Remoendo o Passado
1 Capítulo Um
Notas iniciais
Ninguém passa por essa vida ou mesmo por parte dela sem que algo esteja escrito em algum lugar.
– John Harding
São Paulo – Brasil, 2015
Alice apoiou as costas no encosto da cadeira e cobriu o rosto com as mãos. Seu coração batia acelerado. Respirou fundo. Passou alguns instantes ali, sem saber o que fazer ou pensar. Desejava que tudo aquilo fosse um pesadelo, um simples pesadelo.
Suspirou e, pela milésima vez, leu o papel que estava sobre a mesa do escritório de sua mãe. Não podia acreditar. As palavras escritas nele a machucavam; “...filha de Emily Smith, pai desconhecido”. As outras informações não lhe interessavam nem um pouco. Apertava o documento com os dedos.
– Impossível... – murmurou.
Emily não era sua mãe. Seja lá quem fosse Emily.
Sentiu seu celular vibrar sobre seu colo, mas ignorou-o, estava demasiado submersa em seus pensamentos para atender quem seja que estivesse ligando. Respirou fundo, pousando o aparelho que ainda vibrava sobre a mesa.
Abaixou-se e fitou a gaveta onde havia encontrado aquele documento. Analisou o conteúdo minuciosamente. Papéis, fotos, desenhos que fizera quando era criança; naquele momento nada daquilo lhe interessava.
Fechou a gaveta bruscamente. Estava inconformada. Guardou seu celular e o documento na bolsa. Como aquilo era possível? Deveria haver alguma explicação lógica.
Deixou o escritório da mãe logo em seguida. Sentia um nó na garganta, não sabia para onde ir. Decidiu caminhar um pouco; não se importava com o frio ou com a escuridão da noite.
A moça não sabia como alguém poderia cometer um erro daqueles, mas rezava para que alguém tivesse realizado a proeza.
**
Alice pensava na descoberta da noite anterior enquanto esperava o metrô. A estação não estava lotada, tampouco vazia; o movimento do horário era agradável.
Assustou-se ao sentir braços envolvendo-a. Virou-se bruscamente para encontrar um rapaz de estatura mediana, cabelos pretos e lindos olhos castanhos fitando-a com um sorriso nos lábios.
– Daniel! – sorriu ao dar um leve tapa no braço do rapaz – Você me assustou!
– Me desculpe – deu-lhe beijo suave –, não tive a intenção de assustar uma moça tão bonita.
Ela sorriu por um instante, mas logo abaixou a cabeça.
– Ei, amor. – Daniel tocou-lhe a bochecha suavemente – O que houve?
– Nada. – murmurou.
Observaram o metrô se aproximar. Quando este cessou seu movimento, entraram. Nenhuma palavra foi dita, Daniel não queria pressioná-la nem fazê-la se sentir em uma situação incômoda.
Chegaram ao campus da universidade em menos de vinte minutos. Despediram-se e se dirigiram a seus respectivos destinos; Alice cursava administração de empresas e Daniel engenharia química.
O dia parecia não ter fim. Alice não conseguia se concentrar em nada além da maldita certidão de nascimento que havia encontrado; era verdadeira? Por que ela nunca soube que era adotada? Por que sua mãe a havia abandonado? Quem era seu pai?
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