Rendição

1 Capítulo Umnico


Sarah caiu, caiu pelo que pareceram horas, enquanto as paredes do castelo se desintegravam ao seu redor, e um céu poente aparecia pelas frestas. Ela sabia que o labirinto e o castelo (e tudo o mais que havia naquele lugar) refletiam as emoções do Rei dos Duendes.

Naquele momento, Jareth não estava feliz. Desolado, diria ela.

E quando ela finalmente aterrissou, e o viu espreitando por trás de um pilar; teve certeza.

Estava magnífico; vestindo um manto de penas sobre a camisa clara e as calças justas. O cabelo era de um loiro platinado, comprido, mesclado de azul. Seu rosto de uma perfeição irreal: os traços delicados; as sobrancelhas levemente arqueadas; a boca rosada, crispada numa linha tensa; e os olhos... Ah, os olhos. Seus olhos azuis, pintados, repletos de tristeza, repletos de uma muda acusação, de mágoa.

Ele era a personificação dos sonhos. Dos seus sonhos.

Ainda naquele momento, mantinha o queixo erguido e o corpo ereto; tentando provar o monarca que era. Mas ela conseguia enxergar sob sua máscara. Sabia ela o que sentia.

Meu rei. Poderia ser meu rei, ela pensou. Mas, lembrando-se do que viera fazer ali, ergueu também sua cabeça e o fuzilou com olhos.

— Dê-me a criança.

— Sarah, tenha cuidado. Fui generoso até agora, mas posso ser cruel.

Ela teve que sorrir.

— Generoso? O quê você fez de tão generoso?

— Tudo! Tudo o que você quis, eu tenho feito. Você pediu que o bebê fosse levado. Eu o levei. Você se acovardou na minha frente, e eu fui assustador. Eu reorganizei o tempo. Eu fiz o mundo ficar de cabeça para baixo. E eu fiz tudo isso por você! Eu estou exausto de tanto cumprir as suas expectativas. Isso não é ser generoso?

Enquanto falava, sua voz se elevava e o sorriso de Sarah desaparecia. Ele andava em círculos ao seu redor, majestoso, seus olhos nunca abandonando os dela. Sarah sentiu medo, e de algum modo, culpa por magoá-lo. Porém, lembrou-se de Toby, o irmão que estava ali por sua culpa.

Lembrou-se que deveria ser forte por ele.

— Através de perigos indescritíveis e dificuldades inúmeras... — ela começou. — Lutei para chegar ao castelo além da cidade dos duendes para retomar a criança que você roubou. Porque a minha vontade é tão forte quanto a sua... E minha...

Jareth ergueu uma das mãos de repente, abandonando todos seus trejeitos calculados, frios e ponderados; nos olhos, ela podia ver seu medo. O rei sabia que a perderia em breve.

— Pare! Espere. Olhe, Sarah. Olhe o que te ofereço. Seus sonhos — em sua mão delicada, jazia uma das inúmeras bolas de cristal.

Jareth observou enquanto ela pousava os lindos olhos verdes no cristal. Criatura tão delicada, tão pequenina. Ele ansiava por ela de corpo e alma; e não era do tipo que sabia esperar. Era sim possessivo; controlador; e acima de tudo, um apaixonado.

Se é que podia chamar aquilo de paixão. Era mais do que uma simples paixão mortal. Ele era um Rei, um deus dentro de seu próprio mundo. E ela seria sua Rainha.

Se ao menos não fosse tão apegada á criança.

— O quê... O quê está tentando fazer? Rei dos Duendes, eu preciso salvar Toby! Repito que aquilo foi um engano... Eu nunca quis que ele fosse levado... Eu nunca... — a voz dela vacilou, e com sua voz, sua força.

Ele deu dois passos cautelosos e pousou a mão em seu rosto macio. Sentiu-a estremecer sob seus dedos, mas ela não o afastou. Jareth inclinou-se lentamente, e encostou os lábios de pêssego no ouvido dela.

— Sarah... Doce criança... Seja minha. O bebê não será machucado, ao menos que seja minha. Somente me ame, me tema, faça como eu disser e serei seu escravo. Esta é minha condição.

Ela ainda fraquejava, e ele não esperou mais. Beijou-a, um beijo insolente, feroz, incontrolável. Afastou seu rosto do dela, nos olhos, promessas e mais promessas.

— Não... Eu... Não...

— Ele não será machucado. Eu... Eu o devolverei a seus pais, se assim desejar. Mas será minha, por toda a eternidade e o tempo que virá após ela. Sabe que é isso que quer. Você me quer, puro amor. Deixe-me fazê-la minha Rainha.

Por mais que tentasse, Sarah não se lembrava do resto da frase do livro.

E não importava mais também.

Olhando naqueles olhos, nada mais importou.

Notas finais
Cena baseada: https://www.youtube.com/watch?v=FmgmXgoBZFo
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!