De um lado para o outro ele estava caminhando por minutos pelo quarto. A noite já havia caído lá fora e o garoto parecia querer para o tempo. Josh estava completamente frustrado, teria de se encontrar meia noite com Henrique e não tinha outras roupas além das que o outro gentilmente o cedeu.

Olhava para a janela frustrado de cinco em cinco minutos, não sabia por que estava tão ansioso para sair com Rique. Ele não sabia onde iria e seria a primeira vez que sairia do instituto desde que entrou com o irmão. Temia que algo ruim acontecesse quando pisasse ao lado de fora, mas havia em mente que uma hora ou outra teria que sair.

— Aí, qual o problema? — Diaspro abriu a porta e olhava para Josh, a impaciência era óbvia.

Se virando para a direção do andrógino ele deu seu sorriso forçado mais convincente. Estava nervoso e era mais que evidente, mas Henrique o advertiu a não contar a ninguém sobre o encontro deles. Não é um encontro. Falou mentalmente para si mesmo.

— Eu vou sair e não tenho nada para vestir. — Disse dando de ombros.

— Vai sair? Sozinho? — Ele encarava Josh agora com os braços cruzados sobre o peito. — Vai aonde? — O olhar dele permanecia sobre o outro duro como uma pedra. Josh não estava o convencendo.

— Sim, irei buscar umas coisas na minha casa e preciso ver alguém depois. -

— Tem certeza? Dá última vez foi enganado por um transmorfo e quase morreu. -

— Tenho, eu realmente preciso fazer isso. — Persistiu.

De um ponto de vista ele não mentiu para Diaspro, realmente iria sair, mas não sozinho. A ideia de ir ao apartamento apareceu para sustentar uma mentira, mas queria ir mesmo buscar algumas coisas.
O outro revirou os olhos como se tivesse desistido a fazer Josh mudar de ideia.

— Vem, vou te emprestar algo para impressionar sua ''pessoa especial''. — Ele se virou indo para o corredor e o outro lhe seguiu.

Fazendo todo o percurso para o dormitório de Dias ele se arrependeu de ter aceitado. Não queria parecer uma versão mais masculina do andrógino com roupas curtas e sexy, esse estilo não fazia o de Josh e nem ficaria bem em seu corpo.

Após chegarem no quarto, Diaspro abriu a porta para o rapaz entrar e seguiu atrás dele.

— Eu tenho muitas roupas. — Falou indo em direção ao guarda-roupas e abrindo.

O quarto dele não era nada diferente do que o do outro, apenas o armário era muito maior. Ele voltou com o cabide na mão, nele pendia uma calça preta, larga para o gosto de Diaspro.

— Aqui, esse vai servir. — Empurrou em direção a ele voltando ao armário contente, como se estivesse arrumando um boneco.

— Estou surpreso, você tem calças que cobre as pernas. — Disse avaliando o tecido que não era de couro.

— Óbvio que sim. — Ele voltava com mais algumas peças de roupas e colocava nos braços do garoto. — Mesmo que não use mais. Pode ficar com essas. -

Josh estava amontoado com os braços lotado de mudas de roupas. As peças começaram normais e agora parecia cruzar o estilo do próprio Dias e o mesmo nem havia notado o que estava fazendo.

— Acho que essas já dá. — Andou com o corpo inclinado levemente para trás pelo peso das roupas. — Não preciso de mais.

O garoto desviou a atenção do guarda-roupas para protestar mas se calou, ele realmente estava abarrotado de roupas que nem conseguia ficar ereto.

— Quer passar maquiagem? — Ele pegou um kit em cima da cômoda.

— Nem ouse. — Advertiu o outro sério.

. . . . . . . . . . . . . .

A claraboia mostrava a lua cheia e brilhante no céu, que iluminava o salão de entrada dando um aspecto prateado e nobre. Henrique estava com o olhar perdido na lua, os olhos refletindo a claridade, dava para notar sobre a pele as marcas que fez recentemente para o evento.

Ele esperava o outro, estava bastante paciente, mas parecia ter comido algo estragado sempre que pensava na possibilidade do garoto ter desistido. Bem, seria azar o dele, por que treinaria mais duro do que treinou a tarde com o tutor.

Passos na escada o chamaram a atenção e retirou de seus devaneios. Josh descia as escadas com um pouco de pressa. Os olhos de Rique brilharam sobre a luz do luar quando o notou. Ele é mesmo um caçador de sombras. Pensou.

Henrique estava com as roupas que usava habitualmente, couro e preto, cabos de lâminas celestiais presas sobre o cinto, a silhueta da estela no seu bolso, mas nunca havia visto Josh daquela maneira. Ele vestia uma calça preta um pouco folgada, uma jaqueta de couro que o zíper se fechava ao lado esquerdo e não no centro como os tradicionais. Botinas pretas e luvas de couro completava o visual.

Um sorriso apareceu no rosto do ruivo que observava ele se aproximar, estava radiante, realmente se parecia com alguém do mundo das sombras.

— Nossa...Está lindo. — Falou quando ele ficou a sua frente em uma distância considerável. — Essas roupas é de quem?

Josh sorriu sentindo as bochechas ficarem rubras, ele não se sentia mais intimidado ao olhar de Rique, na verdade gostava de quando o elogiava, pois nunca recebia tais elogios.

— É, estou legal. — Um pequeno sorriso se formou no canto direito de sua boca. — Quem mais além de Diaspro? Me diz, onde ele consegue tantas roupas?

Henrique ainda o avaliava, não estava acostumado a ver o outro vestido daquela maneira, nunca nem havia imaginado.

— Se olhou no espelho? Você não está legal, está magnífico. — Fez uma breve pausa dando de ombros. — Ele ganha dos submundanos, nunca subestime o que Dias pode fazer. — riu.

Josh revirou os olhos, mais ainda estava sorrindo, se sentiu novamente tímido com o elogio. Rique reparou que sobre a luz da lua a cor verde azulada da íris do outro parecia saltar do rosto de tão chamativa, mas era um chamativo mais belo que havia visto, uma combinação bonita e delicada.

— Então...Aonde vamos? — Perguntou ele ao tutor.

Ambos começaram a andar em direção a porta de entrada do instituto.

— Você vai ver, achou que seria tão fácil assim? — Abriu a porta para o outro passar. — É surpresa, caro beato. — Josh passou para o beco com Rique atrás dele.

Ainda era o mesmo beco com casas góticas de detalhes acentuados brilhantes, naquela noite parecia que o teto das casas estavam cravejados de cristais, pois reluziam como muitas lâminas celestiais sobre a claridade da lua.

— Eu ainda não entendi o por que do apelido. — Falou Josh que seguia o ruivo abrindo o caminho para uma das casas.

Eles permaneciam lado a lado andando, escutando barulho de cascalhos se chocando em outros quando pisavam no chão. A cidade ao redor deles parecia mais quieta que o comum.

— Pelo simples fato de ser quieto, parece ser tão puro. — Ele deu de ombros com um sorriso de canto.

— Um dia vai descobrir que estou longe de ser beato e muito mais de ser puro. -

A cabeça de Henrique se virou de súbito e encontrou o olhar de Josh. O mais alto tinha o mesmo olhar o qual treinara seu pupilo na tarde anterior, um ''quê'' de determinação e selvageria escondida, aquela aparência de quem gosta mais de demonstrar do que de falar.

— Chegamos. — Voltou a olhar para frente, perdendo o contato visual.

Estavam em frente a uma das casas, mas essa havia algo estranho. A porta principal de madeira, mas a porta ao lado era de ferro, bem mais larga que a de entrada.

— Uma garagem? — Riu de deboche. — Ai dentro têm o sombrasmóvel?

O outro não lhe respondeu e entrou na casa. Alguns minutos depois escutou um barulho de ronco de motor. O ronco de uma moto. A porta da garagem se abriu e Henrique apareceu pilotando ela. A motocicleta tinha a cor em preto fosco, o restante das peças era um prata bem brilhante, o contraste entre o dois deu um toque chamativo e interessante, dava pra notar uma runa em uma parte dela.

Pela santa gótica suave...— Josh estava embasbacado, todo seu porte forte de caçador de sombras parecia ter descido pelas pernas. — Achei que não gostassem de nada moderno.

Ele abaixou o descanso e desceu da moto, parecia um daqueles caras que sempre ficava exibindo seu brinquedinho para garotas roqueiras em algum concerto de rock. A porta da garagem se fechou automaticamente atrás dele, lá dentro haviam mais três.

— Fecha a boca ou vai babar. — Ele riu, mas logo seu rosto atribuiu um tom de seriedade. — Escuta, não vamos poder ser vistos pelos mundanos, vou precisar fazer uma runa em você.

O rapaz teria deixado ele fazer a runa em si, mas mesmo que tivesse escolhido protestar Henrique não teria se importado, pois antes de acabar de avisar já estava com a estela na mão que havia retirado do bolso e se aproximado do outro.

— Não vai doer. — Disse quase em um sussurro para Josh.

A ponta do dedo indicador do Rique percorreu a parte direita do maxilar de Josh. Ele se arrepiou instintivamente ao toque do ruivo em sua pele quente, o dedo dele estava morno, mas o percorria com suavidade. Preparando a estela um pouco abaixo ele começou a runa no pescoço do pupilo, o único local que não estava coberto por tecido.

Uma leve careta de dor surgiu no rosto dele mas suavizou, o corpo estremeceu por um segundo quando sentiu o toque da pedra quente na pele. Aquela runa não foi como o desenho da irazte que parecia ter sentido uma agulha percorrer arranhando seu peito, a sensação da nova runa foi uma pontada mais intensa e dolorosa.

Henrique passou o dedo por cima da marca quando havia acabado de desenhar, como se estivesse fazendo carinho, então o clima volto. Aquele clima que Josh sentiu mais cedo na sala de treinamento quando o garoto se aproximou para sussurrar no seu ouvido, era como algo íntimo e só deles, um turbilhão se sensações. Os dois se olharam por alguns segundos, o silêncio era gritante entre os dois.

— V-Vamos logo. — Falou Josh se distanciando dele e se aproximando da moto. — Não quero voltar ao nascer do sol. — Estava voltando a se recuperar do que acabou de ter acontecido. Ainda tinha o plano de pedir para passar sem sua antiga casa.

Henrique ficou uns três segundo na mesma posição depois que o outro saiu. Quando se virou um sorriso enigmático tinha no rosto, como alguém que acaba de confirmar uma dúvida, parecia até orgulhoso.

Ele montou na moto e olhou para Josh que o encarava, o ruivo arqueou as sobrancelhas e movimentou a cabeça levemente.

— Dá pra montar? — Falou quando o outro pareceu não perceber o chamado.

Subindo na garupa ele estava bastante relutante, se lembrava do pai falando para nunca subir em uma moto por que era um transporte perigoso. Brad nunca deu ouvidos e andou na primeira oportunidade que teve, mas Josh se manteve quieto obedecendo a ordem de seu pai.

— Se segura. -

O garoto tentou agarrar os dedos nas fissuras da garupa. Rique bufou, como se estivesse lidando com uma criança.

— Se segura... — Agarrou os pulsos do garoto e o puxou, fechando os braços de Josh no abdômen dele. — ...Em mim.

O garoto enrubesceu sentindo o físico de Rique e se ajeitou, apoiando as mãos somente na cintura do outro e segurando na blusa dele com força.

— Melhor assim. — Agradeceu mentalmente por estar na garupa e ele não conseguir ver seu rosto.

— Como quiser. — Olhou por cima dos ombros rindo.

— Onde estão os capacetes? — Perguntou se dando conta do que faltava.

— Não usamos isso. Confie em mim. — O tom determinado voltou a voz dele.

Antes que Josh pudesse descer da moto e se recusar a continuar sem segurança, Henrique já havia subido o descanso e dado partida. A moto foi ganhando velocidade conforme eles partiam para rua saindo do beco.

— Vai devagar, por favor. — Pediu Josh.

A cidade estava em plena madrugada ainda permanecia iluminada, a estrada com apenas alguns carros. Rique olhou por cima dos ombros para o garoto ainda com aquele sorriso, então acelerou. A motocicleta havia dado um impulso de velocidade, cortando a rua com um barulho alto. O impulso deixou o corpo de Josh em tensão e ereto, fazendo os braços se prenderem no corpo do outro. Tinha quase certeza que acelerou de propósito.
Ele fechou os olhos para afastar o borrão rápido que era sua visão. Não gostava de velocidade e a adrenalina não o fazia bem, a falta de segurança não o deixou mais confortável. Se caíssem na certa iriam se quebrar no asfalto.

. . . . . . . . . . . . . .

O barulho de socos quebrava o silêncio do instituto na madrugada, uma respiração ofegante e alta. Brad recuperava o fôlego na sala de treinamento, estava posicionado em frente a um dos bonecos que acabou de bater.

Não conseguiu dormir aquela noite, na verdade havia tido dificuldades em dormir dês do dia em que chegou no instituto. Parecia que estava sonhando acordado, tudo que um dia foi sonho para ele tinha se tornado realidade, só não sabia dizer a si mesmo se queria permanecer sonhando.

— Não deveria treinar tanto assim. — Uma voz falou atrás dele.

Antes de se virar já reconhecia aquela voz e poderia imaginar o par de olhos azuis lhe avaliando. Brad estava ruborizado, com suor descendo da testa e a blusa colada sobre o abdômen e peitoral, estava sexy daquela maneira. Rose foi caminhando para mais perto dele, usava um pequeno roupão de seda escondendo uma lingerie azul por baixo, os cabelos soltos sobre os ombros. Ele a fitava com desejo e aprovação

— Não consegui dormir. — Disse depois de um breve momento.

— Eu percebi. — Sorriu para ele.

— O que faz aqui? — Perguntou Brad.

— Eu estava indo até a cozinha e escutei um barulho aqui. — Deu de ombros ainda o fitando. -Está tudo bem?

Na verdade não sabia se estava tudo bem. Brad passou os últimos dois anos protegendo o irmão e sendo a única coisa que ele tinha, agora tudo parecia de cabeça para baixo.

— Eu não sei, é... — Se moveu inquieto. — Até alguns dias atrás eu e Josh nem lembrávamos mais disso tudo. Tínhamos se conformado com desaparecimento de nosso pai até vocês chegarem. -

— Está nos culpando? — Ela arqueou a sobrancelha para o garoto um pouco surpresa.

— Culpando não. Agradecendo. — Concluiu.

Rose não pareceu entender e continuava calada olhando para ele com a testa franzida.

— A nossa vida era parada depois que nosso pai sumiu. Josh ficou triste, sem pista alguma, ele não tem...tinha amigos, só a mim. — Fez uma pequena pausa respirando fundo. — Vocês chegaram e nos deram um motivo para continuar caminhando sem nos lembrar totalmente do passado.

— Isso não é verdade. — Ela sorriu fraco. — Em qualquer lugar que estiver e em toda situação o passado é mais presente do que imagina, lembramos dele a todo momento.

Brad fechou os olhos e inclinou a cabeça ligeiramente cansado, seu cabelo castanho claro bagunçado denunciava o treinamento. Ela chegou mais perto do rapaz e acariciou a bochecha dele, depois movendo a mão para a nuca do garoto.

— Estou suado. — Advertiu Brad.

Ela não pareceu nenhum pouco se incomodar com o suor dele, era normal ver garotos suados e aquilo não a enjoava. Rose balançou a cabeça negativamente, estavam bastante próximos, tão próximos que com o simples movimento de cabeça os narizes roçavam.

— Acha mesmo que eu me importo com isso? — Perguntou.

Os olhos, a boca rosa e convidativa que Brad ansiava tocar no momento. Rose havia uma beleza que ele nunca havia percebido nas outras garotas. Ela sabia que era bonita, não fazia pouco caso de si mesma, conseguia tudo que queria.

Brad queria ter passado a mão pelas costas dela e sentir a seda que lhe cobria, beijar aqueles lábios que pareciam clamar por ele.

— Lembre-se, muitas vezes atitudes são melhores que palavras. — Sussurrou para o garoto.

Rose parecia estar lendo a mente dele, e se estaria não seria nenhum erro dar o primeiro passo, mas não aconteceu. Quando ele foi para frente a garota já havia se distanciado e começava a andar em direção a porta da sala.

— Melhor ir dormir. — Levantou as mãos ainda de costas e acenou.

Os passos dela se distanciava formando um som abafado no chão do instituto até desaparecer. Brad permaneceu ali por alguns minutos pensando na frase que a loira lhe disse.

. . . . . . . . . . . . . .

— Josh, tudo bem? — Perguntou Henrique.

Ele abriu os olhos lentamente e ao notar que a moto não estava mais em movimento e relaxou um pouco, mas só percebeu depois como estava abraçado ao Rique com o rosto encostado em suas costas.

— Claro que não. — Existia muita tensão na voz dele.

Soltando os braços do outro seus músculos ainda estavam tensos e a coluna totalmente ereta, a viagem retirou todo o indício de cor em seu rosto. Rique desceu da moto e encarou o garoto que permanecia paralisado em cima dela, ele lhe estendeu a mão, não estava mais sorrindo. Tinha certeza que ele acelerou de propósito, mas o seu rosto mostrava sinais de quem havia se arrependido, mas não pediu desculpas.

Josh segurou a mão dele e desceu da motocicleta sem jeito e andaram um pouco permanecendo de mãos dadas, mas não com os dedos entrelaçados. Ainda que ele tivesse de luvas finas de couro, conseguia sentir o calor da mão dele, então o soltou. Olhou para onde estava.

A igreja se erguia no meio do local, estava sombria e escura, a arquitetura não ajudava a dar um toque alegre. A aparência parecia com a de um pequeno palácio, tinha um aspecto diferente e elegante mesmo na escuridão, com apenas as luzes dos poste ao redor iluminando. A igreja havia duas torres laterais com sinos e relógios, quase todo o tinha janelas e portas, os pilares lembravam um templo modificado. De frente a construção parece ser pequena, mas quem já passou ao lado sabe que é grande. Candelária era magnífica.

— Tá...Espero que você não queira me obrigar a ajoelhar e rezar, por que não vai rolar. — Cruzou os braços.

— Normalmente quando uma pessoa fica de joelhos pra mim ela faz outra coisa. — Deu de ombros. — Quero te mostrar algo.

O olhar dele encontrou o de Josh que parecia em pânico. O rosto do menino que outrora estava sem cor agora estava bastante corado.

— Não é isso que está pensando. — Revirou os olhos — É algo lá dentro.

Ambos andaram mais para perto da entrada, mas Rique se aproximou mais da porta de madeira. Josh não saberia como ele iria entrar ali, a igreja era trancada e duvidava que os caçadores de sombras tivessem uma cópia da chave.

— Então, gênio. Vai chutar até quebrar? — Olhou em volta se certificando de quem ninguém estivesse vendo, mas lembrou que mundanos não podiam vê-los.

Enfiando a mão do bolso da calça o ruivo pegou sua estela e mostrou para o outro que parecia nervoso. Ele levou a ponta do objeto até a fechadura da igreja e fez uma runa em cima, linhas delicadas e rápidas. O som alto de algo destrancando soou dentro da igreja e Henrique abriu a porta para que Josh passasse. A runa que brilhou por segundos havia desaparecido.

— Você primeiro, beato. — Fez uma reverência para que ele pudesse entrar.

Ele passou bufando pelo outro para adentrar a igreja e lhe empurrou para o lado, apenas queria se vingar por tê-lo chamado novamente de beato, mas Rique não pareceu ofendido com o empurrão, apenas riu se divertindo com a situação.

O interior do local era ainda mais assustador, praticamente não havia luminosidade. O ar gélido impregnava nos pulmões dos garotos que começaram a respirar mais pesado com o aroma de poeira, madeira e incenso, no local fechado dava uma leve tonteira a quem não estava acostumado. Josh já viu igrejas pelo lado de fora mas nunca havia entrado em uma, não desse grande porte.
Todas as estátuas de anjos pareciam os vigiar silenciosamente junto as outras. Velas estavam espelhadas com curto espaço entre as outras em cima do altar bem detalhado. A igreja parecia ter saído do mesmo século que o instituto. Colunas grandes se erguiam sustentados quase até o teto , que por sua vez, era completamente pintado, retratando a vida de seu salvador e de sua mãe.

Josh não sabia o que sentia, nunca havia reparado em uma igreja, mas certamente essa havia uma beleza incomum e história, aspectos que ele mais prezava em arquiteturas e arte. Henrique pegou na mão do garoto da mesma maneira quando o ajudou a sair da moto, mas dessa vez o guiou mais adentro, conseguindo ver mais detalhes da estonteante matriz.

— Vem. — Falou Henrique, que puxava o rapaz com dificuldade.

Retirado de seus pensamentos por Rique ele se deu conta de que o outro estava quase o arrastando, forçando-o a andar, pois a alguns segundos atrás estava de boca aperta avaliando tudo o que conseguisse enxergar na escuridão. Eles atravessaram o corredor central da nave da igreja e subiram os degraus que os levaram para o presbitério.

— O que vai fazer? — Falava baixinho com o outro enquanto contornava o altar, a visão da igreja em cima do presbitério era linda.

Henrique voltou a soltar a mão do rapaz e apoiou um joelho ao chão, passava o dedo indicador na lateral a procura de algo que Josh não fez alguma ideia do que seria.

— Henrique? — Perguntou preocupado.

Ele pediu silêncio. Depois de uns minutos o dedo dele se afundou de leve em uma fissura. Josh o observava enquanto ele respirava em alivio. Levou a estela onde o dedo indicador estava posicionado e contornou a fissura com a ponta da estela, não era um desenho qualquer, era a runa angelical. O local onde a pedra havia contornado estava em um tom azul claro e branco, ela brilhou mais um pouco e a luz se dissipou, voltando a deixar o presbitério escuto.

— Sério? Só isso? — O tom de decepção na voz de Josh estava agudo.

O chão tremeu aos pés dos dois garotos e Henrique sorriu triunfante de seu feito, mas o outro rapaz já estava preparado para correr. Apenas não correu por que a mão de Rique envolveu o pulso dele para que não fugisse, como se soubesse o que ele iria fazer.

O altar subiu alguns centímetros do chão e se moveu para frente como se seis homens estivesse empurrando com dificuldade. Aquele som de mármore arranhando o piso liso era inconfundível e agudo, fazendo Josh cerrar os dentes com nervoso. Alguns segundos depois a igreja voltou a adormecer no silêncio e de onde o altar saiu mostrava-se em seu lugar um buraco no chão como um porão, não para ver o fundo de tão escuro que estava.

— Quer fazer as honras? — Disse a ele o olhando com um sorriso maroto, apontando para o buraco.

Josh não estava gostando nenhum pouco da ideia, era como dar um tiro no escuro, nunca saberia o que iria acertar. Estava prestes a reclamar que nenhum dos dois deveriam entrar, mas quando abriu a boca Henrique pulou com tudo para o abismo.

O coração dele pareceu ter descido pelo estômago, sentiu o calor deixar o corpo quando perdeu Rique de vista sendo entregue a escuridão, mas um estalo de alguém pousando depois de um pulo o alarmou. Luzes se acenderam no buraco e ele voltou a ver o outro que estava sorrindo. Havia uma escada um pouco inclinada perto da borda, mas não conseguiu enxergar antes.

Quando desceu viu que o local tinha paredes de blocos de pedras e chão empoeirado. Uma mesa bem escura no centro, em cima dela havia cálices dourados, carrilhões e turíbulos. No canto direito da sala em suportes haviam cabos de lâminas celestiais e outras armas, como chicote com pontas e algo parecido com um revólver personalizado para parecer mais mortífero. O lado esquerdo tinha estantes com livros tão antigos que chegavam a ser amarelados, mas o fundo foi o que lhe chamou mais a atenção, estava em toda a parede o mapa do Brasil com alguns pontos e nomes que ligavam-se a ele nos estados.

Josh voltou a olhar Henrique incrédulo e deu um soco no braço do mesmo bem forte que o fez dar dois passos para trás.

— Ai! — Ele levantou os ombros, piscando. — Por que?

— Por ter me deixado preocupado, o que eu iria falar pro pessoal caso tivesse morrido? Quem pula dentro de um buraco escuro? — Reclamou.

Massageando o braço onde levou o soco ele voltou a sorrir.

— Eu não iria morrer, não é a primeira vez que faço isso. — Deu de ombros.

Ele começou a andar contornando a mesa para o final da sala em direção ao mapa e Josh o seguiu. Os pontos não eram lugares turísticos de cada estado, mas sim outros institutos e locais do mundo das sombras. O dedo indicador de Josh passou pelo mapa áspero e parou em cima de SP, haviam dois pontos.

— Existe um instituto em SP? — Ele voltou a olhar para Rique e abaixar o dedo.

— Sim. São Paulo é como o coração dos caçadores de sombras brasileiros, lá também tem uma imensa biblioteca dos caçadores, uma das maiores do mundo.

Voltando a averiguar o mapa ele achou outro instituto em Santa Catarina, Brasília e na Bahia. Algumas das maiores matilhas de licantropos brasileiras em Minas Gerais. No Amazonas estava um ponto que deixou o garoto bastante curioso.

— Seelies? — Perguntou novamente, mas dessa vez não encarou Henrique e permaneceu o olhar no ponto. — O que é?

Ele soltou uma risadinha e dessa vez Josh o olhou, não achando a menor graça.

— Achei que soubesse o que seriam os Seelies, seu pai não contou? — Respirando fazendo uma pausa. — É uma espécie.

— Meu pai disse sobre vampiros, licantropos, feiticeiros e fadas. Não Seelies. -

— Fadas são Seelies. Todos os seres que normalmente você liga a natureza como fadas, elfos, duendes e entre outros são Seelies, o que muda é sua raça, mas são da mesma espécie. — Explicou.

O ruivo se aproximou do garoto e pegou no braço dele, fazendo o mesmo virar para si. Josh o fitou nos olhos, havia entendido sobre os Seelies, mas ainda permanecia estranho aceitar o fato de que tudo aquilo existia.

— Escuta... — Rique ajeitou sua postura. — ...Existe muita coisa de que ainda não sabe.

Ele o guiou para uma das cadeiras antigas de madeira. Josh sentou ao lado dele, depois de acomodado ele o explicou mais sobre o mundo das sombras. A Clave, que vivia em Idris e esses caçadores eram os representantes dos Nephilim. A ligação parabatai, que eram dois guerreiros caçadores de sombras, inseparáveis, íntimos como irmãos.

A conversa durou por duas horas. Josh gostava dessa parte do treinamento, ele sempre gostava do saber, mas quando o assunto era prática a coisa se complicava, ainda sentia um incômodo na omoplata de tantos modos de posicionamento que Rique lhe ensinou na tarde do dia anterior. Quando o assunto se encerrou ambos se levantaram preguiçosamente, ele sabia que ainda tinha muitas informações para adquirir, porém aquelas eram o suficiente para uma madrugada.

Josh andou para o inicio da sala onde a escada se mantinha em posição para igreja acima deles, quando colocou um pé no degrau Rique puxou o braço do garoto com calma para descer de novo.

— Espera. — Disse enfiando a mão no bolso direito da calça. — Tenho uma coisa pra você.

Quando a mão dele se liberou do tecido, na palma da mão havia uma pedra verde azulada, brilhante e linda, ela estava presa sobre duas correntes de bronze que prendiam nas pontas.

— O que é isso? — Falou Josh, não conseguindo parar de olhar a pedra.

— Uma pedra encantada. — Ele fitava o garoto, com o rosto inexpressivo. — Abençoada por uma bruxa. Todo caçador de sombras tem uma, essa é sua. Estica o braço.

Obedecendo a ordem Josh esticou o braço e Henrique levantou a manga da jaqueta do pupilo para que conseguisse ver o pulso, depois prendeu a pedra no garoto, fechando com as correntes de bronze em torno do pulso dele.

— Se é uma pedra encantada, qual é o encantamento dela? — Encarou Henrique da mesma maneira que ele o olhava.

— Compreensão. É uma coisa de que precisa no momento. — Respirou fundo. — Escolhi essa em particular por que me lembra seus olhos.

Josh fitou o chão envergonhado, os dois estarem ali sozinhos sem ninguém só deixava o garoto mais envergonhado e desconfortável.

— Vamos. — Disse Henrique quebrando o contato. — Você sobe primeiro.

. . . . . . . . . . . . . .

O céu fora da igreja ainda permanecia escuro, embora soubesse que havia passado apenas uma ou duas horas lá dentro. A rua estava silenciosa e a moto no mesmo local onde havia deixado, se os mundanos conseguissem vê-la o garoto teria certeza que não estaria no mesmo local.

Henrique subiu na moto novamente e seu cabelo estava levemente balançando com a brisa. Josh achou que seria o momento perfeito para pedir a ele que fossem na sua antiga casa buscar pertences que queria de volta. Subindo na moto atrás dele o garoto apoiou as mãos no ombro do maior que estava a sua frente e inclinou um pouco o corpo, a boca bem próxima a orelha dele.

— Sabia que você é legal? Gosto de ti. — Sussurrou com um tom doce e amigável, tentando a tática que usava com o pai para conseguir algo.

Ele virou a cabeça olhando por cima dos ombros com as sobrancelhas franzidas para Josh, pois o moreno estava bem amigável e estranho, mais amável que de costume.

— Diaspro usa esse mesmo tom de voz para me pedir algo que não aprovo... — Cruzou os braços. — O que quer?

— Queria que me levasse até minha casa. — Continuou antes que ele maliciasse. — Preciso pegar algumas coisas minhas e de Brad, por favor! -

Implorando, Rique não iria conseguir negar esse pedido, não com a expressão de cachorro abandonado que o outro fazia para tentar ele.

— Ah...Tudo bem, mas vai precisar ser rápido. — Desistiu por fim.

Aquele lindo sorriso deslumbrante abriu nos lábios de Josh, que se inclinou um pouco mais para frente e deu um beijo na bochecha do ruivo, que corou instantaneamente. Henrique estava novamente com as mãos no acelerador e um pequeno sorriso de canto do rosto, sentia as bochechas queimarem ao toque do vento frio que soprava.

— Pode repetir? — Riu. — Coisas assim vindas de um beato é raro.

Ele envolveu os braços no abdômen do maior a sua frente quando a moto começou a andar, não tinha mais vergonha de fazer aquilo.

— Ha-Ha. — Revirou os olhos. — Melhor ficar atento, eu vou te guiar dessa vez.

. . . . . . . . . . . . . .

A motocicleta foi desacelerando e o ronco do motor voltando a ser um pequeno chiado, nos minutos seguintes o silêncio havia retornado. Estavam em frente a antiga casa dos gêmeos e do seu pai, era uma casa bem simples, não havia nada de excepcional, nada comparado a uma aparência arquitetônica gótica de outro século. A casa dele era apenas algumas quadras da lapa, perto do Doce Luar.

Os dois se aproximaram da entrada que era rodeada por vasos de plantas, Josh se aproximou de um que havia muitos galhos pequenos e cheio de folhas. Ele empurrou o vaso para o lado, embaixo havia um pequeno tapete em forma de quadrado, ao retirar mostrava mais abaixo um pequeno buraco com uma chave dentro.

— Deixa assim tão exposta a chave? É tão fácil que qualquer um saberia encontrar. — Falou Rique em desaprovação que observava o garoto.

— Na verdade, é tão simples que ninguém pensaria nessa possibilidade. — Respondeu a caminho da porta.

Ele colocou a chave na fechadura e girou, abrindo para dentro e entrando na casa com Rique o seguindo. A casa havia tudo que qualquer uma outra tivesse: Cômodas, televisão, telefone, sofás e etc. Uma perfeita casa mundana.

— Estou com mal pressentimento. — Sussurrou ele para Josh.

O garoto no mesmo momento lembrou do sonho, os móveis derretendo no chão se transformando em criaturas. Ele estremeceu, o local realmente não parecia ser como o de antes, estava mais escuro e o clima parado até demais.

— Seja rápido, eu não estou muito a favor de continuar aqui. — Ele continuou a falar com Josh e retirou o cabo da lâmina celestial do bolso, como se estivesse se preparando para algo.

A situação não deixou o rapaz mais à vontade, mas mesmo assim era a única opção dele. Sem nenhum rodeio ele foi em direção ao corredor e foi em direção a seu quarto, ignorando o do pai e o do irmão, pois o último cômodo era o dele. Ao entrar tudo parecia de acordo como havia visto antes, no lugar e arrumado.

Abriu o baú e pegou dois mochilão de viagem, enchendo o primeiro com roupas, sapatos e alguns livros dos quais gostava, ele não tinha tanta coisa para levar, diferente do quarto de Brad que estava abarrotado e bagunçado. Se o irmão tivesse presente ele saberia que o mesmo iria fazer questão de levar até o próprio lixo, mas para em pensar em escolher era algo que ele não tinha tempo de se preocupar. Encheu a outra mochila de roupas do irmão e algumas bugigangas que sabia que Brad gostava, depois voltou ao corredor.

Henrique estava no começo do corredor esperando por ele ainda com o cabo na mão. Josh foi rápido como ele havia pedido, e de qualquer maneira não queria passar tanto tempo dentro da casa, não queria se apegar muito ao local a ponto de não querer voltar pro instituto. Quase perto do quarto do seu pai que sempre vivia fechado desde que sumiu ele levantou o olhar. Deu alguns passos para trás como tivesse tomado um choque e ficou paralisado.

A porta estava um pouco entreaberta, uma pequena fissura era visível e nela havia um rosto branco com cicatrizes, não eram como as finas marcas de runas, mas sim de uma lâmina que brutalmente havia cortado o rosto. A criatura não havia olhos, era apenas dois buracos onde deveriam estar os globos oculares, a boca estava em uma linha reta igualmente pálida e rachada.

O ruivo em um piscar de olhos já estava ao lado de Josh depois de perceber como ele estava horrorizado. O garoto olhou para o maior ao seu lado, mas quando voltou o olhar para a porta o rosto branco não estava mais ali.

— Você abriu a porta? — Foi a única coisa que ele conseguiu dizer.

— Não, por que? — Respondeu a Josh, segurando o cabo com força na mão.

Ele engoliu em seco, dá última vez que saiu de casa sabia que a porta estava devidamente fechada.

— Eu e Brad nunca mais entramos ou abrimos essa porta depois que ele desapareceu. — A voz dele parecia morrer na garganta conforme ia soltando o ar dos pulmões. — Eu vi algo lá dentro.

Henrique fechou os olhos brevemente, a suspeita dele confirmada, havia mesmo algo de errado na casa. A boca dele mexeu em um nome que Josh não conseguiu entender, mas depois que a lâmina celestial foi invocada e brilhou na mão dele sabia o que iria vir a seguir.

Eles iriam entrar no quarto de Jefferson.

Notas finais
Terceiro capítulo postado amores