Renúncia
3 Vivendo em uma gaiola de tijolos
Olhei para o teto em busca de foco, minha respiração fraca, olhei de relance para as janelinhas do quarto, não se parecia nenhum pouco com um, mas Israel me obrigava a chamar um avião de quarto. O sol não parecia ter nascido ainda, meus olhos foram descendo um pouco e centralizaram o despertador em formato de vaca que tocaria mais ou menos daqui duas horas. Adverti mentalmente meus olhos quando estes se moveram por extinto para a esquerda do quarto, para o berço emaranhado de coisas cor de rosa, que ficava dentro da cabine de comando — serve para que ela tenha um quartinho novamente – era o que dizia Israel, mas eu sabia que enfiar a bebe na cabine era para protegê-la das “coisas” caso algo saísse errado, como mamãe havia feito com nós dois. Essa era a idéia de Israel, ele sempre teve ótimas idéias, exceto querer criar um bebe em meio ao um apocalipse.
Sentei-me na cama, e a tontura matinal me fez cai de lado, minha cabeça começou a latejar, latejaria muito mais quando eu encontrasse com Israel. Andei até o fundo do “quarto” puxei a cortina que separava a primeira classe da segunda, este lugar qual Israel deveria estar, mas a cama parecia perfeitamente arrumada, como toda a parte da 2ª classe, muito diferente de mim, Israel é perfeitamente organizado. Olhei-me no espelho do banheiro e prendi atrás da cabeça o cabelo ruivo que agora mais se pareciam uma palha vermelha, peguei minha machadinha estranhamente limpa do lado da porta e saí do avião, olhando de relance para o berço certificando-me que ela realmente não estava lá.
– Ei Emma! Pode me ajudar com isso?
A voz de Edmond fez pular de susto e por pouco não o acertei com a machadinha. O garoto arregalou os olhos e sorriu me mostrando um arco meio genzo, que muito se parecia com o de Israel. O rosto claro de expressões meio afeminadas se voltou para o arco que ele carregava nas mãos, Edmond pegou um pedaço de pau que ele havia amarado nas costas e encaixou no arco, ele então mirou a porta do avião e deu um puxão no pedaço de madeira, tal que pegou altitude e caiu a três pés do garoto.
– Veja Emma, veja! Eu já tentei de tudo, mas ele se recusa a funcionar. – disse ele me entregando o arco e o pedaço de pau.
– Acho que você está fazendo a pergunta para a pessoa errada Edmond, porque não pergunta ao Israel, você sabe, eu só entendo de machados – eu sorri para ele o entregando o arco.
O garoto fez uma cara de tristeza, tristeza que eu sabia ser forçada, Edmond era conhecido por fazer-se de coitadinho, ele segurou os olhos azuis nos meus por alguns segundos fazendo beicinho.
– Eu perguntei ao Rael, mas ele não me deu ouvidos, nem olhou para o meu arco. Emma você é a única boazinha aqui, por favor?
Eu dei uma risada, ele estava apelando para o meu emocional, mesmo sabendo que eu não gostava muito de emocionais.
– Ok Edmond, mesmo eu achando que você é bem grandinho para fazer essas carinhas fofinhas – ele deu um sorrisinho de vitoria e me entregou o arco – bem, eu acredito que não esteja funcionando porque você apertou muito a corda, está vendo? Bem aqui, se você afrouxar talvez...
Ele deu um grande sorriso ao ver que havia funcionado, e agradecendo saiu correndo para as grandes barracas.
–ei Edmond, hum, você sabe me dizer para onde foi Israel?
– eu não sei, ele foi com os outros alguns minutos antes de você chegar. – gritou o garoto de volta.
Sem mim? – cochichei baixinho. Israel e eu sempre íamos caçar juntos, mas hoje nem me chamara, ele sempre me obrigava a tomar café da manha com ele, dizia que ainda éramos uma família e que famílias deviam ter a primeira refeição juntas. Andei ate o grande salão a procura dele, buscando um motivo para ele ter me deixado, vários motivos relevantes me vieram a cabeça, ele estava bravo comigo, mas isso não mudava o fato de termos jurado nunca caçar sem o outro, afinal foi isso que nos mantém vivos até hoje.
Fizemos a promessa quando tivemos que vir para cá. Nossa “sociedade” de sessenta pessoas funcionava muito bem em um aeroporto, as tarefas eram divididas, uns cozinhavam, outros caçavam, vivíamos bem na cidade grande. Naquele dia eu e Israel havíamos discutido, por causa da bebe, o general balofo que agia como o presidente da tal sociedade havia tido que não poderíamos ter um bebe, por que era perigoso, e que não gastaria tempo ordenando que trouxessem fraudas e leite para um ser que só nos atrasava. Eu e os outros saiamos para caçar, Israel ficou, e então aconteceu uma grande droga, acredito que algumas das “coisas” entraram no aeroporto, comeram as pessoas, isso era bem previsível, nenhum lugar era seguro. Israel acabou salvando sozinho quase todos que pode, e de uma sociedade de sessenta não sobraram trinta.
Desde então nos mudamos para uma cidadela, Harry o filho do general trouxe as pessoas em aviões que ainda funcionavam, arrumou algumas barracas e ele agora junta pessoas para fazerem muros ao redor da pequena cidade e exterminar as “coisas”. Pelo jeito eu sou a única que não gosta da idéia de morar em uma gaiola de tijolos.
– Emma! Emma! Socorro, Emma!!!
Vindo de trás dos aviões a voz de Edmond ecoou em um tom angustiante, meu corpo estremeceu. Zumbis...
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