República
2 Parece mas não é.
Notas iniciais
– Ora, ora, ora! Gina Falcão ?! — Um tal engenheiro agrônomo dizia, tão surpreso quanto ela. Demonstrando isto claramente em sua voz.
– Ferdinando Napoleão! — Ela dizia franzindo as sombrancelhas e com um tom dedesdenho que beirava uma ofensa.
– Sim, eu mesmo minha cara... posso saber o que faz aqui ?
– Não, não pode! — Ela dizia contrariada, terminando de se levantar.
– Sempre tão agradável! — Sua mão diteita já se tornara um punho ao dizer. Já estava se irritando com ela e esse jeito torrão como sempre que a via.
– Não quero lhe agradar doutor! — Ela ergueu as sombrancelhas com desdém, pegou a mala e adentrou no recinto.
Ele ficou parado olhando. Perplexo. "Mas o que é que esta maluca está fazendo aqui?" pensava.
Ela lhe lançou um olhar questionador. Silêncio. Ele, parado.
– Então?!
– Então o que, ara? — Ele questionou s entender a indagação.
– Ou vai ou fica. Vou fechar a porta. Vai entrar DOUTOR ? — O título saía da boca dela como, realmente e propositalmente uma ofensa agora.
– Não Gina, se abri é porque estava saindo, concorda MINHA CARA ? — A paciência e o cinismo dele ao pontuar o adjetivo faziam-na querer voar no pescoço dele.
"Não meta a piaba nele...não meta a piaba nele..." Ela silenciosamente entoava um mantra em sua mente.
– Tudo bem então! — Ao dizer isto ela bateu a porta como quem se esquece não estar mas em sua casa.
Ele ficou com o nariz colado a porta por alguns minutos, tentando assimilar os últimos acontecimentos, e então, resolver partir para seu banco, continuar a leitura noturna diária no jardim amplamente iluminado.
Gina entrou e observou atentamente a bela e ampla sala da casa. As belas paredes recheadas de pinturas florais...contrastava com o tom marrom delas. Observou a grande escada que direcionava ao segundo andar.
– Olá querida! — Disse a Sra. Margareth, doce agora não só na voz. Sua aparência era de avó. Uma "dona Benta" para dizer a verdade. — Vamos, vou lhe mostrar o seu quarto, e depois, você toma um belo banho, antes do jantar.
Gina sorriu... achou o local, e a senhora, claro, muito acolhedor.
Assim que Gina entrou em seu quarto, Dona Margareth à deixou a vontade e desceu para a cozinha. Ela fechou a porta e observou. Era um quarto do tamanho do seu em Santa Fé, mas um pouco mais requintado, devia admitir.
A cama de solteiro ficava com os pés para a porta,e a parede em que estava a cabeceira dividia espaço com um criado mudo, no qual havia um abajur moderno, e um modesto guarda-roupa com um grande espelho na porta. A frente, na parede da porta havia uma penteadeira. Um tapete felpudo azul marinho decorava o quarto de paredes cremes e móveis brancos.
Gina soltou as malas e resolveu tirar os sapatos. Estava exausta e sentir a maciez do tapete ajudaria, ela imaginou. Sentiu a suavidade dele tocar sua pele cansada, e não exitou em verificar se a cama seria igual. Sentou-se. E ao confirmar que era tão macia quanto, não resistiu e deitou-se. Era bom. Deu um longo suspiro e resolvereficaralguabs minutos alí. Ligou para seus pais ainda deitada, e quando terminou de avisá- los que estava tudo bem, não resistiu em permanecer mais alí na cama. Se lembrou que não havia comentado com o pai que o filho de seu ex-amigo Coronel Epa, estava na mesma República/Pensão que ela. E, derrepente se viu observando o azul do tapete, se lembrando com intensidade daqueles olhos azuis que a pouco estavam tão próximos dos seus. Se perdeu. Ficou ali, afogada na lembrança, até cair em um sono profundo.
[...]
– Gina Falcão ?! — Uma voz doce chamava enquanto batidinhas delicadas eram derramadas na porta. — Senhorita Gina?! — Aqui é Juliana, sua colega de República... estamos com o jantar à mesa...
Gina pulou da cama assustada, porém surpresa pela voz diferente que lhe acordara. Abriu a porta e se deparou com uma linda moça de cabelos rosados e olhos claros, tão claros que não sabia dizer que aquilo era um azul, ou uma nova cor derivada deste. Ficou sem graça, pois estava descalça, com a roupa toda bagunçada pela correria e amassada pela breve soneca. Já a moça à sua frente, apesar de simples estava bela com um vestido branco acinturado, levemente rodado e o cabelo preso em um rabo de cavalo frouxo, mas elegante.
– Oi! Você me desculpa mas acabei dormindo... — Ela dizia sem jeito — Vou tomar um banho e já desço! — Ela dissera sem cerimônia, fechando novamente a porta.
– Tudo bem, nós vamos lhe esperar! Fique tranquila! — Juliana avisava gentilmente, mesmo após o último ato da moça. Ela era assim. Doce, compreensiva.
[...]
"Mas onde será o banheiro?!" pensava Gina, olhando pelas portas abertas do corredor. Não era uma mansão, mas possuia em um só corredor 6 quartos. Sentiu um mão lhe tocar e se virou de supetão assustada.
– Olá moça, não quero te atrapalhar, mas, deseja algo em meu quarto?!
– Não, desculpe, só procuro o banheiro! — Ela disse sem graça.
– Ah, sim! a Moradora nova! Bem vinda Gina...olha o banheiro é a próxima porta à direita! — -Muito obrigada...
– Ah sim, desculpe! Renato.
– Renato, obrigada mesmo! — Ela disse já se afastando em direção à referente porta.
– Por nada! Estamos lhe esperando para o jantar. — Ele disse,mas ela já batia a porta.
[...]
Gina desceu as escadas, tinha medo de estar mal vestida, mas ela era assim, simples, seria bom já mostrar. Colocou um shorts jeans, uma regata branca e desceu com os cachos soltos, ainda úmidos.
Rumou incerta até a sala de jantar, e quando chegou, percebeu que todos já estavam a sua espera.
Dona Margareth na ponta da mesa retangular, Renato ao seu lado esquerdo e Ferdinando ao direito, ao seu lado a moça de cabelos rosados, e os três conversavam animadamente. Não quis se sentar ao lado de Renato assim, tão logo, então sentou na outra ponta, em silêncio.
– Gina querida! — Disse Dona Margareth animada pela mesa completa.
– Olá novamente Gina. — Disse Ferdinando.
– Boa noite pra vocês...- Gina desejava mais que tudo não ser o assunto do jantar.
Seu desejo foi realizado, os três jovens e a senhora comiam em um silêncio quase total, salvo os elogios que faziam à refeição. Gina também fez.
[...]
Subindo as escadas para deitar-se após o jantar Gina sentiu ser segurada pelo braço de um jeito que não lhe agradava. Virou-se e viu quem menos desejava;:
– Ferdinando ?! Me solta, o que é isso?! — Ela disse brava.
– Desculpe Gina, só queria que soubesse que apesar de tudo fiquei feliz em te ver aqui... é bom ter um rosto familiar em meio a toda esta distância. — Disse e ele soltando o braço dela.
– Mas saiba você que eu preferia não ter rosto algum à ter o seu. — Disse ela, mais para afastar o carinhoso do que por verdade.
– Ora essa sua grosseirona! Eu tentando ser seu amigo, ser gentil, e você me trata assim?!
– Se não gostar, evita. Agora boa noite. Vou dormir que amanhã tenho aula!
Gina subiu as escadas correndo, sem entender a postura do rapaz, muito menos a sua.
Ferdinando ficara no pé da escada...pensando e observando. Aquelas pernas...ela nunca havia reparado naquele ponto de Gina...nas belas e fortes pernas,ainda que delicadas, que ela possuía. Pensamentos nada puros o atingiam de surpresa.
Em uma tentativa de insucesso para parar de pensar ele resolveu ir se deitar, mas em sua cama, conseguia apenas pensar ainda mais... gostaria de reparar mais nela. Precisava reparar mais nela. E faria isso, logo no próximo contato.
[...]
A primeira semana havia passado de pressa. Na realidade Gina quase não via os colegas de República, salvo o horário do jantar. Estavam todos ocupados e centrados demais em seus estudos. Ferdinando e Juliana estavam se especializando, ele em agronomia e ela em sua área – Educação. Renato já estava prestes a se formar em medicina, era seu último ano.
Salvo algumas visitas que Juliana realizava em seu quarto, Gina ficava sozinha a maior parte do tempo. Ela gostava das visitas da “nova amiga” apesar de ainda estranhar ser amiga de alguém.
– Ora Gina, vamos! – Juliana dizia com voz dengosa aos pulinhos apoiada na porta do quarto da amiga.
– Mas o que eu vou fazer no mercado com você e o Ferdinando?! – Dizia contrariada sem nem tirar os olhos do que fazia em seu quarto.
– Ué, vamos fazer compras... o que mais faríamos ? Você já está aqui a uma semana e não conheceu nada ainda! – Ela tentava convencer Gina.
– E eu vou para segurar vela ? Mas nunca! – Ela dizia com um riso de deboche, como orgulhosa por ter desvendado um segredo.
– Mas...que segurar vela Gina, você está maluca ?! – Juliana se afastava incrédula da porta com os olhos esbugalhados.
– Ara Juliana, só um trouxa pra não perceber que você e o Ferdinando estão... como dizem mesmo? Ah, FI-CAN-DO. – Ela não continha o tom de cinismo em sua provocação.
– Gina deixe de ser tonta! Não há nada entre mim e o Ferdinando. Apenas uma grande amizade... Na realidade meu interesse aqui é em nosso outro colega. – Ela confessava sem rodeios.
– Agora eu não entendi. Você está de namoro com o Renato Juliana ? – Gina questionava confusa.
– Namoro não. Estamos FI-CAN-DO. – Ela dizia rindo da amiga e sua cara de espanto.
– Araa! Mas vocês aqui são muito assanhados. Saem ficando por aí! – dizia como quem condenava o ato da amiga.
– Ué, na nossa idade isso não é nada menos que normal... não é Gina?! – Juliana estava curiosa.
– Eu não quero falar dessas coisas. Não quero e nem preciso. Não compartilho dessas sem vergonhisses.
– Gina... quer dizer que você nunca, em seus 22 anos de vida, foi beijada ?!
– Ara, saiba você que não Juliana, e nem queria. Nem quero! – Gina estava incomodada por falar assim de si, de sua vida. Nunca tivera uma amiga para conversar tais assuntos.
– Mas como pode Gina?! Uma bela moça, assim, linda como você...Nunca gostou de alguém. – Juliana queria saber mais, queria conversar com a amiga.
– Ai Juliana que eu já cansei dessa conversa! – Dizia impaciente – Vai lá no mercado com seu amigo então que eu vou é ficar aqui, com licença.
Ela se levantou e fechou a porta. Juliana já havia se acostumado com esse jeitinho dela... mas não com o fato de uma moça daquela idade nunca ter gostado de alguém, e mais, nunca ter sido beijada.
[...]
– Juliana, eu não sei escolher tomates! – Ele dizia rindo e olhando sem reação pra o monte vermelho à sua frente.
– Ora essa Johnny escolha qualquer um! – Ela dizia sem nem olhar para ele, na realidade seu olhar e pensamento estavam distantes. Pensava ainda na conversa que tivera com a amiga.
– Juliana, se a Dona Margareth for mesmo passar a semana de feriados na casa de sua irmã... nós quatro vamos morrer de fome naquela casa! – Ele ria sozinho. Percebeu que a miga nem lhe dava ouvidos, e resolveu tocá-la.
– Ah, desculpe Nando...estava aqui pensando. –Ela dizia se recompondo.
– Ora, mas no que seria para lhe deixar avoada assim ?!
– Nada não, na realidade te diria... mas não é assunto meu.
– E de quem seria?! – Ele estava curioso.
– De nossa amiga Gina...- Ela dizia voltando a olhar distante.
– Aconteceu alguma coisa com ela ?! – Ele assumiu um tom preocupado que deixou Juliana curiosa.
– Não, nada. Na realidade isso. Nada. – Nando não entendia a amiga.
– Ara Juliana diga logo! – Ele estava agora preocupado e curioso.
– Ué, é impressão minha ou eu sinto uma ponta de preocupação em seu tom Doutor ? – Ela provocou.
– Ah Juliana, pra falar a verdade, nem sei. Aquela uma é grosseira demais, sempre foi. Mas pra ser sincero minha amiga, algo nela me agrada. – Ele dizia como um segredo.
– Ora essa! – Juliana ria e sorria pela confissão do amigo.
– Mas nem pense bobagem Juliana... minha relação com a Gina transpassa a República. Temos um problema de família bem grande.
– É, isso ela já comentou comigo... – Juliana observava o amigo ficar suave ao pronunciar o nome de Gina.
– Mas então Ferdinando, lembrando que você estudou um pouco com ela quando pequeno, preciso saber...Você sabe se ela já gostou de alguém ?! – Ferdinando engasgou com o próprio ar.
– Ara Juliana, aquela uma?! Nunca! Sempre se portou como um muleque na vila...Na verdade eu só fui reparar a bem pouco tempo a mulher em que ela se transformou. – ao final sua voz era um sussurro.
– A BELA mulher, não é?! – Juliana instigava-o.
– Sim Juliana... – ele confessava. – Mas porque a pergunta?!
– Por que você, acredite ou não, Nando saiba que ela nunca foi beijada! – Ela cuspiu as palavras sem pensar e em seguida levou as mãos à boca como se dispensasse a ele um segredo.
– Ora essa... mas como assim Juliana ?! – Ele estava perplexo. – Nunca ?
– Não lhe disse nada! – Ela saiu com o carrinho de compras em direção ao caixa.
Não tocaram mais no assunto. Voltaram para casa ambos pensando. Juliana em sua gafe e Nando em Gina, mas especificamente, nos lábios virgens dela, que pensava inconscientemente em corromper. Lembrava de como havia observado ela esta semana e não entendia como nunca alguém havia se encantado com ela. Aquele belo rosto, as belas formas de seu corpo.
Quando entrou em casa logo atrás de Juliana, percebeu que ela descia as escadas, e resolveu esperar para conversar com ela. Ainda não sabia o que diria, mas gostaria de ter ao menos um momento do dia ao lado dela.
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