Ele ainda sentia o cano frio da arma sendo pressionado contra a sua nuca quando, após um lapso de genialidade, escreveu a última linha do código. O arquivo estava aberto no computador a sua frente e o número de linhas escritas era simplesmente incontável.

O programador respirou fundo, sentindo um alívio preencher seu corpo inteiro. A arma parou de ser pressionada contra ele e o homem que a portava caminhou alguns passos para trás, sem falar absolutamente nada.

A janela, ao lado do computador, estava totalmente aberta e a noite quente de verão irrompia feroz para dentro do pequeno apartamento, trazendo consigo um ar extremamente abafado e sufocante. O programador levantou-se, caminhou até a janela e pousou sua mão cansada e dolorida sob a madeira de tom desbotado. Com a outra mão, sacou um cigarro da carteira.

— Você fuma?

— Não, obrigado. – respondeu o homem, com a voz firme.

— Eu também não. – disse ele, dando de ombros. – Mas isso era antes.

Ele acendeu o cigarro com um isqueiro prateado velho e puxou a primeira tragada, que lhe preencheu os pulmões com uma fumaça fétida.

— Em breve, não fará diferença alguma.

O homem fitou-o por longos segundos e, então, guardou a arma na cintura, apertando-a entra barriga e a calça jeans preta. Ele alisou o bigode, assentiu solenemente com a cabeça, e foi embora pela porta que se erguia atrás de suas costas.

O programador observou atento enquanto o homem ia embora. Ele tragou mais uma vez o cigarro e jogou-o para fora da janela, com certa displicência. Ao virar-se para retornar à frente do computador, passou o olhar sobre o seu sofá velho e empoeirado e lembrou-se do que jazia ali. Havia esquecido por tantos minutos que se lembrar daquela existência lhe parecia loucura.

Estava ali um homem gordo baleado, com as vestes rasgadas e sujas de sangue. Não era possível identificar detalhe algum de seu rosto, pois havia se deitado de costas. Não esboçava movimento, nem o da respiração. Estava morto.

— Chegou a hora.

Com apenas um toque no botão do teclado, o programador fez com que o computador começasse a ler as linhas de código e, como num passe de mágica, o céu abriu-se numa cor verde esmeralda e, onde antes havia a escuridão da noite, começava a surgir uma intensa luz que caía para todos os lados. A luz era tão forte e densa que começou a englobar todos os prédios, casas e elementos urbanos que poderiam ser vistos do apartamento. O programador, com o sorriso estampado em seu rosto magricelo, caminhou novamente em direção à janela, num salto. Seus olhos, arregalados e perplexos, reluziam em tons de verde.

Tudo que ele conhecia, tudo que parecia ser o real, estava sucumbindo. Os prédios caíam, desmantelavam-se como pó. O céu jorrava numa chuva verde, que estava englobando absolutamente tudo.

Foi quando, pela janela aberta, a luz adentrou ao apartamento e atingiu em cheio o programador. Foi ali que ele percebeu que não se tratava apenas de uma luz. Era uma espécie de líquido pastoso como lava, que começou a subir pelos seus braços em direção à cabeça. O homem riu, sozinho, um riso genuíno. A luz entrou em seus olhos e ele não pôde mais ver mais nada, apenas sentir o seu corpo sendo inundado por novas emoções, pensamentos, formas e paradigmas. Havia se tornado, se é que era possível imaginar algo do tipo, outro alguém.

Não se sabia quanto tempo passara desde que o programador havia sido inundado por sua nova vida. Ele abriu os olhos, um pouco perdido. Coçou o rosto, ainda se acostumando a sua nova realidade. Levantou-se, cambaleante, e caminhou em direção ao local onde antes havia uma janela. Quando finalmente estava acordado o suficiente para reconhecer o mundo em que se encontrava, ele sorriu.

Tudo havia sido reprogramado. Era impossível descrever aquela vista, pois não existiam mais palavras.

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