Remember Me
2 Capítulo 1 - The First
Notas iniciais
— Vamos brincar lá fora?
— Não.
— Então vamos jogar vídeo game?
— Não.
— Vamos... Montar quebra-cabeça?
— Não quero, Bella.
— Então vamos brincar de esconde-esconde?
— Não to afim...
— Ai você é um chato, não quer fazer nada também.
A verdade era que eu estava completamente entediado. Não sabia o que fazer mas também não queria fazer nada que minha irmã tinha proposto, tudo parecia chato demais. Vi ela sair emburrada e subir as escadas, talvez fosse até seu quarto brincar com aquelas bonecas dela ou então com o jogo de chá, urgh!
O Natal estava chegando, eu gostava dessa época porque tinha neve e eu ganhava muitos presentes. Nosso pinheiro já estava montado em um canto da sala de estar, Bella, Déda e eu havíamos montado semana passada enquanto mamãe filmava e tirava fotos como todo ano, ela adorava fazer isso e às vezes era um saco. Bella gostava, era exibida como só ela. Mas enfim, voltando, eu já devia estar deitado no tapete da sala de estar há mais ou menos meia hora olhando as luzinhas piscarem e sem ter nenhuma ideia do que fazer.
Resolvi ir até o porão, lá era cheio de tralhas mesmo, vai que eu ache algo que me entretenha pelo resto da vida pelo menos. Andei calmamente até o corredor longo que levava até a porta do porão, girei a maçaneta e empurrei, ela sempre ficava aberta até porque não tinha motivo para trancarmos. Acendi a luz e desci as escadas, estava meio bagunçado e empoeirado, o carpete aqui embaixo era encardido e tudo cheirava a guardado. Tinha uma máquina de lavar quebrada, alguns móveis cobertos por plásticos, brinquedos meus e da Bella antigos, até minha antiga bicicleta estava ali e eu nem sabia. Tinha também caixas, muitas caixas empilhadas, nunca vi tanta caixa na vida. Mas uma me chamou atenção. Era grande, não muito, estava fechada com fita adesiva e escrita "Bebê Urso" em letras meio emboladas. Devia ter sido Déda quem escreveu, ele não tinha uma letra muito bonita e mamãe às vezes brigava comigo quando eu relaxava na lição de casa e fazia garranchos iguais ao dele, ah qual é, desde que a professora entenda e que eu entenda, está tudo certo.
Peguei a tal caixa e a pus no chão com cuidado, vai que tinha algo de quebrar. Rasguei a fita e abri, tinha vários papéis, fotos e coisas de bebê. As fotos e as coisas eram minhas e da Bella, pegueis alguns dos papéis, uns estavam em envelopes e outros estavam soltos mesmo, abri um aleatório destinado a Baby Bear e percebi ser uma carta.
Querido Baby Bear,
eu poderia começar esta carta dizendo o quão planejado você foi, mas eu estaria mentindo. Entenda bem, meu filho, planejado não é sinônimo de amado... Você sabe o que é sinônimo, não sabe? Espero que a essa altura, sim... Bom, como eu ia dizendo, você não foi planejado. Muito pelo contrário, pegou seu velho pai aqui de surpresa, e põe surpresa nisso. Foi preciso umas boas garrafas de cerveja com seu tio Puck e muita merda sendo dita, mas isso não vem ao caso.
Começou com as mudanças drásticas de humor da sua mãe. Você, em algum momento da sua vida, já deve ter visto eu dizendo à sua querida progenitora o quão bem ela se daria na carreira de atriz, certo? Porque é a verdade, filho. Sua mãe é o drama em pessoa. Grávida, então... Bom, mas foi assim. Nunca diga isso à ela, mas ela ficou chata pra caramba. E me culpava por isso. Dizia que a culpa era toda minha por ela estar engordando, pelos enjoos, pelos desejos estranhos (coloca estranho nisso, quem come sorvete de cupuaçu com Big Mac? Sua mãe é vegetariana!). Mas não se sinta mal por isso, Baby Bear, gravidez mexe com uma parada nas mulheres que nós homens nunca vamos entender, mas que é a explicação universal e que, de alguma forma, faz sentido e que no fim faz a gente ficar como cachorrinhos atrás delas pedindo desculpas por sermos tão idiotas: hormônios. Sabe o que é isso? Bom, eu gosto de chamar de exército feminino. Eu consigo imaginá-los como homens em um campo de batalha prontos para atacarem, até vir um ogro (a.k.a. nós homens) e abrir a boca, aí pronto, dá merda, elas gritam, esperneiam, choram, te batem, te culpam, te xingam, mas depois são pra você que elas correm pedindo desculpas e querendo colo e carinho, nunca se esqueça disso, elas vão precisar de você, e POR FAVOR, não negue, é tudo culpa do exército feminino.
Eu nunca vou esquecer do quão assustada ela ficou quando descobriu que carregava você. Éramos duas crianças na faculdade sem saber direito o que fazer da vida, vivíamos em uma república perto do campus da universidade com seu tio Puck, a tia Santana, a tia Brittany e o tio Kurt. As festas quase toda noite acabaram, mas eu não abandonei minhas noites de tocar bateria nos pubs perto do campus, isso até acalmava sua mãe quando ela resolvia ir me ver tocar, ela dizia que era sexy. Ah, isso era uma outra coisa, boa dessa vez, do exército feminino: a libido. A gravidez, como tudo na vida, tem seus altos e baixos, e meu filho, vou te falar que nos altos da sua mãe... Acho melhor não, né? Deixa eu te poupar disso pro seu próprio bem. Mas que era bom, era.—
— Nate, cadê você?
Escutei a voz do Déda lá em cima. Ai Deus, ele não pode me pegar com essa caixa agora. Empurrei ela para atrás de uma pilha de outras, peguei o envelope da carta que eu lia e guardei dentro do suéter. Subi as escadas correndo e fechei a porta com cuidado, corri até a sala e o encontrei parado no pé das escadas me esperando.
— Cheguei. — disse ofegante, parei apoiando as mãos nos joelhos.
— Onde você estava?
— Eu tava... Tava... Tava fazendo nada.
— Sei... Eu to indo buscar sua mãe com a Bella e depois vamos comprar os presentes que faltam, quer vir?
— Ah Déda, vou dispensar. Eu vou ficar e dormir um pouco, to cansado. — menti.
— Cansado de quê, moleque?
— To de férias, é isso que se faz nas férias, duh.
— Então tá, só não põe fogo na casa. — ele passou por mim e bagunçou meu cabelo, me fazendo bufar e dar um tapa em sua mão — Vamos, Bella. É só uma ida ao centro, não um desfile de moda.
— Já estou pronta, Déda. Já estou pronta.
Eles saíram pela porta da cozinha em direção a garagem. Assim que ouvi o barulho do carro saindo, subi até meu quarto, fechei a porta e me joguei na cama para terminar de ler a carta.
Os meses foram bem, bem, BEM esquisitos. Eu nunca tinha convivido com uma pessoa grávida e pra falar a verdade é muito estranho. Mas saiba que depois que a ficha realmente caiu, eu me dei conta da realidade, eu seria pai! Uma VIDA dependeria de mim, pelo menos nos próximos 18 anos. E, man, eu mal sabia cuidar de mim mesmo, o que eu faria? Porque, vamos conversar aqui sério, sua mãe já era uma mãe antes de eu ser um pai, porque ela já sentia você desde... Sempre. E eu? Ficava aqui fora, esperava a sua boa vontade de se mexer, via a barriga crescer, o que é a coisa mais bizarra do mundo, meu Deus!
Oh presta atenção, não sei se com todas as mulheres é assim, mas com sua mãe foi, então vamos lá: quando sua mãe descobriu que você havia construído residência provisória dentro dela, já havia se passado seis semanas desde que você havia posto o primeiro tijolo colado no outro através de cimento (eu sei, explicação mais escrota que essa pra concepção não existe, mas eu não sei com quantos anos você vai ler isso, então estou me precavendo para não te traumatizar), ou seja, a barriga dela estava completamente lisa e eu não conseguia entender como ela chorava diante do espelho vendo aquilo que ela chamava de coisa mais linda do mundo (ok pareceu insensível, mas cara eu sou homem, eu sou realista e eu sou sincero), ela estava mais ou menos com um mês e meio nessa época, depois veio dois, três, quatro meses e nada, a barriga continuava na mesma e eu começava a me preocupar se realmente você estava lá, mas a médica sempre me tranquilizava nas consultas dizendo que você estava bem e saudável, e que era normal, ufa! Mas aí o anormal aconteceu. Sua mãe completou cinco meses e a barriga pareceu tomar Biotonico Fontoura... Sério! Cresceu... Muito... Rápido. A cada nova consulta com a obstetra (nova especialidade médica que adicionei ao meu vocabulário, porque antes de você existir eu não conhecia) eu tinha medo dela vir e gritar que era uma pegadinha e que na verdade sua mãe estava esperando gêmeos, eu infartaria de vez. Depois disso até os nove meses você só sabia crescer e sua mãe só sabia comer. Eu realmente me preocupei com a hora do parto.
Foi a partir daquele dia que minha vida mudou. Hoje eu percebo que foi pra melhor, mas naquela época, um moleque ainda, marrento, mimado e que se achava por ter uma garota perfeita do lado, eu pensava que meu mundo tinha caído. Não me leve a mal, eu era ingênuo e realmente não sabia nada da vida. Você era uma incógnita, eu não sabia o que esperar, tinha medo de fazer tudo errado e ser o pior pai do mundo. Minha primeira reação foi correr pra casa dos meus pais. Lá levei bronca deles, mas acima de tudo eles ficaram do meu lado e meu pai me aconselhou muito. E eu disse que se eu conseguisse ser metade do que ele foi pra mim, você tava feito, Baby Bear. Cara, nunca fiquei tão orgulhoso das minhas próprias palavras quanto naquele dia. Me senti O cara. Depois voltei pra república e fiquei com sua mãe, que naquele momento precisava mais de mim do que qualquer outra pessoa. E prometi à ela que enfrentaríamos aquilo juntos. Você com certeza é meu maior acerto, e é por isso que quero sempre que se lembre de mim.

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