O tempo parecia correr em uma cadência elástica e incompreensível no Paraíso, mas para Grissom, cada segundo sem notícias de Greg assemelhava-se à tortura de esperar a sentença de um júri. Angustiado, o advogado andava de um lado para o outro à beira da água, os pés afundando ritmadamente na grama macia. Ele simplesmente não conseguia se desligar da Terra. Sentia os fios invisíveis de sua vida lá embaixo, repuxando sua caixa torácica; não estava pronto para abraçar o descanso eterno. Não agora, não daquele jeito.

Parando de forma abrupta, ele fixou os olhos marejados no horizonte sem fim e, pela primeira vez em décadas, uniu as palmas das mãos em uma prece silenciosa e sôfrega.

- Meu Deus... eu sei que ando em dívida com o Senhor. Eu me afastei, eu sei. Abandonei a minha fé assim como negligenciei a minha própria família. Mas, por favor... me dê apenas uma chance de consertar os meus erros. Uma brecha para trazer de volta as três pessoas que eu mais amo no mundo. Eu imploro.

Ele queria que aquela súplica rasgasse a imensidão azul. Precisou o coração parar para que ele percebesse o tamanho da própria estupidez. Seus filhos, sua Sara... ele havia cavado aquele abismo com as próprias mãos, mas agora estava disposto a mover o mundo para reconquistá-los. Só precisava que o Todo-Poderoso lhe concedesse o milagre da revogação.

- Grissom!

A voz ecoou pelo descampado. Grissom girou nos calcanhares e avistou Greg, um pouco mais distante, sinalizando com um aceno firme. Sem pensar duas vezes, o advogado correu, esquecendo qualquer resquício de protocolo ou dignidade.

- E então? — perguntou, arquejante, o peito subindo e descendo assim que estancou diante do anjo.

- Me acompanhe, Grissom.

- O que Ele disse, Greg? — insistiu, emparelhando os passos com os dele. A impaciência era uma lâmina afiada cravada em seu peito. — Ele aceitou o meu pedido?

- Quando chegarmos ao ponto de partida, eu lhe darei o parecer.

Em silêncio, Grissom o seguiu de volta à margem isolada do lago cristalino.

- Grissom, eu intercede muito por você — começou Greg, quebrando a calmaria com uma seriedade que gelou a espinha do advogado. — Como eu nunca havia feito por nenhuma outra alma antes neste plano.

- E...?

- Esta é uma situação completamente atípica. Jamais um pedido como esses termos foi concedido e...

- Nem precisa continuar, Greg... — Grissom o interrompeu, a voz falhando enquanto as primeiras lágrimas quentes transbordavam. O peso esmagador de uma rejeição divina o soterrou. — Eu já entendi. Ele negou.

Sem forças nas pernas, o orgulhoso advogado desabou sentado sobre a grama. Cobriu o rosto com as mãos e entregou-se a um pranto doloroso, o lamento cru de quem sabia que tinha perdido tudo por pura vaidade. Nunca mais veria o sorriso de Sara. Nunca mais sentiria o abraço dos filhos. Estava pagando o preço por ter sido um fantasma em sua própria casa. Um idiota completo.

- Eu não quero ficar aqui, Greg... — soluçou entre os dedos. — Eu quero a minha família. Eu descobri da pior forma que eu não sou absolutamente nada sem eles. Eu não mereço, eu sei... mas eu só queria uma chance.

Ao seu lado, um sussurro terno quebrou o ritmo dos soluços. Greg agachou-se, um sorriso brando desenhando-se em seus lábios.

- Que bom que você descobriu isso. E eu espero sinceramente que você diga exatamente essas palavras a eles... quando colocar os pés de volta na Terra.

Grissom estancou o choro no mesmo milésimo de segundo. Afastou as mãos trêmulas do rosto, os olhos vermelhos e arregalados, processando o impacto daquelas palavras.

- Quando eu... voltar?

- O Pai concedeu a sua apelação, Grissom.

Um riso frouxo de puro alívio, escapou do peito do advogado. Uma enxurrada de adrenalina, gratidão e choque elétrico tomou conta de suas veias.

- Eu vou voltar? De verdade?

- Sim. Você terá uma chance que nenhuma outra alma recebeu antes. Espero que saiba usá-la com sabedoria.

- Eu vou, Greg! Eu juro por tudo! — Grissom levantou-se num salto, limpando as lágrimas com as costas das mãos.

- Ótimo. Mas agora preciso que você ative a sua mente jurídica e preste muita atenção. Há uma cláusula restritiva.

- Não importa qual seja, eu assino embaixo!

- Você não prefere ouvir os termos primeiro antes de fechar o contrato? — ironizou o anjo, arqueando a sobrancelha.

- Não faz diferença. Eu topo qualquer negócio.

Greg suspirou, recuperando a postura solene.

- Pois bem. Você terá um prazo estrito para consertar as coisas com sua família e obter o perdão deles. Se, ao final desse período, você falhar... sua sentença de morte se tornará definitiva e você retornará para cá imediatamente.

- Você quer dizer que... se eu não reconquistar meus filhos e a Sara, eu caio morto de vez?

- Exatamente. O trânsito em julgado.

A gravidade do pacto finalmente se assentou sobre os ombros de Grissom. Falhar significaria o fim absoluto. Ele teria que ser impecável.

- Tudo bem. Qual é o prazo?

- Um mês.

- Um mês?! — O pânico profissional de prazos processuais correu por seu sangue. — Greg, são anos de mágoa acumulada! Como eu vou reverter todo esse estrago em trinta dias?

- Isso é com você. Esse foi o prazo fixado pelo Tribunal Superior — brincou o anjo, sutilmente. — Você mesmo disse que aceitaria qualquer condição.

Grissom engoliu em seco, endireitando a postura e assumindo sua expressão de julgamento.

- Tudo bem. Eu vou dar um jeito. Eu vou conseguir.

- Saiba que será uma estrada tortuosa e cheia de espinhos.

- Você não deveria ser um guia mais otimista e me dar um voto de confiança? — Grissom rebateu, tentando aliviar a imensa tensão no peito.

Greg sorriu, terno.

- Sou um anjo, Grissom, mas também sou realista. Você estraçalhou o coração da sua ex-mulher e ergueu um muro entre você e seus dois filhos. Sabe melhor do que eu o tamanho do prejuízo. Mas... eu torço por você. De verdade.

Tomado por um impulso de pura e genuína gratidão, Grissom deu um passo à frente e enlaçou o anjo em um abraço apertado.

- Obrigado, Greg. Muito obrigado por olhar por mim.

Greg congelou por um breve instante, surpreso com o contato humano, antes de retribuir o gesto delicadamente.

- Acho que nunca vi uma alma chegar aqui tão... obstinada a viver quanto você, Grissom. Foi isso, e a verdade na sua dor, que me moveu a interceder.

- E se eu conseguir? O que acontece depois que o prazo expirar?

- Você segue sua vida normalmente na Terra, até o seu próximo e definitivo chamado. E não se preocupe, este vai demorar ainda — tranquilizou o anjo. — Agora, um último aviso legal: você não pode, sob hipótese alguma, revelar a ninguém o que aconteceu aqui.

- Até parece que alguém acreditaria se eu contasse que fui ao céu e negociei um recurso com um anjo — Grissom desdenhou com um sorriso de canto. — Segredo guardado. E agora? Como eu faço para descer? Tem algum portal, alguma luz...?

Greg não aguentou e soltou uma gargalhada limpa, que ecoou pelo lago.

- Qual é a graça?

- Vocês, humanos, têm uma visão muito cinematográfica sobre o pós-vida — disse o anjo, recuperando o fôlego. — Não há portas físicas. Apenas feche os olhos e se concentre na sua família. No amor que você sente por eles. Deixe que esse sentimento seja o seu ímã.

Grissom respirou fundo e cerrou as pálpebras. Mentalizou o rosto dos filhos, o cheiro característico dos cabelos de Sara, a sensação morna de estar em casa. Em poucos segundos, sua silhueta clara começou a tremeluzir no plano místico, tornando-se translúcida até desaparecer completamente da margem do lago.

- Boa sorte, Grissom... — sussurrou Greg para o espaço vazio.

- Greg Sanders...

Uma voz grave, profunda e reverberante ecoou por todo o ambiente, fazendo as águas do lago ondularem intensamente. O anjo encolheu os ombros, sobressaltado.

- ...você omitiu uma parte essencial do acordo.

Greg baixou a cabeça, o peito apertado sob a veste clara.

- Perdoe-me, Senhor. Mas eu não tive coragem. Como eu poderia dizer a ele que as leis do equilíbrio universal são imutáveis? Como eu contaria que, para ele ganhar essa segunda chance e permanecer vivo na Terra, a vida de alguém muito próximo a ele terá que ser levada em troca?

O silêncio do ambiente pareceu pesar toneladas sobre os ombros do anjo.

- Grissom jamais aceitaria voltar se soubesse o preço real de sua vida, apesar de ele ter dito que aceitaria qualquer que fosse a condição — continuou Greg, com a voz embargada. — E o Senhor mesmo me mostrou que ainda não era a hora dele. A jornada dele precisa continuar...

- Desde que ele consiga o perdão genuíno da ex-esposa e dos filhos - a voz pontuou, solene e definitiva.

- Ele vai conseguir, Senhor. Eu sei que vai.

****

Um bipe incessante, agudo e mecânico foi o primeiro som que atingiu os sentidos de Grissom.

O teto de nuvens e o céu límpido haviam sumido, substituídos pelas placas brancas, frias e impessoais de uma unidade de terapia intensiva. Ele estava cercado por uma parafernália de tubos, fios colados ao tórax, um cateter calibroso no braço e uma máscara de oxigênio que abafava sua respiração pesada.

O corpo inteiro doía como se tivesse sido atropelado por um caminhão, as costelas ardiam pelo esforço da reanimação, mas, por baixo do acrílico da máscara, um sorriso imenso e obstinado desenhou-se em seus lábios secos.

Ele estava de volta. Estava vivo.

O relógio digital na parede do hospital começou a correr. Um mês. Ele tinha exatamente trinta dias para consertar o estrago de uma vida inteira. E a contagem regressiva para a sua própria vida — e a de outro alguém, que ele sequer sabia — havia acabado de começar.


Notas finais
Será que ele consegue consertar as coisas nesse prazo curto? E quem será que morrerá caso ele consiga se resolver com a família?