Eu não gosto muito de falar sobre a minha vida. Gosto mesmo é de viver ela. Da melhor (ou pior, dependendo do ponto de vista) maneira possível. Que pra mim é não se importar com nada, nem com ninguém que não se importe comigo. E ah, às vezes to nem aí pra quem se importa também. Raramente considero alguém. Deve ser porque a própria mulher que me deu a vida e que eu amava foi embora, sem mais nem menos. Enfim, porém quando eu considero é tipo, pra caralho mesmo. E acho que são só quatro pessoas que eu curto. Meus melhores amigos, James, Ton e Gab. E minha melhor amiga, Bel. Sem essa de família, namorada e outras viadagens. Tenho quatro amigos e isso é tudo. Vivo bem assim. Sei que pelo menos com eles posso contar pra tudo, confiar qualquer segredo meu.

Segunda feira, seis e meia da manhã. Eu tava chegando em casa e daqui uma hora tinha que estar na porra da escola. Minha vontade era de ficar dormindo como já fiz tantas vezes, mas era capaz de eu repetir de ano de tanta falta. Então fui tomar um banho, pra ver se despertava, mas quase dormi no chuveiro assim que entrei, então sai rápido. Aliás, queria sair de casa antes que meu pai acordasse e tivéssemos a nossa santa briga de todos os dias. Coloquei uma calça jeans qualquer, a camiseta ridícula do uniforme e um dos únicos tênis que eu tinha, um vans preto.

Peguei um pedaço de torta de frango que tinha sobre a mesa, minha mochila e sai de casa rumo ao inferno. Fui ouvindo CPM 22 no caminho, pensando em algumas coisas, e assim não demorou muito pra chegar. Cheguei bem adiantado, aliás. 07:15. Tá, não tão adiantado assim. Mas ta longe do horário que eu costumo chegar.

Sentei num murinho qualquer não muito longe da minha sala. A primeira aula seria de... Do que mesmo? Sei lá, uma porra de Filosofia ou Sociologia ou Psicologia, essas viadagens todas que não me servem pra nada. Sinto duas mãos cobrirem meus olhos, passo a mão sobre elas. Mãos macias, com um anel no dedo que geralmente se usa anel, que eu não lembro o nome.

Eu: Bel?

Annabelle: Não...

Ela respondeu numa tentativa falha de mudar a voz.

Eu: Não adianta, eu te conheço.

Respondi dando risada, e ela tirou as mãos e se sentou do meu lado.

Eu: Ou não, mas que outra menina tamparia meus olhos do nada nessa escola?

Ela também riu com a impossibilidade de ser outra menina. Eu não conversava com ninguém. Não por ser um desses caras excluídos e solitários, só não faço questão de falar com ninguém.

Annabelle: Hum, não sei, alguma vadia?

Eu: Po, então ta se chamando de vadia por que fez isso?

Annabelle: Idiota, você entendeu! – Disse me dando um tapa, me fazendo rir ainda mais.

Eu: O sinal já vai bater, vamos?

Fomos caminhando juntos até a sala, e quando entramos logo avistei o James e o Tony, nas duas últimas carteiras. Sentei na última da fileira do lado, e a Belle na minha frente.

James: E aí, cara? Milagre tu ter aparecido hoje.

Eu: Pois é, velho. Cadê o Gab?

James: Deve tá por aí fumando um, ou dormindo, sei lá. Não vi ele hoje ainda.

Eu: Ah, to ligado.

Logo o sinal bateu e a professora entrou na sala, fazendo chamada. Revirou os olhos na sala quando eu respondi, até me achar pra ter certeza que eu tinha vindo, provavelmente.

Luciana: Jeremy? Qual foi o milagre que te fez lembrar que existe aula?

A sala inteira virou pra me olhar, alguns deram risada. Nem respondi, pra não xingar. Velha cuzona desocupada, tem que ficar enchendo a vida dos outros. A vida é minha, cara. Deixa eu me foder, se eu não quiser vir porra de dia nenhum eu não venho. Ninguém tem que ficar falando nada sobre isso. Foda-se.

Deu até vontade de levantar e matar aula depois disso, mas preferi ficar na minha mesmo. Quem sabe na próxima, se for matemática ou algo do tipo. Decidi só abaixar a cabeça e dormir.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.