Rent
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Valeu galera
Rent. Aluguel. Ele sempre fora complexado com o nome. Desde o dia que nasceu naquele laboratório imundo e sua mãe – Alguma mulher da noite que não podia se dar ao luxo de sustentar uma criança – usara a primeira palavra que lhe passava na cabeça para nomear o garoto que ela deixaria ali.
Rent. Talvez fosse porque o aluguel do cubículo onde moravam estava atrasado e sua mãe estava estressada demais preocupada com a divida. Talvez fosse porque ele estaria destinado a ser sempre o produto, a posse emprestada de alguém. Não sabia. Não pensava muito no assunto. A idéia de ser um alguém que as pessoas buscavam quando precisavam – Ou quando suas pupilas e seu sistema cognitivo começavam a falhar – lhe dava contexto e motivos de sobra para manter seu discurso Punk.
Não era Punk como no século XIX. Não era Punk como no século XX. Era alguém que transportava produtos não legalizados pelo Sistema, era alguém que permitia algum viciado ter seu momento de prazer. Rent era o Punk de calça Jeans e uma camiseta preta sem estampa que carregava uma “Bolsa de Homem” – As bolsas com uma alça que atravessam em diagonal o peito e terminam na cintura do lado oposto em que fora pendurada no ombro – cheia de Disquetes (não os disquetes do inicio do Século XIX) com os Softwares para os Doppers.
Morava no ultimo andar de um prédio sem nome, construído ilegalmente e habitado por moradores de rua que não podiam pagar aluguel ou Punks que não gostavam de pagar aluguel. Em seu espaço – Era assim que era chamado pois não havia metragem suficiente para ser chamado de quarto – ele deixava apenas um colchão velho que encontrara, por sorte, no meio da rua e um Plug Social que permitia entrar na Praça Digital e vender seus produtos “Pessoalmente à distância”. Sua bolsa ele levava sempre consigo.
Naquele dia, Rent acordara de um sonho estranho causado pelo uso excessivo de um Disquete Lopho. O tédio e a baixa nas vendas o faziam consumir o próprio produto. Não era a primeira vez, no ano anterior já havia experimentado dessa época e conseguira sair dela só roubando um novo tipo de Disquete – Curiosamente descoberto quando um de seus compradores, com um disquete hubado no Drive portátil e tendo alucinações, perguntara sobre uma droga que causara tal efeito. – Sua cabeça saturava, como se alguém mexesse com uma colher de pau a areia molhada dentro dela e seus pensamentos se recusavam a permanecer por mais de dois segundos no Clip-board imaginário de sua mente.
“Eu odeio Segundas-Feiras”. Leu essa frase um dia em uma tirinha exposta no museu de arte do centro da cidade e gostou da frase. Não sabia o que era “Segunda-Feira” mas, pela expressão facial do gato alaranjado, entendeu que era algo como uma ressaca ou uma dor de cabeça. Resolveu adotar a frase toda vez que acordasse após o uso de drogas e se sentisse um pano de chão.
Coçou a cabeça com uma mão direita envolta de uma luva de tecido velho e já meio carcomido pelo tempo. Sentiu o contato do velho tecido com os cabelos loiros e, por um breve momento, pensou poder sentir o cheiro do loiro de seu cabelo e indagou se ainda estava sob efeito do Disquete Lopho. Ou se havia esquecido de desplugá-lo do Dopper.
Checou o Dopper, implantado no osso occipital da cabeça, com os dedos e sentiu com a ponta do indicador a depressão onde o Disquete era plugado: Não, não havia esquecido ele ali e não estava mais sob efeito dele. Provavelmente era apenas sono e necessidade de sair daquele lugar fedorento.
Em 4002, o Mundo se tornara uma grande cidade e os paises acabaram se transformando em bairros. Com veículos de velocidade equivalentes à velocidade do som e metade da velocidade da luz, o transporte para qualquer parte do mundo custava poucos créditos para aqueles com uma renda fixa sustentável. Porém, para os marginais, punks e excluídos sociais – Como Rent – as viagens só podiam ser feitas de maneira ilegal, ou não eram feitas.
Rent caminhava pela Adobe St iluminado não por postes, mas por anúncios em neon e hologramas de vendedores e atores do Tubo Digital. Quando os EUA dominaram o mundo todo e o transformaram em uma só cidade imensa, a língua padrão acabou se tornando o Inglês e mais nenhuma herança cultural dos paises foi preservada. Quando um grupo era encontrado praticando qualquer tipo de cultura do Antes-Dominio, era tido como criminoso e tinha seu sistema nervoso desligado.
O loiro não estava em nenhum desses grupos, mas sempre gostou de escutar a Bossa-Nova, uma musica introspectiva e calma, com base em violão e voz, vinda dos bairros cariocas de um Rio de Janeiro em um Brasil de Getulio Vargas. Conhecia somente um rapaz que ainda possuía os discos de Vinil – Um tipo de plástico – e o aparelho para reprodução desse tipo de mídia. Ainda zonzo do Disquete e do sono mal-dormido concluiu que não havia opção melhor para clarear a mente do que ouvir Bossa-Nova.
“Rio” era um nome clichê, mas não havia nome melhor para explicar toda a estética do bar. Lá dentro as pessoas escutavam musicas mornas e calmas, quase sempre, somente violão e voz – Algumas vezes um piano ou uma segunda voz feminina – a bebida era boa, nada muito alcoólico e nada muito forte. As coisas vinham ali na medida certa. O uso de qualquer disquete era proibido ali, não que Rent se importava – Na verdade, no atual momento, ele queria mais era se livrar daquela “profissão” e encontrar algo legal para fazer.
Ele sabia, porém, que não o faria.
No Rio ele sempre corria o risco de encontrar um velho conhecido: 3Jon.
3Jon era um dos poucos Punks que Rent conhecia que não gostava do eletrônico sintetizado por harmonizadores de um “sustain” infinito. O estereotipo daquela época dizia que “Todo punk seria viciado em Disquetes e musica Sintetizada”, mas para 3Jon e Rent, ser Punk era fazer o quiser, afinal as raízes do nome vinham de um movimento que pregavam o anarquismo.
3Jon e Rent não gostavam de “Musica de três acordes”.
3Jon usava xadrez. Ninguém naquela época usava xadrez. Ninguém entendia qual a beleza de formas geométricas estampadas nas roupas. Mas 3Jon sim, 3Jon gostava do ar mais velho e estressado que aquelas camisas lhe davam. Seu cabelo despenteado e armado, todo bagunçado para cima da cabeça lhe davam a expressão de desleixado que ele sempre gostara.
Rent gostava do cheiro de madeira velha do Rio. Indagava como o dono daquele lugar havia conseguido aqueles moveis tão característicos. Ele devia conhecer um bom traficante ou ter algum tipo de parentesco com alguém que morava naquele tal “Brasil”. Não sabia. Não se interessava. Não era como se conseguiria comprar qualquer móvel daquele mesmo que soubesse de onde eles vinham.
De um jeito ou de outro, Rent gostava daquele cheiro de madeira envelhecida. O odor fazia com que ele se sentisse em algum bar de ponta de praia. Podia sentir a brisa salgada do mar batendo contra seu rosto enquanto saboreava algum empanado frito – Que também era proibido na época por não ser nada em cápsula ou congelado – e observava um velho analisando uma das capas de papel de um dos vinis.
Seu deleite foi interrompido pela voz oitavada de 3Jon.
— O mercado anda te deixando pra baixo ou isso é só uma pré-disposição genética modificada pelo uso de Disquetes?
— 3Jon... Sua voz continua me deixando confuso mesmo depois de todo esse tempo.
— O que te traz por essas bandas? Já faz algum tempo que não vejo você e sua bolsa cheia de Disquetes por aqui.
— “Bandas”? O que é isso? Lendo os livros de gramática do século passado de novo?
— Quando você está certo, você está certo...
— Estou falindo, 3Jon, preciso de algo novo, meus clientes não me procuram mais, os disquetes que vendo podem ser facilmente copiados para um HD externo ligado no Dopper. Mais uma vez a progressão da tecnologia está fodendo com meu ganha-pão.
— Hehehe, eu me lembro quando ainda me preocupava com a progressão da tecnologia. Hoje em dia as drogas que vendo, os disquetes, são coisas que nem chegaram por aqui. Trago de fora. As drogas de fora, na verdade, produzem quase os mesmos efeitos das que os programadores produzem aqui, mas o nome diferente e a mecânica diferenciada dos Disquetes garantem a aquisição. O velho marketing ainda funciona.
— Mas como eu consigo isso? Como meu fornecedor nunca me falou dessas coisas?
— Eu sempre avisei você que esse seu fornecedor era um arquivo LOTE. Ele está ali, mas não faz diferença alguma. O cara não se renova, não procura novas drogas. Aposto que ele ainda te vende disquetes Lopho, não é?
— Sim...
— Tenho dito, esse cara é sujeira. Ele cobra caro por drogas que você pode conseguir fácil se souber quebrar os Firewalls toscos da Praça Digital... E eu aposto que você consegue.
— Por que você não vira meu fornecedor?
— Você não é o primeiro que me pergunta isso. Estou me guardando. Vai chegar um dia em que aqueles que sempre se interessaram pelo assunto, sempre pesquisaram e foram atrás de coisas novas, vão acabar quebrando os fornecedores que são caras estacionados. Nesse dia eu vou jogar meu preço lá em cima e os Punks não terão escolha, a não ser pagar.
— Continua visionário. Certo, 3Jon me dê alguma ajuda! Um endereço, um link da Praça Digital. Qualquer coisa! Preciso atualizar minha loja.
Antes de 3Jon engatar a língua para falar, uma loira parou em frente à mesa em que os dois estavam sentados. Era uma garota, 23 anos no máximo, seios naturais pequenos – O que Rent mais gostava nas garotas – calças de couro e uma camiseta vermelha de tecido de algodão (algo “Vintage” para a época) com um “Arcade Fire” preto fixado por estêncil. Olhos grandes, verde-cinza, e um olhar amigável.
Rent não soube o que dizer. 3Jon sabia exatamente o que dizer.
— Sim, gracinha? O que foi?
— Eu gostei da cor do cabelo do seu amigo. – Disse enquanto mexia com a mão direita em uma mecha do cabelo de Rent. – O amarelo não é vibrante, tem um tom opaco e agrada meus órgãos sensoriais.
— Ham – 3Jon soltou em um tom pensativo – Qual seu número de série, gracinha?
— C0547/S.
— Imaginei... Uma Ciborgue, Rent.
— Sério? Odeio como a tecnologia avança, eu já estava começando a gostar dessa garota.
— Não seja tão fechado. A tecnologia esta ai para isso. Goste dela, não é um problema.
— Eu me sinto lisonjeada. Preciso ir agora, porém, tenho alguém me esperando lá fora.
A ciborgue caminhou a passos não espaçados e extremamente simétricos. 3Jon sentiu uma sensação estranha perto à virilha e Rent pediu mais um copo daquele vinho ao rapaz que observava os clientes por de trás do balcão. O dono do bar.
— Rent, pegue esse Disquete. Nele não há uma overdose de Gromphs, o nome foi dado a partir do barulho que você ouve quando está sob efeito, como diz a etiqueta. Aqui há o link de um dos fornecedores que uso. Diga que 3Jon te mandou e, se ele soar negativo, lembre-lhe que ele me deve um favor. Eu cobraria você pelo disquete mas respeito sua situação, deixo você me pagar somente o vinho que tomei antes de você chegar e quero ver você vendendo coisas novas a partir de agora.
— Você é um bom amigo, 3Jon....
— Te vejo por ai.
Rent pediu uma taça de vinho. Não se importou em saber marca, fábrica ou pais de origem, naquele momento ele só queria sentir o gosto ácido da uva envelhecida. Logo após terminar, pediu a conta e usou um ticket sem fundo para pagar na máquina de pagamento expresso. Esperou o dono se distrair e saiu às pressas.
Voltou para seu Espaço e deitou no colchão velho. Procurou o Plug Social e o encontrou debaixo do colchão – Indagou-se se estava tão distraído antes de sair que esquecera que o colocara ali. Enfiou o disquete no Dopper e, com um adaptador feito por ele, ligou o Dopper no Plug e o Plug no orifício em seu osso occipital.
Apertou “Enter” e fechou os olhos.
O barulho de chuva – Ou de uma Televisão fora do ar? – Servia apenas para “decorar” tudo. Era como se uma criança sem equilíbrio e sem jeito com as coisas pulasse corda com seu cérebro e fazia-o bater fortemente contra o chão toda vez que completava um pulo. Tentou pensar em qualquer coisa, qualquer coisa para se distrair daquela sensação horrível, mas conseguiu somente cheirar a comida congelada andando em marcha ré pelo seu esôfago. Por um instante, ele teve certeza que se viu deitado naquele colchão velho, rebatendo-se e coberto por uma pasta granulada e de cor indecifrável.
Quando seus olhos resolveram fazer parte da dança, tudo o que ele pode ver foi cinza. Fragmentos de códigos e modelagens 3D se esbarravam em seu corpo flutuante. Algoritmos, letras e números, informações, um tecido fino de Alucinação o envolvia. Mais uma vez o odor da comida congelada correndo em reverso em seu esôfago. Mas ele teve a chance, quando em um movimento espasmódico esticou e dobrou os dedos das mãos. Soube então que podia se mexer e rasgou o tecido.
Foi quando o Ruído-Branco entrou reverso em seus ouvidos.
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