Remember Me
3 Capítulo 2 - It's a music boy
Notas iniciais
Querido Baby Bear,
se tem uma coisa que eu vou fazer questão que você conviva durante sua vida, é a música. Digo isso convicto e quase rasgo o papel de tanto que me forço para escrever, pois é algo que quero ter certeza de que vou fazer. A música é tudo, meu filho.
Não sei se já comentei com você, provavelmente sim porque isso é algo importantíssimo em minha vida e que fez da minha juventude melhor, mas eu tive uma banda. Yeah, eu tive. A Boynosaurs... Eu sei, você deve estar se perguntando nesse momento "não tinha nome mais ruim?" não, não tinha. Esse, pra gente, era O nome na época, e adivinha quem propôs? Então, depois de questionarmos se seu tio Puck tinha algum transtorno ou problema psicológico, percebemos que na verdade todos nós tínhamos, porque o nome pareceu não tão ruim assim, e logo ficamos bem conhecidos.
Tinha quatro integrantes: eu na bateria, o tio Puck na guitarra, o tio Artie no baixo e o tio Blaine no vocal. Os dois últimos nós conhecemos na faculdade, seu tio Artie fazia Comunicação Social e nos esbarramos um dia quando ele foi discriminado na fila de uma das lanchonetes do campus por um dos alunos. Por ser cadeirante, um idiota qualquer se achou no direito e nós fomos intervir pelo tio Artie. NÃO, filho, não houve pancadaria, nós apenas conversamos com o sujeito e dissemos que, caso continuasse, informaríamos à polícia, preconceito é crime. Eu não era mais um garoto no colegial, não saía brigando por aí sem mais nem menos porque sabia das consequências que isso trazia, eu estava virando um adulto e, além disso, eu estava virando um pai, jamais daria esse exemplo à você. Tudo resolvido, o tio Artie passou a andar conosco pois, palavras dele, "éramos camaradas". Seu tio Puck e eu já andávamos juntos porque somos irmãos de alma, você sabe disso, vamos juntos à qualquer lugar.
O tio Blaine foi mais engraçado e menos dramático. Quer dizer, acho que teve mais drama, porque seu tio Kurt estava envolvido e ele sabe ser tão dramático quanto a sua mãe, só não ganha dela porque você sabe, ela é insuperável. Bom, deixa eu contar como foi. Seu tio Kurt andava chegando em casa mais tarde que o de costume, suspirava mais que o normal, vivia de segredinhos com a sua mãe, assistia The Phantom of The Opera umas três vezes por semana, chorava escutando Celine Dion e Mariah Carey e juro que toda vez que tocava Katy Perry em algum lugar eu via ele cantarolando. Todos na república começaram a se questionar, pensamos em perguntá-lo, mas ele não diria. Eu cheguei a perguntar à sua mãe, mas ela foi irredutível e negou saber de alguma coisa, sua mãe mente muito mal, ela gagueja, foge, desvia o olhar e fica corada. Ok, a gente ia descobrir de alguma forma.
Montamos um plano, eu e o pessoal da república (menos sua mãe, aquela traidora), de seguirmos ele pela faculdade mesmo. Entre os intervalos das aulas, claro, porque ninguém ali era vagabundo e se atreveria a cabular alguma aula, ainda mais com as provas de fim de semestre chegando, a gente tentaria ver para aonde ele iria e o que faria, se encontraria alguém, porque aquilo só podia significar alguma coisa: tinha alguém na parada. E assim fizemos. Meu filho, foi uma semana de sufoco, a gente parecia um grupo de agentes secretos trabalhando pra CIA ou algo assim, quem olhava pra gente nos corredores da BU pensava que tínhamos esquizofrenia. Mas finalmente descobrimos. Foi em um dos corredores mais desertos. E o motivo das mudanças esquisitas no tio Kurt também era esquisito: usava calças que pareciam dois números menores do que ele precisava, muito gel no cabelo, gravata borboleta e óculos escuros Ray Ban de armação amarelo-ovo... DENTRO DO PRÉDIO.
Dias depois ele acabou nos apresentando o alegre rapaz de nome Blaine Anderson. Cursava Medicina e seu tio Kurt o conheceu na cafeteria do campus. Eles estavam saindo juntos e pensando em começar um relacionamento, todo mundo ficou um tempo sem falar com seu tio Kurt por mágoa, poxa ele não tinha confiado na gente, ninguém o julgaria era a vida dele e ele que sabe o que fazer dela, a gente só apoia e fica feliz com o que quer que ele escolha. Quem acabou fazendo todo mundo fazer as pazes de novo foi a sua mãe, olha só, quem diria hein? A senhorita Eu-Não-Sei-De-Nada. Mas enfim, o que aconteceu foi que seu tio Blaine acabou bem próximo do tio Puck e de mim porque ele vivia indo na república, causando raiva no tio Kurt por estarmos roubando a atenção do namorado dele. E foi em uma dessas visitas dele que sua mãe inventou de fazermos a tarde do karaokê... TOUCHÉ! Achamos nosso vocalista. Conversamos com tio Blaine e ele concordou em entrar na Boynosaurs (mesmo achando estranho esse nome) para desespero do tio Kurt.
Desde então passamos a tocar amadoramente em pubs e festas da faculdade. Fizemos sucesso, éramos conhecidos em todo o campus e até os professores curtiam. Fazíamos covers porque ninguém ali tinha vocação pra composição, mas já era alguma coisa, a gente tocava de tudo.
Enfim, Baby Bear. Essa carta foi mesmo pra você perceber como a música influenciou minha vida. Fiz o que era certo, criei amizades, fortaleci antigas, me aproximei MUITO da sua mãe porque ela AMA música e você sabe disso, e ela me confidenciou que em toda a vida dela seu ponto fraco eram os bateristas das bandas que ela curtia. Ponto pro papai!
Então, filho, eu vou fazer questão que você também tome o gosto pela música, seja tocando qualquer instrumento, seja cantando, seja compondo, seja só escutando as melhores bandas ou cantores solos, só quero que você saiba o que a vida tem de melhor. Pelo menos nisso eu tenho a plena certeza que não vou fazer feio.
Fechei a segunda carta que havia encontrado e coloquei junto da primeira. Essa não estava em um envelope, era uma solta que provavelmente ele escreveu por escrever, mas eu adorei saber como a Boynosaurs foi formada, e confesso que ri muito também. Dessa vez estava sentado na poltrona velha que encontrei no porão, tava meio rasgada, mas não me importei, era melhor que o chão. A caixa estava aos meus pés ao lado dos meus tênis, meus pés cobertos por meias azuis pendiam para fora da poltrona enquanto eu ria das palavras do Déda nas folhas quase amareladas das cartas mais antigas e das fotos.
Eu havia encontrado a caixa ontem, mas só pude ler aquela primeira carta pois logo depois eu realmente peguei no sono. Acordei desesperado, pois tinha medo de todos terem chegado e terem vindo no meu quarto, me visto dormindo e a carta jogada no chão ao lado da cama. Mas graças à Deus isso não aconteceu, meu sono foi apenas um cochilo e ninguém me pegou no flagra, senão eu não estaria aqui hoje sentado no porão lendo mais cartas e vendo mais fotos, enquanto meus pais trabalham e minha irmã está brincando na casa do tio Puck com a Beth e a Bailey.
Peguei um pop-tart na caixa em meu colo e abri outra carta antes de morder o biscoito.
Querido Baby Bear,
essa carta vai ser um pouco menor porque sua mãe tá super sensível e se eu ficar muito tempo longe ela chora. Sério. A vida dela agora é chorar. Deus do céu, como essa mulher tem lágrimas, o estoque não tem fim. E é por QUALQUER motivo, qualquer mesmo, desde uma formiga morrendo até quando ninguém faz o que ela quer. E ela está em um período de fases. Isso mesmo, ela é uma mulher de fases. Tem hora que é um amor de pessoa, é carinhosa, amável, fofa, parece uma gatinha manhosa, mas tem hora... Jesus, parece que um dos soldados do exército se machuca e todos os outros querem se vingar pelo ferimento de seu amigo. Ela fica insuportável. Eu me pergunto se ela não fica com dor de garganta de tanto que ela grita. O pessoal aqui da república já tá até acostumado, mas todo mundo tem limites e até o tio Kurt, a pessoa mais zen do mundo, já se irritou com ela. E o que ela fez? Chorou, claro. Sobrou pro papai aqui ir salvar a donzela em apuros do malvado tio Kurt, que na verdade só fez o que eu queria fazer mas não tenho coragem por amá-la demais e ter pena (mentira é medo mesmo).
Choros e dramas a parte, eu vim aqui para falar do seu exame de ultrassom. Um deles, né, porque durante a gravidez nós fizemos uns... milhões. Mas esse era especial. Saberíamos se você tinha uma cobrinha entre as pernas ou se namoraria só depois dos quarenta anos.
O dia começou com a gente acordando super cedo porque o exame tava marcado para 8 da manhã. Eu amava a médica da sua mãe. Tomamos café da manhã em uma padaria perto do campus porque sua mãe tava com vontade de comer muffins de blueberry e eu não sou ninguém para contrariar, então fui eu atrás dela e comemos, eu 2 e ela 5 bolinhos, não me pergunte para onde foram esses bolinhos. Depois fomos até o consultório da médica mais amada do mundo e para a nossa satisfação a desgraçada ainda não tinha chegado, só estava lá a secretária dela com cara de paisagem digitando rapidamente alguma coisa naquele computador, dizia estar fazendo a ficha dos pacientes, mas aposto que estava é trocando mensagens com alguma amiguinha fofoqueira no Facebook. Rach sorriu falsamente e nos sentamos para esperar, eu sabia o que aquilo significava, aquela secretária estava fo-ferrada. Havia mais algumas pacientes esperando também, uma estava sentada em frente a nós e ela parecia que iria explodir, sério sua barriga estava enorme, não tinha como crescer mais e eu não me espantaria se a mulher entrasse em trabalho de parto ali mesmo. Finalmente a querida por todos chegou e passou por ali sorrindo simpática, sorri e acenei de volta passando um braço pelos ombros de sua mãe e me segurando para não me levantar e matá-la.
Quando sua mãe esteve deitada na maca já com a blusa levantada e com o gel na barriga que eu me dei conta que finalmente estava na hora. Dessa vez ela não precisaria colocar uma camisola horrível que ela colocava nas primeiras consultas. Primeiro a médica acionou o botão de ouvir o coração e, como todas as vezes, eu sorri emocionado e apertei a mão da sua mãe, que pra variar já chorava. O barulho era meio alto e estranho, mas era lindo e só quem é pai sabe o que significa. Depois ela começou a passear o aparelho pela barriga da sua mãe e suas formas foram surgindo na tela, você tava sentado e com a mão na boca, mas com as pernas abertas, muito obrigado, meu filho, esperei muito por esse dia. Mas olha só, meu negócio é com as exatas, matemática, física, desenho, plano, não entendo NADA de ultrassonografia,, então só olhando eu não sabia dizer o que você era, desculpe. Até arrisquei, mas logo a médica me parou dizendo que aquilo era só o cordão umbilical, então...
Nunca vou esquecer as palavras que ela usou: "Então, papai, pode preparar a camisa do time, vem aí um meninão."
Na hora fiquei estático, depois sorri abertamente e comecei a chorar. Sim, peguei a mania da sua mãe e chorei, ela só ria da minha cara junto com a médica, eu nem me importei, eu seria pai de um menino.
Faltou eu colocar um cartaz na fachada da república. Contei para todos os nossos amigos, para alguns professores mais camaradas, suas avós Carole e Shelby choraram no telefone, seu avô Will queria fazer um churrasco e seu avô Christopher faltou soltar fogos. Baby Bear, seu sexo foi a notícia do ano.

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