Rescue Me
17 Resgate
Notas iniciais
Mais um capítulo. Esse vai com beijinho pra Hamano Chiaki.
E de novo, as notas estão no final do capítulo senão vou spoilear.
E de novo, as notas estão no final do capítulo senão vou spoilear.
Sinto meus olhos se abrirem, e por dois segundos tenho a sensação de que dormi por anos. Não consigo enxergar direito, mas o pouco que minha mista alcança me mostra um teto branco, de madeira, e uma luz infernal vindo na minha cara. Levanto o braço pra tentar impedir aquele estupro luminoso, e não foi preciso nem um segundo pra me arrepender da decisão. A dor é tão forte que eu sinto como se fosse desmaiar.
Volto a acomodar o corpo na cama, paralisado. Daí eu lembro exatamente o que aconteceu, e porque minha cabeça tá tão bagunçada. Lembro da correria, do pulo da janela, de ter corrido pra entrar no táxi. Eu só não sei onde estou nesse exato momento. O quarto tem armários e paredes em azul, e me parece bem familiar, então pelo menos o taxista não me levou pro hospital. É, valeu a pena.Tá, vamos por partes... olhando pro meu braço, não consigo ter nem ideia do que aconteceu com ele na hora que eu resolvi dar uma de McGyver, só sei que ele tá embrulhando em uma tala e mesmo assim tá doendo pra caramba. Acho que tentei virar ele pro lado errado na hora de me esconder do sol, sei lá. O bolso da minha roupa parece vazio, então ou eu perdi tudo que trouxe, ou alguém confiscou minhas coisas, e se isso tiver acontecido então eu tô muito, muito ferrado.Pensando bem, minhas possibilidades não são muitas. Na verdade, elas se reduzem a duas: ou eu tô no lugar onde eu deveria estar, ou em algum lugar pra onde a polícia me trouxe, e logo meu avô vai aparecer pra me buscar... como meus olhos parecem estar voltando ao foco até onde a miopia deixa, resolvo levantar logo e dar meu jeito de descobrir qual dos dois era, pra poder tomar as providências cabíveis.Pra sair da cama foi uma luta infernal. Meu corpo tá dolorido, mas nem se compara a como meu avô me deixou no apartamento dele. Eu até consigo respirar direito... os hematomas parecem menores, e tô mais enfaixado que cristal pra viagem. Isso era bom... pelo menos por aquele instante eu tava seguro. Isso é, até o pessoal do Juizado – se é que isso era um – ligar pra minha família e perguntar o que aconteceu.Vozes do lado de fora. Dá pra ouvir barulho de televisão, então talvez seja um orfanato... abro devagarinho, meio tonto, sentindo o estômago roncar. Mas que merda, por quanto tempo eu fiquei dormindo?A princípio a porta dá direto no corredor, e eu não vejo nada a não ser as paredes com fotos e quadros. E aí eu finalmente percebo porque aquele lugar é tão familiar. É porque eu já passei horas a fio ali, há um bom tempo atrás. Sigo no corredor, na direção da sala, e assim que chego no cômodo vejo, meio deitado no sofá, completamente acomodado, o dono da casa.Ou melhor, a dona.A gatinha laranja me vê e logo pula do seu assento, vindo se esfregar na minha perna. May não era a gata mais dócil do mundo, mas em todo o tempo que eu conhecia, ela nunca tinha sido agressiva com ninguém que demonstrasse ser íntimo da Sophia. E eu, sendo praticamente um irmão mais novo dela (não de sangue, claro), obviamente ia ser bem tratado.Então era isso. O taxista me trouxe até a casa da Sophia. Pego a May no colo com a mão boa e deixo ela ficar se esfregando em mim, enquanto me pergunto mentalmente que merda ela tinha feito com meu óculos. Mesmo assim, eu tava rindo à toa. Eu tava exatamente onde queria chegar... agora só precisava traçar a reta final do meu plano.Foi aí que o telefone tocou. May olha pra mim, meio espantada, e desce do meu colo pra voltar à televisão. Pelo visto, não tinha ninguém em casa, e não me parecia ruim atender... mas e se fosse meu avô? E se fosse alguém perguntando pelo meu paradeiro? E se fosse a polícia?... e se fosse o Saffron?Olho pra May, ao que ela me responde com um olhar quase tão sagaz e profundo quanto a própria Sophia daria. E depois dizem que os animais não se parecem com seus donos... gente louca. Respiro fundo e pego o telefone coma outra mão.- Alô.- Ah, até que enfim atenderam! – diz o homem de jeito alegre. – Vocês não acham que estão dormindo demais, não? Precisam atender esse telefone mais rápido, não dá pra deixar as pessoas esperando assim!A voz do outro lado é descontraída e familiar, mas não consigo pegar de primeira quem é. E nem de segunda, nem de terceira, e nem de quarta, na verdade. Mas que eu a conheço, conheço. Só não sei de onde.- Escuta, pode passar pra Sophia, faz favor?- Ah... ela não tá.- Como assim? Não tá? Droga, maldita mulher que não atende o celular! Quem tá falando?- Ah... aqui é o... Valter. Sobrinho dela.- Hmmm.... – o homem dá um sinal como se estivesse tentando lembrar do tal do Valter, e eu sinto que aquilo é um sinal pra desligar o mais rápido possível. – Então tá, Valter... sabia que conhecia tua voz de algum lugar. Bom, pode anotar um recado?Bem, até tinha papel e caneta do lado do telefone. O problema é que eu só tenho uma mão, e ela tá no telefone nesse exato instante. E outra, sem óculos é o mesmo que pedir pro cego fazer um retrato-falado.
- Pode falar. – contanto que não seja muitos números...- Avisa pra tua tia que o advogado ligou. A parada lá vai ser às 4h, mesmo... tá todo mundo pronto. Vamos esperar lá na comarca, e que é pra ela dar um sinal de vida pro Frank assim que pegar esse recado.- Tá.- Ok, valeu, Valter... – ele conclui, sem tentar disfarçar o deboche. – A gente se vê... isso é, se você for homem...E desligou. Aquilo foi a coisa mais filha da puta que eu já tinha visto na vida. Como ele soube? Quem ele achou que eu era? Ou melhor, o mais importante, quem ELE era?Mas no fim não me sobrou muito tempo pra pensar. Sinto uma mão bater no meu ombro, e logo em seguida, uma voz fria e seca perguntar.- Quem era, Sven?Viro-me, e dou um grito assim que vejo o homem. Ele coloca a outra mão no meu ombro, mas claro que aquilo não ia me acalmar nunca.- ME LARGA! QUEM É VOCÊ? EU NÃO VOU EMBORA, NÃO VÃO ME LEVAR!Tento me soltar pra correr, mas não tenho força nenhuma. Ele dá um suspiro, meio impaciente, e coloca uma coisa no meu rosto.- Hitori...De repente, toda a sala entra em foco, e eu diviso o rosto do meu professor de história. Mas o mais incrível é que dá pra ver o rosto dele... pela primeira vez na vida, eu o vejo sem aquele cachecol grosso que tapa mais da metade da cara dele em sala, mesmo nos dias de calor intenso. Sinto como se estivesse vendo algo que era um marco pra humanidade.- Ah... – falo, muito mais calmo que antes. – O que está fazendo aqui?- Sophia mora aqui... – ele explica, num tom quase óbvio, mas ligeiramente paciente. – Fui deixar ela no tribunal e aproveitei pra pegar seu óculos na ótica. Você chegou com ele quebrado, então ela mandou arrumar...De repente, milhares de perguntas vem à minha mente. E claro que eu não ia deixar elas irem embora assim, sem mais nem menos.- Desde quando eu tô aqui?- Desde ontem, você chegou muito abatido, então Sophia mandou deixar você dormir... – ele continuava respondendo tranquilamente, enquanto parecia procurar o cachecol pra cobrir o rosto de novo. Parece que eu estava deixando ele nervoso.- Vocês me levaram pro hospital ou fizeram isso tudo aqui? – falo, apontando pras ataduras.- Foi aqui mesmo, Sophia ficou com medo do que fariam com você se te levássemos pro hospital. – ele foi enrolando o rosto no cachecol, enquanto May pulava do sofá pra se enroscar nele um pouco. – Akahai me devia uns favores...- Você tá morando com a Sophia?Na verdade, a pergunta não tinha nada a ver comigo. Mas foi bem engraçado ver as bochechas dele ficando vermelhas, mesmo com o cachecol cobrindo parte delas.- Estamos... discutindo isso...Hehe, aquela me fez ganhar o dia.- E minhas coisas, cadê? Vocês não jogaram fora, jogaram?- Estão no quarto, do lado da cabeceira... – ele aponta de volta pro corredor. – Você não deve ter visto porque não estava enxergando direito.Meio incrédulo, olho mais uma última vez pra ele e volto até o quarto. De fato, está tudo bem do lado da cama – a pochete com os documentos e o pen drive, o dinheiro que tava no meu bolso, tudo. Menos o cutelo, é claro. Soph nunca ia permitir algo que pudesse ser usado como arma em um lugar onde eu tivesse fácil acesso. Como eu disse, não se pode ganhar todas, até porque a essa altura eu não preciso mais me preocupar com isso.Pego tudo e volto pra sala, onde o Hitori tá desligando a televisão pra ir pra cozinha. Assim que me vê, ele pergunta:- Quem era no telefone?- Sei lá. Disse alguma coisa que o advogado falou que era às 4, e que era pra ela dar sinal de vida pro Frank.- Hmm... – ele diz, fazendo cara de quem tinha entendido. Bom pra ele.- Preciso dar um telefonema, posso usar seu telefone?Ele dá de ombros, e faz um sinal com a cabeça dizendo que sim. Com um estalo de dedos, ele vai andando pra cozinha, ao que May segue ele muito alegremente. Assim que os dois desaparecem atrás da porta, tiro o telefone do gancho e disco o número do Azhi.Por sorte ele não demora a atender. Assim que ouço a voz dele (e sei que só ele atende aquele telefone), digo quem sou, como estou e onde estou.- Ah, Sven, você ainda vai me matar de susto... – diz ele, parecendo bem mais aliviado. – Graças ao Céus você está bem, tenho passado todos esses dias orando por você.- Azhi, tenho que te agradecer, se não fosse por você eu não teria conseguido... obrigado – respondo, olhando o pen drive na minha mão. – Você conseguiu aquilo que eu te pedi?- Sim, está tudo pronto, assim que você puder entre na internet que te passo tudo... aí onde você está tem computador?Bem, tinha um computador no escritório. E eu não acho que a Sophia ou o Hitori iam se incomodar se eu usasse.- Tem...- Certo, crie uma nova conta de email e me passe seus dados, sua conta antiga provavelmente está sendo monitorada pelo pessoal do Arceus. Vou te mandar o que você precisa por ela, tá?- Ok.- E Sven, você está bem, não está? – ele continua preocupado. – Por favor, não vá se meter em mais problemas, assim que isso tudo acabar se mande... eu não quero que você seja pego de novo, não sei se vou poder te ajudar mais uma vez se te levarem...Suspiro, sem saber muito bem o que dizer. Se me pegarem de novo, com tudo que tenho aprontado, eu provavelmente não vou sobreviver pra contar a história.- Vou tentar... obrigado, Azhi... amo você...- Também amo você, irmão. Cuide-se...Boto o telefone no gancho, e não espero autorização do Hitori pra acessar o computador. Por sorte, não tem senha... acesso o navegador e faço exatamente como Azhi pediu, criando o email novo e mandando pra ele a senha de segurança no conteúdo da mensagem. Claro que tudo isso tinha sido combinado antes mesmo de eu sair de Morro Doce.Assim que o email é enviado, fico encarando a tela, pensando no que aconteceria dali a um dia. Pelo calendário do computador, amanhã seria a audiência... aquela era a minha única chance de resolver todas as burradas que eu fiz... e se não desse certo? O que ia acontecer depois?Foi aí que reparei que estava encarando a pasta de documentos da Sophia no computador, e que dentro dela tinha uma pasta chamada “Os Meus Registros”. Os logs de conversas dela estavam todos ali... chuto um mês aleatório, e rapidamente encontro o que queria. O tal do saff_d@gmail.com tava lá, bem como eu imaginava. É um log mais antigo, de quando eu ainda ia na casa dele e brincava com o Leon. Bem, vejamos...- Oi!- Oi, Sophia, tudo bom?- Tudo sim, e com você?- Tudo bem, na medida do possível... mas que surpresa te ver on!- Ah, eu queria falar com você... tento te ligar desde anteontem mas seu telefone não atende, então achei que estaria online.- AH! Desculpe, é que cortaram o telefone daqui de casa semana passada... vou tentar resolver isso essa semana... mas porque não ligou pro meu celular, ou não falou comigo na escola?- Seu celular também não atende! O que você tem feito pra querer se esconder tanto?- Não atende? Putz! Será que é porque tá sem crédito? Nossa, vou tentar recarregar ele esses dias... isso pode ser um problema, imagina se acontece alguma coisa com o Leon e ele não consegue falar comigo!- Saffron você não acha que está sendo um tanto... inadimplente demais? Isso não é a sua cara!- Eu sei, eu sei... é que tenho tido uns problemas pessoais... mas já estou tentando resolver!- Que tipo de problemas? Quer conversar sobre isso?- Vem cá, desde quando você aplica esse papinho de psicóloga nas pessoas?- Ora vamos, Saffron! Eu aqui preocupada com você e você dizendo que é papinho?- Eu tô brincando, Soph. Você sabe que você é mais que uma irmã pra mim, eu nunca falaria nada que fosse pra te magoar de verdade.- Ok, mas agora quem está com papinho é você. O que está acontecendo?- Você não vai acreditar, mas acho que me envolvi num problema maior do que eu imaginava...- Não me diga. Você sempre se vê envolto em problemas... qual é a dessa vez? Empréstimos de novo? Algum cartão de crédito pra fazer compras com o Leon?- Não, não... meu problema tem outro nome dessa vez: Sven.- ... de novo isso? Achei que fosse algum problema novo!
- Ei, não ria de mim!- Desculpe, mas é que você vem reclamando dele desde o começo do ano, Sinceramente, eu não sei porque você se preocupa tanto com ele, sabendo que ele é do tipo de garoto que não dá a mínima pra nada...- Sim, eu sei disso, já tô cansado de saber... a questão não é essa, pelo menos não dessa vez...- Então o que é?- Acho que comprei uma briga feia com o avô dele.- O avô dele? Está falando do Arceus?- Sim.- Saffron, você só pode ser masoquista... não sabe que aquele homem pode fazer da sua vida o inferno? Já não basta tudo que sempre comentamos na sala dos professores, você ainda precisa dar mais motivos para aquele homem te odiar?- Eu sei, sei que não devia ter me metido nisso... é que... eu fiquei preocupado com o Sven, ele anda se comportando de um jeito tão estranho ultimamente...- Sven sempre foi estranho, Saffron, e a estranheza dele tem um nome muito particular, se chama preguiça...- Não é isso, Sophia! Não se trata simplesmente de preguiça ou de desleixo, tem alguma coisa acontecendo de errado na vida dele... o jeito que ele age de umas semanas pra cá, tenho quase certeza de que não é normal... não sei o que fazer, ele me preocupa de um jeito muito estranho, mas sei que ele me odeia e não sei como me aproximar mais dele a ponto de conversar com ele sobre isso...- Certo... se quiser posso conversar com ele pra você, mas tenho certeza de que se houvesse algo tão ruim assim ele já teria me contado... ok, continue.- Bom, eu sinto que tem algo de diferente nele... da última vez que ele veio aqui em casa, achei ele meio disperso, sabe? Como se estivesse o tempo todo pensando em alguma outra coisa...- Saffron, por favor, isso não vai dar certo, e você sabe muito bem disso... tudo bem que daquela vez você só quis dar uma carona pra ele, e que por conta daquele acidente ele passou mal, mas você não pode deixar isso continuar!- Eu sei, amor... mas eu não consigo simplesmente deixar de me preocupar com ele. Eu não consigo explicar, ele mexe comigo de um jeito estranho...- Você sabe muito bem o que é isso.- Se for o que você insiste que é prefiro continuar sem saber. Você sabe muito bem que isso nunca dar certo, ele é meu aluno, tem a idade do Shian...- Johann é mais novo e isso nunca fez diferença pra você.- Johann é um caso diferente...- Você era casado na época, Saffron. - Eu já tinha me separado quando comecei a sair com ele, você sabe disso!- Não, Saffron, você já era separado quando assumiu o relacionamento com ele. Acha que eu não sei que você saiu com ele antes da Rafaela ir embora de casa?- Está bem, Sophia, eu desisto. Eu tava casado na minha primeira vez com ele, sim. Mas não é disso que eu quero falar no momento, o Johann tá longe de ser um problema pra mim no momento...- Tudo bem, você tem razão. Desculpe, não queria transformar isso em uma discussão de moral.- Sem problemas, sei que você não fez por mal.- Bem, voltando ao Sven então... você sempre me disse que estava consciente de que era algo impossível de acontecer. Por que isso vem te preocupando de uns tempos pra cá?- É que sei lá, era bem mais fácil de ignorar tudo isso quando ele não falava comigo... mas de repente ele entrou na minha vida, e eu não consigo mais simplesmente ignorar isso...- Essa é a sua grande preocupação? Não conseguir esconder seus sentimentos frente a ele? Bem, isso é ruim, mas nesse caso, por que o Arceus te preocupa tanto?- É que... bom, ele descobriu que o Sven veio pra minha casa...- Como ele fez isso?- Não sei, não tenho certeza, acho que alguém da escola contou pra ele que viu a gente indo pro carro juntos, sei lá... o problema é que ele começou a me pressionar, ele veio falar hoje comigo no corredor, perguntou se tinha acontecido algo, porque ele tava andando comigo, eu obviamente disse que não sabia de nada... mas aí ele ficou olhando pra minha cara de um jeito super sinistro, e disse umas coisas muito estranhas do tipo “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco” e que eu ia ser o primeiro a saber quando alguém fosse punido...- E o que aconteceu?- Bom, aconteceu o óbvio, claro, eu fiquei preocupado de ele fazer alguma coisa com o Sven... fiquei com medo dele pressionar o menino ou coisa parecida.- Saffron, me desculpe, mas isso não é o óbvio de acontecer quando outras pessoas estão na mesma situação que você... mas afinal de contas, o que o Arceus fez, você sabe?- Bom, ainda não sei o que aconteceu com o Sven, vou descobrir só depois, na segunda-feira... só espero que não tenha acontecido nada com ele...- E com você, ele não fez nada? O que ele queria naquela reunião de final de expediente com você?- Ah, ele cortou metade do meu salário...- COMO É? Saffron, pelo amor de Deus, você não pode permitir uma coisa dessas!- Ah, que nada, eu me viro, não é a primeira vez que tenho que correr atrás de dinheiro... além do mais, Sophia, ele tá fazendo isso pra me pressionar a denunciar o Sven, e isso é uma coisa que eu não vou fazer. Você sabe muito bem que eu não compactuo com esse tipo de coisa. Se esse for o preço que eu posso pagar pra proteger o Sven, eu não me importo... sei me virar.- E você ainda se recusa a usar aquele nome em particular para o seu sentimento pelo Sven...- Não vamos voltar a ter essa discussão de novo, vamos? Eu não estou apaixonado.- Sei, sei... mas você sabe muito bem que o primeiro passo é a aceitação.- Sophia, quer parar?- Tudo bem, tudo bem! Não está mais aqui quem falou. Ah, o Hito acabou de chegar, vou ter que sair.- Tudo bem... muito obrigada, amor, não sei o que eu faria sem você pra me ouvir...- Às vezes você me supervaloriza, Saffron! Você sabe muito bem que é meu irmão querido, mesmo não tendo o mesmo sangue que eu.- Quem disse que família não se escolhe né?... Bem, vai lá, eu também vou aproveitar pra arrumar umas coisas aqui em casa.- Beijos, e até a próxima!- Beijo, tchau. Obrigado de novo!. . .... Então era isso?Ele tava me protegendo o tempo todo. Eu me aproximei dele pra ferrar ele, e ele tava tentando me proteger.Ele sabia do que meu avô fazia. Ele sabia que eu tava aprontando, e passou a me encobrir. E eu passei a investigar a vida dele e a incomodar quem estivesse do lado dele.Ele abriu a casa dele pra mim. Ele me escondeu quando eu quis fugir do meu avô. E eu em troca dei a vida dele na mão de gente que sempre quis ferrar ele.Antes mesmo de eu chegar nele, ele tava me protegendo... Ele tava de olho em mim o tempo todo... Ele impediu que eu ficasse na pior... ele gostava de mim esse tempo todo, e eu nunca percebi...Eu...O que foi que eu fiz?...Não foi só o emprego, não foi só a imagem dele de professor. Eu acabei com toda a vida dele...Onde eu tô tentando chegar? Ele me odeia, e se eu ainda tinha dúvida, agora eu sei que ele tá coberto de razão em não querer ver a minha cara nunca mais. A única coisa que ele fez esse tempo todo foi cuidar de mim, e como eu paguei? Chutando o rabo dele e jogando ele na cova dos leões, a cova que eu conhecia muito bem e que nunca desejei que ninguém conhecesse. De tanta gente que eu odiava, de tanta gente que eu queria ver fodida, a única que realmente tava preocupada comigo acabou pagando o pato.Meu corpo treme, meus olhos ardem, meu coração parece travado, e a única coisa que eu consigo fazer é olhar a tela do computador.Então é assim que termina? Será que não importa o que eu faça, ele nunca vai me aceitar de volta?... Ah, é. Não tem "de volta". Ele foi meu o tempo todo, mas eu nunca cedi o bastante pra ser dele.O computador apita de novo, e vejo que Azhi finalmente respondeu meu email. Grande coisa. De repente aquilo tudo não tem mais sentido pra mim, mas como é ele, resolvo acessar o email mesmo assim.Sven, Os documentos que você me pediu estão em anexo. Falei com um amigo meu que trabalha no juizado, ele vai estar esperando por você e vai lhe incluir como testemunha no processo. Assim espero que não haja nenhum problema pra você executar seu plano.Só por favor, não esqueça do horário: a audiência vai ser hoje, às 6h da tarde. Isso te dá (pelo horário desse email) duas horas pra você se preparar, pegar uma roupa emprestada e ir até o local. O endereço está em anexo também.Não se esqueça que a coisa mais importante é você estar lá no horário. Você e eu sabemos muito bem que essa é provavelmente a única chance que você vai ter. E por favor, não desanime... Confie no seu coração e tudo dará certo...Boa sorte, Sven... Desejo toda a sorte do mundo pra você nessa tarefa tão difícil. Que Deus esteja com você, e que você consiga derrubar seus inimigos...De seu irmãoAzhi"Confie no seu coração"... Ah, claro, é fácil pra você falar, porque não foi você que se fudeu com a pessoa que te ferrava e a pessoa que te encobria!... Bem, não há muito o que fazer aqui. E esse meu humor não vai me levar a nada. Imprimo o email e reclino na cadeira, pensando. Bom, não custa nada tentar... Ele já me odeia por umas 5 encarnações, tentar mudar isso não ia piorar mais. Tá no fundo do poço, abraça a Sadako, é como dizem...Como a impressora fica na parte de cima do rack, a folha acaba caindo na minha cabeça. Só pra me enoitecer mais ainda... Pego a porra do email do chão e releio, só pra ter certeza de que não perdi nada.A audiência ia ser hoje, às seis... Bem, o email não atrasou, e são quinze pras quatro, o que me deixa relativamente tranquilo. Como o Azhi mesmo calculou, tenho duas horas pra me organizar e pensar em tudo que vou fazer. Não que isso sirva de alguma coisa, já que tô há dias pensando nesse plano, mas uma hora de folga não vai me fazer mal.Já que não tem nada o que fazer, resolvo dar uma passeada pela cozinha. Hitori ainda Tá na sala, assistindo televisão com a May no colo.- Tem alguma coisa pra comer?- Tem presunto e queijo na geladeira, pão ali na mesa, e hambúrguer no congelador. — disse ele, fazendo gestos com as mãos enquanto apontava. — É só pegar.Bem, dos três a opção mais prática é o hambúrguer, então tiro a caixa do freezer, coloco no microondas, e em menos de 2 minutos, um lanche perfeito. Isso sim é um milagre da tecnologia... Só faltava um cafezinho bem gostoso pra completar.- Vem cá, que horas a Sophia chega? — pergunto, indo pra sala e sentando ao lado do Hitori na sala. — Queria levar um papo com ela... - Ela só volta à noite, essas audiências geralmente demoram... O juiz do caso do Leon é do tipo que leva a audiência até as 11 da noite se for preciso..... Epa. - ... Peraí, Hitori, você disse que a Sophia Tá no tribunal?- Sim...- E ela foi pra audiência do Saffron?- Sim...- Mas a audiência não é só às 6? Porque ela foi mais cedo? Ela vai se encontrar com alguém?Hitori vira pra mim com um jeito meio surpreso.- Você mesmo disse que a audiência é às 4....- .. C-como assim?- A pessoa que ligou, você atendeu o telefone... Disse que o advogado mandou dizer que a audiência ia ser às 4. - O advogado do caso do Saffron?!- ... Sim...- I-isso quer dizer... — minha voz começava a engatar, conforme eu ia entendendo o que tava acontecendo — Que a audiência vai começar a rolar nesse exato momento?- Sim...Puta que pariu. Puta que pariu. PUTA QUE PARIU!!! Agora eu me fodi de vez. Não.... Não, peraí.... Essa era minha última chance... A última chance... Dele me perdoar... De falar com ele...- ... Sven?- Hitori, onde é o tribunal? Onde é o julgamento?- Na comarca de Santa Isabel...- .... Santa Isabel?- Sim...- Não, você quer dizer, o bairro de Santa Isabel? A uma hora de distância daqui?- Sim...Ah, não, não, não! De todos os lugares infernais dessa cidade, tinha que ser lá longe?...Não. Tem que ter algum jeito. Eu tenho que resolver isso. Pensa, Sven, pensa... - Sven?...Se eu não chegar a tempo, não vai adiantar... Ele não vai simplesmente me escutar...
- Sven, Tá me ouvindo? Ei...E se não funcionar? E se quando eu chegar o julgamento já tiver terminado, e nada der certo? Não vai adiantar ter voltado pra casa... Ter apanhado do meu avô... Ter fugido... Ter quase quebrado o braço...- Sven, porque está chorando?Finalmente lembro de que Hitori ainda está ali. E parece bem intrigado.- Não tô chorando.- Bem, então porque seus olhos começaram a lacrimejar?- Escuta, você foi deixar a Sophia no tribunal?- Sim...- ... VOCÊ NÃO SABE FALAR OUTRA COISA, PELO AMOR DE DEUS?!Ele só suspira, olhando pra minha cara. Era só o que me faltava, eu puto do jeito que eu tava e esse professorzinho de quinta me zoando!- Sven, você sabe que eu sou o único que pode te levar lá com uma margem de chance de você chegar a tempo. E eu sei muito bem que você quer ir. A minha pergunta é, porque eu levaria você pra audiência dele, se você é o único responsável por tudo isso que ele tá passando?Tsc, essa ia ser foda de responder. Dessa vez quem suspira sou eu. Como nada que eu dissesse ia dar certo, resolvo mostrar a ele o email do Azhi e o meu próprio material, que eu me arrisquei tanto pra recuperar.Durante um longo tempo ele continua lá, quieto, com a mesma expressão de tijolo que reflete a profundeza dos sentimentos dele. No fundo, sei que aquilo não é suficiente pra convencê-lo. Mas ele sente que aquilo não era uma mera gravaçãozinha de escola, e que isso podia virar o jogo pro lado do Saffron.E quanto mais profunda ficava a coisa, mais o Hitori ia se surpreendendo. Quando ele termina de ver tudo, apenas me encara, com uma expressão boquiaberta que eu pensei que era impossível de aparecer no rosto dele. - O-olha, eu sei que é estranho... — falo, sem saber de onde aquelas palavras vinham. — Eu só quero que isso acabe logo... Não consigo mais encará-lo. Fico olhando pro chão, enquanto a May começa a se esfregar na minha perna. Hitori olha pro teto e solta um longo suspiro.- ... Vem, vou te dar uma carona. Em menos de três minutos já estávamos na garagem do prédio, marchando em direção ao carro, eu ainda com o hambúrguer na mão, tentando engoli-lo o mais rápido possível.- Qual desses é o seu carro? — pergunto, andando rapidamente entre as fileiras de veículos parados.- Nenhum. — ele diz, sem sequer virar o rosto.- ... Então vamos fazer o que, pegar um táxi?- Não.- ... Ah, então Tá bom. Então vamos fazer o que, arrombar um? — falo, minha paciência já no limite.- Não vamos de carro.- Tá bom, gênio, então qual é a solução, ir de ônibus?Ele se vira pra mim, começando a perder a paciência com tantas perguntas. Então, ele aponta pro fundo da garagem, onde tem um treco coberto por uma lona preta, que pelo formato eu reconheço como sendo uma moto. Bem, já era alguma ajuda. Só que não era uma moto qualquer. Era nada mais, nada menos do que uma Kawasaki Ninja, toda preta e com alguns detalhes em roxo. Pela aparência não dá pra saber o modelo, mas ela tem cara de que corre, e muito. Isso só pode ser brincadeira. Como um professor de biologia morto de mal pago conseguia colocar as mãos numa daquelas?Isso ia ser uma ajuda e tanto.- Sobe – diz ele, estendendo um capacete rosa pra mim. Não foi preciso pedir outra vez. Subo e coloco o capacete, meio hesitante por causa da cor.- É da Sophia?Hitori acena que não com a cabeça enquanto tira a chave sei lá de onde.- Sophia não gosta de motos. – o tom dele foi de quem encerra a conversa. Nesse caso, fico calado, e deixo o ronco do motor falar por mim. E que ronco. Aquilo sim era uma moto de verdade.Em menos de dois minutos já estamos na rua. A moto desliza suave, como se fosse uma honra levar seu dono a algum lugar. Se a situação não fosse tão periclitante, ia até parecer um passeio muito bom.- Está se segurando? – pergunta Hitori, olhando pros dois lados da rua que dava pra fora do prédio.- Tô. – respondo, apertando firme as alças na parte de trás da moto.A resposta dele não vem em palavras, e sim em uma pisada no acelerador que fez a moto subir 20km/h em menos de meio segundo. Ele derrapa, fazendo uma curva mais fechada que cu de virgem, e jogando a gente já no meio da pista. Em dois segundos já estamos no outro quarteirão.A sensação é incrível e ao mesmo tempo assustadora. Não sei qual é o limite de velocidade naquela rua, mas eu tenho certeza de que ele já tinha passado daquilo há muito. A rapidez é tanta que mesmo com o capacete dá pra sentir o vento cortando o meu pescoço – e olha que não tá frio hoje.Em menos de 5 minutos já caímos na avenida. Ele acelera ainda mais, mostrando que aquela moto realmente não é qualquer uma, e começa a desviar dos carros em um ritmo alucinante. Começo a ter calafrios a cada curva que ele faz na moto. Se um dia eu voltar praquele inferno na terra chamado Silvério Franco, juro que nunca mais vou olhar o Hitori como aquele professor apático e sem graça que eu sempre imaginei.Esse cara deve ter sido motoqueiro de corrida, só pode! Ele joga o corpo pra poder fazer a curva, e a moto responde na maior delicadeza, como se aquilo fosse algo rotineiro. Tá certo que eu gosto de adrenalina, mas aquilo já tava começando a passar dos limites! Eu já não enxergo direito sem os óculos, e a velocidade tava tão alta que tava borrando ainda mais o cenário ao redor. Aquele hambúrguer que eu comi antes de sair tava começando a ameaçar de voltar pra me visitar. Já não sei mais nem onde eu tô...A coisa a cada minuto vai ficando mais perigosa. Lá na frente, a mais de 700m, vejo vagamente o semáforo mudar pro amarelo. Ele pisa fundo no acelerador, a moto dá um ronco enquanto ele se posiciona numa fenda mínima entre dois carros, e tudo que eu consigo fazer é fechar os olhos. Aperto com força a alça da moto, e sinto uma coisa estranha no lado direito do corpo. No susto, abro os olhos pra ver o que é, e percebo em um lance muito rápido que o Hitori tava tirando tão fino dos carros que meu cadarço engatou no para-choque de um Siena. Acho que nunca mais na vida vou sentir um calafrio tão grande quanto eu senti nessa.Tudo isso foi rápido demais até pra eu entender o que tava acontecendo. Quando eu vi, ele já tinha voado entre a fila de carros, e a gente já tinha atravessado o sinal vermelho voando na frente de todos os carros que tavam saindo na outra pista. Resolvo abrir a boca pra falar, mas foi uma péssima ideia: bem nessa hora, ele dá outro cavalo de pau, girando 90 graus e cortando por dentro de um posto de gasolina pra cair na outra pista. Aquilo me dá mais enjoo ainda, e eu resolvo que o melhor é continuar quietinho até a chegada.Fecho os olhos, e em menos de cinco minutos a moto dá um solavanco fodido pra frente. Depois de dez segundos parado, tomo coragem o suficiente pra abrir os olhos, e me vejo parado bem na frente do tribunal de justiça da família. Olho pro relógio, e percebo bem assustado que a viagem que a viagem, que era pra ter demorado pelo menos uma hora e meia com todo o trânsito que passamos não durou mais de 40 minutos. Pouco mais da metade do tempo. Mesmo assim, olhar tudo parado de repente me faz sentir mais zonzo ainda. Desço da moto sentindo as pernas tremerem, retiro o capacete e dou na mão do Hitori. Assim que ele o pega, sinto minha força indo embora de vez e acabo caindo de quatro no chão, com aquele rebuliço no estômago ficando pior a cada minuto.- Está entregue – ouço a voz atrás de mim falando, mas se eu virar a cabeça meu hambúrguer vai voltar, então resolvo ficar quieto. – Você já tá atrasado, são quase 5h, eu se fosse você voava lá pra dentro.“Tá, eu já percebi que você entende de voar”, penso, mas não tenho como abrir a boca agora, então como resposta engulo o enjoo (e mais alguma coisa junto) e vou andando pra dentro do tribunal, checando a pochete dentro da roupa pra ter certeza de que as provas não saíram voando durante o trajeto.E bem, não sei onde é a sala. Ninguém na recepção, a secretária não tá olhando então resolvo entrar na moral, mesmo. O lugar não é muito grande, e o primeiro andar tem um monte de placas, então não parece que vai dar muito trabalho pra achar a tal da sala onde tá correndo a audiência.Segundo a placa, as audiências familiares são no segundo andar. Subo a escada correndo, voltando a sentir aquele mesmo medo que me tomou quando saí da casa da Sophia. E se tudo isso tiver sido em vão? E se o juiz não der a mínima pro que eu tenho a dizer, e eu só tiver perdido tempo?Então eu ouço aquela voz. Ouço ele explicar alguma coisa banal sobre as notas do filho na escola, e sei que estou no lugar certo. No final do corredor, vejo uma única porta entreaberta, com a placa “Sala 07”, e arrisco tudo de uma vez, mesmo que não dê em nada no final.A voz de repente para. Acho que chutei a porta um pouco forte demais, porque ela voa e acaba batendo na parede, fazendo um barulhão. Vejo toda a sala se voltar pra mim, os rostos migrando de surpresos a hesitantes, confusos a impressionados. E bem no meio, justamente o dono da voz, aquele que só de me olhar já faz meu coração balançar, faz uma expressão que seria a fusão perfeita entre choque, terror e raiva.- Ah, vejam só! – fala um cara de terno no meio da sala, se levantando de uma mesa qualquer. – Meritíssimo, nossa última testemunha!Os olhos azuis dele me encaram uma última vez antes que ele baixe o rosto, numa expressão de profunda decepção, dando um facepalm digno de virar um meme para toda a eternidade.Bem, agora a porra ficou séria. E mais do que isso: ficou pessoal. E esses filhos da puta vão ver o que acontece com quem vai contra mim.Agora é tudo ou nada.
Notas finais
Demorei demais? Desculpem. Tive uns bloqueios muito sérios nesse... especialmente na conversa entre o Hitori e o Sven, e o log de msn da Sophia (ou seja, todo o capítulo). Tanto que escrevi ele separadamente, e reescrevi o log porque li aquilo e achei uma porcaria sem tamanho. Ainda acho que tá uma porcaria sem tamanho, mas não vem ao caso.
Curiosidade: Na hora em que fui escrever o email do Azhi, tava no iPad e a autocorreção dele trocou a palavra "emprestada" por "amordaçada". Não, sério... OI?
Curiosidade: Na hora em que fui escrever o email do Azhi, tava no iPad e a autocorreção dele trocou a palavra "emprestada" por "amordaçada". Não, sério... OI?
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