Remember me
17 Capitulo 17
Notas iniciais
Os olhos de Regina se abriram aos poucos, ainda tentando se acostumar com a claridade do quarto, que não era forte, mas feria as pupilas que passaram horas na escuridão. O silêncio prevalecia por todo o cômodo e demorou alguns minutos para que ela percebesse que estava em um hospital. Havia uma agulha presa em seu braço direito e sua garganta parecia seca. Olhou em volta, reconhecendo uma mulher que estava sentada em uma das poltronas, próxima a cama. Estava tão perdida na leitura de seu livro que nem ao menos se deu conta do despertar de Regina, até que esta limpou a garganta, chamando-lhe a atenção. Ela ergueu a cabeça e encarou Regina, um sorriso sincero brotou em seu rosto, os dentes brancos entrando em contraste com a pele clara e os cabelos negros.
― Ma-Mary? ― Regina forçou sua mente, que se encontrava em uma completa desordem.
― Isso, querida ― a mulher caminhou até ela, sentando-se na beirada da cama e pegando sua mão entre as dela ― como você se sente?
― Bem… Um pouco cansada, na verdade. ― tentou manter a voz firme ― Como eu vim parar aqui?
― Eu esperava que você me dissesse isso. ― Mary sorriu ― Segundo Emma, você estava no quarto com as crianças e ela no andar de baixo, de repente ouviu um barulho e te encontrou caída na sala.
Regina se manteve em silêncio, absorvendo o que lhe foi dito. Lembrava-se de ler a história para as crianças… Os Três Porquinhos, de ter descido para tomar um chá e… As imagens chegam em sua mente, juntamente com uma forte pontada no peito. Emma estava chorando, enquanto assistia o vídeo de casamento. Os soluços, a dor sendo expressa naquele choro desesperado e silencioso. Ela estava sofrendo.
― Regina? ― Mary chamou sua atenção, deparando-se com o olhar avelã perdido ― Escute ― afagou a mão esquerda da morena ― Eu não tenho ideia de como as coisas estão confusas para você, não me aventura nem ao menos em tentar imaginar, mas eu realmente quero que você saiba que pode contar comigo. Antes… ― ela hesitou, mas se sentiu encorajada pelo olhar da morena ― Antes de tudo isso acontecer, do seu acidente… Nós éramos muito amigas, amigas de verdade. Todos nós nos perdemos um pouco quando perdemos você. ― uma lágrima escorreu pela pele clara.
― Ei… Não chore ― Regina deu-lhe o mais sincero dos sorrisos ― Eu não me lembro de muita coisa, mas me sinto bem perto de você. É familiar, é bom… Eu também quero ter de volta a nossa amizade, quero confiar em você e eu quero que confie em mim ― uma lágrima também escorreu pelo rosto da morena, sendo limpa pelos dedos gélidos de Mary.
― Regina, você se lembra por que desmaiou? Lembra o que sentiu antes de acontecer? ― ela pronunciou cada palavra com demasiado cuidado. Não queria abusar da receptividade da concunhada.
― Eu…
― Está tudo bem se você não quiser falar.
― Eu quero falar ― ela respirou fundo. Sentia que podia confiar em Mary e, além disso, já não podia mais aguentar tudo aquilo preso dentro dela ― Dois anos se passaram ― ela suspirou ― vocês sofreram pela minha morte, vocês me enterraram, de certa forma, e, ainda que eu esteja viva, esses dois anos passaram para vocês como se eu não estivesse. Eles passaram para Emma e eu não consigo imaginar como foi horrível… Mas para mim, é como se esses dois anos nunca tivessem acontecido. Eu era uma outra pessoa, uma nova pessoa, que desconhecia completamente o seu passado. Me sentia deslocada e não acreditava que isso iria mudar, mas mudou. Quando Emma me contou a verdade, quando eu vi meus filhos… Céus! É como se tudo fizesse sentido! Como se a vida estivesse me dando uma resposta e ela está! No entanto, essa resposta parece tão confusa, como se viesse escrita em uma caligrafia que não consigo compreender. Existe um vazio na minha mente, muito além desses dois anos. Eu não me recordo das coisas, eu dou passos em falso… Eu me sinto perdida ― as lágrimas desciam livremente pelo rosto de Regina e se espelhavam no de Mary, que podia sentir a dor nas palavras da amiga ― e eu sinto que estou perdendo Emma ― os soluços a tomaram, interrompendo sua fala. Mary tomou a morena em seus braços, acariciando seus cabelos, enquanto permitia que ela chorasse.
― Não pense assim, querida, Emma ama você. Isso é visível.
― Sim! É visível ― Regina secou o rosto com as costas da mão ― Mas ela se lembra de tudo e eu não. Sempre que vou me aproximar dela, que penso em buscá-la, eu sinto como se fosse errado, entende? É como se o abismo em minha mente gritasse para não o fazer. Eu sinto Emma se afastar cada vez mais e sei que a culpa é minha, sei que sou eu quem a afasto, mas eu não sei como me aproximar, Mary. Emma sabe os meus gostos, conhece meu jeito… Eu não. Sou casada com ela há anos e nem ao menos sei qual é sua comida preferida, ou de que lado da cama ela prefere dormir. Eu me sinto perdida dentro de mim mesma.
― Você já tentou conversar com Emma sobre isso? ― a morena negou com a cabeça ― Então nunca vai se resolver, querida. Vocês são casadas, vocês se amam… Isso é tão claro. Depois de anos junto a David, eu vivi o amor de vocês. As trocas de olhares, os sorrisos… Tudo isso ainda está aqui ― sinalizou para a cabeça de Regina ― ainda que você não se lembre de cada acontecimento, de cada detalhe, você pode redescobrir isso tudo, pode conhecê-la de novo. Você é uma nova Regina, mas ela também é uma nova Emma.
― Mas como eu posso fazer isso? Eu estou com medo, estou com medo de errar.
― Faça algo simples… ― ela fechou os olhos e sorriu, abrindo-os segundos depois ― faça um jantar. Ela adora quando você cozinha.
― Ela me disse isso ― Regina se recordou da voz de Emma dizendo o quanto sua comida era maravilhosa e como ela era boa em tudo o que fazia ― E quanto as crianças?
― Eu e David ficaremos com elas! Já estou com saudade dos meus pequenos!
Ambas conversaram durante mais alguns minutos até Regina adormecer novamente. Logo, Emma adentrou o quarto entregando um copo de suco de laranja para a cunhada. A loira ainda mantinha a expressão preocupada no rosto.
― Ela já acordou, está tudo bem, até conversamos um pouco. ― Mary sussurrou observando a cunhada acariciar os cabelos da esposa― Mas ainda está sob efeito da medicação para a dor.
― O médico alertou que ela ficaria sonolenta durante todo o dia. ― beijou a testa de Regina ― Amanhã ela receberá alta.
Mary assentiu, acariciando o ventre, onde seu bebê descansava.
― Como estão as crianças? ― sorveu um gole do suco.
― Granny disse que já acordaram e não pararam de perguntar por nós. ― suspirou, colocando as mãos nos bolsos traseiros da calça jeans ― Falei com meus sogros, Cora disse que os levaria para um passeio.
― Se quiser que eu fique mais um pouco ou se necessitar de alguma coisa de casa, não hesite em pedir.
― Obrigada, querida. ― abriu um sorriso agradecido ― Não sei o que seria de mim se não fossem você e meu irmão.
Como previsto, Regina recebeu alta médica na manhã do dia seguinte. O médico havia lhe prescrito novo remédio para as dores embora a morena já se sentisse momentaneamente livre do terrível incomodo.
Emma, por sua vez, redobrou os cuidados com a esposa nos dias que se seguiram, ligava para casa várias vezes durante o dia para saber como estava Regina. Atitudes que apenas serviram para que a morena decidisse colocar logo em prática o conselho da concunhada.
...
Tudo estava perfeito. A casa estava em um clima extremamente romântico. A luz das velas iluminava o ambiente, dando a ele uma esfera completamente sedutora. Ao fundo, Beethoven tocava a mais bela de suas composições: Love Story. Tudo estava acolhedor e confortável. Regina acabara de voltar da adega trazendo um vinho que, segundo Mary, era um dos preferidos de Emma. A amiga a ajudou em muitos detalhes, porém insistiu que o prato principal ficasse a sua escolha, usando o argumento de que Emma adoraria qualquer coisa feita por suas mãos. Depois de muito pensar, cogitar pratos dos mais complexos aos mais simples, um sentimento se aflorou, levando-a a fazer algo que não se recordava de ter cozinhado até então. Uma lasanha. Não sabia como ou nem ao menos porque, mas sentia que aquele era o prato certo, como se fosse especial ou algo assim. Resolveu apostar no seu inconsciente e, algumas horas depois, o prato era retirado do forno. Já se passava das dezenove horas e não tardaria para Emma chegar. Contudo, o que Regina não sabia é que a loira estava presa em uma reunião, que estava a levando a loucura. Depois de quase uma hora de atraso, Regina se sentou no sofá e acabou adormecendo, sendo recebida pelos sonhos que aumentavam sua expectativa e saudade da amada.
Quando Emma chegou em casa, uma sensação de déjà vu a atingiu com tal proporção, que fez com que a loira ficasse alguns minutos parada na porta, contemplando a cena. A recordação do dia em que Regina a pediu em namoro veio a sua mente, uma memória que foi inúmeras vezes visitada por ela. A mesa devidamente arrumada, o vinho, até mesmo cheiro do prato que a morena havia feito naquela data… Lasanha! Era a preferida de Emma, sempre foi. Um sorriso brotou nos lábios da loira quando se ateve aos detalhes. A toalha que cobria a mesa, a disposição das velas, que iluminavam o ambiente e o som. Procurou Regina pela casa, encontrando a morena adormecida no sofá.
Embora os tempos fossem difíceis e as duas estivessem cada vez mais distantes, o sentimento que as unia era forte e parecia crescer, contrapondo o esperado. Emma se sentou ao lado de Regina e acariciou a face da morena, que estava entregue a um sono profundo, apoiando a cabeça em uma das mãos. Ela sabia que estava sendo difícil para a esposa, podia imaginar a loucura de ter sua vida remexida e nenhum passado como base. Ter amigos carregando lembranças maravilhosas sobre você e não poder compartilhá-las. A loira sabia disso, mas tinha medo de que Regina pensasse em desistir, que cogitasse ir embora para a ilha e voltar a ser Eva, diante da dificuldade do seu cérebro de se recordar quem era Regina. Ela temia isso tudo, de tal forma que seu coração se apertava ao cogitar a possibilidade de perdê-la duas vezes na mesma vida. Não, não podia ser. Aquele jantar, que fora organizado pela morena dava a Emma a certeza de que ela estava disposta a tentar e, sendo assim, ela também tentaria.
Pegou a esposa com cuidado, passando um braço por baixo de seus joelhos e amparando suas costas com o outro. Ainda que inconsciente, em um gesto automático, a morena prendeu os braços no pescoço de Swan, aninhando seu rosto na clavícula da mulher e inalando aquele cheiro que a embriagava por completo.
― Em-ma ― a voz rouca soou, de forma pausada, pastosa pelo sono que a conduzia ― você demorou.
Emma sorriu em resposta, apertando mais a esposa em seu colo, deleitando-se com aquele momento tão nostálgico e acolhedor.
― Desculpe-me, querida ― seu tom era suave, como se estivesse falando com uma criança ― fiquei presa em uma reunião complicada.
― E deu tudo certo? ― Regina ainda estava com os olhos fechados, entregue a sensação de ser acolhida pelos fortes braços da esposa e satisfeita por não se sentir culpada com aquilo.
Já para Emma, era como se aqueles dois anos nunca tivessem existido, de fato. Como se fosse um dia normal, voltando para casa após o trabalho e sendo recebida pela mulher que amava. Utopias, aqueles dois anos ainda estavam ali, as perseguindo de forma silenciosa, cabia a elas saber administrá-los ou não.
― Deu sim ― ela roçou o nariz pela bochecha da morena, causando um arrepio que a despertou do estado de semiconsciência e fez com que se afastasse um pouco, encarando os grandes olhos verdes.
― Eu fiz lasanha ― a morena sorriu ― eu não sei se você gosta, mas senti que deveria fazer ― sua frase foi quase um sussurro, mostrando o quanto estava envergonhada por desconhecer os gostos da própria esposa.
― Eu adoro lasanha ― Emma lhe beijou a testa ― mas só se for a sua.
O coração de Regina se apertou e, depois, descompassou-se por completo. Era assim, sempre que Emma estava por perto, era como se ela fosse uma adolescente apaixonada. Não conseguiu conter o sorriso que tomou seus lábios, ela havia acertado. Ponto para o inconsciente. E aquele sorriso… Aquele sorriso bagunçou Emma por dentro e a fez querer tomar a esposa entre os braços e a beijar, beijar como se não houvesse distanciamento entre elas, ou qualquer coisa que as mantivesse longe uma da outra. Beijá-la como se os dias não tivessem passado, desde o pedido de namoro, como se ainda fossem duas mulheres perdidamente apaixonadas, querendo se perder uma na outra. E elas ainda eram, ainda eram isso tudo e muito mais, só precisavam descobrir o caminho certo pelo qual seguir.
― Vamos comer? ― a loira se levantou, ainda com Regina no colo, colocando-a no chão em seguida, com demasiado cuidado.
― Na verdade… Eu… ― ela hesitou, mas se sentiu confiante ao ver que Emma lhe dava toda a atenção ― Eu quero conversar com você… Mas acho que podemos fazer isso enquanto jantamos.
― Acho perfeito. ― Emma sorriu, exibindo os dentes tortinhos que Regina adorava.
Minutos depois elas estavam sentadas a mesa. Regina acabara de servir os pratos, enquanto Emma abria o vinho. A morena esperou que a esposa provasse a lasanha, rezando para que seu inconsciente tivesse lhe guiado de forma certa na receita. Swan levou o garfo até a boca e degustou o prato que durante anos fora seu preferido, só para descobrir que ainda era. Tudo estava sendo maravilhoso e ela não pode conter o sorriso quando abriu os olhos e encontrou a expressão de expectativa estampada no rosto de Regina, exatamente como no dia em que ela a pediu em namoro.
Ela deixou a distância de lado, assim como Regina, elas iriam tentar.
― Está perfeito. Incrivelmente delicioso ― o sorriso estampou o rosto de Regina, uma felicidade genuína, quase palpável ― Agora… Me diga sobre o que quer conversar.
― Nós… ― a morena lutava contra a timidez. Afinal, Emma era sua esposa e conversar sobre o relacionamento de ambas era algo normal e, dada as circunstâncias, era necessário ― Eu quero conversar sobre nós duas.
― Sou toda ouvidos, meu amor. ― aquilo aqueceu Regina por dentro.
Meu amor… Fez com que algumas imagens surgissem em sua mente, causando uma dor, que ela escolheu ignorar e seguir em frente.
― Eu sei que muita coisa aconteceu, muita coisa… Muita coisa mesmo ― ela sorriu fraco ― e nós acabamos nos afastando e perdendo aquele contato que conseguimos construir quando estávamos na ilha. Emma… Eu sei que sou a maior culpada disso tudo ― a loira abriu a boca para interromper, mas foi impedida ― Sim, eu sou culpada, querida. No entanto, quando nos conhecemos lá, quando descobri tudo… Eu não era Regina, eu era Eva. Sinto-me presa a isso. Você sabe o que passamos até aqui, sabe tudo o que aconteceu, mas eu não. É como se a minha vida tivesse começado ali. Enquanto todos vocês retomaram suas vidas, acostumando-se com a minha presença e tendo a felicidade de saber que minha morte não foi real, eu comecei. Comecei do zero, literalmente. Isso me deixa confusa, extremamente perdida. Eu olho nos seus olhos e eu sei que é você, sempre foi, mesmo quando eu não sabia. Os meus filhos… ― uma lágrima manchou o rosto da morena ― eles sempre estiveram comigo, ainda que eu não me lembrasse. Eu quero me lembrar, eu tento… Todos os dias, mas cada vez se torna algo mais ilusório ― Emma secou o rosto da mulher, acariciando o queixo da mesma ― e nesse frenesi de lembranças perdidas, de uma memória vazia, eu acabei me perdendo e aos poucos, eu estou perdendo você também. O que eu quero que saiba é que eu não estou disposta a te perder.
Sem aguentar mais aquela distância, Emma puxou Regina para os seus braços, abrigando-a em um abraço acolhedor, que dispensava palavras e deixava explicito tudo o que não era dito. Os corpos se encaixavam, tal como os corações, que mesmo sendo distintos, batiam como um só e, além disso, batiam um pelo outro.
― Eu te entendo ― Emma beijou-lhe os cabelos ― Imagino o quanto deve estar perdida, mas você não precisa fazer isso sozinha, Regina. Eu estou aqui, eu estou com você e eu prometo não sair mais do seu lado, mesmo que você me peça. Eu realmente quero que você recupere as suas memórias, porém se isso não acontecer, nós criaremos novas e eu posso te contar tudo o que quiser saber.
― Mesmo? ― a morena encontrou os olhos verdes, aqueles olhos tão magníficos.
― Mesmo! ― Emma beijou-lhe a testa ― Venha, quero lhe mostrar uma coisa.
Ela se levantou e caminhou até a sala, mexendo no aparelho de som, enquanto Regina aguardava. Time of My Life começou a tocar e Emma quase se permitiu sorrir ao lembrar quantas vezes Regina a obrigou a ver esse filme e como a morena sempre soltava um gritinho quando Frances se jogava nos braços de Johnny, mesmo sabendo que ele iria segurá-la. Já Regina, Regina estava perdida em pensamentos desconexos. Os seus ouvidos reconheciam a música e pequenas imagens apareciam em sua mente, como flashes rápidos. Emma foi até ela, segurando suas mãos e a fazendo girar.
― Você não vai me fazer dançar! ― Regina tentou manter a voz séria, mas era impossível diante da descontração da loira.
― Ah eu com certeza vou fazer você dançar. ― Emma sorriu e a puxou de volta para seus braços.
Conforme a música tocava e Regina se entregava a ela, os passos surgiam em sua mente, como uma coreografia conhecida há tempos. E realmente era, já que, graças a morena, Emma fora obrigada a decorá-la também. Entregues a melodia e perdidas uma na outra, as duas rodopiavam pela sala, com Emma conduzindo sua amada e a fazendo soltar pequenas gargalhadas. Na mente de Swan as memórias eram claras e reproduziam o dia em que Regina sussurrou em seu ouvido a letra daquela música, fazendo com que ela se perdesse ainda mais e, acima de tudo, não tivesse a mínima vontade de se encontrar.
'Cause I've had the time of my life (Pois eu tive as melhores horas de minha vida)
And I owe it all to you (E eu devo isto a você)
I've been waiting for so long (Estou esperando há muito tempo)
Now I've finally found someone (Agora finalmente encontrei alguém)
To stand by me (Que fique ao meu lado)
We saw the writing on the wall (Vimos tudo bem claro)
As we felt this magical fantasy (Ao sentir esta fantasia mágica)
Emma girou Regina em seus braços e a abaixou, fazendo com que sua respiração tocasse o pescoço da morena, que soltou um suspiro como resposta. Levantou-a, colocando-a de costas para si, com as mãos posicionadas em seu quadril, enquanto a morena segurava sua nuca, permitindo que seu corpo respondesse aos comandos desconhecidos que a tomavam, mas ela sabia, sabia que aquilo era o retorno de uma memória perdida. Os corpos se viraram novamente. Os olhos castanhos se encontraram com os verdes. Os sorrisos estavam estampados no rosto das duas. As respirações se misturavam e ambas moveram os lábios, cantando sem emitir som, a letra da música que trazia uma simbologia incrível, ainda que Regina não se recordasse por completo.
Just remember (Apenas lembre-se)
You're the one thing (Você é a única coisa)
I can't get enough of (Da qual nunca me canso)
So I'll tell you something (Então vou lhe falar o seguinte:)
This could be love, because (Isto pode ser amor porque)
I've had the time of my life (Eu tive as melhores horas da minha vida)
No I've never felt this way before (Não, eu nunca me senti assim)
Yes I swear it's the truth,(Sim eu juro é verdade,)
And I owe it all to you (E devo tudo a você)
Os lábios se aproximaram, em um quase toque, mas Emma gargalhou e girou Regina… Era a parte mais importante da música. A morena se afastou e ainda que fosse um pouco estranho reconhecer movimentos sem, de fato, lembrar deles, ela sabia o que deveria fazer. Puxou o ar e correu em direção a Emma, jogando seu corpo contra o da mulher, que não acreditou naquilo. Não acreditou que Regina se lembraria, não acreditou que ela correria em sua direção e muito menos que saltaria, confiando que ela iria segurá-la. A frase dita pela morena, anos atrás, ecoou em sua mente. “Eu sempre vou correr em sua direção, eu sempre irei saltar, porque eu sei que você vai me segurar, Emma. Eu confio em você.”
As duas tombaram no sofá, ambas sorriam largamente, não acreditando no que acabara de acontecer. Regina se sentia em casa, sentia-se acolhida e sabia que ali era seu lugar, que era ali onde deveria estar e sabia, acima de tudo, que independente das circunstâncias, ela saltaria na direção de Emma. Emma, por sua vez, encontrava-se perdidamente apaixonada, como se todos os seus sentimentos tivessem sido renovados, apenas para lhe mostrar que não existia outra pessoa para ela que não fosse Regina. Independente das lembranças, ou do tempo, as almas estavam entrelaçadas e a história das duas havia sido escrita pelo destino, isso nunca mudaria.
Regina se virou para Emma, embora as gargalhadas tivessem cessado, o sorriso ainda estava em seus lábios. Elas se encararam durante algum tempo, os olhos da morena alternavam entre a imensidão verde oferecida pelos da loira e os lábios que lhe pareciam tão convidativos. Seu coração descompassou, sua respiração se perdeu… Ela sabia que não poderia mais resistir. Emma, que observava as reações expressas pelo corpo da mulher, mal conseguia se conter. Ela queria beijá-la, ansiava por aquilo, mas precisava que a morena demonstrasse que também queria. E ela demonstrou. Regina se aproximou de Emma, tocando-lhe o rosto com delicadeza. Acariciou lhe a bochecha e Emma fechou os olhos, deleitando-se com a pele quente da amada de encontro a sua. A morena deslizou o dedo pelo lábio inferior da loira e se aproximou. A respiração quente e descompassada tocou-lhe a pele e, em um impulso de coragem, ela colocou seus lábios aos de Emma. A loira explodiu por dentro com aquele ato, aquele toque que a derretia por completo, aquele beijo que lhe era único. Os lábios se acariciavam, em um ritmo ditado pelo desejo, pela saudade e pelo amor.
Regina se entregou por completo, sentindo o toque da mulher com tamanha intensidade que seu corpo gritava, gritava por mais e ela estava disposta a dar, mas a sua mente entrou em um frenesi descompassado de imagens. A dor se fez presente, cada vez mais forte, mas ela resistiu. A língua de Emma pediu passagem, que foi concedida, o beijo se aprofundou. Emma a deitou no sofá com demasiado cuidado, suas mãos estavam presas as madeixas negras que tanto amava. Ela separou seus lábios e sorriu ao ver que a morena mantinha os olhos fechados, mas algo estava errado, Emma pode perceber, existia uma ponta de dor na expressão de Regina.
― Está tudo bem? ― ela perguntou em um quase sussurro, encarando os olhos amendoados.
― Sim… ― Regina sorriu fraco ― eu preciso que você me beije.
Regina tocou-lhe os lábios novamente, tentando ao máximo se entregar àquilo e ignorando a dor que crescia demasiadamente em sua cabeça. Ela foi correspondida por Emma, mas a loira podia notar, nos gestos da esposa, que algo estava errado.
― Minha linda ― ela afastou os lábios novamente ― eu acho melhor subirmos, já está tarde, não acha? ― Regina a encarou, sua cabeça girava, mas ela realmente queria ficar com a loira, ela queria se entregar.
― Tudo bem ― ela tentou esconder a chateação em sua voz, mas falhou. Levantou-se e encarou Emma, tantas coisas não ditas ainda pairavam ali, mas agora o ar parecia mais leve e elas se sentiam prontas para tentar ― Você vem?
Emma titubeou diante daquela pergunta, Regina estava mesmo a convidando para subir? Era algo pelo qual ela ansiou todos os dias desde que voltaram, mas por que sentia que não era o certo a se fazer?
― Hoje não, meu amor ― as palavras queimaram sua boca, pois ela não queria as dizer, mas sabia que era o certo.
Regina, por sua vez, sentiu-se profundamente magoada com a recusa da loira, mas podia entender que era necessário. Um grande passo havia sido dado entre as duas e ela estava disposta a dar outros, até ter sua esposa de volta e se sentir, completamente, entregue a ela. Ela sorriu fraco em resposta, depositou um beijo contido no canto dos lábios de Emma e subiu as escadas. A loira caiu sentada no sofá, repassando tudo o que acontecera naquela noite. Era a primeira vez, desde que voltaram, que ela via que Regina ainda vivia ali dentro. A sua Regina. A Regina de risos fáceis e coreografias ensaiadas, a Regina que chorava com comédias românticas, mesmo sabendo o final delas. Ela estava ali, Emma só precisava encontrá-la. A expressão de dor que tomou a face da morena quando Emma a beijou, não passou despercebido. Algo havia mudado, algo tinha que ter mudado. De repente, a mente de Emma se direcionou para o momento em que elas estavam dançando, a forma como sua esposa se entregou e seguiu a coreografia, como se a soubesse… E ela sabia, a Regina sabia. Depois de meses perdida, Emma tinha a sensação de que podia fazer aquilo, de que podia fazer Regina se lembrar, ainda que aos poucos.
De imediato se arrependeu de ter se negado a subir com a morena. Era uma porta que estava sendo aberta por ela, Regina estava disposta a tentar e havia deixado isso claro, bastava a Emma dar o próximo passo e ela daria. Com a agilidade de uma felina, subiu os degraus que levavam aos quartos, parando em frente ao quarto do casal... O quarto delas. Sua respiração estava descompassada e ela estava nervosa, claro que estava. Sentia-se insegura e ao mesmo tempo queria fazer aquilo, queria seguir em frente e assim faria.
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