Reloaded

1 Capítulo 1


Ao disparar uma bala, essa bala viaja através do espaço e atinge um destino. Não necessariamente o alvo desejado, mas sempre atinge algo. Algumas pessoas terminam o serviço com um tiro, outras disparam, disparam e disparam, mas nunca acertam. Será que é uma questão de talento? Será que é sorte? Eu não sei dizer qual a razão, mas... arrisco dizer que errei diversas vezes. Quanto mais errava, mais desesperado e nervoso ficava, causando ainda mais erros.

E assim atingi o fim da vida. Não tendo acertado uma única vez. Por mais que meus olhos estivessem sempre travados em objetivos... ou talvez tenha sido justo ter visto nada além do objetivo que causou isso. Agora é tarde para desculpas, para buscar razões. Mas por mais que já tenha morrido, meu tempo não parou, então acabo sem ter o que fazer. Flutuando eternamente nas trevas, minha mente só consegue voltar a pensar sobre 'como tudo ficou assim?'

Não existem estrelas, não há Satã ou Deus, apenas... um oceano vazio. Sequer sou capaz de dizer adequadamente se estou flutando a esmo ou se estou estático, a ausência de pontos de referências me faz incapaz de detectar locomoção. Será que isso continuará por toda a eternidade? Mas é possível que com o passar do tempo eu simplesmente desista de pensar, como já ocorreu com outras formas de vida.

De repente, um ponto de referência. Em pé ao meu lado, uma figura sorridente veste um terno branco. De alguma forma, eu estou deitado vários centímetros acima de onde os pés da criatura se encontram. Não há uma gravidade ou física funcionando nesse local, aparentemente. Apesar disso, me sinto muito desconfortável estando perpendicular a essa pessoa, então giro meu corpo no vácuo, a fim de assumir a mesma orientação que... ele? Ou seria ela?

Por mais que tivesse tentado várias vezes até então, meu corpo não havia se movido um milímetro sequer. Não por uma razão como estar pesado demais ou estar dormente, eu arrisco dizer que até esse momento eu não tinha um corpo, apenas minha consciência. Meus olhos se encontram com os da figura que, observando-a adequadamente agora, possui uma aparência repleta de aspectos chamativos. Começando pelos olhos que acabei de mencionar: eles exibem apenas uma infinitude, um azul como o do mar, como uma safira. Segundos depois, são verdes como uma selva, então marrons como a terra, brancos como neve. A cada tique-toque do relógio, a natureza da Terra como um todo se reflete nos olhos dessa pessoa, paisagem por paisagem.

Os fios de cabelo que deveriam cair de sua cabeça são flamas azuis, mas não apenas aparentam não emitir calor, como também não devem queimar, pois apesar de estarem em contato direto com o terno que a pessoa veste, o tecido não pega fogo. Como se fosse uma mera estética ou efeitos especiais, essa pessoa exibe chamas no local de tecido capilar e reflexos da natureza ao invés de uma pupila.

“Bom dia,” ela diz, me oferecendo sua mão e exibindo um sorriso brilhante.

“...Hã?” Acidentalmente, eu reajo a tudo que tem acontecido, mas, devido ao meu estado físico, não me era permitido fazer qualquer comentário. Não possuía um corpo, nenhum som se propagava até então, não consigo me culpar por não responder a saudação adequadamente.

“É, eu entendo, ficaria confusa também. Sente-se, vou tentar explicar da melhor forma que consigo,” eu gostaria de dizer 'sentar aonde?' mas antes de ter a chance, a pessoa dobra seus joelhos em pleno ar, mas claramente acaba de ter se recostado em alguma coisa. Ainda perplexo, mas obedecendo a 'lógica' do local, faço o mesmo gesto e obtenho o mesmo resultado. Há apenas trevas, sem dúvida, mas bastou eu desejar 'sentar' que, como se fosse mágica, o espaço tratou como se eu possuísse as superfícies adequadas sob meu corpo. “Escolha entre 'a) Quem é você?'; 'b) Onde estou?'; 'c) O que está acontecendo?;' e 'd) Beijar Sinai profundamente,' por favor.

“...Que tipo de jogo oferece d) logo no primeiro encontro?” Suspiro, balançando minha cabeça.

“Acho que jogamos jogos diferentes,” levando sua mão a boca e colocando o indicador contra os lábios, ela diz, e logo depois deixa uma risadinha escapar.

“Que tipo de purgatório é esse que funciona como um simulador de namoro?”

“Essa não era uma opção...” Ela enche as bochechas de ar e me encara, um pouco irritada, mas diria que apenas de brincadeira. “Acho que a melhor forma de explicar é por onde você está e o que está acontecendo. Você sabia que existe céu e inferno?”

“...Bem, sou familiarizado com o conceito, mas não particularmente crente...”

“Hm, compreensível. Esse céu e inferno são paralelos à Terra. E não funcionam num sistema de 'os bons vão pro céu, os maus pro inferno,' eles são apenas mundos diferentes onde seres diferentes residem. A Terra num geral está excluída da festa, por escolha dos próprios humanos, mas entre o céu e o inferno, a batalha é quase constante.”

“Você quer dizer uma eterna guerra entre anjos e demônios, Deus e Lúcifer? É outro conceito familiar.”

“Não é exatamente o que você está pensando... Digamos que são dois lutadores que se acham bem fortes, mas de vez em quando perdem pro outro, e esse sentimento faz com que eles queiram o outro abaixo deles... Então vira uma rivalidade, são inimigos, mas sem o outro estariam muito infelizes.”

“Hm...” Eu entrei na conversa dela e acabei esquecendo que não estou recebendo respostas sobre a situação atual.

“De qualquer forma! Falar sobre céu e inferno tinha pouco a ver, acho que perdi o foco, desculpe-me,” não tenho muitos argumentos para justificar esse comentário que farei, mas ela parece estar muito perdida quanto ao que está fazendo. “Você está contente com a vida que viveu?”

“...O assunto não mudou bastante de repente?”

“Eu disse que perdi o foco, até pedi desculpas.”

“...Mas não. Diria que... de forma alguma o que fiz na vida foi suficiente.”

“Está decepcionado? Desapontado? Reclamando na internet que esse jogo não tinha método de vencer nem detonado?”

“...Se você for alguma espécie de avatar de Deus ou algo assim eu não vou saber reagir.”

“Por quê?!” Será que ela é? Essa reação foi sincera e preocupada demais.

“As suas expressões e o jeito de falar... Me sinto com um amigo qualquer, não com um ser divino.”

“...Isso é um sinal que quer escolher 'd)'?

“Continua a explicação... Sinal? Foi assim que se chamou, não foi?”

“Não, é Sinai. E ao menos diga que sou uma amiga qualquer...” Ela desvia o olhar, um pouco envergonhada. Em minha defesa, considerei a possibilidade, mas na hora de falar apostei na chance de 50%. “Se você pudesse tentar de novo... viveria melhor?”

“...” Os olhos dela quando fazendo essa pergunta mostraram apenas a mim. Não o mundo, mas apenas minha reflexão, como tivessem se tornado um espelho.

“Não simplesmente viver de novo... Viver a sua própria vida outra vez, com todas as memórias de agora. Sob essas condições, viveria melhor?”

“...Sabendo tudo que sei... e dando de cara com os mesmos eventos de novo... Não é óbvio que vou viver melhor?”

“...Dentre quatro alternativas, ao saber que uma está errada, tem certeza que vai acertar a pergunta?” Nesse momento, ao invés da minha imagem, os olhos delas refletiram as trevas ao nosso redor. Um olhar infinitamente frio e distante, mas com uma leve melancolia também perceptível em seu interior.

“...Quando você coloca assim.... Mas existem coisas que eu sei que não poderiam ser piores, erros que de forma alguma tem como piorar.”

“Será que existe algo assim realmente? Um horror que não pode ser pior?” Como um par de buracos negros, os olhos dela sugam toda a luz. Num sentido metafórico, é claro, no local que estamos realmente não há luz. Ou não. Como consigo ver ela e ela me vê, existe uma fonte. Mas sequer preciso buscar, está literalmente na minha frente: o cabelo dela.

“...”

“Você só vai ter uma chance. Se sua situação piorar, não vai ter a chance de pedir pra voltar pra vida anterior, muito menos de tentar uma terceira vez.”

“...Mas qual o sentido em me deixar tentar de novo?”

“Não está disposto a aceitar sem saber?” O sorriso que eu previamente via como caloroso e amigável, agora parece mostrar uma crueldade sádica. Mas... ainda assim...

“Se meus erros tivessem destruído a minha vida, talvez... talvez eu não aceitasse. Mas se eu puder salvar outras pessoas, se ao menos conseguir salvar essas poucas vidas...!” Eu não tenho intenção de tentar ser um herói ou guardião da moral. Falando com sinceridade, eu sou apenas um homem arrependido. Não de ter afundado minha vida, mas de ter arrastado outros comigo... alguns que não se salvaram, outros que morri antes de ver se um dia se salvarão. Eu quero corrigir essas escolhas ao menos.

“...Posso tomar isso como você assinando o contrato?”

“Mesmo que a minha vida piore, eu quero tentar arrumá-la. E a das pessoas que viveram comigo também. Por favor, Sinai, me dê essa chance,” eu encaro o abismo dos olhos dela determinado a mergulhar nas trevas. Mas bastando um piscar de olhos dela após minhas palavras, o cenário exibido mudou. Uma flor. Pétalas rosadas e um amarelo como o sol no centro. De todas as imagens até agora, essa é a mais similar a um olho de verdade

“Sem problemas. De hoje em diante, você é o Reloaded de Sinai!” Ela se ergue dramaticamente, a flor nos olhos dela incendiando-se, deixando visíveis apenas intensas chamas rúbras.

Ao atirar até o fim de um pente, ele é descartado e um novo é colocado na arma. Onde irão parar essas balas? Independente de onde as outras acertaram, de quantos erros ocorreram, após recarregar, uma nova séries de tentativas nasce. Tudo que resta é torcer que a experiência do pente anterior sirva para aumentar a precisão do atual. Se com esse pente a situação não se resolver, não haverá uma segunda chance de recarregar...

Abro meus olhos. Meu corpo se levanta. Essa liberdade de movimento é muito agradável, faz quanto tempo que não consigo me mover assim? O que me leva a pensar, quanto tempo será que passei flutuando naquele vácuo? A conversa com Sinai não durou muito, acho, mas quanto ao período flutuando, não faço ideia.

Sinai. O vácuo. Liberdade de movimento. Logo ao acordar nada fazia muito sentido, mas todos os fatos que acabaram (?) de ocorrer retornam e percorrem meu corpo como eletricidade. Eu estou vivo de novo. Eu tenho um corpo funcional de novo. Eu existo no mundo real outra vez.

“Mundo... real,” como se minha percepção estivesse voltando um passo por vez, eu olho ao me redor.

Uma pequena cama, um cobertor azul com um super-herói nostálgico. Ao lado da cama, um pequeno criado-mudo. 'Não tem porque ter um grande, uma criança não tem tudo isso de pertences,' ela disse. Apesar disso, o armário na outra extremidade do quarto não era pequeno, já que 'bem, você vai crescer um dia.'

'Eu vou crescer um dia...' olhando pras minhas mãos, sussurro. Com essas mãos talvez eu não consiga nem segurar uma bola de tênis direito. Com as duas, sem dúvida, mas uma só não conseguiria. Se houvesse outro criado-mudo para ser colocado em cima do meu, ele seria mais alto que eu. Esse corpo é bastante... compacto. Diferente do que eu estou acostumado, com certeza. Olhando desse ponto de vista, meu tempo como criança foi tão curto, terminou tão rápido.

Criança. Eu realmente voltei a ser uma criança. Gostaria de correr ao banheiro e me olhar no espelho, mas eu lembro de nunca ter tido altura pra me ver no espelho, apenas alguns anos depois começaria a me desenvolver verticalmente. Minha mãe era alta e eu demorei até começar a me desenvolver. Se me lembro bem, acho que a própria caçoava de mim por causa da minha altura.

Eu estou relatando tudo com calma e normalidade, mas desde que me dei conta da realidade ao meu redor, minhas pernas têm tremido. Meu coração bate forte, pesado, uma mistura de ansiedade e medo. Mesmo temeroso e quase infartando, eu consigo andar um passo de cada vez, lentamente caminhando. Pra fora do meu quarto, pelo corredor, pro interior da cozinha. E lá está ela.

“Mãe.”

“Hm? Bom dia,” ela acena, sorridentemente tomando uma xícara de café.

“Mãe.”

“Aconteceu alguma coisa?” Ela não consegue entender. Não teria como entender. Pra ela, a última vez que me viu foi oito ou dez horas atrás, não teria porque estar sentindo qualquer coisa especial.

“B-..Bãe....!!” Lágrimas. Ranho também escorre do meu nariz, meus joelhos finalmente perdem a força. Uma situação perfeita pra comparar a uma represa estourando. Seja lá o que falei depois, nem eu nem minha mãe fomos capaz de entender. É mais que provável que eu só tenha balbuciado por alguns longos segundos.

“O que foi? Mijou na cama?” Ela solta a caneca e vem em minha direção, me abraçando forte. Não tem como ela saber, não há como ela saber. Mas ainda assim, a ação dela é exatamente o que eu queria que ela fizesse. Apesar de que com esses braços curtos eu sequer ser capaz de fazer minhas mãos se tocarem nas costas dela, eu tento devolver o abraço.

Não foi pra isso que voltei. Não foi pensando nisso que voltei. Mas. Obrigado, Sinai. Não direi que desse momento já podia morrer de novo que estaria contente, mas por um segundo eu admito ter pensado isso. Retornar no tempo... é algo tão cruel. A saudade existe apenas no meu lado.

“Por acaso tudo isso é por causa do seu aniversário? Que bebê, aos onze espero que deixe de chorar tanto, hein? Quer prometer pra mamãe que não vai chorar?”

“...Eu acho que não conseguiria,” principalmente porque na minha vida passada eu não fui capaz. Eu derramei lágrimas até o último momento.

“Não fala assim, tentar é a parte mais importante!” Quem me dera... Mas ainda assim, eu...

“Então vou tentar!”

“Boa atitude! Esses onze anos já estão mostrando bons sinais!” Minha mãe ri, orgulhosa de mim. Me chamando pra comer o café da manhã, ela me solta. Antes de se distanciar, ela olha bem pro meu rosto. Como personagem eu não saberia, mas como narrador sou capaz de dizer que ela olhava pro meu rosto pensando em como estou ficando velho. 'Logo vai ser um adulto, logo vai ser mais alto que eu, logo vai ser um grande homem,' ela pensa.

Minha mãe é quinze anos mais velha que eu. Você concluiria normalmente que foi uma gravidez adolescente, mas na verdade foi uma adoção. Quando ela tinha 24, adotou o pequeno eu de 9 anos. Mas como eu fui uma criança encontrada, sequer se sabe meu aniversário e idade real direito, a idade é uma estipulação e aniversário... é a data que ela me adotou. Então ao mesmo tempo que completo onze anos, é meu segundo aniversário com ela.

E apesar que desse ponto de vista não ser válido, do ponto de vista do futuro do qual eu vim... meu aniversário e o aniversário de morte da minha mãe também eram na mesma data. O segundo aniversário que celebrei foi o último aniversário em que tive a chance de ficar feliz. Mas pra cada um passo que avancei em direção à felicidade durante esse dia, fui arremessado e arrastado no chão cinco passos no sentido oposto ao final dele. Se hoje é meu aniversário de onze anos... deve ser o último dia de vida da minha mãe.

“Você esqueceu por que voltou pra cá por acaso?” Sentada à mesa, exatamente onde minha mãe estava sentada antes de vir me abraçar, Sinai mostra sua forma.

“...” Eu troco olhares entre Sinai e minha mãe, esperando minha mãe mostrar alguma reação.

“Ela não vai dizer algo. Nem se você me responder.”

“Então você quer dizer que... existe uma escolha que vai permitir salvar minha mãe?”

“Se você lembra dos eventos de hoje, deve ser capaz de perceber onde o dia desandou. Ou onde começou a desandar. Depende de você,” os olhos dela mostram algo como névoa ou fumaça, não consigo ver direito da distância.

“Entendido. Posso dizer uma coisa estranha?”

“Se me perguntar, quem diz muitas coisas estranhas aqui sou eu, então vá em frente.”

“Obrigado, Sinai.”

“...É cedo pra me agradecer,” ela fecha os olhos, exibindo um semblante melancólico. Mas ainda assim, há um frágil sorriso em seus lábios. Sem abrir os olhos, Sinai desaparece, como se nunca tivesse estado lá.

“Está pronto pro super passeio de hoje? Eu planejei uma rota que vai permitir visitar todos os lugares que você falou querer ir um dia! Com exceção de qualquer lugar fora de um raio de 10km de casa,” Na limitação imposta por ela, os lugares de meu interesse são bastante filtrados, mas pra mim não foi problema na outra vida. Mesmo com esse 'limite,' esse dia havia sido o melhor dia da minha outra vida, temporariamente.

“Que tal... ir no parque de diversões? Aquele parque recente...” Se eu me lembro, eu tinha interesse nesse lugar, mas como as entradas eram caras, eu nunca falei pra ela. Por essa razão, ela não adicionou ao percurso dela. Logo, se eu conseguir passar o dia lá com ela, o destino vai ser evitado.

“Hm, queria ir lá também? Sem problema, vamos então! Mas só por ser seu aniversário, em qualquer outra dia do ano eu não levo ordens suas, ok?”

“Ok!” Eu sorrio. Obrigado por me ouvir, mãe.

Com esse primeiro passo, já rumamos para um bom começo. Tenho quase certeza que ao salvar minha mãe... que basta salvar minha mãe pra já corrigir várias escolhas erradas ou que deram errado. Se a primeira peça nunca cair, quem sabe nenhuma outra cai. Acreditando nisso, eu acompanho o passar do tempo com um coração cheio de esperança.

“Que lugar grande... Acho que considerando as filas, é possível que até o fim do dia não tenhamos visitado todos os brinquedos...” Minha mãe diz, olhando o mapa de atrações do parque.

“Isso não é bom? Vamos passar o dia brincando e ainda não vai ser suficiente!” Custe o que custar, temos que passar o dia todo aqui.

“Crianças e adultos funcionam em lógicas diferentes, acho que não vamos nos entender nesse assunto,” brincando com meu cabelo, ela ri um pouco. 'Bem, mas não temos tempo a perder, de uma forma ou de outra,' me levando pela mão, ela caminha parque adentro.

Eu nunca tive a chance de não saber que eu era adotado. Começando pelos anos que passei sozinho antes de minha mãe aparecer em minha vida. Segundo que minha mãe é alta e forte, enquanto eu fui pequeno e fraco por grande parte da minha vida. Terceiro, enquanto eu tenho cabelo ruivo e curto, ela é morena e seu cabelo é longo e sedoso. Não que uma criança fosse entender de genética tão profundamente, mas acho que sempre tive a noção de que 'essa mulher é muito diferente de mim, ela não é minha mãe de verdade.' Mas quando cresci, com ela já morta, me perguntava o significado de 'de verdade.' Uma mãe que engravida, uma mãe que adota. Uma mãe que deu a luz não necessariamente ama o filho que teve, mesmo sendo uma 'mãe de verdade,' a fonte sendo o fato de eu ter sido abandonado. Enquanto minha mãe adotiva, uma 'falsa mãe,' em dois anos, fez tudo que podia pra me fazer feliz.

A verdade é decidida pelo sangue ou pelo contrato? Eu não sei o que o mundo decide, mas eu decidi que a minha mãe de verdade é essa mulher. Eu só queria ter tido a chance de dizer a ela isso. Assim que penso isso, as palavras que Sinai disse algumas horas atrás me atingem novamente. 'Por que voltou para cá?'

No momento, nós dois estávamos na fila para a roda-gigante. Como dava uma boa vista do parque todo, era uma famosa primeira escolha para o público, então a fila era bastante grande. Em cada cabine entravam cinco pessoas e, para optimizar o tempo e espaço, eles faziam cinco entrarem em cada carro, mesmo que não fossem um grupo de cinco pessoas que se conhecessem. Alguns casais ficavam bastante frustrados com isso, mas qualquer pessoa razoavelmente sã entenderia as razões dos organizadores do parque, que estariam gastando um espaço para cinco com duas pessoas apenas, sendo que há uma fila quilométrica se formando frente ao brinquedo,

Vendo algumas discussões ocorrerem por causa disso, eu temi acabar subindo em um carro separado do de minha mãe, mas no final entramos no mesmo. Juntos conosco, um casal que estava louco pra ter relações físicas dentro da cabine, mas o olhar opressivo de minha mãe e da velha senhora que era a quinta membra impediram-nos. Como criança talvez me surpreendesse, mas como carrego a mente de adulto, posso dizer que... já vi coisas piores.

Descemos da roda-gigante após longos minutos de uma atmosfera pesada, mas, por alguma razão, no momento que saiu do campo de visão do casal, minha mãe gargalhou. No fundo, ela não se importaria de me deixar ver o casal se beijando, o que ela queria de verdade era ficar no caminho de pessoas com vidas amorosas ativas. Em certo sentido, talvez minha mãe não fosse tão adulta quanto eu imaginava ela. No final das contas, ela tem apenas 26 anos.

“Mãe.”

“...Vai chorar de novo? Não aqui, por favor,” ela olha pros lados e vê as dezenas de pessoas na volta, seria muito embaraçoso fazer uma cena num local assim.

“Eu te amo. Pra todos os efeitos, pra qualquer pessoa que me perguntar, você é minha mãe de verdade,” eu não vou esquecer das palavras de Sinai, eu não vou cometer os erros de antes.

“...Que foi isso? Falando coisas nada... criançudas...” Os lábios dela tremem e lágrimas escorrem dos olhos dela. Eu acho que jamais esperaria essa reação. Não passamos tanto tempo juntos na minha outra vida, mas... a única expressão dela que conhecia era o sorriso dela. Me zombando, me animando, brincando comigo, ela sempre mostrava um sorriso. Se um dia estivesse triste, ao me ver, ela abriria um sorriso. Como personagem, talvez eu pensasse que ela não queria mostrar tristeza ou angústia na minha frente, mas como narrador eu consigo entender. Não era querer esconder do filho o lado fraco dela. Era 'ao ver o filho, ela supera qualquer barreira' e por isso se tornava capaz de sorrir. “Eu vou precisar... banheiro, vamos procurar... minha maquiagem...”

Sequer terminando as frases, ela pega minha mão e me conduz, buscando onde seria o toalete/banheiro do parque. Ela estava tão desorientada mentalmente que nem se deu conta que podia buscar no mapa que recebemos na entrada. Quando encontramos o toalete que queríamos, já havia um borrão preto ao redor dos olhos dela. 'Ah, não acredito que vou ter que mostrar meu rosto de verdade em público...' ouvi ela dizer enquanto entrava.

Talvez aos 11 anos ainda não seja problema um garoto entrar no banheiro feminino acompanhando sua mãe, mas considerando minha idade interna, eu não me senti confortável. Ao dizer que esperaria do lado de fora, ela me olhou por alguns segundos 'Não sei o que sentir quanto a você não sentir mais que pode entrar sem problema... mas tudo bem, só não saia daí.'

Quanto tempo será que ela poderia levar? Nada além de alguns poucos minutos, não tenho dúvida. Enquanto eu aguardava, vários gatinhos passam correndo frente ao local em que estava. Gatos bem jovens, não passavam de alguns poucos meses, possivelmente haviam acabado de adquirir visão. Vindo atrás dos gatinhos, uma garota com rosto vermelho de exaustão, tentando correr, mas já estava além do limite de seu fôlego.

“Por favor... alguém... pega eles por mim...” Entre profundas baforadas tentando recuperar-se, ela suplica. E quase ao mesmo tempo que ela faz seu pedido, uma voz anuncia algo nos alto-falantes próximos ao local. Eu tive a sorte de ouvir a voz dela antes dela ser censurada por seja lá qual foi o anúncio obnóxio, mas o mesmo não pode ser dito das pessoas na volta.

E por alguma razão, talvez relacionado ao anúncio que acaba de ser feito, o movimento humano fica mais intenso, uma multidão começa a se formar. 'Alguma atração? Algo vai ocorrer aqui?' Eu penso, observando a situação. Com tudo isso de pessoas, com a atenção dedicada a alguma coisa... Gatos infantes... Não é preciso muito esforço pra isso acabar mal. A minha atitude pra essa segunda chance é fazer as coisas direito. Mais rápido do que posso dizer 'até parece que vou só assistir,' eu corro atrás dos gatos.

Como se esperaria de gatos, ao verem alguém correndo, eles vão correr também, mas esses pequenos tem as pernas curtas, consigo vencer eles na corrida. Pelo que quero dizer, consigo vencer um. Gastando toda minha fibra, gritando enquanto corro e me jogo no chão, eu capturo um. Mas isso foi suficiente pra derrubar um dominó. Alguém me viu. Ao me ver, e ao ver o gato, notaram os outros correndo pelo chão. E, uma pessoa de cada vez, foi aumentando a quantidade de pessoas caçando os gatos. Algumas não se jogavam ao chão, mas ao menos abriam caminho, ou apontavam 'um seguiu por ali!'

Capturado pela adrenalina do momento, eu me distanciei do toalete, e não foi pouco. E sequer dei atenção para onde estava indo, me perdi completamente. Quem carregava o mapa era minha mãe... Que situação. Mas eu tenho um ponto de referência, o local onde havia começado o evento em que as pessoas se juntaram. Não sei onde era, mas lembrando como eram as bancas e atrações ao redor, acredito que consigo me dar conta da minha localização novamente.

No final das contas, eu capturei dois gatos e outras pessoas pegaram os outros. A garota trouxe uma caixa de papelão e colocou todos eles nela. Aparentemente, eles viraram a caixa em que estavam antes e escaparam, resultando em toda essa situação. Ela agradeceu a todos e retornou para o local de onde veio. Fiquei curioso quanto ao que poderia ser a razão pra alguém ter uma caixa de gatinhos num parque de diversões, mas ela parecia estar com pressa, não cheguei a perguntar.

Lembrando então de que devia voltar ao toalete, tentei traçar o caminho de retorno. Mas, não intencionalmente, acabei por me distanciar ainda mais do local ao qual devia retornar. E, falando como narrador, minha mãe, que já havia saído dos toaletes também cansou de esperar que eu retornasse, e saiu me buscando. Cada um de nós indo para locais diferentes, um clássico caso de criança perdida.

Mas desde que eu não comece a chorar, ninguém vai se dar conta que sou uma criança perdida. Posso ser pequeno e estar andando por aí olhando de um lado ao outro constantemente, mas desde que eu não chore, não sou uma criança perdida. Se fosse eu aos onze anos, estaria chorando sem dúvida. Mas perder ela de vista por alguns minutos é nada comparado a ter perdido ela pra sempre, o meu coração que veio do futuro consegue aguentar.

Depois de alguns minutos, tomo ciência que devo estar seguindo o caminho errado e retorno pelo caminho que vim, 'certamente, se for na direção oposta, vou ir ao lugar certo,' penso. Mas de um momento ao outro, as multidões se tornaram mais difíceis de atravessar, as pessoas parecem estar paralisadas. Chego a ter que empurrar alguns adultos para abrir caminho, como se eles fossem blocos de pedra bloqueando o caminho.

Dentro dessa multidão estática que empaca meu caminho, um braço estende-se e me puxa. Não deveria haver como eu passar por entre todas essas pessoas assim, mas como quando alguém tenta pegar o sabonete no banho, eu simplesmente escorrego por entre os corpos. 'Mãe!' eu penso, mas ao sair de dentro do labirinto de corpos humanos, a pessoa me puxando revela-se como Sinai.

“Ah... desculpa, oi...” Os olhos dela mostram as trevas que mostraram anteriormente. A expressão dela é séria, mas não como se estivesse irritada... apenas mantendo uma cara de pôquer, diria. Mesmo assim, me senti amedrontado e achei que devia pedir desculpas.

“Não é problema pra mim, nada pra se desculpar,” ela me dá as costas, mas não solta meu pulso. Ela me puxa, me puxa e nos distanciamos cada vez mais das pessoas. Não deveria ser possível, mas não é a primeira coisa impossível que ela faz. Os nossos arredores somem, uma névoa nos cerca, apenas consigo sentir o chão sob meus pés e escutar o som de grama sendo pisoteada. 'Havia realmente um jardim dentro parque?' questiono-me.

“Sinai? Isso é algum atalho pra minha mãe?”

“Sim,” como imaginei. Sem falar mais nada, apenas continuei a ser guiado por ela. Para até o atalho levar tanto tempo, realmente fomos parar longe um do outro.

Cercados por névoa, num gramado bastante úmido, eu e Sinai. Ela cessa de andar e solta meu braço. Ainda dentro da névoa, ainda nesse espaço que sequer parece parte do mundo real, Sinai e eu. Eu olho para ela confuso, e ela encontra o meu olhar com olhos que refletem chuva. Não uma tempestade, não uma torrente, uma chuva fraca ao ponto de ser triste.

“Hã?” Eu não entendo, não teria como entender. Mas nesse momento, meu coração já estava mais pesado que o habitual.

A névoa se dispersa. Sem nenhuma corrente de vento, sem mudança de calor, ela desaparece. Ou teria o cabelo de Sinai alterado a umidade e... e... por causa da névoa eu não tinha visto, mas essa umidade... não é cerração, mas... meus tênis e um pouco das minhas pernas tem gotas desse líquido. À minha frente, na área antes coberta pela densa névoa, uma trilha desse mesmo líquido, uma quantidade muito maior do que o caminho que andamos até agora.

Uma poça reluzente de líquido rubro. No centro da poça, um corpo... ou talvez seja melhor dizer sobras de um corpo. Pedaços do intestino espalhados ao redor do abdômen, ossos expostos em diversos pontos do corpo, especialmente nas pernas. A única porção intacta é o rosto. Respeito? Falta de carne pra ser aproveitada? Sequer assumo que foi um assassinato, isso sem dúvida é o ataque de um animal selvagem.

“Cronica... Moira... Ela anda por aí com vários nomes, mas ela é a deusa do destino,” não tem nenhum cheiro. É como se eu não estivesse realmente lá, como se eu pudesse ver, mas ela na verdade existisse em outra camada, outra realidade. “Se alguém que estava destinado a tropeçar para de andar pra sempre, ela faz com que alguém dê uma rasteira nessa pessoa. Ela é esse tipo de deusa.”

“...” Minha boca se move, mas palavras não saem. Assim como minhas palavras perderam força, eu sinto que meu corpo também perde, gradualmente. Como se eu estivesse voltando para aquele vácuo, para a forma em que eu era apenas uma consciência.

“Mesmo que alguém evite um destino, outro tomará o lugar. 'Outro' num sentido meramente ilustrativo, pois ela apenas faz uso de um método diferente para a mesma finalidade.”

“...” Eu quero fazer uma pergunta, eu quero gritar, eu quero vomitar. Mas meu corpo não é sólido. Ou ao menos não mais sinto ele como sólido.

“ 'Então minha mãe sempre vai morrer?' você provavelmente quer perguntar isso. A resposta é... é... infelizmente, se tanto na primeira tentativa quanto na segunda foi o que ocorreu, esse é o destino dela. Mas... existe a possibilidade que esse seja um evento necessário para sua vida. Você sabe melhor que eu, depois de perder sua mãe, o que aconteceu? Quantas escolhas você teve que fazer, quantas pessoas conheceu?”

“...!” Ouvindo as palavras dela, retomo controle do meu corpo, o processo de desaparecer é interrompido.

“Não desista ainda. Esse evento foi irreparável, mas você disse que queria salvar várias pessoas. Não desista delas... por favor...” Ela fecha seus olhos. Sinto que ela queria esconder a chuva de réquiem refletida no interior dos olhos dela, já que aquela visão tinha o sentimento oposto às palavras dela.

“Sinai... O que levou ela...?”

“Na sua vida passada o culpado nunca foi encontrado, correto? Porque tanto na última vez quanto agora não foi um ser 'desse mundo.'”

“...Como?” Eu passei boa parte da minha outra vida esperando notícias sobre esse caso. Até que ele foi para o arquivo morto, então um dia revivido, apenas para ser arquivado novamente.

“Entre demônios e anjos há uma disputa de superioridade... Sua mãe foi usada como material pra uma partida. Eu não sei dizer quem você deve culpar... os jogadores são Deus e Lúcifer, mas posso dizer que quem criou as regras do jogo, quem puxa os dedos dos jogadores e faz eles moverem peças... é Cronica.”

“...Quem matou ela? Céu ou inferno?” Estou grato por estar no limiar de existir e não existir. Se eu tivesse um pouco mais de forma, não conseguiria formar frases, nem sequer ouviria tudo que Sinai está me explicando.

“...Na primeira vez, um anjo. Dessa vez, um demônio. O mesmo final para você e para ela, mas a sua escolha casual mudou para quem Cronica deu pontos.”

“Não. Não foi a mesma coisa. Numa chance eu nunca pude dizer o que sentia por ela, mas passei o dia todo me divertindo com ela. Dessa vez eu pude expressar minha gratidão, mas mal chegamos ao entardecer juntos. Sinai... qual escolha foi a melhor?”

“Eu não tenho as qualificações pra responder.”

“...Por que você me trouxe de volta, Sinai?”

“Não vai continuar vivendo sem saber?”

“Eu só quero saber que você não tira prazer de ver um desastre acontecer duas vezes e por isso me deu uma chance.”

“...Eu pessoalmente odeio Cronica. E quero alguém que seja capaz de frustrar ela.”

“Que mesquinho de sua parte.”

“Eu nunca disse que era uma pessoa muito boa,” ela sorri. Não sei porque ela sorriria ao dizer uma coisa dessas, mas imagino que seja pra não parecer muito triste. Auto-depreciação escapa melhor quando dita com um sorriso...

“...Reviver minha vida do ponto que minha mãe morreu... Quer dizer que...”

“Se lembrou de algo importante que está por vir a seguir?”

“Não exatamente 'a seguir'... Em cinco anos... uma pessoa muito importante vai aparecer na minha vida. No caso da minha mãe posso ter falhado, mas essa pessoa eu vou salvar de qualquer forma!”

“Cinco anos... Eu vou aproveitar e dizer que não sei com quantos anos você morreu. Por isso vou pedir que nunca me revele.”

“Hm? Alguma razão para isso?”

“Se eu souber que logo vai chegar sua hora... Eu vou ficar muito triste. Então prefiro que chegue de surpresa, para eu só ficar triste depois de ocorrer.”

“...Não acha que está exagerando? Mal nos conhecemos, não sei se consigo dar credibilidade pra alguém dizendo uma coisa dessas sendo que somos estranhos ainda.”

“Pelo resto da sua vida vamos ser parceiros, eu estou avisando previamente. Você já disse que eu falo como uma amiga, é uma questão de tempo até... sermos amigos de verdade.”

“...Você tem ciência de como sua personalidade viaja entre extremos?”

“Eu sou séria sobre separar trabalho e prazer. Digo, lazer.”

“...Obrigado por mostrar esse carinho, me sinto melhor agora. Só um pouco. Vamos seguir adiante... Isso realmente soa como algo de jogo, uma pessoa contra uma deusa...”

“Você não está só, não tente carregar tudo sozinho. As suas escolhas são o que podem alterar tudo, mas... eu vou estar aqui com você.”

Eu devia ter imaginado essa conclusão. No exemplo que ela me deu, ela questionou se saber que uma dentre quatro estava errada permitiria que eu acertasse com certeza. Mas de 25% para 33% já é uma mudança. Mas a minha vida não se resume a quatro escolhas. Ao saber que uma escolha dentro de uma infinidade de escolhas é errada, a mudança é tão desprezível que poderia dizer que fui de 1% para 1,1%.

Sinai... na minha vida passada não havia uma pessoa assim. Quem sabe esse seja o fator que me permita virar a porcentagem ao avesso? Bastaria uma vez... se eu, digo, se nós conseguirmos fazer um milagre acontecer, por favor, que seja com aquela pessoa...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.