Remember
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Sinceramente, eu precisava fazer isso há muito tempo. Não me sentia nada bem com o jeito da Victoria tratar as pessoas. Eu tinha certeza que ela iria tomar jeito na vida, até eu ser chamada na diretoria.
O diretor me olhava com desgosto, esperando meu irmão chegar na sala. Também, deveria olhar desse jeito mesmo. Eu mal volto pra escola, e já estou aprontando. Provavelmente iria ganhar minha primeira suspensão. Legal.
Chris entrou na sala, me olhando, incrédulo. Eu dei uma risada, mas parei, quando o diretor me olhou novamente com desaprovação. Meu irmão sentou do meu lado.
- Então, Sr. Owen. Você é o responsável pela Srta. Owen?
- Sim, Sr. McCourtney.
- A Srta. Owen bateu em uma de suas colegas de classe hoje, na aula de Educação Física, sem motivos. – o diretor disse. Ele não sabia o que estava falando.
- Espera um pouquinho. – eu o interrompi. – Foi a Victoria que começou. Ela me empurrou no chão. Eu não podia ficar sem fazer nada.
- Não foi essa a história que chegou aos meus ouvidos. – respondeu Sr. McCourtney, calmo, folheando um livro em cima da sua mesa.
- Mas, foi isso que aconteceu. Eu juro! Não sou de bater nas pessoas por nada.
- Srta. Owen, a Srta. Montez me informou que você tinha jogado ela no chão do banheiro e a batido até ela começar a sangrar. – eu via em seu rosto que ele não sabia em quem acreditar. Como isso não ia fazer a menor diferença, resolvi desistir de lutar.
- Quer saber? Não to nem ai. Acredite em quem você quiser, faça o que você quiser. A minha consciência está limpa, porque eu sei que não fiz nada disso que você está dizendo. – o Sr. McCourtney continuava folheando o livro, e eu vi que o Chris estava ficando incomodado.
- Srta. Owen, dessa vez passa. Tome cuidado com as suas atitudes da próxima vez que for bater em alguém. Se for bater, bata fora da escola.
- Obrigado, Sr. McCourtney. Eu tenho certeza de que isso não vai se repetir. Tenha um bom dia. – Chris falou, sorrindo, e nos retiramos da sala. Andamos alguns passos em silêncio. Tenho certeza de que meu irmão não tinha gostado nada do que eu tinha feito.
- Mary, eu te espero em casa pra almoçar, tudo bem? Acho que você quer se despedir das suas amigas. – balancei a cabeça, concordando. Ele me deu um beijo na bochecha e foi embora. Eu parei no meu armário, para colocar os livros da mochila.
Victoria não tinha medo de morrer. Disso eu já sabia. Mas, ela tinha que ter medo de alguma coisa. De alguém. É impossível um ser humano não ter medo de nada, ou pelo menos demonstrar que não tem medo de nada.
De repente, a pessoa mais improvável para aparecer do meu lado naquele momento, surgiu do pó mágico do Merlin. Confesso que fiquei surpresa com esse acontecimento.
- E ai, Mary. Fiquei sabendo que você foi pra sala do diretor. – falou Connor, tentando puxar assunto. Um dia, ele tinha sido meu melhor amigo, e eu tinha certeza de que, quando ele começava com um assunto nada haver, é porque queria falar alguma coisa.
- Pois é, né. Mas eu não fui suspensa nem nada. Acho que levei só uma advertência. Nada que eu nunca tenha levado. – respondi, sorrindo.
- Hum, que bom. – ele ficou alguns segundos em silêncio. – Vem cá, você sabe me dizer se a Annie ta namorando? – ele chegou aonde eu queria que ele chegasse.
- Não. Ainda não.
- Ainda, é? – ele perguntou, confuso e triste.
- É. Se você andar logo, quem sabe vocês não começam a namorar? – ele olhou pra mim e deu uma gargalhada.
- Incrível que, mesmo depois desse tempo todo, você ainda me conhece tão bem quanto a minha mãe.
- Conheço mesmo. Você é meu melhor amigo, Connor. E...eu percebo que o amor está no ar de longe. Desde que eu me entendo por gente, você e Annie não param de trocar olhares.
- É...eu gosto dela desde que o nosso grupo se formou. Lembro exatamente da primeira vez que a fiz rir. Mas, então, você vai me ajudar a conquistar a Annie? – perguntou, animado.
- Claro. Eu to do seu lado, pro que der e vier. – eu o abracei. – Agora eu preciso ir. O Chris ta me esperando pra almoçar.
- Certo. Eu posso passar na sua casa hoje?
- Não dá. Hannah, Sheron e Mona vão pra lá de tarde. Se você aparecer por lá, elas vão ficar constrangidas. Deixa pra outro dia, ta? – ele concordou com a cabeça e acenou. Eu acenei de volta.
Geralmente, eu voltava pra casa andando mesmo. A escola era só a seis quadras da minha casa. Não era assim tão longe. Durante o caminho eu canto, e vou observando a rua.
Enquanto eu andava, resolvi dar uma entrada na loja de antiguidades, um dos melhores lugares da cidade, depois do Dreamer Coffee. A lojinha se chamava Como Nunca Foi, e a dona era a Jennifer. Uma mulher que não gostava de ser chamada de senhora, mesmo casada com o Jim, que também não gostava de ser chamado de senhor.
Assim que entrei lá, bati o olho em um abajur lindo de perfeito. Era a coisa mais glamurosa que eu já tinha visto na minha vida. Fiquei observando ele por um tempo, até alguém tocar no meu ombro, me fazendo virar.
- Mary? – perguntou a moça de cabelos castanhos escuros.
- Jennifer! Meu Deus, quanto tempo!
- Digo o mesmo. – ela sorriu. – Como você cresceu, menina. Está ficando cada vez mais linda.
- Obrigada. – sorri de volta. – Eu tinha que passar aqui na sua loja. Não resisto só ver as coisas pela vitrine. – nós duas rimos.
- É muito bom ver você. E o Logan, como estão vocês dois? – eu esqueci de dizer que nós contávamos tudo uma pra outra. Não existiam segredos entre nós. Nenhum mesmo. Tinham coisas que eu não contava nem pra Annie, que ela sabia.
- Ah, eu voltei ontem. Não nos resolvemos ainda, mas somos amigos. Encontrei com ele na escola hoje.
- Tomara que vocês voltem. Formam um casal tão lindo.
- Pois é...e o Jim, como ele está? Ainda não tive a oportunidade de encontrar com ele.
- Nós estamos ótimos! Por que não passa lá em casa amanhã para lanchar? Seria ótimo para colocar as coisas em dia, não acha?
- Claro, claro! Ótima ideia. Eu passo sim. Às quatro horas ta bom pra você?
- Está sim. A gente se vê amanhã, então, Mary.
- Até amanhã, Jennifer. – acenei pra ela e saí da loja.
Era tão bom reencontrar as pessoas que eu gosto. E o bom é que elas não esqueceram você. Todas, exceto uma. O Taylor não olhou nem na minha cara hoje quando entrou na sala. Ou ele não me reconheceu, ou se fez de doido. Mas de doido ele não tem nada.
Faltando apenas duas quadras da minha casa, um Volvo preto começou a me seguir, e, claro, eu comecei a ficar com medo. Apressei um pouco o passo, mas não adiantou de nada. Quanto mais rápido eu andava, mais o carro me seguia. Até que eu parei, e o carro parou também. Me aproximei do vidro e bati, esperando alguém abrir.
- Olha, eu não gosto de ser seguida, ok? Então, por favor, abaixe seu vidro. Ou, se você for me seqüestrar, avisa, pra eu me preparar psicologicamente. – o individuo abaixou o vidro.
- Não precisa exagerar, Mary. – falou Taylor. Ah, claro.
- Taylor? Por que diabos você está me seguindo?
- Eu só queria ver com meus próprios olhos que você tinha realmente voltado pra escola. Eu senti a sua falta.
- Pois não parecia, hoje de manhã, na sala de aula. – cruzei os braços.
- Desculpe não ter falado com você hoje, mas é que as meninas não me deixam falar com ninguém além delas três. Ordens da mamãe. – então, eu entendi tudo.
- Então, aquelas que são as trigêmeas? Como elas são...diferentes.
- São elas sim. Parecem mais três guarda costas, isso sim. Eu não consigo nem respirar direito com aquelas meninas na minha cola. – ele revirou os olhos.
- Não acha que sua mãe está pegando muito pesado? Sei lá, te protegendo mais que o necessário? Afinal, você tem dezesseis anos, Taylor. Não é mais uma criança.
- Eu já falei isso pra ela. Mas, adianta? Claro que não. Minha mãe é um caso sério. Não sei mais o que fazer pra ela parar com essa paranóia. – eu ri baixo.
- A gente entende que ela só quer te proteger, mas, tudo tem seus limites.
- Concordo. Olha, mamãe sempre gostou de conversar com você. Por que não vai lá em casa e fala essas coisas pra ela? Tenho certeza que ela vai te escutar. E ainda vai amar te ver de novo. – ele propôs, sorrindo.
- Pode ser, Taylor. – concordei, retribuindo o sorriso. – Mas, não dá pra ser hoje, umas amigas minhas vão lá pra casa. Nem amanhã, porque eu vou pra casa da Jennifer, lanchar. Na quinta ta tudo bem pra você?
- Claro que sim! Então, marcado. Eu passo na sua casa pra te pegar ás duas na quinta. Obrigado, Mary, você é um anjo. – ele soprou um beijo da palpa da mão pra mim e o carro deu partida. Eu fiquei rindo sozinha na calçada.
Andei mais um pouco, e entrei em casa, jogando minha bolsa em cima do sofá cor de caramelo que tinha na sala desde os meus três anos de idade. Minhas pernas doíam, e parecia que eu não tinha mais saliva, de tanto que eu falei hoje.
- Finalmente, cheguei em casa.
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