando uma barreira intransponível e Sara, no fundo, experimentava uma pontada de culpa por ter permitido que aquele ressentimento se ramificasse tanto sem intervenção.

- Eu não quero olhar para ele, mãe... — Liz virou-se lentamente, os olhos castanhos idênticos aos de Sara agora marejados de uma dor antiga.

Sarah suspirou pesado, sentindo o coração se comprimir. Sabia que não tinha sido fácil para a primogênita digerir o divórcio e o subsequente sumiço gradual de Grissom nas engrenagens do escritório de advocacia. O distanciamento do criminalista havia quebrado algo precioso e insubstituível dentro da menina.

- O pai que eu tinha... era outra pessoa — desabafou a jovem, a voz finalmente embargando. — Não esse homem frio que só liga para audiências e clientes.

Sara caminhou até ela com passos calmos, segurando sua mão com firmeza e delicadeza, guiando-a de volta ao sofá. Do outro lado da sala, Dudu, o caçula de doze anos, permanecia em um silêncio maduro, apenas testemunhando a tempestade emocional da irmã mais velha.

- Olhe para mim, Liz. Eu sei perfeitamente que vocês guardam essa mágoa pelo fato de o pai de vocês ter se distanciado. Ele errou com vocês, e errou feio, eu sou a primeira a reconhecer. Mas, aconteça o que acontecer nesta vida, ele continua sendo o pai de vocês. Isso é um fato jurídico e biológico imutável.

- Eu só queria que as coisas fossem como antes... — Liz sussurrou, desviando o olhar para o chão.

- Eu sei, meu amor. Mas não repita esse comportamento agressivo, muito menos no leito dele. Descarregar o seu rancor agora não vai cicatrizar a sua ferida. O Grissom passou por uma situação limite, Liz. O coração dele parou no meio da rua. Ele esteve clinicamente morto por minutos. Nós poderíamos estar organizando um funeral hoje, e você carregaria o peso dessa última rejeição para o resto dos seus dias. Eu perdi o meu pai muito cedo, você conhece a minha história. É uma dor que arranca um pedaço da gente. Vocês não fazem a menor ideia do que é crescer sem um pai.

Dudu, que até então mantinha-se como um espectador silencioso, olhou para a irmã com os olhos azuis muito abertos e úmidos.

- Eu não quero que o papai morra, Liz. Eu sei que ele mudou muito e que quase nunca aparece para nos ver... mas eu também não quero ficar sem ele no mundo.

Sara estendeu a mão e acariciou o rosto do caçula. Eduardo também carregava as cicatrizes da ausência de Grissom, mas, ao contrário da irmã, possuía um temperamento brando e inclinado ao perdão.

- Tenho certeza de que ele vai se recuperar e vai demorar muitos anos para partir dessa vida, querido — Sara confortou-o, antes de mirar novamente as feições duras da filha.

- Liz... por favor. Não custa nada a gente ir lá ver como ele está. Vamos com a gente? — Dudu pediu, utilizando aquele tom suave e fraterno que sempre operava milagres sobre as defesas da irmã.

A garota bufou, soltando o ar retido nos pulmões com força. Ela possuía forças para peitar as ordens diretas da mãe, mas desarmava-se completamente diante dos apelos do irmão caçula. Dudu exercia uma espécie de magnetismo pacificador sobre ela.

- Está bem! Eu vou — Liz cedeu por fim, o tom irritado, mas visivelmente vencida pelo apelo emocional. — Será que agora eu posso subir para o meu quarto antes de entrarmos naquele carro?

Sara assentiu com um leve e agradecido aceno de cabeça. Viu a filha levantar-se num ímpeto e sumir degraus acima.

- Obrigada, meu pequeno estrategista — Sara deu uma piscadinha terna para o caçula, que apenas sorriu de volta, orgulhoso de sua discreta e fundamental vitória familiar.

Notas finais
Xero e até o próximo.