Requiem da personalidade

1 Requiem da personalidade


Está feito... Depois de toda essa loucura que foi ter vivido a supressão do meu eu verdadeiro, finalmente o eliminarei da maneira mais efetiva. Matarei minha essência através da supressão de quem sou lá no fundo. Um cadáver-adorno. Um boneco que se deteriora a cada palavra proferida ao vento. Darei meu último adeus às minhas lágrimas forjadas a encenação e angústia de não poder me libertar.

Finalmente irei esconder o rosto dilacerado pelas expressões de agonia que me moldaram. Esconderei em uma máscara de alegria artificial, comprada por quaisquer oitenta reais e cinquenta e cinco centavos em qualquer farmácia. E em um último gole afogarei o monstro que viveu trancado na caverna de Minh’ alma por tanto tempo... E não dormirá este monstro... Morrerá aos poucos sustentado em uma casca que jazerá como seu túmulo. E essa casca com o tempo se tornará oca, abrigando em uma espécie de túmulo tudo o que eu fui de bom grado.

Se devo atuar, então que seja de maneira correta. Escondendo-me em meu corpo até que morra completamente, dolorosamente e lentamente. Até que possa sorrir para câmeras, pessoas e situações que não representam aquilo que eu costumava ser. Agora posso confundir meu semblante de porcelana moldada com as demais porcelanas moldadas que me rodeiam. Agora posso ser livre, se isto quer dizer que devo ser um tolo sorridente. Agora posso ser feliz trancando num mundo de agonia. Agora posso sonhar coisas bonitas por mais que isto se esconda em um bastidor de gritos. Agora posso finalmente dizer que sou... O que direi que sou afinal? Se antes podia me definir, por mais que esta definição fosse megalomaníaca, exagerada e, há quem diga cativante, com perfeição? Meu espírito que morre aos poucos só exige que o esqueça. Que não lhe retorne a palavra. Que nunca mais o use como face. Nunca mais.

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