Remanescentes
1 Ecos do Passado
Notas iniciais
Qual a sensação de ser engolida pela escuridão? Afundando, caindo cada vez mais, enquanto o cheiro da poeira atinge meu nariz, me perco em meio aquelas milhares de bolinhas, empoeiradas pelo tempo. Essa foi a sensação. Não vejo nada, somente ecos, passos se aproximando, ao mesmo tempo que me afundo pouco a pouco, a ponto de começar a sentir meu pulmão se apertar. A falta de ar definitivamente presente. Questão de tempo para eu não sentir mais nada.
De repente, uma sensação estranha se apossou de mim. É como se eu me encontrasse conectada àquele ambiente escuro, estando em todo lugar, ao mesmo tempo em que não estava. Eu conseguia sentir tudo. Inclusive, podia sentir a distância, não me encontrava tão longe, havia um ponto de saída.
Decidida, me impulsionei para cima e comecei a escalar, tentando subir para encontrar o topo. Até que, finalmente consigo tirar uma das minhas mãos de dentro da piscina, e me seguro na borda para sair.
Assim que saio da piscina ouço um som de música e estranho, que me lembre havia deixado o som das caixas desligado antes de os animatronics despertarem e do coelho amarelo aparecer. Sigo em direção ao som, me aproximando da área de festas, bem perto do palco, onde geralmente os animatronics ficavam, sem entender o que estava acontecendo, arregalo meus olhos, confusa com a visão à minha frente: Havia pessoas na Pizzaria Freddy Fazbear.
As cores e iluminação do ambiente eram diferentes do que me lembrava. Garçons levavam pizzas para as famílias, no instante em que noto algumas crianças correndo e rindo pelo local, outras iam para as máquinas de jogos com seus amigos. Eu podia ouvir o eco das vozes das pessoas ali ao fundo, não era para ter ninguém a esse horário da noite na pizzaria. Será que estou sonhando?
Observando os arredores, noto um relógio, perto do balcão onde os funcionários preparam lanches e franzo as sobrancelhas; ele estava parado exatamente à meia-noite.
— Impossível…
Viro-me para o palco e vejo os animatronics, mas não os que conhecia, eles tinham uma aparência mais nova e agiam como robôs normais, se movendo conforme a música que era tocada. Bonnie dedilhava a guitarra, Freddy mexia os braços mecânicos com suas mãos; Foxy não permanecia ali, então acredito que esteja na Pirate Cove. Então que notei um calendário fixado em uma das paredes e fiquei de boca aberta. A data circulada em vermelho no cartaz dizia 26 de junho de 1985. Essa data… Não foi o dia que as cinco crianças, cujas almas ficaram presas nos animatronics, desapareceram na pizzaria?
— Eu... voltei no tempo? — desperto dos pensamentos ao ver algumas crianças correndo na pizzaria.
— Gabriel, você não vai me pegar! — ouço uma das crianças falar, enquanto a que eles chamavam por esse nome corria atrás deles, tentando os alcançar.
Ao fundo, vi uma família que parecia estar comemorando o aniversário de uma criança, que ouvi sua colega chamando de Cassidy. Até que ambas saíram da mesa e foram brincar nos arredores da pizzaria.
Se de fato estava no passado, hoje seria o dia em que todas aquelas crianças não sobreviveriam… Uma inquietação se manifestou dentro de mim e fechei meus punhos, determinada. Não custava tentar, mas, talvez, só talvez, eu poderia tentar evitar as tragédias que estão por vir.
Ando pela pizzaria procurando sinais do homem roxo, os cheiros de pizzas, doces e salgadas, se misturavam no ar. Todos se encontravam alheios ao que acontecia ao redor, distraídos com a alegria do ambiente.
Enquanto caminhava pela pizzaria, estreitei os olhos ao sentir o ar ficar pesado. A sensação é como se as cores do ambiente estivessem desbotando, as luzes piscavam levemente, conforme eu seguia entre as mesas. Pelo canto do olho, de repente, senti como se alguém me vigiasse e olhei para o lado esquerdo, onde vi o vislumbre de um homem de uniforme roxo entrando em uma sala de funcionários. Suspiro, a sensação de alerta cada vez mais alta.
Logo, ouço uma conversa das duas meninas que me notaram:
— Que moça bonita, quando crescer vou querer saber me vestir igual ela. — diz uma menina de cabelos loiros e olhos azulados.
— Ela é mesmo, Susie. Mas agora é com você! — a de cabelos escuros fala, ao tocar no braço da outra e sair correndo.
— Cassidy, assim não vale!
Enquanto observava elas correndo, franzi as sobrancelhas e pensei:
— Susie, Cassidy… São elas. — sinto algo pulsar dentro de mim, sentindo como se meus instintos falassem para intervir ali. Aproximo-me de leve das duas crianças e sorrio. — Olá, vocês estão se divertindo, crianças?
— Sim! — falou Susie. — Um moço prometeu mostrar para a gente depois uma surpresa.
— Será que é uma festa de aniversário? — perguntou Cassidy.
— Verdade, será que a gente vai ganhar presentes? Estou curiosa!
Assim que elas mencionaram a tal surpresa, o ar pareceu ter ficado mais frio. Prendi a respiração. Pobres crianças, mal sabem o que as aguarda…
— Ei, tia, a gente vai viver pra sempre aqui, né? — fala Susie.
— O quê? — pergunto, em choque, ao ser tirada de meus pensamentos.
— Na pizzaria. Quero vir todos os dias aqui!! A banda do Freddy é muito legal e tem piscina pra brincar e —
— E podemos comer pizza todo dia! — Cassidy completou.
Sinto meu coração apertar com suas palavras, e forço um sorriso.
— É… quem não gostaria disso, né? Poder comer pizza à vontade? — digo, forçando um sorriso, mas no fundo, encontrava-me tensa. — Hã?… E vocês viram aonde esse moço foi?
— Ele foi por alí!
Cassidy aponta para a entrada de outra sala da Freddy’s, provavelmente o lugar em que consertavam os animatronics.
Sinto-me congelada ao sentir um arrepio na pele. O som do ambiente parecia ter diminuído. Enquanto olhava na direção que elas falaram, notei alguns objetos e sombras distorcidas, cujo antes não recordava.
— Meninas… Vocês tem que me prometer que não vão lá com ele, tudo bem? Seus outros amigos também. Em vez disso, vão se divertir com suas famílias.
— Por quê? — Cassidy estreita as sobrancelhas, confusa. — Não quer que a gente ganhe presente?
— Não é isso, é… — tento me explicar, mas Cassidy olha para atrás de mim e acena.
— Olha, o Gabriel e o Fritz estão lá com um animatronic! Vamos lá com eles? — Susie pergunta e Cassidy assente. Ambas saem correndo até seus amigos.
— Espera! Não… Vocês não entendem!
Tento seguir até elas, mas algo estranho acontece, o corredor parecia se estender conforme tentava alcançá-las, como correr sem sair do lugar, um tipo de força invisível me prendendo ali. Enquanto as duas meninas seguiam de encontro a seus colegas, próximo ao local, o coelho amarelo me encarou, antes de passar pela porta, que logo se fecha, à minha frente.
Continuo tentando sair do lugar, até que finalmente consigo correr em direção a porta e bato as mãos, trêmulas, na madeira. Tento me jogar contra a porta para ver se abria, porém, ela parecia emperrada, ele a trancou. Logo, os risos das crianças pararam, dando um minuto de silêncio, até que um grito fino corta o ar e arregalo os olhos.
— Pare! Por favor, abra essa porta! Deixe-os! — grito, enquanto tentava arrombar a porta, sem sucesso. Ouço mais um grito de desespero de uma das crianças.
Minha visão embaça pelas lágrimas, por me lembrar do dia que a Eri se fora, assim como por essas crianças que estão em perigo. Ao som dos gritos, uma poça carmesim atravessa a fresta da porta, junto ao som de algo se quebrando. Meu estômago se contorce ao ver o líquido. Sinto seu cheiro metálico contaminando meu olfato e desabo, de joelhos na poça, com as mãos sob a porta.
— … Não consegui…
Ainda em choque, ouço sons de passos atrás de mim e uma voz familiar, que me causa repulsa:
— Achou mesmo que poderia mudar o passado? Garota…
Viro-me para o ser e o encaro com ódio. A versão de William Afton do tempo presente estava atrás de mim.
— Seu desgraçado! Eles eram apenas crianças! Por quê? Por que toda essa desumanidade?!
— Você sabe a resposta, as almas dessas crianças contém os remanescentes, com estes elementos posso alcançar a imortalidade!
Ao ouvir tais palavras, minha raiva elevou-se a tantos níveis que pude sentir uma energia diferente fluir em mim, quente de um lado e congelante de outro.
Meus sentidos ficaram apurados, podia sentir os elementos à minha volta, minha mão direita soltou pequenos estalos, que logo se ampliaram, como brasas escaldantes. Chamas de fogo saíam por uma mão, enquanto a outra criava pequenos flocos de neve. O chão embaixo de mim tremeu, criando rachaduras que seguiram até o feiticeiro.
— Você finalmente deu as caras, feiticeiro! Não posso fazer nada com relação a sua versão do passado, aquela atrás da porta. Mas farei você ter o mesmo destino que aquelas crianças! Sentirá a dor que elas sentiram!
Como resposta a minha promessa, o feiticeiro, que era a versão recente do Springtrap do passado, me encarou, sorriu de forma zombadora e avançou alguns passos à frente.
— Acha mesmo que pode me parar com esses truques?
Não eram apenas truques, eu podia senti-las, os remanescentes, o que sobrou das crianças, suas memórias em forma metálica-líquida. Ainda de joelhos, encostei meus dedos no líquido carmesim, chamando o que restava daquelas crianças. Os animatronics ganharam vida, e assim que saíram por aquela porta, pude sentir os remanescentes das crianças fluindo neles.
— Ahá, minhas belas criações! Detenham essa garota! Eu os criei, ela merece pagar por todas as vidas!
Os animatronics encaram-me e digo:
— Susie, Gabriel, Cassidy e Fritz, sei que ainda estão aí, não o ouçam! Ele foi responsável por suas mortes!
Viro-me para o coelho e digo:
— Pode ser que algumas coisas do passado sejam impossíveis de alterar, mas, não vou permitir que mais nenhuma criança seja a sua próxima vítima! Isso é pela Eri e por essas crianças!
Sabia que o que faria a seguir poderia ter um custo alto, assim que despertei aqueles poderes me lembrei de tudo. Eu era O Vácuo, o vazio, e o único jeito de impedi-lo agora, seria levá-lo para o mesmo lugar que eu, o nada absoluto. Com um simples movimento de mãos, um portal surgiu embaixo de nós dois e me vi sendo engolida pelo vácuo, junto do coelho amarelo. Sabia que ao fazer isso eu teria que pagar um preço.
— Isso ainda não terminou, garota! Eu sempre volto! — declara, antes de ser puxado para baixo.
E então, veio a escuridão. Não sentia mais nada, mas podia ver a justiça sendo feita. O coelho fora condenado ao vazio absoluto para toda a eternidade, ecos de seu desespero ressoavam pelo vácuo.
Finalmente havia acabado!
Vi uma luz emergir ao abrir os olhos, assim que notei, estava cercada novamente pelas bolinhas de plástico. Confusa, subi até a borda da piscina e vi que estava de volta a pizzaria do presente, porém ao dar alguns passos, pensando em sair daquele lugar, recuei em horror. Mina, Midoriya e Bakugou, os únicos amigos que me haviam restado, estavam ali, sem vida, bem na minha frente.
Minhas mãos tremeram, lágrimas escorreram de meu rosto, ao mesmo tempo em que minha respiração acelerava. Vejo ao lado de Katsuki seu celular, que estava ligado, a câmera gravando. Peguei o aparelho e abri um vídeo que ele fizera de seus últimos momentos.
— Ochaco, se estiver vendo isso, então, já é tarde demais... Eu, Midoriya e a Mina, tentamos vir até você, mas, de repente, quando chegamos, os animatronics ficaram descontrolados. Estão atrás da gente. O coelho esteve por aqui… e talvez essa possa ser a última vez que nos veremos. — Bakugou suspira. — Cuide-se, Ochaco… Você sempre foi mais forte do que pensava… Viva por nós. Espero que um dia nos encontremos de novo, em outra vida...
Vejo uma sombra atrás dele, e logo as garras aparecem na imagem, afastando o Bakugou da tela. Ouço apenas chiados, seguidos de gritos de dor. Cambaleio para trás e derrubo o celular no chão. Sinto minhas pernas fraquejarem e caio de joelhos. Foi tudo em vão…
O ar ficou pesado, as luzes da pizzaria começaram a piscar sem parar, enquanto sentia a terra tremer. O vazio estava me chamando, o vácuo querendo me engolir. Era o preço final por ter desfrutado dos elementos para combater o coelho. Minha pele foi ficando translúcida, até que não senti mais nada. Voltei a minha forma primordial. Tornei-me O Nada.
Em uma sala, nos fundos da pizzaria, Circus Baby despertou.
— Não tenha medo, Eri. Sei que está aqui. Não vou te machucar, você faz parte de mim. Nós somos como uma só. Podemos ficar juntas para sempre! — fala a animatronic.
Os olhos mecânicos de Baby brilharam em azul e outra voz saiu da animatronic:
— Para sempre? Então, a gente vai poder brincar agora?
— Claro! Teremos todo o tempo que quisermos daqui para frente!
Fim!
Fale com o autor