Remember Me - Extras
8 VIII. A weekend with Déda!
Notas iniciais
Wonder Pets passava na tela plana em nossa sala de estar aconchegante enquanto eu parecia o único completamente entretido nos bichinhos que falavam no desenho irritante. Mas eu era um pai muito amoroso e um pouco idiota que fazia piruetas se meus dois filhos de malditos olhos grandes e castanhos me olhassem com aquela cara de filhote de cachorro. Com limites, é claro. Mas não há nada de errado com um pouco de desenho irritante de vez em quando, enquanto os fizessem felizes. Espero eu que seja uma fase curta.
Pois bem, eu estava esparramado em um dos sofás com Nathan acomodado arrogantemente tendo suas duas mãos unidas atrás da cabeleira loira e as pernas cruzadas, seus pés mal chegando ao fim do sofá, de um lado e Bella do outro maltratando uma Barbie ao tentar pentear os cabelos embolados da boneca. Deus ajude essa pobre boneca. Era uma alegre e tranquila tarde de domingo onde a gente apenas relaxava no sofá e assistia TV. Rachel estava no porão colocando algumas roupas na máquina de lavar enquanto eu mantinha um olho nas crianças. O dia estava bastante calmo, e eu não tinha ideia do que me esperava para o resto dele.
Nate estava comentando comigo alguma coisa sobre o desenho quando Rachel apareceu em nossa frente segurando uma cesta de roupas limpas em seu quadril. Ela colocou a cesta em uma poltrona e pediu que prestássemos atenção nela, porque ela iria nos contar algo importante. Eu tratei de me ajeitar rapidamente, preocupado, e desliguei a TV pelo controle remoto, recebendo choramingos e protestos de ambos os meus lados.
— Calma, crianças. A mamãe só quer falar conosco. Vai ser rápido. — tentei tranquilizá-los.
— Obrigada, amor. — Rach sorriu e eu retribui, acenando para que ela prosseguisse — Bem, eu recebi um e-mail do presidente da Archie's e ele me escalou para fazer uma viagem. — todos os três de nós franzimos o cenho, acredito eu que não pelos mesmos motivos, assim como Rachel continuou — Mamãe precisa viajar dentro de uma semana a trabalho. Terá uma convenção de Arquitetura em Nova York e minha presença é indispensável.
Senti tudo girar. O que diabos ela estava dizendo? Ela precisava viajar? Assim, de repente? E nós? E as crianças? E eu?
— O quê? Nova York? — exclamei incrédulo.
— O que é "ispesável"? — ouvi Nate perguntar, confuso. Ele estava aos poucos sendo introduzido num amplo vocabulário. Créditos ao Jardim de Infância.
— Mama vai viajar? — Bella perguntou em sua voz amuada, ela estava prestes a chorar.
Rachel ergueu as sobrancelhas bem feitas e acenou devagar, encarando cada um de nós ainda sentados no sofá. Eu queria gritar para ela dizer que era uma piada, mas sua expressão não parecia de quem estava brincando. Senti um movimento ao meu lado e vi Bella largar sua boneca e sair correndo até a mãe, abraçando suas pernas enquanto choramingava e implorava para ir junto, onde quer que ela fosse. Eu estava perplexo ainda, em choque. Senti dedinhos cutucarem meu braço e puxarem minha camiseta, querendo chamar minha atenção. Nate falhava miseravelmente.
— E quanto tempo você vai ficar? — disse com a voz um pouco tremida.
— Um fim de semana inteiro. Saio na sexta de manhã e volto no domingo à tarde.
Um final de semana inteiro. Isso só podia ser brincadeira. Eu não tirava os olhos de Rachel enquanto ela se abaixava na altura de nossa filha para tentar acalmá-la. Nós com certeza estávamos indo para conversar depois de colocar as crianças na cama. Ela não podia dar uma notícia assim e achar que estaria tudo bem. Não que eu não quisesse ficar sozinho com meus dois filhos, mas também não devia ser uma coisa repentina. Tudo bem que Nate já tinha quatro anos, mas eu ainda estava aprendendo algumas coisas. E Rachel sempre estava lá para me ajudar com eles, sejam fraldas, banho, comida ou colocar para dormir.
— Finn? — escutei ela me chamar.
Tudo passava pela minha cabeça em um curto período de tempo. Limpei a garganta e a encarei, balançando a cabeça.
— O-ok... Eu-u dou conta de tu-tudo. — menti.
Eu menti porque eu não tinha certeza se ia dar conta de tudo sozinho. Eu precisava, mas na prática é sempre mais difícil. Eu estava começando a ficar apavorado. Era como se uma voz irritante estivesse dentro da minha cabeça dizendo que eu ia falhar, que eu era incapaz de cuidar da casa e das crianças sozinho, mas eu tinha que fazer. Rachel e eu iríamos conversar sobre tudo ainda, mas não havia maneira que eu impediria ela de viajar. Era para o trabalho e nisso eu não tinha controle. Eram os compromissos dela. Eu precisava ver o seu lado também.
Rachel sorriu em minha direção e deixou a sala com Bella em um lado do quadril e o cesto de roupas no outro. Nate me chamou outra vez e eu finalmente encarei meu filho.
— Déda, o que é "ispesável"?
...
Entrei em nosso quarto depois de ler "Branca de Neve" três vezes até que Bella finalmente pegasse no sono. Nate ao que parecia tinha sido mais fácil, já que encontrei Rachel sentada com as costas na cabeceira da cama, já vestida para dormir e lendo algo em seu notebook. Entrei no banheiro sem dizer uma palavra para escovar os dentes e lavar o rosto, depois voltei ao quarto e vesti meus shorts de dormir. Rachel finalizou o que estava fazendo e desligou o computador, me encarando logo em seguida que eu me deitei ao seu lado.
— Há quanto tempo você recebeu esse e-mail?
Ela suspirou e se arrumou para deitar também, deixando o abajur ao seu lado aceso.
— Na sexta-feira à noite. Havíamos tido uma reunião no trabalho e Leonard iria escalar uma equipe para a viagem, enviando os e-mails para os convocados na mesma noite. Eu iria falar com você a sós, Finn, mas as crianças precisavam saber também.
A encarei por alguns segundos em silêncio, ela parecia em expectativa para a minha resposta, mordia o lábio inferior e desviava o olhar a cada oportunidade. Respirei fundo.
— Rach, você não precisa se sentir da forma que se sente agora. Eu estou ok com essa viagem, eu só não queria ter sido pego desprevenido.
Ela franziu as sobrancelhas escuras.
— Me desculpe. Mas eu não soube muito antes de você. Eu estou um pouco nervosa com tudo isso, mas acho que vai sair tudo bem.
Eu sorri, mas por dentro estava uma pilha de nervos.
— Confesso que estou um pouco temeroso. — soltei de repente, fazendo com que Rachel soltasse uma risada.
— Amor, você vai ficar bem. São apenas nossos filhos. E são apenas três dias.
Ela só podia estar brincando. Por acaso Rachel não conhece os filhos que tem? Eles podiam ser anjinhos na frente dela e tudo mais, mas eu sei os demoniozinhos que eram e a mente fértil que tinham para entrar em problemas. Oh se eu sei.
— Eu espero muito que sim. O que me preocupa mais é como eles vão reagir com você indo.
— Ah, eles podem chorar um pouquinho na sexta, mas depois eles vão ficar bem. Apenas entretê-los e dizer que a mamãe estará de volta em breve.
Como se fosse fácil distrair os pequenos anjos.
— Tudo bem. Vamos dormir que amanhã o dia começa cedo. — me inclinei juntando nossos lábios e ela sorriu, indo apagar a luz.
— Boa noite, querido.
— Boa noite.
...
Sexta-feira chegou mais rápido do que eu esperava. Como se para representar o estado de espírito de todos na casa, estava nublado e parecia que choveria em breve. Rachel foi a primeira a se levantar e tomar um banho, suas malas estavam prontas perto da entrada e aquilo apenas me lembrava o chororô que seria hoje. Na noite passada ela arrumou tudo depois de colocarmos as crianças na cama para evitar birras.
Ouvi a porta sendo aberta e vi Nate entrar cautelosamente, ainda de pijama e com os cabelos bagunçados. Sorri para meu primogênito enquanto o chamava para subir na cama, enquanto esperávamos por Rachel sair do banheiro.
— Mama está saindo hoje, Déda? — ele perguntou baixinho, deitado com a cabeça sobre meu peito enquanto eu rodeava seu pequeno corpo com um braço.
— Sim, carinha. A mamãe sai hoje, mas ela vai voltar rapidinho. Você vai ver só. — beijei o topo de sua cabeça e vi ele começar a brincar com a ponta do cobertor.
— Eu vou sentir falta dela. — sua voz era bem baixa e parecia tremida agora.
Oh, ótimo. Ele iria começar a chorar.
— Ei, ela vai sentir sua falta também. Mas vai passar tão rápido que você nem vai perceber. E nós iremos nos divertir muito enquanto ela não está aqui. Tudo bem?
— Às vezes não é tão divertido quando mama não está. — sua voz ainda era tremida. Confesso que aquilo doeu em mim, mas não demonstrei.
Pouco tempo depois Rachel deixou o banheiro enrolada em uma toalha e sorriu quando viu nosso filho deitado ao meu lado, quieto e encolhido. Ela se inclinou sobre ele para beijar sua testa e depois meus lábios.
— Bom dia, meus meninos preferidos.
— Bom dia, mama. — Nate respondeu, mas sem olhar para ela. Rachel voltou a ficar de pé e eu sorri para tranquilizá-la.
Ela foi para o closet para se vestir enquanto eu me levantava para começar o dia. Escovei os dentes e me vesti, saindo do quarto levando Nate pela mão até o andar de baixo para fazer algum café da manhã para todos. Enquanto a máquina de café trabalhava, coloquei alguns pães na torradeira e fiz um pouco de ovos no fogão, enquanto Nate se sentava na mesa e assistia Tom & Jerry na pequena TV sobre o balcão. Terminei de arrumar a mesa quando Rachel desceu com Bella pendurada em seu colo e o rosto escondido entre os cabelos da mãe. Parecia que teríamos uma manhã difícil hoje.
— Hey, Boo. Vai dar bom dia pro Déda. — Rachel pediu balançando a menina um pouco. Bella apenas levantou a cabeça e me encarou.
— Eu tenho que? — ouvi ela perguntar baixinho.
— Ei! Não é assim que fala, Bella. — Rachel repreendeu levemente. Eu apenas sorri tristemente.
— Bom dia, Déda. — e voltou a esconder o rosto. Rachel beijou a cabeça da filha e ocupou uma cadeira com Bella sentada em suas coxas.
Comemos o café em silêncio, porque ninguém estava com humor para conversas. Até Bella que é sempre tagarela estava quieta. Ela podia ter apenas dois anos, mas ela sabia sempre quando algo não tão legal estava acontecendo ao redor dela e ela ficava em um estado de espírito triste. Todos terminamos de comer e eu recolhi tudo enquanto Rachel limpava as crianças, tomando o seu tempo com cada um deles como a hora de sair se aproximava. Resolvemos durante a semana que chamaríamos um táxi para levá-la ao aeroporto, porque se eu a levasse tornaria todo o processo mais complicado e ainda seria mais trabalhoso tirar as crianças chateadas de casa. Eles poderiam dar birras no meio do aeroporto e não queríamos uma cena.
Era perto das 08:00 quando o táxi chegou. Nós ficamos na porta da frente e Rachel se abaixou sobre os joelhos abraçando os dois filhos ao mesmo tempo, seus olhos se enchendo de lágrimas como ela enchia as crianças com beijos e cheiros.
— Eu amo vocês, meus bebês. Vou morrer de saudades. — ela disse com a voz embargada.
Soltando Bella por um instante, ela abraçou Nate apertado e sussurrou algo em seu ouvido, tendo ele assentindo de volta. Depois ela ficou de pé e agarrou Bella no caminho, nossa filha escondendo o rosto vermelho em seu pescoço e começando a chorar baixinho.
— Amor, faça uma boa viagem e me ligue todas as noites e a qualquer hora que você precisar. — a abracei pela cintura e colei nossos lábios.
— Obrigada. Eu vou sentir falta de todos vocês. Eu te amo.
— Também amo você, babe. Agora vamos antes que perca o voo.
Começamos a caminhar pela calçada até o táxi. Senti Nate agarrar uma perna minha e eu acariciei seus cabelos um pouco para confortá-lo. Coloquei as bolsas no porta-malas com a ajuda do motorista e ele fechou, indo para sentar atrás do volante em seguida. Rachel abriu a porta traseira e eu me aproximei para levar Bella de seus braços, e logo nossa filha começou a espernear e chorar mais alto quando percebeu o que estava acontecendo.
— Boo, vem com o Déda. A mamãe estará de volta bem rápido.
— Mama! Mama! Eu quer mama! — consegui segurá-la enquanto ela esticava os braços na direção de Rachel.
Rachel estava em lágrimas. Ela queria tomar Bella em seus braços e consolar nossa filha, mas isso iria piorar tudo. Relutante, ela entrou no carro e fechou a porta, rolando o vidro da janela para dizer "eu te amo" a nós três. Nate acenou cabisbaixo e ela soprou um beijo para ele, Bella ainda esperneava em meu colo e eu apenas lhe dei um sorriso de despedida. O carro então deu partida e vimos Rachel ir com a feição tristonha e acenando, enquanto acenávamos de volta. Abracei Bella apertado quando o táxi virou na esquina e agarrei uma mão de Nate, levando os dois de volta para dentro.
Era de cortar o coração e totalmente compreensível. As crianças nunca haviam se separado da mãe por mais do que algumas horas, três dias eram muito para querermos que eles reagissem de forma diferente.
Me sentei no sofá com Bella ainda no colo e Nate ao meu lado. Os dois me encararam sem saber o que fazer a partir de agora, e eu também estava perdido. Bella coçou os olhos parecendo lamentável e Nate estava tristonho. E eu já morria de saudades da Rach.
Tratei de entretê-los para o resto do dia, mas parecia que o estado de espírito não ia embora naquele dia. Tentei filmes, desenhos, brincadeiras, e até a hora do almoço eles ainda estavam chateados. Então eu tive uma ideia de fazer com que aquele fim de semana fosse produtivo e animado, mandando embora a sombra que pairava sobre a casa e transformando aquilo em alegria. Seria inesquecível.
Enquanto a chuva caía pelo chegar da noite, eu alimentei os dois, dei banho e contei história para dormir. Foi uma luta, mas depois que ambos sucumbiram ao sono, eu fui planejar tudo para o dia seguinte. Eu só esperava que nada desse errado.
...
No sábado o despertador começou a tocar às 07:30 em ponto. Jogando a preguiça para o lado, me levantei e tomei um banho frio para despertar. Havia uma mensagem de bom dia vinda de Rachel em meu celular e eu sorri enquanto respondia de volta, contando o que tinha planejado para o dia. Acordei as crianças minutos depois e juntos descemos para começar o café da manhã.
Comecei a preparar tudo para fazer panquecas com crianças sonolentas sentadas sobre o balcão. Eles sorriram e ficaram animados em poder ajudar a fazer a comida — bagunçar, para ser mais específico. No fim havia um pouco de massa em alguns lugares onde não deveria, como sobre os pijamas dos dois, mas eu ainda tinha tudo sob controle, o importante é que eles se divertiram. Comemos a massa com xarope e bacon e suco de laranja, logo depois indo ficar prontos para o dia.
Arrumei uma cesta de piquenique com sanduíches de manteiga de amendoim e geleia de uva para o almoço, algumas caixinhas de suco, pop-tarts, frutas cortadas em sacos zip-lock e água. Depois fui para vestir as crianças com roupas de banho. Eles teriam uma surpresa.
— Déda, a gente vai para a praia? — Nate perguntou enquanto eu o ajudava a vestir seus calções de banho, depois de enchê-lo de protetor solar.
— Não, mas você vai ter uma surpresa. — sorri e ele sorriu de volta.
Nate começou a calçar seus tênis sem qualquer ajuda minha, alegando conseguir fazer isso sozinho. Depois de pronto, levei os dois para o quarto de Bella e a vesti com um maiô da Tinker Bell por baixo de um vestidinho de verão, calçando seus tênis em seguida. Já na porta da frente, coloquei um boné na cabeça de cada um e na minha, agarrei a cesta de piquenique e as chaves do carro, saindo em seguida. Com cada um preso em sua cadeirinha, saí pela cidade rumo ao Boston Common.
O caminho foi tranquilo já que as crianças se entretiveram com Wonder Pets no DVD do carro, mas assim que estacionei em uma vaga no parque público, Nate gritou de empolgação e Bella sorriu.
— Déda, nós estamos mesmo indo para o parque?
— Sim, carinha. Nós vamos nos divertir muito.
Nate e Bella correram por todo aquele verde enquanto eu procurava por uma árvore grande com bastante sombra. Havia deixado a cesta de piquenique no carro e no lugar havia trazido uma bola e um frisbee para jogar. Depois de correrem livremente, Bella se encantou com algumas garças no lago e Nate quis jogar futebol. O dia estava extremamente agradável com um sol não muito forte e várias famílias tiveram a mesma ideia que a minha, pela quantidade de crianças correndo ao redor.
Quando nos cansamos de jogar, era hora para se refrescar. Nate e Bella abandonaram seus sapatos e correram para o laguinho artificial bem raso onde outras famílias brincavam. Os sons das gargalhadas eram constantes e eu fiquei feliz por estar vendo os dois se divertirem tanto depois do dia anterior.
— Déda, podemos comer agora? — Nate foi o primeiro a protestar de fome.
Por mais que ele estivesse se divertindo, quando a fome batia, nada o segurava. Eu tinha um pequeno monstro da comida em minhas mãos.
Pegamos Bella, sob protestos é claro, e fomos para o carro nos secar e pegar a comida. Já debaixo de uma árvore, estendi a toalha e arrumei o almoço, deixando que eles comessem independentemente, o que resultou no lindo e impecável vestido amarelo da Bella manchado de roxo da geleia de uva, assim como todo seu rosto.
— Boo, comer com a boca, não com a testa. — falei usando um guardanapo para limpar todo o rosto dela.
— Eu desculpa, Déda. — ela riu, dando outra mordida em seu sanduíche e sujando as bochechas rosadas do sol.
— Ela é um bebê. — Nate falou, tomando seu suco.
— Eu não bebê. — Bella cruzou os braços emburrada, consequentemente sujando ainda mais seu vestido — Déda, eu bebê?
— Não, Boo. Você é uma menina grande. — sorri para minha filha depois encarei Nate — Nathan, não implique com a sua irmã. Peça desculpas agora mesmo.
— Mas-
— Peça desculpas ou iremos embora agora mesmo.
Ele bufou contrariado.
— Desculpa, Bella.
— Ótimo. E não bufe mais, isso não é educado.
Eu não fazia mesmo ideia onde ele havia aprendido aquilo.
— Déda, posso ter pop-tarts agora?
— Você já terminou seu sanduíche?
— Sim.
— Então pode. Come devagar, eles não vão fugir.
Nate teve seus amados pop-tarts e comeu em silêncio. Quando o almoço foi concluído, Nate e Bella já estavam com o sangue recarregado de açúcar, o que resultou em correr pelo parque aonde suas pequenas pernas podiam ir. Eu estava cansado demais para correr com eles, então me contentei em sentar e tirar algumas fotos com meu celular. Consegui captar uma em que Bella estava sentada observando alguns patos no lago, de costas para mim com seu cabelo escuro voando com o vento. Ficou realmente bonita, e eu a enviei para Rachel com a legenda "Os patinhos têm companhia".
Quando finalmente tivemos o suficiente para o dia, levei os dois para o carro e ambos dormiram quase que imediatamente em seus assentos. A ida pra casa foi silenciosa e coloquei cada um em sua cama para terminar aquela soneca da tarde.
Quando o início da noite veio, percebi que o tempo havia fechado um pouco e a temperatura havia diminuído alguns graus. Nate acordou primeiro que a irmã e veio me fazer companhia no sofá enquanto eu assistia TV, o que imediatamente interrompido quando ele pediu para assistir Elmo.
— Déda, nós podemos fazer uma fogueira? — Nate perguntou de repente, seus olhos ainda presos no boneco vermelho falante.
Eu ia responder imediatamente, mas então parei. Bem, o garoto tinha boas ideias de vez em quando. Não estava chovendo e não tínhamos mais o que fazer até a hora de dormir além de assistir TV, e confesso que não sei se aguentaria muito tempo mais o gosto dos meus filhos para as animações mais irritantes.
— Ok, monkey face. Vamos apenas esperar sua irmã acordar, tudo bem?
— Podemos acordar ela agora? — ele me encarou com expectativa.
— Eu não penso assim. Nós não queremos uma Bella irritadiça, não é mesmo?
— Tá bom. — Nate fez um bico e voltou a prestar atenção na tela — Que não leve para sempre.
Onde meus filhos aprendiam essas coisas?
Podem me chamar de louco ou qualquer outra coisa para levar dois bebês para fora e fazer uma fogueira, mas ora, eu precisava tornar o fim de semana deles divertido. E não é como se meu pai nunca tivesse feito o mesmo comigo. As noites em volta da fogueira com s'mores e violão eram clássicas. E eu amava ter a oportunidade de fazer o mesmo com Nate e Bella.
Quando a princesa da casa acordou, minutos mais tarde para grande satisfação de Nate, eu arrumei os marshmallows, os biscoitos crocantes e chocolate Hershey's e levei os dois para fora com duas cadeiras e o violão. O vento ainda corria mas o céu agora lilás com o pôr do sol deixava tudo mais bonito. Juntei alguns gravetos em uma pequena montanha e acendi, colocando pedras em volta dizendo que eles não poderiam ultrapassar aquele limite. Cada um se sentou em uma cadeira enquanto eu preparava os s'mores, e depois de montar os pratos, ocupei a cadeira de Bella com ela sentada em uma perna e o violão na outra.
O dia apenas terminou com os sons de nossas vozes misturadas e risadas infantis preenchendo a rua.
...
Eu sonhava com algo estúpido quando escutei um choro alto de outro quarto no corredor. Resmungando, abri um dos olhos para espiar o relógio na mesa de cabeceira, 06:33.
Oh, tem que ser uma piada.
Pelas lamentações acompanhadas dos gritos, eu soube que era Bella. Minha filha de dois anos e meio sabia ser dramática como a mãe dela.
Se não mais.
Tentando ignorar a preguiça, joguei o cobertor de lado e fui atender o que a pequena princesa do drama necessitava por acordar junto com o sol. O que há com os relógios biológicos de todas as crianças do Planeta antes dos cinco anos?
Entrei no quarto azul pastel de borboletas roxas e encontrei Bella de pé em seu berço tentando a todo custo passar por cima das barras de proteção, sem sucesso. Já estava quase na hora de obtermos uma cama de criança para ela, igual a que Nate tinha em seu quarto. Meu filho mais velho havia abandonado o berço com quase três anos, quando ele aprendeu a sair dele sozinho. Por enquanto estávamos conseguindo manter Bella, mas em breve ele estava saindo definitivamente. Estava começando a ficar difícil de levantá-la.
Assim que me viu, Bella forçou mais ainda seu choro e esticou os braços.
— Déda. Eu quer sair.
— O que há de errado, Boo? Sabe que é só chamar o Déda, não precisa chorar.
Ela esfregou os olhos e me encarou fungando.
— Déda demorou. Bella quer sair. — ela choramingou impulsionando seu corpo coberto por um pijama de pezinhos para cima e esticou os braços.
— Ok, aqui vamos nós. — a tirei do berço como seu pedido e esfreguei suas costas para que parasse de chorar — Que tal descermos agora e ter algum café da manhã, uh? Soa bem?
— Panquecas!
— Tudo bem, senhorita. — brinquei lhe fazendo cócegas e ela se contorceu rindo.
Eu estava apenas misturando a massa para as panquecas quando meu telefone tocou no balcão. Bella estava sentada em sua almofada na cadeira e prestava atenção no desenho na TV, enquanto eu limpei as mãos em um pano de prato e fui para atender.
— Hey, mãe. — atendi e franzi a testa, tomando um tempo para olhar a tela do celular de novo e verificar a hora — Hmmm, só é um pouco cedo...
— Oi, querido. Bom dia. Como vão os meus netos? — ela respondeu entusiasmada demais para antes das sete.
— Eu vou muito bem, mãe. Obrigado por perguntar. — revirei os olhos — Estamos todos bem. Nate está dormindo agora e Bella está sendo sugada por Vila Sésamo.
— Desculpe, meu bem. É apenas força do hábito. — pude ouvir a diversão em sua voz e bufei frustrado — Bem, eu estava apenas me perguntando se havia possibilidade de vocês virem hoje para o almoço. Seu pai está nos fazendo um churrasco e o dia está agradável o bastante para curtirmos a piscina.
— Oh, mãe. Isso seria perfeito.
— Sim. Eu ouvi algo sobre Rachel estar fora da cidade esse fim de semana. Agora me diga: como meus netos sobreviveram de macarrão com queijo nos últimos dois dias?
Pela segunda vez no dia, revirei os olhos. O que há com a sociedade humana feminina que elas pensam que homens ou não sabem cozinhar ou só sabem cozinhar macarrão? Ei, eu não era um completo estúpido. Claro que eu não tinha as mãos de Rachel ou da minha mãe ou da minha sogra, mas eu sabia me virar muito bem, obrigado. E vejam, olha o que minha própria mãe pensa de mim. Quem precisa de inimigos?
— Eles estão muito bem com as refeições que tiveram, ok?
— Oh, claro. Não é muito difícil fazer sanduíche de manteiga de amendoim. — eu ainda escutava a diversão em sua voz. Ela estava adorando aquilo.
Eu não.
— Muito engraçado, mamãe.
— Pois bem, quero que meus netos bonitos tenham algo decente no estômago hoje. Estamos esperando.
E com isso ela desligou. Simples assim. Sem escolhas ou brechas.
Encarei Bella desacreditado ainda segurando meu telefone. Minha filha ergueu seus olhos castanhos na minha direção e sorriu como se concordasse com a avó. Eu vi isso no brilho de seus malditamente fofos e irresistíveis olhos. Eu não tinha chances.
Quando Nate acordou quase uma hora depois, comemos as amadas panquecas e subimos para nos aprontarmos para o dia.
— Onde vamos, Déda? — Nate perguntou enquanto eu procurava por seus óculos de natação. Ele já estava vestido e Bella ao seu lado tentava colocar seu maiô sozinha.
— Estamos indo para a casa da vovó Carole e do vovô Chris. Ela nos convidou para o almoço.
— Yay! Será que posso ter quantos cachorro-quente e hambúrguer que eu quiser?
— Ei, acalme-se. Nós teremos tudo isso. Agora eu preciso que você junte o que quiser levar enquanto eu visto sua irmã.
Com tudo já arrumado no carro e as crianças em seus assentos, dirigi até a casa dos meus pais. Assim que estiveram livres de seus cintos de segurança, Nate e Bella correram até minha mãe que sorria parada na entrada e beijou cada neto, tomando suas mãos e os levando para dentro e para o quintal.
Tudo bem, eu posso carregar todas as bolsas sozinho.
Encontrei todos já perto da churrasqueira enquanto meu pai assava alguns bifes de hambúrguer, salsichas e linguiças e asas de frango. O cheiro estava maravilhoso.
O dia passou voando como todos brincávamos na piscina. Logo Nate e Bella ostentavam narizes rosados de sol e cabelos emaranhados de cloro. Eu me permiti tomar uma cerveja apenas com meu pai enquanto conversávamos perto da churrasqueira e minha mãe brincava dentro da água. Foi o dia perfeito.
E sem macarrão com queijo.
...
Estávamos bem entretidos com Monstros S.A. quando um barulho na porta me despertou. Rachel entrou sorrindo e carregando suas malas. Nate e Bella nem se mexeram de seus lugares no sofá como quase caíam no sono pelo dia exaustivo.
— Hey. — ela chegou por trás do sofá e me beijou, depois beijou o rosto de Bella que estava deitada em meu peito e se aproximou de Nate no outro sofá, o beijando também.
— Mama.
— Ei, querido. Mama está em casa.
Nate deu um sorriso sonolento e se agarrou ao pescoço de Rachel. Ela o levantou com facilidade do sofá e se encaminhou para as escadas. Eu fiquei para desligar a TV e apagar luzes e verificação de portas e janelas, logo subindo as escadas com Bella desmaiada em meu ombro. Coloquei-a em seu berço e saí, apagando a luz e encostando a porta. Rachel ainda estava com Nate e eu apenas entrei no quarto, indo para a cama do meu filho e sentando na beirada.
— Boa noite, carinha.
Nate abriu um sorriso de covinhas e piscou devagar, antes de fechar os olhos completamente.
— Obrigado pelo dia, Déda. Eu gostei muito.
Sorri e me inclinei para beijar o menino já adormecido. Missão cumprida.
— Vejo que conseguiram sobreviver sem mim. — Rachel disse quando já estávamos deitados lado a lado em nossa cama.
Sorri internamente. É, nós havíamos sobrevivido.
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