Remember Me
18 Capítulo 17 - "Toda vida existe para iluminar o caminho de outras vidas"
Notas iniciais
Eu estava em meu quarto finalizando a lição de casa quando a porta abriu de repente e vi minha irmã entrar com a expressão confusa.
— O que quer, Bella? — eu já a conhecia o suficiente.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Já não está fazendo?
— Duas, então. — ela rolou os olhos.
— Faça de uma vez.
Ela pensou por alguns instantes e fez uma careta.
— De onde, REALMENTE, vem os bebês?
Ok, aquela me pegou de surpresa. Eu estava acostumado a resolver algumas dúvidas de minha irmã mais nova, mas daquela vez eu fui pego de guarda baixa. Não que eu não soubesse, mas como eu explicaria à ela?
— Bem, hmmm... Você não tem esse tipo de aula lá na escola?
— Minha professora de ciências disse que os seres vivos se reproduzem, gerando descendentes. Essa parte eu entendi, mas eu queria saber como é essa reprodução.
Tá, não seria tão complicado assim.
— Por que não foi perguntar ao Déda? Ele sempre sabe tudo.
— Nate, você é burro? Déda iria contar a história da cegonha, o que é patético. Onde já se viu...
— Ok, ok. Realmente a da cegonha não engana ninguém. — deixei minha lição de lado e virei a cadeira giratória, observando ela se sentar na cama — Me conte o que você já sabe.
— Bom, eu sei que os seres vivos podem se reproduzir e gerar novos seres. As plantas, os animais, nós seres humanos...
— Isso é verdade.
— Mas como isso acontece? É como mágica?
— Mágica, não. Mas algo inusitado pode acontecer quando um macho encontra uma fêmea. Eles podem se gostar muito e ter bebês.
— Como assim? Então se eu gostar muito de um menino, nós teremos bebês?
— NÃO! Quer dizer, só quando você for adulta. Bem adulta.
— E como é isso?
— É simples, ué. Um casal se ama muito, como nossos pais por exemplo, e aí eles planejam ter bebês. O homem planta uma semente no útero da mulher e nove meses depois o bebê surge.
Bella pareceu pensar. E então ela me encarou juntando as sobrancelhas.
— E como ele planta lá?
— Ah, Bella. Esse assunto é mais complicado. Nem eu sei muito bem.
— Se você disse que um bebê é feito quando um macho encontra uma fêmea, como nasceram então o Jayden, o Mason e o Gavin? Porque os papais deles são duas fêmeas e dois machos.
— Ah, no caso deles é diferente. Tio Blaine e tio Kurt gostaram muito dos gêmeos e resolveram adotá-los. Já a tia Brittany e a tia Santie, a mamãe explicou que elas fizeram um tipo de tratamento e que quem ficou grávida foi a tia Brittany, lembra? Por isso o Jayden é tão loirinho quanto ela.
— Hm, entendi. Quer dizer, mais ou menos.
— Bella, Nate, hora do jantar. — ouvimos a mamãe do andar de baixo.
Ufa, salvo pelo gongo.
— Uma última coisa... Como você sabe disso tudo?
— Quando se está na quinta série você começa a ter uma aula chamada educação sexual.
Ela me olhou de olhos arregalados e então deu de ombros.
— Mal posso esperar pela quinta série.
Querido Baby Bear,
Correria. Desespero. Nervosismo. Ansiedade. Essas ainda eram poucas as palavras para descrever com precisão aquele momento. Um dos mais esperados, entretanto que não podia chegar em hora mais inoportuna. Te amamos, Baby Bear, mas você escolheu um péssimo momento para nascer.
As dores nas costas vinham se tornando mais frequentes, mas a obstetra mais querida do mundo inteiro havia nos avisado que elas fariam parte da nossa rotina no terceiro trimestre. Sua mãe estava um poço de drama, mais do que o normal, sem contar as inúmeras mudanças de humor que mexiam com todos naquela república. Sim, ainda estamos alojados aqui, mas é temporário. Já conseguimos juntar uma quantia considerável e achamos nosso cantinho. Era só questão de esperar você nascer (o que já aconteceu obviamente, senão eu não estaria escrevendo isso) e já estaríamos de mudança. Na verdade, muitas das nossas tralhas já estavam no novo apartamento, mas finalizar de vez estava complicado devido à extrema preguiça que eu e sua mãe tínhamos, e ela não podendo carregar peso também dificultava. Bom, o que importa é que agora nossas malas já estão feitas e só estamos nos despedindo aos poucos do pessoal, que nesse tempo nos acolheu tão carinhosamente e que estão aos prantos de já terem que se despedir de você. Qual é, você se tornou o queridinho da casa!
Enfim, voltando. As dores estavam mais presentes naquela semana. A médica de sua mãe havia dado uma previsão de você nascer em pleno verão, no início de agosto, então não tínhamos com o que nos preocupar àquela altura, certo? Errado! Rach reclamava de cólicas e sentia pontadas extremamente incômodas na coluna. Se eu puxar bem lá no fundo da memória, posso tentar me recordar do nome de um tipo de contração que havíamos aprendido em uma consulta de rotina, porém o meu propósito aqui é narrar acontecimentos históricos, não decorar nome de ginecologistas da antiguidade que inventaram alarmes falsos para deixarem os pais em desespero. Enfim, achávamos que podiam ser as tais contrações falsas e começamos a trabalhar no processo de revertê-las. Não dava certo. As dores aumentavam a cada dia e ainda estávamos em julho. Meados de julho.
O sol rachava em nossas cabeças na manhã em que a correria começou.
(Só lembrando que os fatos narrados abaixo são de simples recordações daquele momento, podem não ser tão precisos)
Eu me lembrava que, durante aquela madrugada, sua mãe havia acordado umas três vezes se contorcendo de dor. Eu a acalmava com massagens nas costas e ela voltava a dormir. Na manhã seguinte, a rotina se seguiu normalmente e assim fui para a faculdade com o pessoal, e aproveitei que aquele dia sua tia Brittany não teria aula para ir mais sossegado, já que ela ficaria de olho na Rach pra mim.
Estava tudo correndo como todos os dias, até que em uma aula de Física meu telefone tocou. Meu telefone nunca tocava nas aulas.
"Finny? É a Britt. Não sei o que pode estar acontecendo, mas a Ray-Ray tá fazendo umas caretas feias aqui e tá reclamando de dor."
Aquilo me deixou em alerta.
"Aonde ela está?"
"Ela tá agora aqui no sofá, deitada, e apertando os olhos com força."
"Passe o telefone pra ela, Britt."
Os segundos mais angustiantes.
"Oi, amor."
"Rach, o que você tá sentindo?"
"Muita dor, como uma cólica, só que bem mais intensa. E uma pressão nas costas também."
"Respira fundo que vai passar. Lembra que a médi-"
"Finn?"
Era a voz da tia Brittany novamente.
"O que foi, Britt?"
"Ray-Ray tá fazendo xixi no carpete."
Pronto. Me desesperei. Larguei meu material na mesma hora e saí em desparada da sala de aula sob olhares confusos. Eu poderia explicar depois, você estava nascendo!
Não sei como exatamente, mas em questão de pouquíssimos minutos eu subia a escadaria do prédio estudantil que morávamos. No hall do nosso andar eu pude escutar um voz raivosa.
"Brittany, liga pro Finn de novo!"
Abri a porta naquele instante.
"Não será necessário." Brittany sorriu.
"Você largou suas coisas para trás? Mas como...?"
"Brittany dizer aquilo no telefone deixou bem entendido."
"Ah, deixa pra lá. Me leve logo ao hospital porque isso está começando a doer de verdade."
E nós três deixamos o apartamento. Desci apoiando sua mãe nas escadas e tia Brittany nos seguia com as bolsas (que naquele momento eu agradeci a paranoia da Rach de deixar tudo arrumado desde os seis meses). Paramos um táxi e ele nos levou às pressas à maternidade, ajudei mais uma vez sua mãe a andar e logo a colocaram em uma cadeira de rodas e a levaram para um quarto. Fiquei na recepção preenchendo a papelada burocrática e tia Brittany ficou encarregada de avisar o resto do pessoal e seus avós, e também pedir que alguém buscasse minhas coisas e desse satisfações por mim lá na faculdade, é claro.
No quarto, a cara da sua mãe era de dar medo. Uma enfermeira muito simpatiquinha havia feito a primeira visita e medido a dilatação, e me lembro que havia dado 2 cm.
"Mas como? Eu to sentindo muita dor e a bolsa já estourou!"
"Fique calma, menina. Alguns demoram assim mesmo, nós vamos avaliar de tempo em tempo o andamento e teremos a previsão. Seu bebê pode vir a nascer daqui a pouco ou só a noite. Pra não dizer amanhã. São casos e casos."
Eu podia ver sua mãe pronta para voar no pescoço dela.
"A doutora vem vê-la daqui a pouco. Tente ficar relaxada."
Sua mãe estava tudo menos relaxada. Um dos monitores ao lado da cama marcava a frequência das contrações, isso significava que cada vez que a linha vermelha formava morrinhos cada vez mais altos na tela, a mão do papai virava migalhas. Os minutos correram e a doutora nos visitava em intervalos de uma hora, sempre informando que ainda não estava na hora e me deixando cada vez mais desesperado.
Aquela altura nossos pais já haviam chegado e esperavam na sala do lado de fora, já que Rach estava mantendo as pessoas longe dela com um humor do cão. A tia Santana chegou pouco depois também e faltou sua mãe sair daquela cama e bater nela, porque aquela latina não perdoa hora nenhuma.
Em mais uma visita rotineira da médica mais agradável do mundo, ela entrou no quarto sorridente e cantarolando alto.
"Então, Rachel. Como estamos?"
"Eu posso a qualquer momento decidir eu mesma puxar esse menino de dentro de mim. Nem nasceu e já dá tanto trabalho?"
Perdoa sua mãe, filho. Ela não disse por mal.
"Vamos medir essa dilatação."
Seis centímetros.
"Essas contrações estão fazendo tudo menos dilatar o colo do meu útero."
"Estamos progredindo, Rachel." ela tentou ser simpática. Eu não correria o risco "Isso é só uma progressão lenta."
"Você malditamente não brinque! Finn, dê um prêmio à ela. A senhora é um tipo de gênio ou algo assim?"
O escárnio vinha em péssimas horas.
"Posso recomendar a peridural. Garanto que facilitará o seu lado, e bom, o meu também."
Aposto que ela falava do tratamento carinhoso que estávamos lhe dando.
"Oh, não! Não quero drogas correndo em minhas veias enquanto meu filho nasce."
"Como preferir. Só não diga que não avisei." E nos deixou ali plantados e frustrados.
As horas seguintes foram... Entediantes. Sério, essa palavra define perfeitamente. Não que eu ousasse pronunciar isso em voz alta, pelo menos não se eu tivesse amor à minha vida. O vocabulário da sua mãe variou bastante, de palavrões que prefiro não escrever para não te traumatizar a orações para que o tempo fosse mais depressa.
Enfim... Outra visita.
"Doutora, por tudo que é mais sagrado nesse mundo, eu me rendo. Me dê a droga da anestesia que eu juro parar de ser chata."
Ela riu. A desgraçada riu.
"Eu avisei. Mas primeiro vou examiná-la e digo como está o andamento, então chamo o anestesista."
Longos segundos de tortura e então ela se levantou sorridente.
"Tenho duas notícias, uma boa e uma ruim. Qual querem primeiro?"
"A ruim. Depois a outra ameniza o que quer que seja."
"A ruim é que a peridural não será mais possível."
"Mas o quê?!" gritamos juntos.
"Pois é, eu avisei enquanto era tempo."
"Mas e a boa?"
"Rachel já está com dez centímetros."
Confesso que senti tudo girar. Eu tava feliz, juro, mas cara... Cara... VOCÊ TAVA NASCENDO! Eu finalmente ia ver o seu rosto, depois de angustiantes oito meses de espera. Ia te sentir, pegar no colo, te ver. Era surreal demais. Mas eu estava feliz.
Gritos. Encorajamentos. Mais gritos. Choro. Era uma orquestra sinfônica dentro daquele quarto de hospital. Sua mãe gritando e chorando de um lado, eu gritando do outro pela minha mão massacrada, a enfermeira encorajando para Rachel empurrar e a médica mais legal do mundo gritando que você estava coroando.
E então veio.
Você chorou.
E que choro alto, pelo amor de Deus.
Trouxeram você para nós ainda sujinho de sangue e eu chorei junto. Você era a coisa miúda e escandalosa mais linda do mundo. Sua mãe beijou todo o seu rostinho e te embalou, sussurrando que te amava e que agora estava tudo bem. Nem parecia a mesma de antes. Agora era uma versão incrível da minha Rach. A versão mãe.
Eu era pai.
Deus, eu era PAI.
"Te amamos muito, Baby Bear."
E assim eu tive a prova. A partir dali você já iluminava meu caminho.

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