Remember Me
1 1. O Castelo da Princesa Helena
Notas iniciais
Ele estava num quarto iluminado por lamparinas. Tudo era o mais absoluto silêncio, até sua respiração parecia que estava cessando. Pela janela aberta uma corrente de ar fria adentrava no recinto e impedia que ele suasse tanto quanto o fogo que saía das velas permitiria. Guilherme enfim se moveu depois de uma hora na mesma posição, e sentiu-se incomodado com isso. Seus ossos eram confrontados por uma superfície dura, e não importava como ele se posicionava, era difícil manter algum conforto. Então ele abriu um olho e despertou de um supetão. Não demorou a se arrepender de tê-lo feito: uma dor atroz açoitou sua testa e ele arfou. Sua vista escureceu e ele se estendeu novamente no chão frio. Ainda estirado como um inválido, Guilherme sentiu a dor aliviar e sua visão voltar ao normal, mas agora estava tonto, e com tudo o que provavelmente comera voltando para sua garganta e pronto para sair pela boca. Ainda assim ele se forçou a levantar, e com sucesso se pôs de pé, meio grogue, mas lúcido.
Guilherme se dirigiu para a janela aberta e parou à soleira para poder clarear a mente. O vento que vinha estava ajudando-o a manter-se de pé, amenizando a tontura. Ele viu que estava no topo de algum lugar muito alto, mas ainda não conseguia reconhecer de onde. Por ali, no meio da paisagem bucólica tranqüilizadora pela qual ele logo se encantou, Guilherme avistou uma tenda branca sobre uma multidão de corpos que se remexiam enérgicos ao som de uma batida eletrônica que parecia distante, porém reconhecível. Luzes dançavam pela noite, coloridas, intensas, nauseantes. Ele lembrava aos poucos de minutos ou horas atrás está por ali entre aquele bando de bêbados numa festa que parecia sem fim. Mas como chegara ali, e mesmo de quem era a festa ainda aparecia para ele como um enigma. Agora que percebia, o quarto em que se encontrava era uma réplica idêntica de um quarto medieval, com todos os lustres de um mesmo, e uma cama de casal muito bem arrumada sem nenhum travesseiro fora do lugar. Havia uma lareira perto da cama, mas Guilherme não se atreveu a mexer nela. Sentou-se na cama de leve para não bagunçar, e um pensamento logo lhe ocorreu – por que estava dormindo nesse chão duro se esse quarto imenso ostentava uma cama tão aconchegante e convidativa como essa? E mais além: por que diabo estava recolhido sozinho num quarto luxuoso de princesa se há alguns metros abaixo uma festa muito agitada rolava sem previsão término?
Guilherme saiu do quarto às pressas e correu para encontrar a saída dali. Estava num corredor extenso, também iluminado por velas sustentas por estruturas nos dois lados das paredes, além de quadros de algumas garotas que sorriam para ele como se o convidassem para uma dança. Talvez fossem todas as garotas que um dia já fizeram uma festa de debutante naquele local. Suas fotografias ampliadas e emolduradas de modo tão belo poderia ser um presente da casa. Ele não sabia ao certo por que não conhecia nenhuma das garotas das fotos.
Até que uma lhe chamou a atenção. Ela era a que mais sorria entre todas as debutantes, tanto as mais antigas quanto as da mesma época que ela. E seu sorriso era esplêndido, tão radiante que todas as velas poderiam ser apagadas e ainda assim alguém seria guiado por sua luz. Seus cabelos caiam nos ombros numa cascata de luz dourada, e seus olhos verdes resplandeciam felicidade.
Helena! Aquela era sua ex-namorada Helena, a garota mais cobiçada entre as alunas do primeiro ano, e quem sabe até entre as alunas de toda a escola. Ele havia esquecido como ela era divina, e como ele era apaixonado por ela. Mas quis o destino que eles não ficassem juntos quando o pobre Guilherme descobrira que sua namorada era um pouco mais assanhadinha do que ele previra. Ela era muito bela, mas ficar com alguém que não lhe dar o devido valor nunca foi uma opção para o rapaz. Não que ele sempre fosse um bom moço, por que, vá, ninguém é 100% santo o tempo todo, mas com ela era diferente, e se não dava para ser de um jeito sério, era melhor que não fosse.
Deixando de lado seus devaneios sobre o passado, Guilherme voltou a buscar pela porta de saída daquele labirinto medieval. Aos poucos sua vitalidade ia ressurgindo, e seus passos se tornando mais firmes, mas seguros do que queriam. Ele queria entrar na noite, dançar com seus amigos até cansar, até que dessa cinco da manha e todos estivessem bêbados demais para lembrar-se de alguma coisa. Essa euforia toda era estranha, Guilherme nunca sentira vontade de beber, nem de farrear com os amigos até não poder mais. No geral ele era um garoto de 16 anos sereno romântico, gentil, e não mais um babaca na grande lista de babacas que freqüentavam a sua escola. Mas agora pouco importava quem era Guilherme Lucena ou que os outros pensariam dele. Queria agitar a noite, queria beijar quem pudesse – menos Helena -, queria ficar exausto.
Finalmente achou uma porta dupla da Idade Média a qual empurrou com força e saiu para o ar livre. Do lado de fora ele vislumbrou o castelo no qual esteve todo esse tempo. Uau! Os pais de Helena provavelmente gastaram uma fortuna para fazer os caprichos da filha. Mas, e daí, esses caprichos seriam o passaporte de Guilherme para a diversão.
Mechas de seu cabelo preto dispersavam-se por seus olhos ao bater do vento. Uma beleza,uma brisa refrescante para acalmar o corpo e dar animo à alma. Era a fonte de energia que ele precisava. Correu. Os desníveis do solo gramíneo não o impediam de aumentar a velocidade. Às vezes tropeçava, mas não parou um segundo sequer, o som potente da festa já podia ser ouvido com mais facilidade e enchia seu coração de prazer. Enfim, só curtição.
O ambiente estava um pouco escuro, mas Guilherme conseguiu definir uma silhueta um pouco mais baixa que ele que corria em sua direção tão veloz quanto podia. Os dois corpos se chocaram por não conseguirem frear no momento certo, e a cabeça de alguém foi de encontro com o nariz de Guilherme com toda a força.
- Porra, meu irmão! Olha por onde anda! – gritou Guilherme exasperado, tirando com uma das mãos o sangue quente que corria pelo nariz recém atingido.
- Ah, Guilherme, você apareceu! – exclamou alguém que Guilherme não reconheceu pela voz, mas soube que era de um garoto. – Me desculpe por isso agora, mas eu estava desesperado procurando por você, cara! Anda corre, levanta daí – o garoto rapidamente se levantou e puxou Guilherme pelo braço para que o ele se pusesse de pé também. O garoto ficou parado num feixe de luz da lua que chegava até eles. Então Guilherme reconheceu quem lhe acertara o nariz.
- Dante... – murmurou Guilherme, indiferente. – O que você estava pensando ao correr por aí feito um louco? Olha o que você fez!
- Desculpa, mas não da pra ver nada... – Dante usou um tom zombeteiro que irritou Guilherme. – E você também estava correndo feito um louco, então não reclame. – Dante percebeu que estava perdendo a paciência com Guilherme quando o pegou pelo braço e sussurrou, de repente de uma maneira fria, sombria. – Agora, deixe de ser um completo idiota e vá ajudar a sua amada Lívia que está sendo molestada pelo Samuel e aquele bando de urubus dele!Agora!
Como se por um feitiço, todas as memórias de Guilherme que estavam perdidas numa névoa de esquecimento retornaram num rompante vertiginoso. Tudo o que acontecera com ele antes do Castelo da princesa Helena e seu quarto medieval passou pela cabeça dele como um filme, e pela primeira vez aquela noite ele suou frio.
- Lívia!
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