Resfriado

1 Capítulo 1


As duas horas se arrastam,

deitada na nuvem negra sinto que sou abduzida

enquanto vejo sangue escuro escorrer nas paredes do meu quarto azul,

sufocante e amargurado.

E eu vou,

mergulhada num torpor de centenas de anos em segundos.

E volto,

me certificando de que foram só segundos.

Seria a música certa na hora errada ou a música errada na hora certa que me fez ficar assim?

Acho que não. Não importa.

Mas com essa sensibilidade reduzida minhas mãos não obedecem às ordens do meu cérebro

que também não são tão claras assim,

e isso só me dá mais vontade de quebrar meu violão

ou meus dedos, por não conseguirem tocá-lo.

Por que tudo está assim?

Hoje de manhã as coisas eram diferentes,

ou será que eu ouvi o zumbido alegre daqueles insetos a muito mais tempo?

Se é que de fato aconteceu.

Estranho.

Ficar triste, só e melancólica não costuma me incomodar,

na verdade o contraste destes com outras partes da minha realidade me deixa feliz.

Talvez eu esteja com algum problema por, de repente, sentir frio em meio a tanto calor

e me incomodar tanto com isso.

É. Eu devo estar doente.

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