Remember me
8 Capitulo 8
Notas iniciais
Emma da sacada de seu quarto observava o movimento na rua. Depois de sair do hospital, ela havia ligado para os pais de Regina os colocando a par de tudo. Ficou mais de uma hora no telefone, tentando explicar a situação entre um desmaio e crises de choro da sogra. Ao fim, teve que usar de todos os argumentos possíveis para que os sogros eufóricos não pegassem o primeiro avião para a ilha. Quando os sogros se deram por vencidos, ela pôde falar com os filhos. Sorriu ao se lembrar do jeitinho protetor de Henry ao falar da irmã, dizendo como estava tomando conta dela na ausência da mãe. Sua pequenina Lucy também havia trocado algumas palavras ao telefone, mas logo começou a chorar de saudades dando fim a ligação. Sentiu a imensa vontade de falar para os filhos que a outra mãe estava viva, mas seria complicado demais para a cabecinha deles, assim pediu aos sogros não comentar nada com as crianças, futuramente encontraria um jeito de dizer a eles sem deixá-los tão confusos.
Mirou ao longe a praia tranquila e suspirou inquieta, precisava dar uma volta para pôr suas ideias em ordem.
...
Eva adorava aquele pequeno bangalô em frente à praia. Era uma casa pequena, no entanto confortável, de decoração simples, mas de bom gosto. Não foi difícil gostar daquela moradia.
Depois que saiu do hospital ficou um tempo na casa dos Jones, mas somente o necessário para conseguir seu próprio lugar. Óbvio que a amiga insistiu para que ficasse mais, contudo Eva não quis incomodar o casal de amigos.
Nas primeiras noites que passou na casa descobriu que não tinha coisa mais agradável que dormir sendo embalada pelos sons das ondas. Porém aquela noite ela se sentia perturbada, incapaz de pegar no sono. Depois de rolar por algum tempo na cama decidiu que era melhor ler um livro ou até mesmo ligar a televisão, apesar de achar que nada havia de interessante.
O tempo estava um pouco abafado então atravessou o quarto, abriu a janela que dava para o mar. Ficou alguns minutos apenas sentindo a brisa marinha bater em seu rosto enquanto olhava para a praia deserta, iluminada pelo luar.
Quem sabe um passeio pela praia fosse relaxante. Tirou a camisola e colocou um vestido leve de algodão. Não se preocupou em calçar nada, saiu de casa de pés no chão mesmo.
A areia fofa ainda estava quentinha dando uma sensação deliciosa. O mar estava calmo, a água deveria estar uma delícia, mas ela não tinha coragem suficiente para entrar àquela hora, então apenas mergulhou os pés na água cálida brincado um pouco com as pequenas ondulações. Sorriu dando pequenos saltinhos sob o raso, mas franziu o cenho ao constatar que não estava sozinha. Estreitou os olhos para ver melhor a figura sentada. Parecia uma mulher, percebeu ao chegar mais perto. Não soube dizer o porquê, mas sentia vontade de se aproximar, o que era curioso, pois não costumava falar com estranhos ainda mais naquela situação.
Emma vagava sem rumo pela praia. Precisava pensar no que faria agora que havia encontrado sua Regina. Como agiria Regina quando se encontrassem? Será que lembraria dela se a visse, se falasse com ela? Provavelmente não. Teria que se segurar para não abraçá-la e beijá-la, ou mesmo colocá-la nos ombros e levá-la para casa. Sim, seria um martírio, mas faria o que fosse preciso para tê-la de volta a seu lado. Mesmo que significasse começar do zero, conquistá-la novamente, ainda que ela nunca mais recuperasse a memória. Aquele pensamento a angustiou, porém tinha que ser realista.
Nem mesmo em sonhos poderia imaginar que o destino teria lhes pregado essa peça, mas estava imensamente feliz como em anos não havia se sentido. Sentou-se em frente ao mar e ficou contemplando aquela imensidão misteriosa enquanto se deixava perder em mais pensamentos. Não soube dizer quanto tempo ficou ali, apenas foi desperta ao ouvir a voz mais doce e amada de todas. Apertou os olhos não acreditando.
— Oi. Você está...-hesitou- Você está bem?
Eva titubeou ao ver que a mulher não respondia e hesitou mais ainda ao ver como agora ela lhe olhava. Deu um passo para trás. Deus, estavam na quase penumbra, contavam apenas com a luz da lua cheia para iluminar, mas sentia como o olhar dela parecia queimá-la. Quase perdeu o ar. Aquele olhar... ela já havia visto aqueles olhos antes. Recuou mais um passo assustada com o pensamento. Deveria estar louca quando passou por sua cabeça ir até a mulher.
Olhou para o restante da praia para se certificar que os outros bangalôs ao longe estavam iluminados, isso significava que estava segura.
― Bem, desculpe incomodá-la...
― Espere! –a loira engoliu em seco- Espere, não vá.
Emma viu seu olhar de dúvida. Quando Regina mordeu os lábios ela teve que cerrar os punhos para controlar a vontade de tomá-la nos braços. Aquilo seria mil vezes mais difícil do que imaginou que seria.
Eva estancou ao ouvir aquela voz grave. Piscou algumas vezes tendo certeza de já ter ouvido essa voz em algum lugar. Fez um breve esforço para tentar recordar até sentir algumas pontadas de dor na cabeça.
O que estava havendo com ela? Jurava ter visto os olhos dessa mulher e agora tinha ouvido a voz também.
― Vim apenas ver se precisava de ajuda. Não é comum encontrar alguém como você a essa hora pela praia.
― Estava somente admirando a vista.
― É linda, não? –a loira concordou, mas não falava da vista e sim de Regina- O crepúsculo é ainda mais bonito.
― Ainda não tive o prazer de ver.
― Turista? –ergueu uma sobrancelha-
― Como sabe?
― Bom, não é difícil de imaginar. –estreitou os olhos- Além de conhecer a maioria dos moradores da ilha, estamos entrando em estação turística e também você não tem os caracteres locais.
― Quanto a esse último nem você o tem. –deu uma piscadinha-
― Isso é verdade –sorriu- Não sou nativa.
― Mora há muito tempo na ilha?
― Hum...uns dois anos mais ou menos.
― Deixe-me adivinhar... veio a passeio e acabou ficando?
― Não –mordeu os lábios novamente- Nada disso...Bem, é uma longa história. –disse ao ver o olhar interrogativo da loira-
― Gosto de histórias longas. –sorriu de lado- Por que não senta e me conta, hum?
Eva suspirou. O que ela estava fazendo? Lógico que não iria falar daquele tema com uma estranha. Nem ao menos sabia seu nome. Mas então porque se sentia tão compelida a falar de assuntos pessoais?
― Creio que não. Já está tarde.
― Tudo bem. –fechou os olhos- Então até qualquer dia desses.
A morena a estudou. Havia um nuance de tristeza na voz dela combinado a um tom de promessa? Não, deveria ser impressão sua.
― Adeus.
Emma estava fazendo um esforço sobre-humano para deixá-la partir. Ficou olhando-a ir em direção a seu bangalô enquanto repetiu pela milésima vez para si mesma de que era preciso. Só quando a morena saiu de sua vista foi que notou estar tremula e apesar da brisa marinha estava suando. Tinha os músculos enrijecidos e os olhos marejados. Havia sido uma atriz razoável, mas não sabia se da próxima vez conseguiria manter suas mãos tão longe dela. E quando ela sorriu? Quase seu coração parou de bater. Que aquilo acabasse logo, precisava tê-la novamente.
Eva chegou em casa com o coração aos pulos. Correu para seu pequeno ateliê, parando em frente a uma tela. Havia acabado de se lembrar onde tinha visto aqueles olhos.
Somente com um puxão rápido tirou o tecido que cobria o quadro ainda preso ao cavalete, revelando o esboço do rosto de uma mulher. Sim, eram os mesmos olhos da figura na tela, eram os mesmos olhos da amante que povoava seus sonhos.
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