Renegados: Destino Incerto
1 A Fuga, o olhar e o Anjo
"O mundo não gira, ele capota"
A vida é curiosa, algo pode mudar drasticamente em minutos. Para Ariel aquilo nunca fez tanto sentido quanto agora.
Muitas pessoas falam de destino, mas a verdade é que ele é incerto, tudo depende das escolhas que fazemos.
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“Efatá I'it'aruatá"
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Abri os olhos bruscamente, como se tivesse acabado de acordar de um pesadelo.
Meu coração martelava no meu peito ao ponto de doer. Ofegante, olhei para os lados, mas tudo o que via era um branco vasto e interminável.
Tudo estava tão confuso, eu não conseguia lembrar de nada do que tinha acontecido para ter chegado até aqui.
Me sentei devagar, procurando por qualquer coisa ao meu redor.
Nada.
Era tudo um absoluto vazio.
O único som ali, vinha do meu coração acelerado.
Por pura memória muscular, agarrei o pingente do meu colar. Era estranho como a pequena peça fria de metal parecia me confirmar que aquilo não era um sonho.
— Eu… morri? — murmurei. Não conseguia pensar em outra explicação, mas não fazia sentido mesmo assim.
Mortos não respiram e não têm coração, certo?
Bem… não deveriam!
Com um último esforço do meu corpo ainda trêmulo, comecei andar, mesmo que sem rumo. O cenário não mudou, continuava naquele branco estéril. Porém, uma névoa começou a se formar na minha frente e segui até ela.
Assim que entrei, meus olhos — quase como um instinto — vagaram até ele.
Minha mente inundou de perguntas. Todas sem respostas claras.
Minha visão vidrou-se na criatura humanoide, extremamente pálida e de vestes brancas. Estava deitada, acorrentada dos pés à cabeça e possuía um par de chifres negros um pouco acima da testa, seu rosto estava parcialmente coberto pelos longos cabelos brancos.
Abaixo de seu único olho visível — vermelho como sangue — haviam marcas negras. Em suas costas carregava o detalhe que mais me chamará a atenção, uma única asa, retorcida por correntes pesadas e…
Negras como o céu noturno.
— Um anjo? — sussurrei e naquele momento, seu olhar carmesim cruzou com o meu. Havia ali uma dor quase palpável.
Uma angústia me atingiu.
Por quanto tempo ele esteve naquela situação?
O que fez pra merecer isso?
Não haviam respostas, apenas um caminho a seguir. Não pensei muito, apenas me ajoelhei em sua frente e, sem hesitar, estendi minhas mãos até o metal envelhecido, lágrimas corriam sem controle pelo meu rosto. Então, ao tocá-las, uma luz branca me cegou por um instante, obrigando-me a fechar os olhos.
Quando os abri, as correntes haviam sumido, como se tivessem sido dissolvidas com aquele simples toque.
O anjo ergueu a cabeça, uma mecha escorrendo pelo seu rosto e revelando a orbe dourada como ouro, outrora escondida.
Seus olhos se arregalaram e lágrimas escorriam desenfreadas. Ele parecia incrédulo, como se não acreditasse que poderia ser liberto. Estendi minha mão para tocar sua face, nunca antes havia visto um ser celestial.
Mas, de repente, meu mundo girou e a imagem daquele ser virou apenas um borrão. Senti meu corpo sendo sugado por aquela luz, como se o próprio espaço estivesse distorcendo ao meu redor. A única coisa que lembro, foi de ter ouvido o som do meu pingente caindo contra o chão, seguido da pequena corrente.
Acordei em um salto, uma fumaça seguida de uma tosse seca, aquele cheiro de ervas que me tirou de vez do transe.
Minha mãe segurava meus ombros aos prantos e a vovó trazia uma vela branca acesa em uma mão e um incensário na outra.
Por um momento, não consegui lembrar de nada.
— Pensei que tinha te perdido, por Deus! Não suma mais desse jeito... — minha mãe falava entre soluços, suas mãos trêmulas me apertando cada vez mais forte.
Meu peito doeu ao vê-la assim, tão desesperada... e quando me dei conta, estava chorando também.
A mata do Boi Morto sendo testemunha daquela cena.
Subitamente, o mesmo instinto de antes me fez levar a mão até o pescoço.
Não havia nada.
Comecei a percorrer o local ao meu redor com os olhos, uma busca em vão.
— Mas o que foi, Ariel? — Questionou, o cenho franzido.
— Mãe eu.... eu perdi seu colar. — Comecei, uma nova onda de sentimentos me invadindo — Me perdoa!
— Olhe para mim! — senti quando suas mãos envolveram meu rosto.
— Vão os anéis e ficam os dedos. Não importa se você perdeu o colar, o importante é que você está bem! — ela me puxou para um abraço apertado, mas um nó na garganta me impedia de responder.
Ainda me sentia mal por tê-la preocupado e por ter perdido o colar que fez para mim.
De repente, vários flashs vieram à tona. O espaço vazio, a sensação de desespero… o anjo. As lembranças me atingiram de uma vez, a aflição dos olhos bicolores daquele ser me encarando voltando a me incomodar.
Voltamos para a casa dos meus avós antes da noite cair completamente. Contudo, por algum motivo, aquele lugar me causava angústia.
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Ainda naquela noite, há quilômetros de distância, a grande Florianópolis escondia, em prédios altos e caros, um dos escritórios da grande máfia italiana.
Na sala da Senza Pari estavam três homens de terno preto. Dois eram subordinados que traziam atualizações sobre a investigação da Receita Federal.
Eles estavam próximos, haviam obtido informações sobre quatro pontos comerciais pertencentes a Giovanni Ingannamorte.
O atual chefe franziu o cenho, incrédulo com o conteúdo dos papéis a sua frente.
Essa era a segunda vez que os negócios da Senza Pari estavam sendo ameaçados pelo governo; a primeira vez foi ainda em Roma, onde fica situada a sede e a casa da família Ingannamorte.
Desde a morte de Vincenzo Ingannamorte, o antigo chefe e pai de Giovanni e Francesco, a máfia enfrentou diversos conflitos, tanto internos quanto externos. Um deles foi a grande briga entre os irmãos pelo controle.
Francesco prezava pela integridade de seus homens e pelos três princípios da Senza Pari: "Lealtà, onore e segretezza assoluta" (ou simplesmente: lealdade, honra e sigilo absoluto).
Quase todos concordavam que ele deveria assumir o posto de Vincenzo, porém, Giovanni o reivindicou logo após a morte de seu pai. Diferente de Francesco, este tinha um olhar muito mais ambicioso e menos estratégico; sua soberba e prepotência foram o motivo do declínio da Senza Pari que — em toda sua história — nunca fora ameaçada pelo governo.
Giovanni, porém, nunca admitiu a culpa. Invés disso, constantemente a transferia aos seus subordinados e até mesmo para seu filho, Neri, chamando-o constantemente de "maledizione".
— Maledettos! Stronzos! — gritou, batendo o punho na mesa, fazendo os papéis voarem com o impacto. Os dois homens à sua frente ficaram tensos de imediato.
— Florianópolis já não me serve mais. Vocês, seus imprestáveis, quero um lugar longe daqui e desses bastardos do governo. Tratem de arrumar tudo!
— M-mas senhor Giovanni — um dos subordinados tentou falar, mas foi cortado por um baque brusco; outro soco na mesa, dessa vez mais severo e que fez a mesa de madeira rachar.
— Basta! Sumam da minha frente! — Giovanni gritou furioso e não houve tempo para repetir, os dois homens sumiram de imediato. O mafioso bufou, pegou um cigarro do bolso e o acendeu com um isqueiro que outrora estava abandonado sobre a mesa.
Na manhã seguinte, ele já tinha um plano em mente. Junto de sua esposa, Cecília, e seu filho Neri, pegariam voo para pousar em Juazeiro do Norte, no Ceará.
Contudo, seu real destino era Salgueiro, uma pequena cidade do sertão central, no interior de Pernambuco.
Ficaria por lá provisoriamente, até conseguir se estabelecer na região.
Pois, apesar de ser uma cidade pequena em comparação ao que o homem estava acostumado, ela estava localizada em um ponto estratégico e exercia o papel de capital sub-regional para o campo logístico. Por isso era conhecida como "A Encruzilhada do Nordeste".
O que era perfeito para um mafioso foragido se restabelecer.
Porém, Cecília, uma mulher vaidosa e acostumada com luxo, jamais aceitaria deixar uma metrópole para morar em uma cidade pequena do interior.
Chegando no luxuoso condomínio em que morava, Giovanni estacionou sua Maserati preta e adentrou a mansão. Cecília estava sentada assistindo uma novela na TV da sala quando o som da porta sendo fechada com força a assustou. Seu olhar castanho encontrou com o azul furioso de seu marido.
— Arrume as malas, vamos partir amanhã cedo. Comprei as passagens para Juazeiro do Norte no Ceará, pegaremos um taxi de lá para Salgueiro, no interior de Pernambuco. — disse o homem num tom ríspido que não admitia objeção.
A mulher, porém, arqueou as sobrancelhas com a menção de sair do conforto de Florianópolis. Para ela essa mudança era um absurdo.
— Marito, mas que ideia orribile! Eu, Cecília Ingannamorte, morando numa cidadezinha no interior de Pernambuco?! — levantou- se cruzando os braços com uma expressão de nojo.
— Vá você! Eu não me misturo com esse tipo de gente. — disse, virando as costas para o marido. Contudo, ao dar mais um passo à frente, Giovanni agarrou o pulso da mulher, com força suficiente para deixá-lo vermelho, e a virou bruscamente.
— Escuta aqui sua vadia de merda, não estou pedindo, estou mandando. Então trate de me obedecer calada! — falou exaltado, soltando o pulso de Cecília, fazendo-a perder o equilíbrio e cair sentada no sofá. Os cabelos loiros caindo sobre o rosto.
— Isso é tudo culpa sua, um maledetto irresponsável! Não sabe gerenciar nem a própria vida. Vincenzo teria vergonha de voc-
Não houve tempo para que a mulher terminasse de falar, o marido a cortou com um tapa em seu rosto que a fez cair pro lado, apoiando-se no braço do sofá. Em segundos, o italiano estava sobre ela a agarrando pelo pescoço. Tomado pela fúria.
— Nunca mais fale o nome daquele homem e muito menos me desacate! Sou o chefe aqui! Você não é nada sem mim, ouviu bem, sua imprestável?! Ou terei que ser mais claro? — Cecília apenas assentiu, os olhos arregalados e o corpo trêmulo de medo.
Giovanni a soltou e terminou de tragar seu cigarro, jogando a bituca próximo aos pés dela.
— Limpe isso.
Foi a última coisa que ele disse antes de sair do cômodo, sem olhar para trás.
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