Renegado
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ele cruzou seus dedos e pela segunda vez tentou. Pensou na frase que lera em uma das redes sociais que carrega seus dados (nome, telefone, endereço, sexo; sim, por favor) e repensou. Não se pode fazer o mesmo erro duas vezes; a segunda vez é uma escolha. Mas seria? Também lembrou-se de ler que o maior erro que se pode cometer é o de não cometer erro algum. Refletiu, pensou, olhou ao seu redor… voltou à cadeira e a pensar. E o não? Ora, o não… Ah, não! e imaginou sua mãe: anão é gente pequena. Mas até anão é capaz de receber um não; a consequência psicológica independe do tamanho do ser humano. Ponderou, então, na consequência—ou nas consequências—e isso o levou ao fim do poço… inegavelmente. As consequências são inúmeras, sim, mas também são inúmeras se não tentar. Entretanto achou mais fácil o não tentar. Ah, sim! mas já não havia pensado nisto antes? Já, e de princípio achou deveras mais fácil, só que tinha uma garra, uma vontade, um calor, um amor… Ai, o amor… Viu que estava perdido, lutando contra si mesmo e percebeu que o mais fácil a se fazer era de fato tentar. Tentar, e se caso falho o plano culparia a bebida, sim, a bebida. Álcool nos tira das cabeças, me perdoe, juro que não encho seu saco novamente, perdão, perdão. Parecia ser o plano perfeito mas então olhou o sofá cheio de gente. E se me virem? E se pensarem mal de mim? E se rirem? E se?… E se virem, verão. Se pensarem mal, pensarão. Se rirem, rirão. É incontestável: repararão em você e no seu não ou no seu sim. Agora levante, ande e tente.
Finalmente, então, decidiu-se, tentaria pela segunda vez. Agarrou o seu copo, brindou ao futuro que a Deus pertence e gozou do álcool. Andou em direção à sua segunda tentativa.
Cinco minutos depois, devido a gaguez causada por excesso de ansiedade, timidez, nervosismo, estress etc etc, jazia inconsciente na beira da calçada.
Acordou por meio do tardio sol das cinco horas, o bendito corpo celeste que mesmo a milhares, milhões, bilhões—o que seja, não tinha tempo para pensar na quilometragem—, refletia seus ardentes raios na Rodrigo de Freitas. O resultado de sua tentativa não lhe vinha à cabeça. Ora, onde estava era uma melhor pergunta a se fazer em condições como esta. Levantou, cambaleou e se ajeitou. Checou os bolsos e confirmou quarenta e sete reais ou seriam quarenta e oito, nove, cinquenta, afinal? A cabeça já lhe doía o suficiente para arranjar mais encrencas intelectuais. Chamou um táxi e, sob enxaqueca, ressaca e sono, partiu para o apartamento em Copacabana. Algumas horas depois, após um vigoroso jantar de frutos do mar regado a Chateau Margaux, partia em busca de uma terceira tentativa.
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